Anjos, Humanidade e Cristo

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Em todas essas qualidades próprias da criatura, espiritualidade, racionalidade e moralidade, os anjos são semelhantes aos seres humanos. Ora, precisamente porque, na Escritura, a unidade dos anjos é enfatizada e sua diversidade fica em segundo plano, há o perigo de negligenciarmos a diferença entre os anjos e os seres humanos. A semelhança aparente está longe de sobrepujar a diferença entre eles. Tanto os seres humanos quanto os anjos são seres pessoais, racionais, morais; ambos foram originalmente criados em conhecimento, justiça e santidade; ambos receberam domínio, imortalidade e bem-aventurança.

Na Escritura, ambos são chamados de filhos de Deus (Jó 1.6; Lc 3.38). No entanto, a diferença entre eles é muito rigorosamente mantida na Escritura pelo fato de que é dito que os seres humanos são, mas nunca se diz que os anjos são criados à imagem de Deus. Na teologia, essa distinção é muito negligenciada.

De acordo com Orígenes, os anjos e a alma dos seres humanos são da mesma espécie. A união da alma com o corpo é uma punição pelo pecado e, portanto, realmente acidental. Orígenes chegou a essa posição porque ensinava que toda dessemelhança se originou na criatura. No início, Deus criou todas as coisas iguais, isto é, criou apenas seres racionais e todos eles, anjos e almas, eram iguais. A diferença se originou entre eles pelo livre-arbítrio. Alguns permaneceram de pé e receberam uma recompensa, outros caíram e receberam punição. As almas eram especificamente unidas aos corpos. Portanto, todo o mundo material e toda a diversidade presente nele são por causa do pecado e dos diferentes graus de pecado. Eles não existem para exibir a vontade de Deus, mas para punir o pecado.74

A igreja rejeitou esse ensinamento de Orígenes e a teologia manteve a diferença específica entre os seres humanos e os anjos.75 No entanto, permaneceu a ideia de que os anjos, por serem exclusivamente espirituais, são superiores aos seres humanos e, portanto, têm pelo menos tanto ou até mais direito de serem chamados de “portadores da imagem de Deus”.76 Na hierarquia de criaturas e anjos, como seres puramente espirituais, eles estão mais próximos de Deus. “Fora de ti nada havia, e desse nada fizeste o céu e a terra, tuas duas obras: uma próxima de ti, a outra próxima do nada. Uma que tem acima de si apenas a ti mesmo, e outra que nada tem inferior a ela.”77 “Necessariamente, então, Deus produziu não somente a natureza que está mais distante dele – a física – mas também aquela que está muito próxima dele, a intelectual e incorpórea.”78 Mas os teólogos luteranos e reformados também frequentemente perderam de vista essa distinção entre os seres humanos e os anjos, e chamaram os anjos de “portadores da imagem de Deus”.79 Apenas uns poucos, como Teodoreto, Macarius, Methodius, Tertuliano (et al.), opuseram-se a essa confusão.80 Agostinho afirma expressamente: “Deus não deu a nenhuma outra criatura além do homem o privilégio de ser feito à sua imagem”.81

Por maior que seja a semelhança entre os seres humanos e os anjos, a diferença não é menor. Na verdade, vários elementos que pertencem à imagem de Deus existem nos anjos, mas somente a humanidade é a imagem de Deus. Essa imagem não apenas reside naquilo que os seres humanos e os anjos têm em comum, mas naquilo que os distingue. Os principais pontos de diferença são os seguintes: primeiro, o anjo é espírito e, como espírito, o anjo é completo; o ser humano, por outro lado, é uma combinação de alma e corpo: a alma sem o corpo é incompleta. O ser humano, portanto, é um ser racional, mas também é sensitivo. Por meio do corpo, o ser humano está ligado à terra, é parte da terra, e a terra é parte do ser humano. E, da terra, o ser humano é o cabeça e o mestre.

Depois que os anjos foram criados, Deus disse que planejou criar a humanidade e dar a ela domínio sobre a terra (Gn 1.26). O domínio sobre a terra é parte integrante do ser humano, uma parte da imagem de Deus e, portanto, é restaurado por Cristo para os seus, a quem ele não somente trata como profetas e sacerdotes, mas também como reis. Mas um anjo, por mais forte e poderoso que seja, é um servo da criação de Deus, não um mestre sobre a terra (Hb 1.14).

Segundo, como seres puramente espirituais, os anjos não estão ligados uns aos outros por vínculos de sangue. Não há entre eles nenhuma relação entre pai e filho, nenhum elo físico, nenhum sangue em comum, nenhuma consanguinidade. Por mais intimamente que eles possam compartilhar um vínculo ético, eles são seres desconectados, de modo que, quando muitos caíram, outros puderam se manter de pé. Nos seres humanos, por outro lado, há um delineamento do ser divino, no qual também há pessoas, unidas não somente em vontade e afeição, mas também em essência e natureza.

Terceiro, há, portanto, algo chamado “humanidade”, mas não há “angelidade” nesse sentido. Em um homem todos os seres humanos caíram, mas a raça humana também é salva em uma pessoa. Na humanidade pôde haver um Adão e, assim, também um Cristo. Os anjos são testemunhas, mas os seres humanos são objeto dos atos mais maravilhosos de Deus, as obras de sua graça. A terra é o palco dos atos miraculosos de Deus: aqui a guerra é travada, aqui a vitória do reino de Deus é ganha e os anjos voltam seu rosto para a terra, desejando perscrutar os mistérios da salvação (Ef 3.10; 1Pe 1.12).

