A Triunidade de Deus (4/4)

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  1. A TRINDADE ONTOLÓGICA

A Trindade ontológica tem a ver com o que Deus é, ou seja, com sua essência ou natureza. Na Trindade ontológica nós estudaremos a questão da subsistência das três pessoas e das relações entre elas.

a. A questão da subsistência tripessoal

A doutrina bíblica da subsistência tripessoal em uma só essência, isto é, numa essência que é numericamente uma, mostra corno a autoconsciência de Deus é independente do uni verso e existe desde sempre.

b. A doutrina da subsistência pessoal provada pelas opera ad intra

“Opera ad intra” são as obras que acontecem dentro do Ser divino. Tecnicamente, elas são chamadas de opera ad intra porque essas obras aconteceram no interior do Ser divino na eternidade. Elas acontecem à parte ele qualquer relação com algo externo à Divindade. Elas são apresentadas pela Divindade em sua unidade. Essas obras ad intra são eternas e imutáveis, além de serem pessoais e essenciais.

Elas não são produto do exercício da vontade de Deus. Deus não desejou ser o que é, mas sempre foi o que é. Todavia, a sua natureza exigiu que ele fizesse o que fez na eternidade. Essa doutrina é produto de um raciocínio lógico, mas pode ser explicada biblicamente.

Essas obras que serão estudadas separadamente não são produto da vontade de Deus. Deus não resolveu ser o que é, nem houve um tempo em que ele não tenha sido o que sempre foi. Portanto, essas obras não têm nada a ver com o decreto de Deus, que tem a sua execução no tempo.

As opera ad intra têm a ver com: (1) a paternidade de Deus, (2) a geração do Filho pelo Pai, e (3) a processão do Espírito do Pai e do Filho. Essas obras não são acidentais em Deus, mas essenciais nele. Elas tratam da subexistência das pessoas no Ser divino.

  1. A TRINDADE ECONÔMICA

A palavra “economia” diz respeito ao modo corno as coisas são feitas pelas pessoas da Trindade. Embora as três pessoas co-essenciais trabalhem como uma unidade, elas possuem um modus operandi que é próprio e exclusivo de cada uma. Todas essas obras têm a ver com a relação que as pessoas possuem com o mundo criado, seja na esfera da criação, providência ou redenção.

O Pai sempre age através do Filho e do Espírito. Dessa forma, o Pai é a fonte de atividade, que opera dentro de si mesmo e por si mesmo. O Filho é o meio pelo qual o Pai trabalha, que opera não por si mesmo, mas faz todas as coisas a mandado do Pai, e o Espírito é o limite de atividade, que opera não de si próprio, mas faz o que é do Pai e do Filho.

  1. A doutrina da trindade econômica provada pelas “opera ad extra”.

As “opera ad extra” são as obras que Deus faz, sendo essas obras externas que não são feitas dentro do seu ser. Elas têm a ver com a criação, a providência e a redenção. Usando uma maneira técnica de falar, essas obras são a opus naturae e a opus gratiae. ou seja, a obra da natureza e a obra da graça. A opus naturae tem a ver com a criação e com a continuata creatio (criação continuada), que é a obra da providência. A opus gratie tem a ver com a obra especial da redenção de pecadores. Todas elas são produto da vontade divina. Elas existem porque o Deus triúno resolveu fazê-las. Elas não são essenciais em Deus, porque ele poderia existir sem elas; contudo, resolveu fazê-las.

