O Endurecimento dos Eleitos

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Ó, Senhor, por que endureces o nosso coração para que que te não temamos? (Is 63.17)

Que existe o endurecimento do coração, que culmina em pecado contra o Espírito Santo, não se pode negar. Quando estivermos lidando com coisas espirituais devemos levar esse fato em conta, pois é um dos instrumentos mais temíveis da ira divina. Dizer que Satanás ou Davi ou o Senhor tentou o rei acaba sendo a mesma coisa. A causa é sempre o pecado do homem, e, em cada um desses três casos, a fatalidade destrutiva pela qual o pecado envenena e destrói a alma não pode ser separada do governo de Deus.

Entretanto, ao estudar esse assunto, nós devemos nos lembrar, para o nosso próprio consolo, de que o endurecimento não é essencial e invariavelmente absoluto e irreparável. Nós devemos distinguir entre o endurecimento temporário e um endurecimento permanente. O último é absoluto, mas o primeiro passa e se dissolve na fé salvadora.

Ao clamar “ó, SENHOR… Por que endureces o nosso coração?”, Isaías representa as pessoas que estão, agora, na glória, diante do trono. Além do mais, a questão em si, a tristeza expressa e o anseio por Deus do qual se fala são suficientes para nos assegurar que Isaías não era um Faraó. O fato de que Israel é exortado, “não endureçais o coração, como em Meribá” (SI 95.8), prova que o endurecimento mencionado não tinha sido para sempre. O endurecimento que, segundo o apóstolo Paulo, tinha vindo em parte sobre Israel não foi absoluto, como fica claro nas palavras “em parte” (Rm 11.25).

O endurecimento temporário e o permanente não devem ser confundidos. Isso levaria o pecador culpado ao desespero espiritual e levantaria o pensamento de Caim em seu coração – uma ira que exige o cuidado mais zeloso e atento. Satanás, o inimigo das almas, entende totalmente todas as fraquezas do coração humano. Sobre esse assunto ele sabe mais do que o mais bem informado dentre os homens. Ele sabe se deve atacar um homem de frente ou por trás, arruiná-lo com ameaças ou lisonjas, amedrontá-lo com desespero ou enganá-­lo com perspectivas de paz. Por essa razão é que ele se deleita repetidas vezes em fazer o homem menosprezar o perigo mortal de sua alma ou crer que está irremediavelmente perdido e além do poder da redenção.

Quantas almas Satanás não têm aterrorizado com o pecado contra o Espírito Santo, almas que nunca pensariam em fazer tal coisa, que, ao contrário, têm consideração tema pela honra do Espírito Santo na esperança da sua salvação, mas que, mesmo assim, ele enredou na crença terrível de estarem totalmente perdidas e lançadas fora, de terem cometido o pecado imperdoável! E claro que, se tais almas tivessem vivido próximas da Palavra, perscrutado-a mais zelosamente, e se prendido mais intimamente direção da interpretação da igreja com respeito a esse mistério obscuro, elas nunca teriam caído nessa armadilha. Mas, da forma como aconteceu, Satanás cochichou em seus ouvidos e, quase afogando a vida espiritual delas, algumas vezes durante anos, manteve-as definhando em medo mortal de estarem perdidas para sempre. A noite espiritual foi tão escura que parecia que nenhum raio de luz algum dia conseguiria atravessá-la.

O mesmo ocorre com o endurecimento. Até mesmo com essa operação terrível Satanás faz seu jogo horrendo com os filhos de Deus, roubando­-lhes a paz espiritual. Naturalmente, isso nunca ocorre de forma totalmente isenta de culpa da parte deles. Todas as aflições espirituais dos crentes são necessariamente resultado de sua transgressão, independentemente de serem essas transgressões públicas ou particulares. Mas quem semeia a semente maligna no campo fertilizado pelo pecado não é outro senão o tentador das almas, que, furtivamente, põe-se ao seu lado e sugere que seu estado lastimável era pior do que se ele tivesse sido simplesmente abandonado que existem sinais de endurecimento que certamente aumentarão, e, por isso, a flor da esperança murchou e toda expectativa acabou.

E para enfrentar esse perigo, a alma deve estar preparada para entender clara e definidamente a distinção entre o endurecimento temporário e o permanente. O primeiro vem a todos os filhos de Deus. Não existe ninguém, entre os que chegam até certa idade, que não se lembre de ter alguma vez sentido que o amor de Deus o compeliu a se afastar de algum pecado ou descrença, mas isso parecia somente incitá-lo ainda mais a resistir a esse amor, a fechar seus ouvidos a ele e, com maior energia, abraçar o mal. Essa resistência não tinha a intenção de persistir no pecado, mas simplesmente de ganhar tempo para poder gozar os deleites pecaminosos um pouco mais, enquanto o amor divino era resistido. Nós dizíamos: “Espere só mais um pouco e depois eu paro com essa resistência”. Na realidade, enquanto nós assim brincamos com o amor de Deus, acreditamos que ele é forte o suficiente para suportar essa pequena oposição. Isso pode resultar num endurecimento temporário, que, algumas vezes, é muito sério e consiste no fato de que alguns crentes que pretendiam romper com a prática do pecado descobrem, com grande aflição, que devido à sua tolerância temporária, o poder de resistir ao pecado também se foi.