Quarto, os anjos podem ser espíritos mais poderosos, mas os seres humanos são mais ricos. Em intelecto e poder, os anjos superam os seres humanos. Mas, em virtude dos relacionamentos maravilhosamente ricos que os seres humanos mantêm com Deus, com o mundo e com a humanidade, eles são psicologicamente mais profundos e mentalmente mais ricos. As relações que a sexualidade e a vida familiar, a vida em família no Estado e na sociedade, a vida dedicada ao labor, à arte e à ciência trazem consigo fazem de todo ser humano um microcosmo que, em multilateralidade, em profundidade e em riqueza, supera muito a personalidade dos anjos. Consequentemente, também, os atributos mais ricos e mais gloriosos de Deus só podem ser conhecidos e desfrutados pelos seres humanos.

Os anjos experimentam o poder, a sabedoria, a bondade, a santidade e a majestade de Deus, mas as profundezas das compaixões de Deus só se revelam aos seres humanos. A plena imagem de Deus, portanto, só é exposta ao modo da criatura nos seres humanos – melhor ainda, na humanidade.

Finalmente, deixe-me acrescentar que os anjos, por isso, também estão em uma relação totalmente diferente com Cristo. Não pode haver dúvida de que existe uma relação entre Cristo e os anjos.

Em primeiro lugar, várias passagens da Escritura ensinam que todas as coisas (Sl 33.6; Pv 8.22ss.; Jo 1.3; 1Co 8.6; Hb 1.2), e especificamente os anjos (Cl 1.16), foram criados pelo Filho e, por isso, ele é o “mediador da união” de tudo aquilo que foi criado.

Mas, em segundo lugar, Efésios 1.10 e Colossenses 1.19, 20 contêm a profunda ideia de que todas as coisas também estão em relação com Cristo como o mediador da reconciliação. Deus reconciliou todas as coisas consigo por meio de Cristo e as reúne sob ele como cabeça – isso não significa que essa relação consista, como muitas pessoas pensam, em que Cristo adquiriu graça e glória para os anjos bons,82 nem como outros acreditam, que os anjos podiam ser chamados de membros da igreja.83 Mas consiste no fato de que todas as coisas, que foram perturbadas e rasgadas pelo pecado, são novamente unidas em Cristo, restauradas à sua relação original, reunidas sob ele como cabeça.

Assim, embora Cristo seja Senhor e cabeça, ele não é o Reconciliador e Salvador dos anjos. Todas as coisas foram criadas por ele, e, portanto, também são criadas para ele, de modo que ele possa entregá-las, reconciliadas e restauradas, ao Pai. Mas apenas os seres humanos constituem a igreja de Cristo, somente ela é a noiva, o templo do Espírito Santo, o lugar da habitação de Deus.

 

 

NOTAS:

  1. D. Petavius, “De angelis”, in Theol. dogm., I, c. 16; M . Becanus, “D e angelis” , in Theol. schol., 2-3; Theologiei Wirceburgensis (1880), III, 466s.; C. Pesch, Praelectiones dogmatica e, 9 vols. (Freiburg: Herder, 1902-1910), III, 204s.; J. Oswald, Angelologie, 81s.; G. Jansen, Prael. theol., II, 361s.
  2. Origenes, On First Principles, I, 5, 3, 4.
  3. T. de Aquino, Summa Theol., I, q. 47, art. 2; J. Heinrich e C. Gutberiet, Dogmatische Theologie, V, 177.
  4. T. de Aquino, Summa Theol., I, q. 75, art. 7.
  5. João Damasceno, Exposition of the Orthodox Faith, II, 3; T. de Aquino, Sum ma theol., I, q. 93, art. 3; idem, Commentary on Sent., II, dist. 16; J. Oswald, Angelologie, 25.
  6. Agostinho, Confessions, XII, 7.
  7. Boaventura, Breviloquium, II, 6.
  8. CaIvino, Institutas, I.xiv.3; A. Polanus, Syn. theol., V, 10; Synopsispurioris teologia e, X II, 7; XIII, 17; A. Comrie e N. Holtius, Examen van het Ontwerp van Tolerantie, vol. 9; O ver de Staat desrechtschapen Mensch (Amsterdã: Nicolaas Byl, 1757), 187; B. de Moor, Comm, in Marckii Comp., II, 335; J. Gerhard, Loci theol., V, c.4, seção 5; F. Delitzsch, A System o f Biblical Psycholocy, 78.

  80.D. Petavius, “Deopificio sex dierum ” , in Theol. dogm., II, c. 3, §§ 4-8.

  1. Citado p or T. de Aquino, Summa theol., I, q. 93, art. 3; cf. S. Maresius, Syst. theo l, V, 37.
  2. Cf. G. Voetius, Select. disp., II, 262s.; J. Gerhard, Locith e o l, X XXI, c. 4, §42; e posteriormente em nossa discussão sobre a consumação (nota do organizador: veja Herman Bavinck, The Last Things: Hope for This World and the Next, org. John Bolt e trad. John Vriend [Grand Rapids: Baker, 1996], 142; Reformed Dogmatics, IV, N°. 574).
  3. J. Gerhard, Loci theol., XXII, c. 6, seção 9.

 

 

Autor: Herman Bavinck

Trecho extraído da Dogmática Reformada do autor, volume 2, pág 468-470.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.