Essas obras são comuns às três pessoas da Trindade. Todavia, por uma questão de modus operandi, uma obra pode ser atribuída mais a uma pessoa do que às outras duas.

c.1 .A Obra da Criação

A criação é uma obra da Trindade, mas a primeira pessoa é que parece ter mais preeminência nela. Vejamos de forma sistemática a obra da criação como uma obra trinitária.

a) É dito nas Escrituras que Deus, o Pai, é o criador de todas as coisas (Gn 1.1; SI 33.6-9; Is 54.5). O profeta Malaquias afirma a paternidade e a criação de Deus, perguntando: “Não temos nós todos o mesmo Pai? Não nos criou o mesmo Deus?” (MI 2.10). Deus, o Pai, é o Deus criador. Os livros do Novo Testamento confirmam essa verdade a respeito do Pai. Numa bela oração registrada por Lucas, a igreja de Jerusalém se dirige a Deus, o Pai, dizendo: “Tu, soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra e o mar e tudo o que neles há” (At 4.24). Como sabemos que o texto trata do Pai? Porque nessa mesma oração, a igreja diz: “… porque verdadeiramente nesta cidade se ajuntaram contra o teu santo servo Jesus, ao qual ungiste …” (v. 27). Está clara a distinção entre o Pai e o Filho Jesus Cristo.

b) As Escrituras também afirmam que o Filho é o criador de tudo. Ele é mais do que um agente da criação, mas, como Deus que é, também é criador, pois João diz que “todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Paulo acrescenta que em Cristo “foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). O autor da Epístola aos Hebreus diz que Deus “constituiu o Filho herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o uni verso” (Hb 1 .3).

c) Também se diz nas Escrituras que a vida do uni verso é dada pelo Espírito, quando Gênesis menciona que “o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn 1.2). A terra era sem forma e vazia. Todavia, o Espírito gerava vida no universo criado pela Divindade. Enquanto o Pai trazia as coisas à existência, por meio do Filho (ou a Palavra), o Espírito dava vida às coisas existentes. Um dos amigos de Jó confirma a verdade sobre o Espírito criador, da seguinte forma: “O Espírito de Deus me fez; e o sopro do Todo-poderoso me dá vida” (Jó 33.5).

Portanto, a criação é uma obra da Trindade toda, uma opera ad extra, produto da vontade de Deus, feita primeiramente para a glória da Divindade e, secundariamente, para o deleite das criaturas racionais.

d.2. A Obra da Providência

As obras da providência também pertencem à Trindade, e não somente a uma das pessoas. A criação é uma obra terminada; Deus dela descansou, mas não parou de trabalhar. Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora e eu trabalho também” (Jo 5.17). O Deus triúno continua a sua obra de manutenção da criação. Por essa razão, é comum falar-se em teologia da creatio continuata, ou da providência. Após ser concluída a criação, a obra da providência começou, pois tudo o que é criado tem que ser mantido. Não há nada independente, exceto o próprio Criador. Ele se basta, mas a criação não. Portanto, ela tem que ser preservada e governada, e essas funções não são exclusivas de uma só pessoa da Trindade.

A libertação da escravidão do Egito e a condução do povo até Canaã são uma amostra da participação das três pessoas em uma obra providencial de Deus. embora a segunda pessoa ainda não houvesse encarnado na história humana. Se examinado atentamente, o texto de Isaías 43.7-14 mostra as três pessoas agindo providencialmente: é feita uma menção ao nome Javé, pois os filhos de Israel são chamados pelo “meu nome”. Esse nome é o nome santíssimo que qualifica os filhos de Israel, que Deus havia criado e formado (v. 7). No verso 10, há menção do “Servo”, que é também chamado de “Senhor”. Certamente, refere-se ao Anjo da Aliança, que é distinto da primeira pessoa. Esse servo também é chamado de “escolhido” (o que combina com 1 Pe 2.6). A palavra “salvador” do v. 11 é mais regularmente atribuída nas Escrituras ao Filho encarnado. O Espírito Santo aparece de modo indireto, quando se diz que Deus age e ninguém pode impedi-lo em sua obra salvífica (v. 13). O curioso é que, quando se trata de Javé. do Servo ou do Espírito, sempre está afirmada a ideia muito comum em Isaías: “Não há outro Deus além de mim”. O “mim” refere-se ao Deus triúno e não simplesmente à pessoa do Pai.

