Discernindo a Revelação Especial

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Se Deus ainda está falando com o Seu povo hoje – particularmente através de impressões mentais e premonições – como os fiéis podem exercer discernimento quando se trata de interpretar e aplicar essas mensagens divinas? Simplificando, observar os conselhos privados e subjetivos do Senhor é mais confiável do que contemplar uma “bola de cristal”?

O discernimento bíblico é contrário ao tipo de misticismo subjetivo que muitos promovem hoje na igreja. Sem critérios objetivos, não há como determinar a verdade do erro. Essa subjetividade alegre deixa as pessoas à mercê de qualquer “voz” mística que estão ouvindo.

 Reação abdominal superior

Todavia, é irônico que os defensores do misticismo inevitavelmente tratam o próprio discernimento como se fosse algum tipo de habilidade subjetiva e mística. Um autor fala do discernimento como “uma função espiritual” que não envolve o intelecto. Em um de meus livros anteriores, citei Bill Hamon, um dos principais defensores da profecia reveladora moderna. A receita de Hamon para o discernimento é um caso clássico de anti-intelectualismo místico. Ele acredita que as profecias podem ser devidamente avaliadas apenas por pessoas dispostas a colocar a razão e a lógica de lado:

Por vezes eu ouvi as pessoas dizerem: “Eu não testemunhei com essa profecia”. Mas, depois de questioná-los, descobri que o que eles realmente queriam dizer era que a profecia não se adequava à sua teologia, desejos pessoais, objetivos, ou suas emoções reagiram negativamente a isto. Eles não conseguiram entender que não testemunhamos com a alma, a mente, as emoções ou com a vontade.

Nosso raciocínio está na mente, não no espírito. Portanto, nossas tradições, crenças e opiniões firmes não são verdadeiras testemunhas da verdade profética. A reação do espírito se origina profundamente em nosso ser. Muitos cristãos descrevem a localização física de sua sensação correspondente na área abdominal superior.

Uma testemunha negativa – com uma mensagem de “não”, “tenha cuidado”, ou “algo não está certo” –, geralmente se manifesta com um sentimento de apreensão, insegurança ou receio. Existe uma sensação profunda e quase ininteligível de que algo está errado. Esta percepção só pode ser confiável quando estamos mais sintonizados com o nosso espírito do que com os nossos pensamentos. Se o nosso pensamento está causando essas sensações, então pode ser apenas uma reação de almas.

Por outro lado, quando o Espírito de Deus testifica com o nosso espírito que uma palavra profética é correta, é de Deus e está de acordo com a Sua vontade e propósito, então nosso espírito reage com o fruto do Espírito Santo. Nós temos uma paz e alegria profundas e inexplicáveis, um sentimento caloroso e amoroso, ou mesmo uma sensação de nosso espírito pulando para cima e para baixo com entusiasmo. Esta sensação nos permite saber que o Espírito Santo está testemunhando com o nosso espírito que tudo está em ordem, mesmo que possamos não entender tudo o que está sendo dito, ou nossa alma pode não se ajustar imediatamente a todos os pensamentos que estão sendo apresentados.

Observe que a ênfase de Hamon está inteiramente no sentimento, ao passo que ele ridiculariza o intelecto, a teologia, a razão, a compreensão e, por implicação, a verdadeira sabedoria bíblica. Uma reação na parte abdominal superior é supostamente um indicador mais confiável da verdade do que todas essas coisas.

Contudo, isso é superstição, não discernimento. Como a parte superior do seu abdômen se sente sobre algo certamente não é uma medida de verdade ou falsidade; tampouco “apreensão, insegurança, receio” ou qualquer causa racional. “Paz e alegria profundas e inexplicáveis, um sentimento caloroso e amoroso, ou mesmo uma sensação de [seu] espírito pulando para cima e para baixo com entusiasmo”, não é prova de que uma pretensa profecia seja confiável. Aqueles que exercem esse tipo de “discernimento” demonstram uma fé imprudente.

E aqueles que procuram a verdade ao analisar os sentimentos internos provavelmente acabarão confusos.

Duelo de profetas

Uma vez meu editor trabalhou na Anaheim Vineyard, onde dois “profetas” enunciaram profecias contraditórias. Aconteceu em um culto de adoração no domingo pela manhã. Quando o louvor da igreja acabou, John Wimber entrou na plataforma. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, um jovem da igreja se levantou e começou a profetizar julgamento contra os líderes do ministério. “Jerusalém! Jerusalém!”. Ele começou ecoando Lucas 13:34: “Vocês matam os profetas e apedrejam os que te são enviados. O meu descontentamento queima a liderança desta igreja pelo modo como vocês desprezaram os Meus profetas e rejeitam Minhas profecias”… e assim por diante. O homem, evidentemente, estava descontente com o tratamento que havia recebido por parte dos líderes da igreja, e essa “profecia” foi a sua maneira de atacá-los de volta. Ele profetizou daquela maneira durante cinco minutos ou mais, chamando fervorosamente os “pastores” da igreja ao arrependimento. Toda a sua mensagem foi em primeira pessoa como se fosse o próprio Deus falando.

Assim que o “profeta” terminou sua mensagem, antes que John Wimber pudesse falar, outro “profeta” do outro lado da congregação surgiu e começou a profetizar uma mensagem oposta. Este profeta começou com uma paráfrase vaga de Jeremias 29:11:

Oh, pastores e líderes desta igreja! Conheço os meus pensamentos em relação a vocês; pensamentos de misericórdia e não de julgamento. Eu os amei com amor eterno e tenho guardado para vocês uma coroa no céu, meus amados. Vocês fizeram tudo de acordo com a minha vontade e, doravante, todos os homens se levantarão e os chamarão de abençoados…

Quando o segundo homem terminou, uma mulher ficou de pé e cantou uma música, outra pessoa falou em línguas, e outros dois, talvez, citaram versículos da Bíblia ou compartilharam algo de breve. Em seguida, a reunião continuou com Wimber fazendo anúncios. Não foi feita referência às duas profecias contraditórias. Nenhuma tentativa foi feita para explicar o dilema ou interpretar qualquer profecia. Os membros da congregação simplesmente ficaram livres para tirar suas próprias conclusões se as duas profecias estavam corretas.

Isso ilustra a situação impossível que surge quando as pessoas são encorajadas a expressar suas próprias impressões subjetivas como se fossem profecias divinas. E também revela a situação em que somos colocados se devemos permitir que uma sensação na nossa área abdominal superior determine a verdade ou a falsidade de uma mensagem profética.

Observe que ambas as mensagens dos profetas ecoaram a terminologia bíblica. Ambas foram entregues com grande convicção. Ambos empregavam pronomes na primeira pessoa, como se o próprio Deus estivesse falando. No entanto, eles se contradisseram completamente. Ambas podem ser falsas profecias, mas não podemos afirmar que eles não foram sinceros.

Como as pessoas na congregação deveriam determinar qual das profecias estava correta? Se eles seguissem a abordagem do sentimento, todas as pessoas descontentes na igreja, indubitavelmente, optariam pela primeira profecia, acreditando que eles agora tinham uma palavra do Senhor para confirmar seu descontentamento com seus líderes.

O fato óbvio é que, uma vez que nos desviamos para a esfera da subjetividade, não temos como determinar o que realmente é verdadeiro.

 

 

Autor: John MacArthur

Fonte: Grace to You

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.