Como Deve ser a Vida dos Cristãos na Sociedade

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Texto base: 1 Pedro 2.11-12

Uma vez que Deus concedeu a salvação eterna aos cristãos, todavia, eles devem refletir esta nova posição em que se encontram ao mundo, de modo que os outros possam reconhecer o Deus que os transformou em novas pessoas.

Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma. Mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação.

  1. A condição dos cristãos (vs.11a)

Pedro escreve que seus primeiros leitores são amados. Esta forma de tratamento mútuo era bem comum entre os cristãos primitivos (veja 4.12; Rm 12.19; 1Co 10.14; Cl 4.14; 1Ts 2.8; 2Tm 1.2; Hb 6.9; Tg 1.16; 1Jo 3.2; 3Jo 11; Jd 20-21).

O modo de se dirigir uns aos outros como amados vai além de uma relação amigável. Conforme vimos, Pedro já havia admoestado os cristãos a amarem-se uns aos outros (1.22). O dever de amar foi destacado por Jesus como o resumo da lei, em Mateus 22.37-40. O termo amados, que também aparece na segunda carta do apóstolo (veja 1.17; 3.1,8; 14,15,17), possui um duplo significado:

Primeiro, está implícito que tanto os destinatários desta carta quanto os cristãos em geral são amados por Deus.

Segundo, eles são amados por Pedro. Este termo também introduz uma série de “imperativos amorosos”, pois vinha de alguém que realmente amava seus leitores e queria o amadurecimento espiritual deles.

APLICAÇÃO PRÁTICA

A causa do amor de Deus não está naquilo que fazemos. Não podemos fazer nada para ele nos amar ou odiar. Deus, pela sua livre soberania, decide quem amar e quem odiar incondicionalmente (Ml 1.2-3; Rm 9.11-13; 11.28).

  1. Os cristãos não pertencem a este mundo (vs.11b)

Pedro retoma dois conceitos já abordados (veja 1.1, 17). Além de serem amados, os cristãos também são peregrinos e forasteiros neste mundo. Estes dois termos ressaltam dois grupos distintos, porém semelhantes no âmbito social.

Os peregrinos προσκυνητής (paroikois) são “uma classe de habitantes sem plenos direitos de cidadania (geralmente de origem estrangeira, mas também camponeses ou trabalhadores manuais com certa “ascensão” na escala social)”.1 Refere-se a emigrantes que vivem sem pátria e cidadania em local estranho.2 A melhor tradução seria “estrangeiros residentes”.

Os forasteiros παρεπιδημοις (parepidemos), por sua vez, são aqueles que vivem em um lugar temporariamente, mas não permanecem como residentes. Assim como os peregrinos, estes também não possuem os direitos de cidadão no local onde permanecem.

Provavelmente, a maioria dos destinatários históricos de Pedro pertencia a estas duas classes que eram severamente discriminadas pela sociedade ímpia que vivam. A inimizade social ocorria por conta da nova vida que possuíam e pela obediência à Palavra de Deus (veja 4.3-4). Estes dois termos – “peregrinos e forasteiros” – são usados também para descrever os patriarcas em suas jornadas errantes, especialmente Abraão, que, pela fé, buscou a cidade cujo arquiteto e construtor é Deus (Hb 11.9-10; Gn 23.4; Sl 39.12).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Não temos cidadania permanente neste mundo. Somos peregrinos e forasteiros. Vivemos temporariamente neste mundo, mas não somos deste mundo. Nossa casa está no céu (Fp 3.20) e, finalmente, na terra restaurada (Ap 21.1-3).

  1. Os cristãos devem rejeitar os pecados da carne (vs.11c)

Como filhos amados de Deus, peregrinos e forasteiros, os cristãos precisam renunciar os desejos carnais pecaminosos. Pedro agora enuncia um imperativo (exortação) negativo, isto é, “o que os cristãos não devem fazer”, que é anuir aos pecados da carne não regenerada.

A expressão vos absterdes απέχεσθαι (apechestai), no grego, significa “manter-se afastado de, preservar-se de”, dando a ideia de oposição a uma coisa, nesse caso, às paixões carnais,3 que são os desejos físicos pecaminosos.

Estes prazeres mundanos são descritos por Pedro no capítulo 4.3 desta mesma carta como libertinagem, sensualidade, bebedeiras, orgias e farras, idolatrias (NVI) e pecados sexuais (veja Gl 5.19-21). William Barclay ressalta que essas paixões carnais compreendem também o orgulho, a inveja, a malícia, o ódio e os maus pensamentos que caracterizam a natureza humana caída.4

Por conseguinte, estes desejos da carne devem ser evitados porque fazem guerra contra alma. De modo semelhante, em Gálatas 5.17, Paulo afirma que a carne não redimida do cristão deseja o que é contrário ao espírito regenerado para que ele ceda aos desejos pecaminosos (vs.19-21). Estas duas passagens, além de se complementarem, possuem o mesmo significado.

