A Triunidade de Deus (3/4)

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 d. Fundamento teológico da doutrina da Trindade

  1. Significado de essência e pessoa

Este é um dos aspectos mais difíceis de serem explicados na teologia cristã. Ele ultrapassa toda a lógica e raciocínio, pois trata do ser mais interior de Deus, que não pode ser compreendido, embora possa ser conhecido segundo ele se revela. Poucas coisas Deus deu a conhecer acerca da Trindade. Como já vimos, as Escrituras afirmam a existência das três pessoas, mas não nos dá nenhuma indicação que nos ajude a entender a verdadeira natureza das mesmas, nem exatamente como se relacionam.

  1. O significado de essência

A palavra grega ousia (essência, substância), que foi usada nos credos primitivos da igreja para designar o ser divino, passou a ser entendida, na história da teologia, como sinônimo de physis (natureza). Todavia, esse uso foi objeto de crítica por ser derivado de phynai, que dá a ideia do ser que vem à existência, assim como a palavra “natura” é derivada de “nasci”.

Mesmo a despeito da crítica acima, foi esse o significado que prevaleceu historicamente. A palavra “natureza”, portanto, tem sido a mais comum e constante para indicar a essência divina. Ela fala daquilo que Deus é, mas nada diz a respeito do seu caráter tripessoal. Isso tem a ver com uma outra palavra técnica usada pelos teólogos: subsistência. A palavra “natureza” diz respeito ao que é comum nas três pessoas da Trindade, e não à particularidade de cada uma delas. Há uma só essência (ou natureza) em Deus, que é compartilhada pelas três pessoas.

Em 2Pe 1.4, as Escrituras usam a palavra physis para falar de algo que Deus é. Por essa razão, na teologia a palavra técnica ousia é tomada como sinônima de physis. Pedro diz que todos nós “somos co-participantes da natureza divina”. Em que sentido podemos entender essa afirmação de Pedro? Bavinck diz que existe alguma analogia entre a natureza divina e a humana. Há em nós reflexos do que Deus é, especialmente naqueles de nós que somos remidos por Cristo, porque a sua imagem está sendo gerada em nós. Há uma semelhança não de essência, mas de comportamento, que espelha o Criador. Consequentemente, por causa da imagem de Deus que está sendo restaurada em nós, temos uma noção clara de quem ele é, e podemos falar da sua natureza.

Todavia, quando falamos da natureza humana e da divina, temos que fazer as distinções devidas. Nós dois, o escritor e o leitor deste estudo, somos da mesma natureza – a humana. Essa natureza está presente em nós dois, e em cada membro da raça. Cada um de nós compartilha dessa natureza, mas de modo diferente que em Deus – as pessoas da Trindade compartilham da natureza divina. A natureza humana está presente em cada um de nós, porém de modo finito. Somos participantes da mesma natureza (physis), mas não somos numericamente um indivíduo. Ao contrário, somos indivíduos distintos e separados. Todavia, isto não pode ser dito do Ser divino.

Cada uma das pessoas da Trindade compartilha da mesma natureza, a divina. Contudo, essa natureza não somente está presente em cada uma delas, mas em cada uma delas ela é numericamente uma e a mesma. Portanto, as pessoas da Trindade são distintas, mas não separadas. Essa natureza divina está presente na sua totalidade em cada uma das pessoas, e em todas coletivamente.

Por essa razão, não obstante haver três pessoas que subsistem distintamente no ser divino, há uma só vontade, uma só mente e um só poder. A natureza de Deus aponta para a sua unidade, que é muito enfatizada pelas Escrituras.

Em nós, seres humanos, há uma natureza da qual todos compartilhamos. Somos também pessoas distintas, mas a grande diferença é que não somos numericamente um. Somos indivíduos distintos. Todavia, não é assim com Deus. Ele subsiste em três pessoas distintas, mas não separadas. Ele é numericamente um. Essa é a grande e infinita diferença que existe na maneira como todos os seres humanos partilham da mesma natureza e no modo como as pessoas da Trindade partilham da mesma natureza divina: é a unidade do ser divino, que não existe em nós.

