A Morte Foi Tragada Pela Morte

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A cada domingo de manhã, milhões de cristãos, ao confessarem o Credo dos Apóstolos, repetem que Cristo “foi crucificado, morto e sepultado; ele desceu ao inferno; no terceiro dia ressuscitou dos mortos”. Você já se perguntou o que significa dizer que Cristo “desceu ao inferno”?

No início deste ano, na Conferência de Teologia 2015, em Los Angeles, Matt Emerson apresentou um artigo útil sobre este assunto, “Ele desceu aos Mortos: O Sepultamento de Cristo e o Caráter Escatológico da Expiação”. Dialoguei por correspondência com Emerson, professor assistente de ministérios cristãos na Califórnia Baptist University, sobre como os cristãos devem pensar sobre esta parte dos primeiros credos.

Onde é que a frase “ele desceu ao inferno” ocorre? Deveria ser “ao inferno” ou “aos mortos”?

A frase ocorre em ambos os credos, o dos Apóstolos, que muitas igrejas recitam todos os domingos, e no de Atanásio. No Credo dos Apóstolos, a frase era originalmente “desceu aos mortos”, em latim (Descendit ad inferos), porém, foi mais tarde alterada para “desceu ao inferno” (Descendit ad inferna).

Por que não podemos simplesmente ignorar esta frase, já que ela ocorre em credos e não nas Escrituras?

Como protestante e evangélico, acredito que os credos são secundários em relação às Escrituras, em sua autoridade. Mas isso não quer dizer que eles não tenham nenhuma autoridade nas igrejas protestantes. Significa, antes, que as Escrituras e sua autoridade são o fundamento para a linguagem dos credos e de sua autoridade secundária. À medida que os credos demonstram uma base bíblica e fiel ao que as Escrituras dizem, então têm autoridade para nós.

Quais são os pontos de vista Ortodoxos Orientais e Católico Romano sobre esta frase? Quais problemas você vê neles?

A visão Ortodoxa Oriental, advinda da visão patrística, realça a vitoria de Cristo sobre o Hades e Sua libertação de Adão e toda sua raça, da pena do pecado e da morte. Há uma forte ênfase na vitória, assim como na libertação. Na visão ortodoxa, quando Jesus vence a morte através de sua própria morte, ele cura Adão e Eva do seu pecado. Como Adão caracteriza a raça humana por ser o seu cabeça, ao curá-lo, Jesus também cura e liberta toda a humanidade do Hades.

Na visão Católica Romana, por vezes referida como a Devastaçāo do Inferno, Jesus desce apenas ao hipotético “primeiro nível” do inferno, o limbo dos patriarcas, prega o evangelho aos seus habitantes (judeus e pagãos virtuosos, que viveram e morreram antes de Cristo), e retira a todos os que se arrependem e creem.

Um outro desenvolvimento recente ao longo de ambas as linhas vem de Hans Urs von Balthasar, um teólogo Católico Romano do século 20, que cria que Jesus desceu ao inferno e foi assim separado do Pai não apenas em sua humanidade, mas também em sua divindade. Ao fazê-lo, o amor do Pai e do Filho, expressado no Espírito, engoliu a morte e a destruiu.

Há uma série de problemas com cada um destes pontos de vista. Para protestantes, a ideia, presente em ambos os pontos de vista ortodoxo e católico romano, de que antes da morte e ressurreição de Cristo os santos do Antigo Testamento foram enviados a algum tipo de inferno, não é aceitável. A visão católica romana, de que há níveis diferentes de inferno, também não é aceitável. Talvez a área mais problemática para os protestantes seja o universalismo implícito em ambos os pontos de vista. Nenhum dos dois afirma explicitamente que a morte de Jesus salva toda a humanidade, sem distinção, mas, especialmente na visão ortodoxa, é difícil escapar da conclusão de que isto está implícito.

Qual são os pontos de vista de Calvino e Lutero sobre esta frase? Quais são os pontos fortes e fracos, em sua opinião?

Calvino acreditava que a frase se referia ao sofrimento vicário de Jesus sob a ira do Pai na cruz, por aqueles que se arrependem e crem. Ao contrário dos pontos de vista ortodoxos e católico romanos, Calvino via a descida de Jesus ocorrendo na cruz, ao invés de em seu sepultamento.