A palavra guerra traz a ideia de operações militares que são realizadas em conjunto contra os inimigos, e é usada metaforicamente para descrever o “conflito espiritual com o pecado” (veja 1Tm 1.18; 2Tm 2.3; Tg 4.1). Visto que as paixões carnais se referem à natureza física, o termo alma, por sua vez, denota a parte imaterial do homem, e não a pessoa em sua totalidade, como no capítulo 1.22. Portanto, temos aqui o quadro de uma “batalha interior” em que o cristão luta contra si mesmo. A “carne” e a “alma” traçam um contraste entre a velha e a nova natureza; representam as duas inclinações que lutam para se impor dentro do cristão.

No passado, antes da conversão, vivíamos segundo os padrões deste mundo e éramos escravos dos prazeres carnais (Ef 2.3). Chegou um tempo, porém, em que fomos libertos do poder do pecado (Rm 6.17-18). Deus nos libertou do pecado não extraindo o pecado de dentro de nós, mas nos libertando do seu poder escravizador (Rm 6.6). Com efeito, ainda assim é preciso rejeitarmos constantemente os desejos pecaminosos que lutam contra a nossa alma (Ef 4.23; Cl 3.5; Tt 2.12).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Por um lado, “já” nos despimos do velho homem que morreu na cruz com Jesus e nos vestimos do novo homem na regeneração (Rm 6.6). Por outro lado, “ainda não” fomos libertos da presença do pecado e estamos em processo de santificação. “Já” somos posicionalmente santos (1Co 1.2), mas “ainda não” somos plenamente santos (Hb 10.10, 14). Mesmo após o novo nascimento, ainda somos pecadores.

Contudo, enquanto a nossa redenção não se completar por ocasião do regresso de Cristo, onde seremos livres da presença do pecado e plenamente santos, como soldados espirituais, temos que lutar contra os prazeres pecaminosos que tentam nos enfraquecer e nos afastar da presença de Deus. Nesta guerra, lutamos e vencemos não enfrentando as paixões da carne, mas se abstendo delas. Esta luta é constante, por isso, é necessário cautela para não sermos derrotados pelo pecado.

  1. Os cristãos devem manter um comportamento exemplar no mundo (vs.12a)

Tendo encorajado os cristãos a negarem os prazeres da carne (vs.11), Pedro, desta vez, expressa um imperativo (exortação) positivo, ou seja, “o que os cristãos devem fazer”, que é preservar uma conduta primorosa em meio a uma sociedade hostil a Deus, “de modo que, a despeito das muitas acusações feitas contra eles, a qualidade de sua vida cristã acabe mudando opiniões”5 (vs.12a).

A palavra grega καλην (kalen), traduzida pela NVI e ARA por exemplar, significa literalmente “boa”; enfatiza um tipo de bondade que é magnífica e notável entre as pessoas (Tg 3.13). Esta palavra realça a natureza que deve ser o procedimento, isto é, a “maneira de viver” dos cristãos no meio dos gentios, que são os incrédulos de todo o mundo.

Todavia, Pedro sublinha que seus primeiros leitores estavam sendo tratados como malfeitores – “aqueles que fazem o mal” – pela sociedade pagã em que vivam. Eles estavam debaixo de intensa hostilidade, sendo acusados injustamente por delitos que não cometeram.

De acordo com algumas passagens do Novo Testamento, estes cristãos primitivos foram acusados pelos ímpios de deslealdade, pois se recusaram a participar do culto ao imperador Nero, de propagarem costumes ilegais contrários ao costume dos romanos (At 16.16-21), de perturbarem a ordem mundial (At 17.6), de provocarem as autoridades (At 17.7), de se oporem à idolatria, de causarem prejuízo ao comércio e impedirem o progresso social (At 19.23-40). Também foram acusados de canibalismo por causa da santa ceia (1Co 11.23-29) e de imoralidade sexual [orgias], porque participavam das reuniões da “festa do amor”.

Baseado no contexto desta carta, o motivo de tais acusações consistia no fato de os cristãos se recusarem a participar dos costumes pecaminosos da sociedade em que vivam (veja 3.16; 4.4).

