O Ministério dos Anjos

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Por que e para que Deus usa o ministério de anjos? Designa-se um anjo em particular como guardião perpétuo para cada crente? Isso negamos.

Ninguém pode pôr em dúvida que Deus usa o ministério de anjos, visto que estes são chamados “espíritos ministradores” (pneumata leitourgika, Hb 1.14), “ministros de Deus” (Sl 104.4), que se encontram continuamente diante dele e lhe ministram (Dn 7.10) e fazem sua vontade (Sl 103.21). Todavia se pode inquirir por que ele quis usar sua ajuda.

1. Porque Deus usa o ministério dos anjos

2. E possível apresentar uma razão múltipla: não por necessidade e indigência, como se Deus dependesse deles, (pois ele é o único suficiente em si mesmo e, assim como criou todas as coisas unicamente por sua palavra, unicamente por ela também poderia governar todas as coisas), mas por indulgência e amor. (1) Para o bem dos próprios anjos, os quais Deus considerou dignos de tal honra, desejando que fossem cooperadores (synergous) com ele no governo do mundo. (2) Para a consolação dos crentes, que daí conhecem o quanto Deus se preocupa com eles, visto que se propõe usar o ministério de criaturas muito mais excelentes que eles, no tocante à natureza, para a promoção de sua salvação (não apenas corporal, mas também espiritual). (3) Para a promoção de mais estreita amizade entre anjos e homens, pois é evidente que há acesso e aumento de amizades pela concessão de bondade e ofícios mútuos. (4) Para a boa ordem (eutaxian) do universo, para que assim todas as criaturas (superiores e inferiores, visíveis e invisíveis) se correspondam, e juntas se entrelacem por certos vínculos seguros de ofícios, para que se estabeleça mais solidamente a harmonia do mundo. (5) Especialmente para a glória de Deus, que é o fim último e principal de todas as suas obras; glória que resplandece mais excelentemente a partir do ministério dessas criaturas nobres.

Com respeito a Deus, louvá-lo e obedecer-lhe

3. Ora, na Escritura se lhes designa um ofício múltiplo: (1) com respeito a Deus; 2) entre eles mesmos; (3) com respeito ao mundo; (4) com respeito aos homens. Primeiro, com respeito a Deus, visto que perpetuamente se ocupam da celebração e adoração dedicadas a ele. A isso pertence o tríplice santo dos serafins (Is 6.3) reiterado em Apocalipse 4.8; 7.11,12, bem como o cântico que entoaram em uníssono quando do nascimento de Cristo: “Glória a Deus nas maiores alturas, paz na terra e boa vontade para com os homens” (Lc 2.13, 14) – a cujo dever são também convidados nos Salmos 97.7; 103.20; 148.2. Com referência a esse fato, Gregório de Nazianzo os denomina “cantores da divina majestade” (hymriõdous (ês theias megaleiotêtos, Oratio 28.31 [PG 36.72]) e Teodoreto afirma que “o serviço dos anjos é cantar hinos” (hê angelõn leitourgia estin hynmõdia, Serm. 3, de Angelis). (2) Em santa obediência, imediata e plena, rendida por eles (SI 103.20). Daí lermos que “permanecem diante dele” como assistentes e ministros; “contemplam sua face” para receber e executar seus mandamentos; “milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades estavam diante dele” (Dn 7.10). “Vi o Senhor assentado em seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua direita e à sua esquerda” (1 Rs 22.19). Aqui é pertinente falar sobre “as asas” que lhes são atribuídas em Isaías 6.2, pois, visto que pelas duas com que “cobriam o rosto” se indica sua suprema reverência para com Deus (sendo incapazes de suportar o esplendor de tão imensa majestade) e pelas duas com que “cobriam seus pés” se denota o “desejo” de imaculada santidade (ocultando aquelas partes que a modéstia requer que se cubram nos homens e que designam sua fragilidade em relação a Deus, Jó 4.18), assim as duas com que voavam figuram a vivacidade e o zelo na execução das ordens divinas. Aqui há uma referência ao ministério exibido por eles a Cristo como seu cabeça e Senhor, seja em adorá-lo (no qual estão engajados desde o princípio em concordância com o mandamento divino: “Que todos os anjos o adorem” [Hb 1.6] e que diariamente realizam [Ap 5.11, 12]) e no real e concreto ministério prestado a ele em sua concepção (Lc 1.26-38); em seu nascimento (Lc 2.9-15); em sua tentação (Mt 4.11); em sua agonia (Lc 22.43); em sua ressurreição (Mt 28.2-7); e em sua ascensão (At 1.10, 11); e que prestarão no último dia quando o acompanharem em sua vinda: “ele se manifestará do céu com seus anjos poderosos” (2Ts 1.7).

Com respeito a si mesmos

4. Com respeito a si mesmos, porque, visto que formam uma sociedade celestial bem ordenada, indubitavelmente executam vários deveres mútuos, por uma mútua comunicação de coisas a ser conhecidas e feitas (embora não possamos dizer qual e de que natureza é o modo dessa comunicação). Daí lermos: “clamavam uns aos outros” (Is 6.3) como se instigassem uns aos outros à celebração do louvor divino. Em outras partes são apresentados falando uns aos outros (em Zacarias e em Apocalipse).