Lutero, como a igreja primitiva, enfatizou a vitória de Jesus no Sábado de Aleluia, sobre a morte e sobre o Hades, mas se afastou da tradição ortodoxa subsequente, ao ignorar o elemento libertador. Em outras palavras, não abordou a parte sobre Jesus libertando Adão e a toda a humanidade do Hades, e retirando-os de lá.

Embora a visão de Calvino seja provavelmente a mais popular com os protestantes, não vejo como colocar a descida na sexta-feira santa na estrutura narrativa dos credos. Ambos os credos, Apostólico e de Atanásio, estruturam suas declarações sobre a encarnação de Jesus, numa ordem narrativa cronológica. Cada cláusula segue a anterior, de modo que dar um salto cronológico para trás, indo de “morto e sepultado”, ainda vivo na cruz, em “desceu aos mortos”, não faz muito sentido.

Alguns evangélicos creem que esta cláusula deveria ser retirada do credo. Qual é a sua resposta?

De modo geral, evangélicos como Wayne Grudem e John Feinberg rejeitam esta cláusula, porque muitos dos seus defensores apontam para 1 Pedro 3:18-22 como sendo sua base bíblica. Grudem e os outros não creem que este texto supra tal justificativa exegética. Há, pelo menos, duas maneiras de se responder a esta crítica.

Em primeiro lugar, a justificativa bíblica para esta doutrina não depende de 1 Pedro 3:18-22. Talvez a visão católica romana, onde Jesus prega aos mortos, seja comprometida, mas os protestantes não estão vinculados a esta interpretação da frase de qualquer forma.

No Novo Testamento, há uma abundância de referências sobre o tempo que Jesus passou no sepulcro e estas são repletas de significado teológico. Em Mateus 12:40, Jesus compara o seu sepultamento a Jonas no ventre da baleia (que é, em Jonas 2, também uma referência ao abismo, o lugar dos mortos). Em Atos 2:24-28, Pedro fala de Cristo na sepultura, e do poder e vitória de Deus sobre a morte. Em Efésios 4:9-10 e Romanos 10:7, Paulo faz uso teológico da descida de Cristo ao lugar dos mortos.

Tudo isso sugere que o sepultamento de Cristo tem significado teológico. Afinal, se a única coisa que importa é a morte de Jesus, então por que ter um sepultamento? Além disso, por que ficar na sepultura por três dias? Estas e outras passagens indicam que o estado de morte prolongado de Jesus é vicário, no qual Jesus experiencia e derrota a morte por nós.

Em segundo lugar, e derivado da linguagem bíblica sobre a morte de Jesus, estão a autoridade dos credos e a importância da história da doutrina. Dois dos três credos ecumênicos afirmam esta doutrina, e os teólogos da igreja primitiva abordam a descida de Jesus aos mortos e enxergam uma grande importância nisso. Não podemos simplesmente jogar fora a linguagem do credo e ignorar a história das doutrinas. Esta é nossa herança e, à medida em que é fiel ao testemunho bíblico, ela tem autoridade sobre nós. Em minha avaliação, a frase “desceu aos mortos” reconhece um importante ensinamento bíblico, nomeadamente, que em sua morte e, especificamente, em seu prolongado estado de morte, Jesus ganha a vitória e liberta das garras da morte os que são unidos a ele.

Sobre o que você incentivaria os evangélicos a refletir, quando ouve ou recita esta frase em cultos?

Jesus vence a todos os inimigos de Deus, incluindo o último inimigo, a morte, por sua morte, sepultamento e ressurreição. Ao enfrentar a morte por nós, ele a derrota para nós. A morte foi tragada pela morte, porque aquele que morreu por nós, é vida. Não existe aqui nenhuma indicação de uma Devastação do Inferno ou um esvaziamento do Hades, como nas visões Católica Romana e Ortodoxa, mas sim, uma simples afirmação de que Jesus removeu o aguilhão da morte ao experimentá-la para nós e, assim, conquistá-la.

 

 

Autor: Gavin Ortlund

Fonte: The Gospel Coalition

Tradução: Seumas Dóchas

Divulgação: Reformados 21

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.