Uma exposição bíblica sobre a depravação dos seres humanos (Rm 1.18-32)

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Introdução

O leitor da carta aos romanos facilmente percebe que o apóstolo Paulo decidiu desmascarar a ira de Deus contra os impiedosos de forma contundente, e isso pode ser percebido por não se encontrarem os termos centrais da ação salvadora de Deus, a saber, justiça, amor, misericórdia, promessas, vida eterna, morte expiatória de Jesus, etc. É obvio que Paulo não particularizou o alvo da ira divina, pois não empregou o termo grego ἔθνος (ethnos), que pode ser traduzido por “gentio”, “pagão”, “nação” ou “povo não judeu”. Entretanto, os povos gentílicos estavam muito mais imersos em impiedade, imoralidades e idolatrias do que os judeus, o que fez com que as verdades reveladas no texto se tornassem juízo sobre eles. A bem da verdade, a carta aos Romanos não isenta os judeus de denúncias, os quais também foram fortemente repudiados por Paulo.

O foco deste artigo é uma análise da doutrina da depravação total da humanidade em Romanos 1.18-32. No entanto, no decorrer desta exposição, procuraremos evidenciar mais especificamente os povos gentílicos. É certo que tanto gentios quanto judeus pecaram; entretanto, a ação missionária divina veio primeiro ao povo judeu, para estes alcançarem as nações gentílicas (Gn 12.3-5). Assim, analisaremos apenas a aplicabilidade do texto de Romanos 11.18-32 às etnias não judaicas, seguindo, assim, o contexto da divisão natural do esboço da carta.

  1. A revelação geral de Deus nega a inocência do homem (Rm 1.18-23)

Esses versículos fazem parte da grande introdução da Carta aos Romanos, mas, pela natureza desta abordagem, percebemos que o apóstolo Paulo começa a falar aqui sobre os gentios de maneira específica e de forma um pouco mais distinta que nos primeiros 17 versículos. Assim, Paulo escreveu: “Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que impedem a verdade pela sua injustiça” (Rm 1.18, 21).  Ele deixa claro que ninguém será poupado na face da terra, quando Deus aplicar seus juízos finais. A denúncia feita por Paulo acerca dos pecados dos homens impiedosos e injustos, no começo de sua abordagem, retrata a depravação dos seres humanos e nos faculta uma visão mais ampla a respeito da ira divina contra o progresso da impiedade e do ser humano perverso.

A visão que Paulo tem nessa denúncia da maldade humana é atestada pelo fato de que essa ira “se revela do céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens”. Ou seja, as práticas dos seres humanos caídos não agradam a Deus, pois pervertem a verdade pela injustiça. Aqui, numa leitura simples, pode-se concluir equivocadamente que o ser humano teria a capacidade de interromper os planos de Deus. Uma análise mais profunda desse versículo, porém, chegará à conclusão do que realmente Paulo quis dizer.

É evidente que ninguém pode impedir a operação de Deus no universo ou em qualquer lugar que se possa imaginar. Isaías registra a onipotência divina: “Desde toda a eternidade, eu o sou, e não há ninguém que possa fazer escapar das minhas mãos; agindo eu, quem impedirá?” (Is 43.13, 21). É possível concluir que não pode haver nenhuma tentativa bem-sucedida por parte dos seres criados (humanos e angelicais) que possa impedir as realizações dos planos de Deus. Desde a antiguidade até a contemporaneidade, a história bíblica e os registros do cristianismo nos informam isso de maneira muito clara.

No entanto, se advogar tal proposta de frustração não era a intenção de Paulo, já que nenhuma criatura pode competir com o Deus poderoso; então, o que Paulo tinha em mente? Levando em conta o que já foi dito, entende-se que Paulo emprega o termo κατεχοντων (katechaoanton), que vem da raiz verbal κατεχω (ketechô), que significa “detenho, tomo posse de”. Acompanhado de αδικια (adikia; injustiça), descreve uma ação intencional projetada por homens impiedosos e injustos que pretendem controlar e manipular a sociedade em que vivem.

O resultado dessa ação, propositalmente feita por homens dessa natureza, é posicionar-se contra qualquer obra que tenha como propósito glorificar a Deus. Esses homens impiedosos e injustos usam todos os seus recursos para um fim desesperador. Distorcem o que é verdade e injustamente transferem para a mentira a verdade de Deus. Mentem, difamam o povo de Deus, deformam a justiça, com o intuito de suas inverdades parecerem ser verdade. Sem dúvida alguma, Paulo conhecia bem a mente do povo helênico, a cultura na qual o Novo Testamento foi escrito, e, por isso, os dois termos gregos empregados pelo apóstolo no versículo 18 apontam para um nível muito alto da ingenuidade do homem: ασεβειαν και αδικιαν (asabeian kai adikain; “impiedade e injustiça”). Portanto, a negação do homem “não piedoso” e do “não justo”, em uma tradução literal, denota a pessoa tanto impiedosa quanto injusta; um duplo grau de depravação do homem que vive sem se importar com o que faz, muito menos com fato de que prestará contas a Deus no juízo final.