  1. O significado de pessoa

Enquanto o termo essência (ou natureza) aponta para a unidade de Deus, o termo pessoa (ou subsistência) aponta para as distinções que existem no Ser divino.

O maravilhoso mistério que existe no ser divino é que a sua unidade não exclui a sua distinção ou diversidade A sua natureza permite que Deus exista tripessoalmente, sem que isso afete a sua unidade, embora não possamos explicar esse fenômeno, pelo fato de ele ultrapassar o nosso entendimento.

A palavra grega usada para expressar “pessoa” na igreja oriental foi prósopon. Mas o seu sentido era ambíguo. Sabélio a interpretou como que significando “manifestações”, dando origem ao sabelianismo, que tratou dos “modos ele manifestação” de Deus e não das pessoas do Ser divino. Usou-se também a palavra grega hypóstasis (que significa fundamento, subestrutura. firmeza. aquilo que existe na realidade), mas a palavra prósopon prevaleceu. Na igreja ocidental, usou-se a palavra latina persona (que significa máscara, o papel que um ator representa – daí a palavra “personagem”). Em teologia, a palavra persona veio a significar a “condição, qualidade, capacidade na qual a pessoa funciona”. No Ocidente prevaleceu a palavra persona (que foi a tradução de prósopon) ao invés de hypóstasis, porque não havia em latim uma palavra que fosse uma tradução adequada desta última. Afinal as palavras hypóstasis e prósopon vieram a significar a mesma coisa.

Bavinck diz que até o tempo de Atanásio e dos três capadócios, “na linguagem da igreja o sentido de autoexistência, hypóstasis, subsistência, individualidade subsistente e suppositum tornou-se a característica essencial do termo prósopon ou pessoa”. Posteriormente, depois das controvérsias cristológicas, a palavra persona veio a adquirir uma conotação ainda mais específica. Uma pessoa era aquela que possui uma substância individual de natureza racional. Portanto, de acordo com essa ideia, uma pessoa é quem possui autoexistência e racionalidade ou autoconsciência. Se essa definição é correta na sua totalidade, os seres humanos não podem ser considerados como pessoas, porque eles não possuem autoexistência, apenas autoconsciência, que os difere dos animais. “Na doutrina da trindade, a palavra ‘pessoa’ simplesmente expressa a verdade de que as três pessoas da Deidade não são simples modos de manifestação, mas possuem uma existência real e distinta.” A preocupação das definições dos pais não era explicar o inexplicável, mas negar a doutrina unitária dos sabelianos. Na verdade, a grande dificuldade está na explicação da subsistência tripessoal na unidade do Ser divino. Essa é a grande e insolúvel questão!

A única coisa que podemos dizer é que Deus possui mais do que um modo triplo de existência. São realmente três pessoas distintas que coexistem ou subsistem no Ser que é numericamente um. Não são três indivíduos separados, mas um só indivíduo subsistindo em três personalidades distintas, sem serem separadas. Todas as três constituem o Deus único, vivo e verdadeiro. O Ser divino, por causa da sua infinidade, eternidade, poder, etc., exige ser da forma que é, tripessoal, sem que nos seja possível penetrar os mistérios da natureza interior de Deus.

Atanásio e os três pais capadócios definiram as hypóstasis como ‘modos de subsistência’, e com isso eles quiseram dizer que, embora as pessoas sejam um só ser ou essência, elas diferem na maneira de “existência”.

 

A Triunidade de Deus (1/4)

A Triunidade de Deus (2/4)

A Triunidade de Deus (4/4)

 

Autor: Heber Carlos de Campos

Trecho extraído do livro O Ser de Deus e Seus Atributos, pág 127-130. Editora: Cultura Cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.