No Céu, Seremos Apenas Espíritos Desencarnados ou Teremos um Corpo Físico Temporário?

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Ao contrário de Deus e dos anjos, que são essencialmente espíritos (João 4:24; Hebreus 1:14), os seres humanos são, por natureza, tanto espirituais quanto físicos ( Gênesis 2:7). Deus não criou Adão como espírito e o colocou dentro de um corpo. Em vez disso, primeiro, Ele criou um corpo e, em seguida, soprou em Adão um espírito. Nunca houve um caso de que um ser humano tivesse existido sem um corpo. Estudos neurofisiológicos revelam uma íntima conexão entre o corpo e o que historicamente foi referido como alma – que inclui a mente, emoções, vontade, intencionalidade e capacidade de adoração. Parece que não somos essencialmente espíritos que habitam em corpos, mas somos essencialmente tão físicos quanto espirituais. Não podemos ser plenamente humanos sem um espírito e um corpo.

Em virtude das consistentes descrições físicas do Céu presente (ou estado intermediário) e daqueles que habitam lá, parece possível – embora isso seja discutível – que, entre a nossa vida terrena e a nossa ressurreição corporal, Deus pode nos conceder alguma forma física que nos permita subsistir como seres humanos no estado não natural “entre os corpos”, aguardando a nossa ressurreição. Assim como o estado intermediário é uma ponte entre a vida na Terra e na Nova Terra, talvez os corpos temporários, ou pelo menos uma forma física, servem como pontes entre nossos corpos presentes e os nossos corpos ressuscitados.

O apóstolo Paulo diz: “E, por isso, neste tabernáculo gememos, desejando muito ser revestidos da nossa habitação celestial; se, de fato, formos encontrados vestidos e não nus. Pois nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida” (2 Coríntios 5:2-4).

Alguns evangélicos interpretam isso como se o estado intermediário fosse uma condição de nudez desencarnada. Eles podem estar certos. Outros, porém, acreditam que Paulo está desejando estar com Cristo (Filipenses 1:21), mas ele não pode esperar por um estado de nudez platônica que considera repugnante. Assim, eles entendem que Paulo está dizendo que, na morte, somos imediatamente vestidos por uma habitação celestial (seja o próprio Céu ou uma forma provisória) em que aguardaremos a nossa ressurreição.

Há evidências de que a última posição pode estar correta. Por exemplo, os mártires no céu são descritos como estando vestidos com roupas (Apocalipse 6:9-11). Espíritos desencarnados não usam roupas. Muitos consideram a roupa puramente simbólica como estando coberto pela justiça de Cristo. De fato, também podem ser roupas reais com o significado simbólico, assim como a Arca da Aliança tinha um significado simbólico, mas também era um objeto físico, real.

Um artigo fundamental da fé cristã é que o Cristo ressuscitado agora habita no céu. Nós somos informados de que seu corpo ressuscitado na Terra era físico, e que o mesmo Jesus físico subiu ao Céu, do qual ele retornará um dia a Terra (Atos 1:11). Parece indiscutível, então, dizer que há pelo menos um corpo físico no céu atual.

Se o corpo de Cristo no Céu atual possui propriedades físicas, pode-se argumentar que outros no céu também podem ter formas físicas, mesmo que temporariamente. Faz sentido ainda que outros aspectos do Céu atual tenham propriedades físicas. Por exemplo, quando Cristo é visto de pé à direita de Deus (Atos 7:56), ele realmente está de pé em alguma coisa. Do contrário, teríamos que concluir que o Cristo ressuscitado (e, portanto, encarnado) flutua por dois mil anos em um reino sem substância material (Ele poderia, é claro, fazer isso, mas não é o que parece). Se, sabemos que há substância física no Céu (ou seja, o corpo de Cristo, “Apocalipse 1.13” – nota de editor e tradutor), não podemos também assumir que outras referências a objetos físicos no Céu, incluindo formas e roupas físicas, são literais em vez de figurativas? (“livro”, Apocalipse 5:1-2, 7-9; “harpa”, Apocalipse 14:2; 15.2; “roupas brancas”, Apocalipse 3:5; 4:4; 7:9, 13; “coroas”, Apocalipse 4:4; “trombeta”, Apocalipse 8:6, 8, 10; 9:1, 13; 11:15 … – notas do editor e tradutor).