Há alguns textos que nos ajudam a ver distintamente a obra da Trindade na preservação do seu povo e do universo.

d.2.1. A Obra da Providência Pertence ao Pai

Embora seja uma tarefa da Trindade, a criação do universo é mais atribuída ao Pai. O mesmo pode e deve ser dito em relação às obras providenciais.

d.2.2.  A Obra da Providência Pertence ao Filho

Jesus Cristo é mencionado nas Escrituras como aquele que “sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3).

d.2.3.  A Obra da Providência Pertence ao Espírito

Tratando da majestade criadora e governadora de Deus. o profeta Isaías afirma a participação do Espírito de Deus, fazendo as seguintes perguntas:

Is 40.13, 14 – “Quem guiou o Espírito do Senhor? Ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho do entendimento?”

Todos os propósitos sábios que governam o mundo são atribuídos também ao Espírito de Deus. As opera ad extra são indivisíveis, pertencendo às três pessoas da Trindade.

d.3. A Obra da Redenção

Todas as três pessoas da Trindade estão envolvidas nas obras da graça, que se evidenciam no preparo das Escrituras para o anúncio da redenção em todas as épocas, bem como na economia da salvação e na ressurreição de Jesus Cristo, que tem a ver com a consumação da sua obra redentora.

As três pessoas da Trindade participam ativamente da salvação do pecador, exercendo três funções distintas. O texto de 1Pe 1.2 mostra o planejamento da salvação em termos da eleição em amor de Deus, o Pai; mostra a execução da salvação em termos da “aspersão do sangue” pelo Deus-encarnado, o Filho; e mostra a salvação em processo na vida do crente como a “santificação do Espírito  Santo”.

Essa mesma ideia aparece no texto de 2Ts 2.13, 14. O texto diz que nós, os amados de Deus, somos escolhidos desde o princípio para a salvação. Diz ainda que somos eleitos para a “santificação do Espírito” e para “alcançar a glória de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Nenhum aspecto da salvação do pecador deve ser atribuído exclusivamente a uma pessoa da Trindade, como se as outras não tivessem nada a ver com ela. O texto de Efésios 1.1-14 mostra as mesmas ideias: Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, nos escolhendo (vv. 4, 5); fala do “Amado” de Deus, “no qual temos a redenção pelo seu sangue” (vv. 6, 7), e fala da obra do Espírito Santo que assegura a nossa redenção, sendo o selo e garantia de nossa salvação (vv. 13, 14).

Portanto, a administração da salvação do pecador é obra das três pessoas divinas, embora haja distinção naquilo que cada uma delas faz.

A doutrina da Trindade não é uma doutrina especulativa. Quando analisamos a redenção do pecador, é fácil perceber como as três pessoas estão ativas, tomando uma realidade a misteriosa e maravilhosa restauração do pecador! Este percebe, na sua miséria, que houve a necessidade de uma pessoa divina que resolveu salvá-lo, elegendo-o para a vida; também percebe que o Deus ofendido providenciou uma outra pessoa divina para satisfazer as suas exigências por causa das ofensas do pecador; percebe ainda que há a necessidade de uma ter­ceira pessoa divina para santificar pessoalmente a sua vida, a fim de que possa desfrutar da redenção planejada pelo Pai e assegurada pelo Filho. Esta é a obra graciosa da Trindade que todo o pecador remido reconhece, após ser instruído nesse ensino pelas Santas Escrituras.

A Trindade toda está envolvida em todas as obras relativas à nossa criação, preservação e redenção. As observações das Escrituras e a experiência dos santos de Deus têm mostrado que as obras da Trindade são uma realidade incontestável!

 

A Triunidade de Deus (1/4)

A Triunidade de Deus (2/4)

A Triunidade de Deus (3/4)

 

Autor: Heber Carlos de Campos

Trecho extraído do livro O Ser de Deus e Seus Atributos, pág 130-143. Editora: Cultura Cristã.

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.