Não obstante, existe também o fato do cristão ser acusado “justamente” de alguém que faz o mal (2.20; 4.15). É bem provável que algumas das acusações feitas contra os cristãos primitivos fossem verdadeiras. Vemos relatado em 1 Coríntios 6.1-8 que, ao invés de resolverem os problemas que surgiam uns com os outros na igreja amistosamente, alguns cristãos estavam levando uns aos outros aos tribunais. Praticar o mal nesse e em outros aspectos não é a conduta normal de um cristão que foi salvo para as boas obras (Ef 2.10).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Manter um comportamento irrepreensível quando somos alvos de veementes acusações é um grande desafio. Simon Kistemaker declara que os cristãos devem se esforçar para ter uma conduta tão exemplar a ponto de as acusações maledicentes dos incrédulos serem sempre infundadas (3.16). Quando somos tratados como malfeitores, o registro de nossa conduta cristã deve revelar boas obras e uma ausência de falhas ou vícios. Ao proceder assim, o cristão faz emudecer a ignorância dos insensatos (2.15).6

  1. Os cristãos são o retrato do caráter de Deus no mundo (vs.12b)

O comportamento exemplar dos cristãos tem como objetivo a glorificação de Deus através dos descrentes (vs.12b). A maneira de viver dos cristãos é constantemente avaliada pelos incrédulos. Eles esperam ver se os cristãos vivem realmente a fé que professam na vida prática. Os descrentes podem até discordar dos cristãos e atacar a integridade deles, mas não podem deixar de reconhecer suas boas obras. Por outro lado, a obediência dos cristãos à Palavra de Deus serve também para estimular os ímpios a seguirem o mesmo exemplo.

Pedro conclui o versículo 12 afirmando que Deus será glorificado pelos descrentes no dia em que ele visita-los. Sendo assim, quando e como os descrentes glorificarão a Deus?

A expressão no dia da visitação é comumente usada no Antigo Testamento para advertir pessoas e nações sobre a sua manifestação em juízo ou benção (Jó 7.18; Is 10.3; 29.6; Gn 50.24-25; Êx 32.34). Porém, no Novo Testamento, a “visitação de Deus” refere-se à encarnação do “Deus filho” para executar o plano da salvação – Jesus veio para salvar (veja Lc 1.68, 78-79; 7.16; 19.44).

Todavia, o glorificar a Deus está condicionado ao dia da visitação. Esta expressão possui três possíveis interpretações.

A primeira interpretação ressalta que Pedro estava dizendo que os descrentes seriam julgados pelas autoridades judiciais. A segunda interpretação, por sua vez, sugere que Deus irá visitar os descrentes no dia do julgamento final, na segunda vinda de Cristo. Finalmente, a terceira interpretação propõe que a visitação de Deus aos descrentes é uma ocasião em que ele manifestará a sua graça e misericórdia para a salvação deles, que irão glorificar a Deus em gratidão.

Pessoalmente, acredito que a terceira interpretação se harmoniza melhor com o contexto. Assim, Deus utiliza a boa conduta dos cristãos perante os descrentes como um “meio de testemunho” para salvá-los. Quando são transformados pelo poder de Deus, através da regeneração, os descrentes se recordam do comportamento exemplar dos cristãos que presenciaram e glorificaram a Deus pela benção da salvação.7

Grudem salienta que esta glorificação quase certamente é uma referência às pessoas que foram convertidas e prestam louvor voluntário, e não aos incrédulos que reconhecem à força que Deus está certo.8 John MacArthur corrobora que Pedro estava ensinando que, quando a graça de Deus visita o coração de um incrédulo, esse incrédulo responde com a fé salvadora e glorifica a Deus, porque se lembra do testemunho de cristãos que observou.9

APLICAÇÃO PRÁTICA

Não se testemunha apenas com os lábios, mas também com a maneira de falar e de viver. A conduta do cristão não deve apresentar coisa alguma que possa ser usada pelos incrédulos como munição contra Cristo e o evangelho. As boas obras devem ratificar as boas palavras.10

 

 

NOTAS:

  1. Ênio Mueller. 1 Pedro – Introdução e Comentário, pág 141.
  2. Uwe Holmer. Comentário Esperança. 1 Pedro, pág 35.
  3. Ênio Mueller. 1 Pedro – Introdução e Comentário, pág 142.
  4. William Barclay. 1 Pedro, pág 79.
  5. Carson. 1 Pedro, em O Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, pág 1264.
  6. Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 132.
  7. Esta era a posição de Calvino, o qual entendia que o dia da visitação é o tempo quando ele [Deus] nos convida a si. (Epístolas Pastorais,  pág 196).
  8. Wayne Grudem. Comentário Bíblico de 1 Pedro, pág 118.
  9. Bíblia de Estudo MacAthur. Notas de Rodapé, pág 1732.
  10. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo. Novo Testamento 2, pág 521.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Trecho extraído do Comentário Expositivo de 1 Pedro do autor.

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.