Enoque e Elias parecem ter sido levados ao céu em seus corpos físicos: “Enoque andou com Deus e não foi mais visto, porquanto Deus o levou para junto de si” (Gênesis 5.24). Aparentemente, o corpo de Enoque não foi deixado para ser enterrado. A Septuaginta traduz como que Enoque “não foi encontrado”. Hebreus 11:5 diz explicitamente que Enoque não morreu: “Pela fé, Enoque foi levado a fim de não passar pela morte; não foi achado, porque Deus o havia levado. Pois, antes de ser levado, obteve testemunho de que havia agradado a Deus”.

Da mesma forma, Elias foi levado ao céu sem passar pela morte e sem deixar um corpo para trás: “Enquanto iam caminhando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho. Ao ver isso, Eliseu gritou: Meu pai, meu pai! Carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais ele viu Elias. E, pegando a sua própria roupa, rasgou-a em duas partes” (2 Reis 2.11-12).

Dado que pelo menos uma (Cristo) e mais duas pessoas (Enoque e Elias) agora tenham corpos nos céus, não é possível que outros possam ter formas físicas também?

Moisés e Elias apareceram fisicamente com Cristo na Transfiguração (Lucas 9:28-36). Uma vez que já haviam ido para o Céu (Moisés morreu e Elias foi levado da Terra em um redemoinho), e se as almas no Céu presente estiverem desencarnadas, Deus teve que criar corpos temporários para eles quando vieram do Céu para estarem com Jesus no monte. Se assim for, eles teriam passado de seres desencarnados a encarnados, e depois que a Transfiguração acabou, eles se desincorporaram novamente para aguardar a ressurreição final.

Uma segunda possibilidade é que Moisés e Elias vieram a Terra nos mesmos corpos temporários que já tinham no Céu. (No caso de Elias, seu corpo temporário pode até ter sido seu corpo terrestre original, que nunca morreu). Se Moisés e Elias vieram a Terra com os mesmos corpos temporários que possuem no Céu, eles poderiam ter retornado ao Céu tal como estavam. Será que pelo fato de ter se juntado a Cristo na Terra exigiu que eles se tornassem algo mais, ou simplesmente envolveu a chegada de ambos a algum outro lugar? Eles foram incorporados temporariamente, ou simplesmente foram temporariamente deslocados?

A presença física de Moisés e Elias na Transfiguração parece demonstrar, sem dúvida, que Deus, pelo menos às vezes, cria corpos temporários para que as pessoas habitem antes da ressurreição.

 

 

NOTA:

Alguém pode contestar que não teremos corpos físicos no céu, com base em uma compreensão incorreta de 1 Coríntios 15:42-49 sobre o “corpo espiritual” e suas implicações.

Quando Paulo usa a expressão corpo espiritual (1 Coríntios 15:44), ele não está falando de um corpo feito de espírito ou de um ser incorpóreo. Não existe tal coisa. O corpo é material, composto de carne e ossos. A palavra espiritual, aqui, é um adjetivo que descreve o corpo, não negando o seu significado. Um corpo espiritual é, antes de tudo, um corpo real, do contrário não poderia ser chamado de corpo. Paulo poderia simplesmente ter dito: “É semeado um corpo natural, e criado um espírito”, se esse fosse o caso. A julgar pelo corpo de ressurreição de Cristo, um corpo espiritual aparece na maior parte do tempo para observar e agir como um corpo físico regular, com a exceção de que pode ter (e no caso de Cristo) alguns poderes de natureza metafísica, isto é, além das habilidades físicas normais.

Por outro lado, quando Paulo diz que “a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus” (1 Coríntios 15:50), ele está se referindo à nossa carne e sangue como estão agora – afetados e corrompidos pelo pecado. Nossos corpos presentes são caídos e destrutíveis, mas nossos corpos futuros – embora ainda corpos no sentido mais completo – serão livres do pecado e indestrutíveis. Eles serão como o corpo de ressurreição de Cristo, tanto físico como indestrutível.

 

 

Autor: Randy Alcorn

Fonte: Eternal Perspective Ministries

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.