Série: Lutero contra o Livre-Arbítrio (Parte 4)

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Não há lugar para qualquer ideia de mérito ou recompensa pelas boas obras

Aqueles que pregam o “livre-arbítrio” afirmam que se não há “livre-arbítrio”, então também não há lugar para o mérito ou para a recompensa.

O que dirão os defensores do “livre-arbítrio” a respeito da palavra “gratuitamente”, em Romanos 3.24? Paulo diz que os crentes são “justificados gratuitamente, por sua graça”. Como interpretam “por sua graça”? Se a salvação é gratuita e oferecida pela graça divina, então não se pode conquistá-la ou merecê-la. No entanto, Erasmo argumenta que a pessoa deve ser capaz de fazer alguma coisa a fim de merecer a sua salvação, ou ela não merecerá ser salva. Erasmo pensa que a razão pela qual Deus justifica uma pessoa e não outra, é que uma delas usou de seu “livre-arbítrio”, e tentou tornar-se justa, enquanto a outra não o fez. Ora, isso transforma Deus em alguém que diferencia pessoas, ao passo que a Bíblia ensina que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Erasmo e algumas outras pessoas, como ele, admitem que os homens conseguem fazer muito pouco, através de seu “livre-arbítrio”, para obterem a salvação. Afirmam que o “livre-arbítrio” tem apenas um pouco de merecimento — não é digno de muita recompensa. E, não obstante, ainda pensam que o “livre-arbítrio” torna possível às pessoas tentarem encontrar a Deus. Imaginam, igualmente, que se as pessoas não tentam encontrá-Lo, cabe exclusivamente a elas a culpa, se não recebem a graça divina.

Portanto, sem importar se esse “livre-arbítrio” tem grande ou pequeno mérito, o resultado é o mesmo. A graça de Deus seria obtida por meio do “livre-arbítrio”. Todavia, Paulo nega toda a noção de mérito quando afirma que somos justificados “gratuitamente”. Aqueles que dizem que o “livre-arbítrio” possui apenas um pequeno mérito, erram tanto como aqueles que dizem que ele possui muito mérito, pois ambos ensinam que o “livre-arbítrio” tem mérito suficiente para obter o favor de Deus. Portanto, em quase nada diferem um do outro.

Na verdade, esses defensores da ideia do “livre-arbítrio” nos dão um perfeito exemplo do que significa “saltar da frigideira para dentro do fogo”. Quando dizem que o “livre-arbítrio” tem apenas um pequeno mérito, pioram a sua posição, ao invés de melhorá-la. Pelo menos aqueles que dizem que o “livre-arbítrio” envolve um grande mérito (os chamados “pelagianos”) conferem um elevado preço à graça divina, porquanto concebem que um grande mérito é necessário para alguém obter a salvação. Todavia, Erasmo barateia a graça divina, dizendo ser possível obtê-la por meio de um débil esforço. No entanto, Paulo transforma em nada essas duas idéias usando apenas uma palavra — “gratuitamente” (Rm 3.24). Mais adiante, em Romanos 11.6, ele declara que a nossa aceitação diante de Deus depende apenas da graça de Deus: “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”. O ensino paulino é perfeitamente claro. Não existe tal coisa como mérito humano aos olhos de Deus, sem importar se esse mérito é grande ou pequeno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do “livre-arbítrio”, estabelecendo em seu lugar apenas a graça divina. Não podemos atribuir a nós mesmos a menor parcela de crédito para nossa salvação; ela depende inteiramente da graça divina.

 

 

Lutero contra o Livre-Arbítrio (Parte 1)

Lutero contra o Livre-Arbítrio (Parte 2)

Lutero contra o Livre-Arbítrio (Parte 3)

 

 

Autor: Martinho Lutero

Trecho extraído do livro Nascido Escravo, pág 28-29. Editora: Fiel

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.