Esta é ajusta recompensa de Deus. O amor ao qual esse crente desobediente resistiu por amor ao pecado foi insultado e se recusa a ser objeto de brincadeira. Embora ele não esperasse, por causa de sua resistência obstinada a esse primeiro amor, o poder do pecado foi fortalecido, a sensibilidade terna da alma foi cegada e o coração se tornou cheio de calos. O que inicialmente era um mero arranhão na pele se tornou um furúnculo virulento. Um poder maligno se desenvolveu imperceptível e inesperadamente. O crente luta contra esse poder, mas em vão. Depois de sucessivas quedas, ele para de lutar e, gradativamente, cai num estado de endurecimento tão lamentável que não consegue descobrir em seu coração o mínimo traço do amor divino.

Entretanto, esse endurecimento é apenas parcial, pois ele tem relação apenas com uma questão em especial, e essa é a diferença entre o endurecimento parcial e o permanente. À parte dessa questão, ele ainda queima de amor e zelo por seu Deus, e pode ainda abrir seu coração para a operação dos poderes graciosos da vida eterna e até mesmo ter comunhão abençoada com o Senhor. Mas tudo isso, vagarosamente, desaparece. O abscesso virulento gradativamente passa o calor da febre de uma parte para outra. O sangue nas veias da alma é mantido nas veias em tensão irrequieta e, a esse endurecimento parcial, é acrescentado um senso de abandono geral que leva a sua comunhão a se tornar mais e mais rara e menos aliviadora. Pode haver uma gota de óleo ocasional, mas nunca uma unção completa, nova. Como resultado, ele se sente pobre, seco, e morto, anda por toda parte com a sentença de condenação em sua consciência, mas, no meio de sua angústia, sua alma geme por Deus.

O Senhor ouve esse gemido. Pode não haver uma oração, e o Espírito Santo pode ter se afastado demais para capacitar sua alma a se derramar em súplicas; contudo, enquanto houver uma torcida que fumega e uma cana quebrada que, em vão, tenta se levantar, enquanto houver um sentimento de humilhação e um gemido interior a Deus por livramento, o Senhor inclina seu ouvido, cheio de compaixão, e se aproxima a hora em que o Sol da Justiça dispersará as nuvens e derreterá o coração endurecido. O primeiro amor, repelido, agora retorna com poder irresistível para alegrar sua alma. A crosta de gelo começa a se derreter. Uma emoção bendita, desconhecida por anos, se faz sentir. O olho seco começa a se turvar, e o joelho inflexível e o pescoço rígido começam a se dobrar em oração. A misericórdia e longanimidade de Deus levam novo óleo a correr e, com uma auto-humilhação até então desconhecida, a alma acredita e louva e adora uma vez mais a graça do Senhor Jesus Cristo e as abundantes misericórdias de seu Deus.

Embora esse seja um endurecimento real, contudo é como aquele que cai sobre os rios e campos no inverno, quando as folhas amarelas caem das árvores os raios de sol se enfraquecem e as águas congelam. Mas esse inverno não dura para sempre. A primavera logo vem. Quando o capim fica verde outra vez e os pássaros cantam nas árvores, parece que, após o sono do inverno a natureza é vivificada com uma vida ainda mais abundante e gloriosa. Assim é o endurecimento temporário dos eleitos de Deus: um inverno seguido pela primavera, até o alvorecer da manhã eterna nos reinos da luz permanente.

Porém, o endurecimento permanente e eterno não é assim. Ele nos leva a pensar no mundo de neve e gelo eternos das regiões polares, que se congela para nunca mais derreter, e onde a natureza é coberta com uma sombria mortalha para ser retirada somente quando o Senhor vier sobre as nuvens e todo o mundo tiver se derretido com fervente calor.

É verdade que, mesmo no meio de neve e do gelo eternos, um único raio de sol pode, por algum tempo, traspassar as trevas, os pingentes de gelo podem cair e os campos gelados, se separar, mas o coração desse mundo gelado permanece intacto e suas fundações eternas, irremovíveis. Um bloco de gelo pode se separar do resto, mas continua sendo um bloco de gelo. Ele não pode se derreter; eternamente endurecido, mesmo na natureza!

Esse mundo de gelo é uma imagem terrível dos Seoms e Faraós e de todos os que são endurecidos permanentemente e entregues ao julgamento de Deus. O Amor de Deus foi ofendido para sempre e toda expressão de vida somente acrescenta mais calosidade ao coração, até que todo sentimento, concepção, e sensibilidade com referência às coisas espirituais tenham totalmente desaparecido. E, se ainda houver ficado qualquer vida e crescimento, eles são a vida e o crescimento do mofo que envenena, dos parasitas que destroem. O endurecimento é tão amedrontador que a pessoa em si fica totalmente insensível a ele. Em seu endurecimento temporário, o filho de Deus, por fim, derramará lágrimas, mas o outro prossegue com estrepitosa gargalhada até encontrar sua ruína final.

O Senhor Deus tenha misericórdia de nós! O julgamento divino do endurecimento é uma coisa horrenda!

 

 

Autor: Abraham Kuyper

Trecho extraído do livro A obra do Espírito Santo, pág 596-598. Editora: Cultura Cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.