O Dízimo em Malaquias

Share

Existem algumas passagens sobre o dízimo em outras partes do Antigo Testamento, por exemplo, no Livro de 2 Crônicas 31:5-12 e em Neemias 10:37-38. Historicamente, o povo de Deus havia, por diversos motivos, negligenciado os levitas e o sacerdócio, e estes livros mostram o retorno, com algumas variações, do cuidado com o sacerdócio levítico. Mas nenhum texto da Bíblia é mais citado quando se fala de dízimo do que este no livro de Malaquias:

Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida. Por vossa causa, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos (3:8-11) (ARA).

Não existe qualquer dificuldade para a real compreensão do texto. Como já claramente demonstrado, o dízimo de produtos agropecuários era uma obrigação dos judeus para com os levitas, além da obrigação do recolhimento dos dois dízimos adicionais.

Deus, através de Malaquias, repreende aos sacerdotes e a nação, pois estavam realmente roubando o que era de Deus. Simples assim! Essa repreensão não tem nenhuma relação com os cristãos na Nova Aliança. O dízimo, detalhadamente descrito nas citações anteriores, nada tinha a ver com a igreja cristã, muito menos o ato de não entregá-lo.

Existem diversos detalhes no citado texto que podem ser analisados meticulosamente, mas como já ficou claramente explanado em que consistia o dízimo na Bíblia, tal estudo seria desnecessário, bastando aqui a precisa, objetiva e clara explanação deste texto feita por Augustus Nicodemus Lopes (2011), na pregação realizada na Igreja Batista da Parquelândia, em Fortaleza:

Os dízimos faziam parte da aliança de Deus com Israel. Faziam parte das leis cerimoniais relacionadas com o culto. Então, o problema aqui não era o dízimo, o problema era a desobediência. Eles não estavam cumprindo aquilo que Deus exigia na aliança. Fazia parte do culto e eles não estavam fazendo isso e, portanto, Deus os estava amaldiçoando. […] Não é o ato de dar o dízimo em si, como se fosse uma negociata com Deus, mas era uma questão de cultuar a Deus como Ele havia determinado; e, no culto do Antigo Testamento, o dízimo fazia parte integrante. Então, não é a questão do dízimo em si, como hoje é enfatizado. O dízimo passa a ser uma coisa mágica, uma negociata com Deus: se você der o dízimo, Deus vai lhe abençoar. É só estudar o contexto e você vai ver que a questão do dízimo não era o dízimo em si, mas uma questão da obediência do povo de cumprir os termos da aliança que Deus tinha feito com eles, de cultuar a Deus da forma correta.

O texto citado reflete uma situação ocorrida na vigência de uma Lei, da aliança de Deus com o povo judeu, aliança esta que não é a aliança da qual participamos, pois estamos na Nova Aliança no sangue de Cristo. O texto é direcionado aos que estão debaixo da Lei Mosaica: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19) (ARC).

Os judeus estavam debaixo desta Lei da qual não fazemos parte: “Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor” (Gl 3:24-25) (NVI). O ensino do dízimo para os cristãos que não estão sob a Lei é algo incoerente:

Pessoas que ensinam o dízimo afirmam que não estão promovendo a Lei. No entanto, as únicas instruções sobre o dízimo que vieram de Deus vieram através da Lei para as pessoas que estavam sob a Lei. Esse foi o único grupo de pessoas a quem Ele instruiu a dizimar. (NARRAMORE, 2004, p.72, tradução nossa).

Além de incoerente, a simples menção do texto de Malaquias nos púlpitos antes da coleta é algo totalmente fora de nossa época e de nosso contexto, como nos observa Wells (2007, p. 47):

O que você quer dizer quando diz “fora de seu tempo ou contexto?” Não era o Antigo Testamento escrito para nosso uso? Sim e não. Sim, porque o Novo Testamento mesmo diz que essas coisas estão escritas para nosso exemplo e advertência. E não, porque muitas coisas, especialmente as leis, nunca foram destinadas a serem aplicadas à Igreja do Novo Testamento (tradução nossa).

Recai sobre os pregadores a responsabilidade de estudarem a Palavra e alimentarem o povo com a sã doutrina, ao invés de oferecerem interpretações equivocadas que são aceitas pela simples falta de conhecimento bíblico por parte dos membros:

Para ser honesto com sua interpretação da Palavra de Deus, pregadores cristãos devem parar de enganar os membros da igreja menos informados e parar de levá-los a pensar que Malaquias 3:8-10 significa exatamente o oposto do que foi realmente ensinado. (KELLY, 2007, p. 114, tradução nossa).

Existe na mente da maioria dos cristãos a ideia de que os quatro evangelhos, por estarem no Novo Testamento, relatam fatos de “depois da Lei”, o que induz a expressão “o dízimo é antes da Lei, durante a Lei e depois da Lei.” Este fato nos conduz ao estudo das passagens em que o dízimo foi mencionado nos evangelhos, quando Jesus dialogava com os fariseus.

 

 

Leia também O Dízimo nos Evangelhos

 

 

Autor: João Bosco Costa Vieira

Trecho extraído da Monografia do autor, apresentada como exigência do curso de Bacharelado em Teologia, para a obtenção do titulo de Graduação.

Fontehttps://pt.scribd.com/doc/96753612/DIZIMO-Joao-Bosco-Costa-Vieira

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.