Pensamentos Sobre a Restauração de Pastores Caídos (Parte 2)

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O que a Restauração de Pedro pode nos ensinar sobre a restauração de pastores desqualificados?

Que fique claro aqui que não estamos discutindo sobre conflitos relacionais ou uma “queda” ministerial. Alguns falam desta maneira sobre a negação de Pedro a Cristo e a subsequente reunião com o Senhor, mas isso não faz justiça ao terrível pecado que Pedro cometeu. Por outro lado, temos alguns exemplos em Atos e em algumas cartas de Paulo referentes a debates intramuros e conflitos relacionais que provocam a separação de caminhos entre ministros do evangelho, mas Paulo não se refere a esses homens como sendo desqualificados do ministério (Ele fala assim sobre aqueles ministros que abraçaram a heresia, ou de outra forma “se afastaram” da fé, obviamente.). Portanto, devemos colocar a negação de Pedro a Jesus na categoria certa.

Jesus advertiu: “Mas aquele que me negar diante das pessoas, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10:33). Isso torna a negação pública de Jesus (por qualquer crente) uma negação de impacto eterno. Pedro foi alertado por Jesus que faria isso, mas deu a palavra que não faria (Mateus 26:35); assim, temos agora uma confiança traída sobre uma testemunha traída. Podemos concordar que qualquer ministro que negue conhecer a Jesus em alguma situação entrou no território de desqualificação? Com isso em mente, revisemos a cena de restauração encontrada em João 21:15-19:

Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, você me ama mais do que estes outros me amam? Ele respondeu: Sim, o Senhor sabe que eu o amo. Jesus lhe disse: Apascente os meus cordeiros. Jesus perguntou pela segunda vez: Simão, filho de João, você me ama? Ele respondeu: Sim, o Senhor sabe que eu o amo. Jesus lhe disse: Pastoreie as minhas ovelhas. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, você me ama? Pedro ficou triste por Jesus ter perguntado pela terceira vez: “Você me ama?” E respondeu: O Senhor sabe todas as coisas; sabe que eu o amo.

 Jesus lhe disse: Apascente as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade lhe digo que, quando era mais moço, você se cingia e andava por onde queria. Mas, quando você for velho, estenderá as mãos, e outro o cingirá e o levará para onde você não quer ir. Jesus disse isso para significar com que tipo de morte Pedro havia de glorificar a Deus. Depois de falar assim, Jesus acrescentou: Siga-me. (vv.17-19).

Essa cena é instrutiva de qualquer forma para a consideração da restauração pastoral? Embora não seja uma passagem didática, mas uma narrativa, receio que sim.

Primeiro, o ponto maior é que a restauração para os pecadores é possível. Glória! Isto é simplesmente, para todos os crentes, uma imagem maravilhosa do evangelho. Por que Jesus repetiu a pergunta três vezes? Não há significado ou diferença linguística nos “amores” (agape, phileo), pois parece ser uma propensão literária de João, mas Jesus está se ecoando e, assim, abrange a negação tripla de Pedro. E a essência? Pecar na graça de Deus é grave. No que diz respeito ao pecado, o evangelho vai ainda mais longe.

Segundo, parece-me óbvio que a restauração em vista não é simplesmente para a comunidade, mas também para a liderança. Alguns defensores da desqualificação permanente perdem a importância do que está ocorrendo neste lindo momento. A interjeição entre cada pergunta e resposta – “alimente/cuide das minhas ovelhas” – parece indicar que Pedro não está simplesmente sendo restaurado para “estar bem” com Jesus, mas também para o exercício ministerial. Certamente ele não foi demitido ou exonerado do seu apostolado, mas continuou a pregar e a escrever de forma autoritativa. Isso foi depois de Pedro ter negado Jesus publicamente.

Terceiro, além desses dois fatos primários, a restauração é graciosamente total e a requalificação para o ministério é possível. O que mais deduzirmos sobre a restauração nessa passagem deve ser uma inferência. Por exemplo, alguns argumentam, a partir da cena de restauração de Pedro, que a restauração para o ministério pode ou deveria ser “imediata”. Vamos analisar essa questão.

Em quanto tempo pastores caídos podem ser restaurados?

Se sim, quando? Alguns dizem, citando a restauração de Pedro, imediatamente. Eu acredito que não.

Para entender a restauração de Pedro, a simples abordagem “Jesus e eu” para a qualificação pastoral é um erro na eclesiologia robusta incorporada em João 21 e destacada ao longo das Escrituras, no Novo Testamento. Há dois elementos importantes em João 21 que são, pelo menos, pré-requisitos necessários para a restauração de pastores caídos: (1) tristeza divina (21:7) e (2) o julgamento da congregação como representante de Cristo na Terra (Mateus 16:19).

Sinceramente, Jesus não está aqui pessoalmente para nos dizer: “Sim, este homem está pronto”. Então, o que temos? Nós temos a sua palavra (a Bíblia), e nós temos o seu corpo (a igreja). A resposta à pergunta: “Em quanto tempo um restaurador pode restaurar?”, não pode ser respondida definitivamente em termos de prazo. Pode levar mais tempo do que outros. Alguns podem não ser restaurados. O objetivo é: não é o mesmo processo com todos. A restauração é realizada, como em todos os casos de disciplina, pela igreja onde a desqualificação ocorreu. Existem muitos fatores que podem estar envolvidos em diferentes casos. Mas acredito que podemos dizer “não, imediatamente”, por estas razões:

 

 

Pensamentos Sobre a Restauração de Pastores Caídos (Parte 1)

Pensamentos Sobre a Restauração de Pastores Caídos (Parte 3)

 

 

Autor: Jared Wilson

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.