5. À luz de Daniel 10.13, não se pode deduzir um conflito e discordância entre os anjos bons, pois “o príncipe do reino da Pérsia” (que queria afastar o anjo Gabriel e envidar todos os esforços com o fim de reter os judeus perpetuamente sob os persas) não era um anjo bom posto por Deus sobre o reino da Pérsia, porquanto nada podia tentar sem a ordem divina (que queria livrá-los do cativeiro). Antes, essa é mais bem uma referência a Cambises, filho de Ciro, que (enquanto seu pai cruzava o mar) passou a lutar na Ásia contra os citas, era hostil à restauração dos judeus e emitiu um edito cruel para impedi-los de continuar a construção do templo. Daí ser necessário que o anjo Gabriel se delongasse ali por algum tempo a fim de restringir a fúria de Cambises (ou seja, para que ele não intensificasse sua fúria contra o povo de Deus). O versículo 20 confirma isso. O mesmo anjo diz: “Eu tomarei a pelejar contra o príncipe dos persas; e, saindo eu, eis que virá o príncipe da Grécia”. Indubitavelmente, isso notifica que ele iria ainda lutar em concordância com o plano de Deus em restringir a crueldade do rei da Pérsia contra o povo de Deus, até que o príncipe de Java (i.e., dos gregos – Alexandre o Grande) viesse, o qual haveria de subjugar o reino persa.

6. Com respeito ao mundo

7. Terceiro, o ofício dos anjos com respeito ao mundo não consiste em mover eles sobre os orbes celestiais (como pensava Aristóteles), mas em defender e conservar as coisas criadas e sua ordem (ministrar a providência divina). Cabe aqui falar sobre “os anjos descendo e subindo” (ver sobre a escada de Jacó) c sobre quando é dito a Deus: “Fazes a teus anjos ventos e a teus ministros labaredas de fogo” (Sl 104.4). Em virtude disso Atenágoras diz: “Afirmamos que há uma multidão de anjos e ministros, aos quais Deus, o criador e dêmiourgos do mundo, distribuiu por sua palavra e pôs sobre os elementos, e a terra, e o céu, e tudo quanto neles existe, e a boa ordem destes” (ptêthos angelõn kai leitourgõn phamen ous ho poiêtês kai dêmiourgos kosmou theos, dia tou par’ aitou logou dieneime, kai dietaxe peri ta te stoicheia einai, kai tous ouranous, kai ton kosmon, kai ta en autõ, kai tên toutõn eutaxian, Embassy for the Christians 10 [ACW 23:41; PG 6.909]). Por isso Apocalipse 14.18 fala sobre os anjos que tinham “poder sobre o fogo” e sobre “o anjo das águas” (Ap 16.5). Sim, Deus amiúde os usa para a proteção dos reinos e impérios (como transparece de Dn 10 e 11).

8. Com respeito aos homens

9. Quarto, com respeito aos homens, (sejam os bons ou maus). Quanto aos ímpios, deveras, ao infligir os juízos divinos (como é evidente no caso dos sodomitas [Gn 19.11], dos egípcios [Êx 12.29], do exército de Senaqueribe [2Rs 19.35; Is 37.36], de Nabucodonosor [Dn 4.13,14,23,31], de Herodes [At 12.23] e dos réprobos que no último dia sofrerão castigo eterno [Mt 13.41,42]).

10. Quanto aos eleitos e crentes – quer ao discipliná-los (exemplificado em Davi e seu povo, 2Sm 24.16), quer ao dispensar as bênçãos divinas para a promoção de sua salvação (Hb 1.14). Pois bem, eles beneficiam os piedosos de três formas: (1) pelo ensino; (2) pela consolação; (3) por sua guarda. Primeiro, pelo ensino, quando Deus os usa para conscientizar os crentes do seu dever ou das coisas futuras (que foi o objetivo das várias aparições angélicas [angelopha-neiai] no Antigo Testamento, Gn 16; 18; 19; 28; 32; Dn 6; 9; 10; 11; Zc 1; 2; Ez 1). No Novo, eles exercem o ofício de evangelistas, anunciando o nascimento de Cristo (Lc 1.11; 2.10) e preanunciando sua ressurreição (Mt 28.2-7) e ascensão (At 1.10,11). No livro de Apocalipse de João, ministram advertências quanto às coisas futuras. Segundo, consolando-os, bem como indicando-lhes os perigos iminentes. Exemplos óbvios ocorrem com Agar (Gn 16.7-12), Jacó (Gn 32.1), Daniel (Dn 10.10-21), Elias (1 Rs 19.5-7), Maria (Lc 1.26-38), e os apóstolos (Mt 28.7,8). Terceiro, guardando-os, porquanto acampam-se ao redor daqueles que temem o Senhor (Sl 34.7; Gn 32.1,2); protegendo-os (Sl 91.11), lutando por eles (Dn 10.13), guardando as crianças (Mt 18.10); livrando os crentes das mãos de inimigos e da prisão, morte e perigo iminente (como é evidente em Ló [Gn 19.15-17], Eliseu [2Rs 6.17], os habitantes de Jerusalém [2Rs 19.35], os três colegas de Daniel [Dn 3.25,28], o próprio Daniel (Dn 6.22], os apóstolos [At 5.19] e Pedro [At 12.7]). Aqui também é pertinente o ministério exercido em prol dos crentes na morte – levando a alma deles para o seio de Cristo (como levaram a alma de Lázaro para o seio de Abraão, Lc 16.22), e o que será exibido por eles no fim do mundo, quando congregarem os crentes para que sejam glorificados por Cristo.

 

 

Autor: François Turretini

Trecho extraído do Compêndio de Teologia e Apologética do autor, volume 1, pág 697-700. Editora: Cultura Cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.