Os seres humanos depravados, que inverteram as verdades divinas pelas suas mentiras, foram identificados por Paulo como conhecedores da revelação geral. Isso significa que suas ações não foram por causa de ignorância da existência de Deus; pelo contrário, até as criaturas atestam que há um Criador acima de tudo: “Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifestado entre eles, porque Deus lhes manifestou” (Rm 1.19, A21).

Segundo Calvino, Paulo designa que propriedades divinas podem ser conhecidas pela revelação natural e aponta tudo o que se presta para anunciar a glória do Senhor, ou seja, tudo quanto deve nos induzir ou incitar a glorificar a Deus. Isso implica que não se pode compreender perfeitamente a Deus em toda a sua grandeza, embora haja certos limites dentro dos quais os homens devam se alinhar e compreender o que lhe é facultado (CALVINO, 1997, p. 64)..

Calvino (1991, p. 16), em sua obra prima As Institutas, levanta uma questão pertinente: “Em que consiste conhecer a Deus e qual é a finalidade desse conhecimento?”. Ele sustenta que o conhecimento de Deus não é somente saber que há um Deus, senão também quem é Deus. Para Calvino, não pode haver conhecimento de Deus, no sentido próprio da palavra, sem haver religião ou piedade.

Todavia, o foco não é o conhecimento mediante o qual o homem perdido reconhece a Deus como seu Redentor em Cristo, senão o primeiro conhecimento que diz respeito ao conhecido do Criador. Para Calvino (1991, p. 16), este conhecimento primário concernente ao Deus Criador reconhece que Ele é a fonte de todo bem. Em nenhuma parte há uma gota da sabedoria ou da luz, da justiça ou do poder, que não procede dele.

Segundo Cabral (1998, p. 34), o que se pode conhecer sobre Deus “indica que o conhecimento acerca de Deus é revelado na própria vida do homem, na natureza e em toda a criação […]. É um fato inevitável no homem. Está manifesto na sua vida esse conhecimento”. Portanto, o que Deus manifestou ao homem, implica com propriedade que esse conhecimento, de alguma forma, pode ser negligenciado pelo ser criado, mas jamais, neutralizado.

O apóstolo Paulo  não especifica em detalhes de que tipo de conhecimento se trata, porquanto o contexto desta seção mostra de forma geral que se refere somente ao que Deus soberanamente decidiu para ser conhecido pelos homens, pelo fato de ser o Criador deles. Estes foram feitos segundo a sua imagem, pois o universo no seu todo é uma prova que conclama esse conhecimento.

Essa realidade é exposta por Paulo, quando disse: “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente” (Rm 1.20, NVI).  O Deus revestido com toda sua majestade não se limita ao espaço ou tempo; pelo contrário, a criação e os atributos invisíveis dele são próprias testemunhas da sua existência, pois seu eterno poder e sua divindade têm sido vistos pelos homens de forma óbvia. Paulo reportou-se ao salmista Davi para fundamentar essa afirmação: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite” (Sl 19.1-2, NVI).

Portanto, somente “o insensato diz no seu coração: Deus não existe. Todos se corrompem e praticam abominações; não há quem faça o bem” (A21, Sl 14.1). Para Stern (2008, p. 364), é assim que a Bíblia chega mais perto de “provar a existência de Deus”, pois não há razão por que ela deveria prová-la. Pelo contrário, os pecadores precisam se esforçar para ignorar Deus; os mecanismos de defesa requerem energia constante para serem mantidos por pessoas que, motivadas por sua injustiça, mantêm a supressão da verdade.

Visto que os pecadores insensatos mantêm os seus corações endurecidos, mesmo contemplando as incríveis obras divinas no universo, inclusive neles mesmos, “sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1.20b, NVI). Para Calvino (1997, p. 65), tal fato nos homens, mesmo vetados da misericórdia divina, “prova nitidamente o quanto os homens podem lucrar com a demonstração da existência de Deus, ou seja, total incapacidade de apresentar qualquer defesa que os impeça de serem justamente acusados diante do tribunal divino”.

Na sequência, no versículo 21, Paulo imprime, com firmeza, o nível mais alto do desespero do homem perante o seu Criador: imperdoável por Deus. Se existe uma notícia desesperadora para o homem moral é estar consciente do seu estado de ser criado, vetado do perdão divino. A conjunção grega empregada por Paulo é διότι (dioti) “porque”, a qual designa causa, ou o motivo de tal ação. “Porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu” (Rm 1.21, A21). É importante ressaltar os dois verbos utilizados nesse versículo e conjugados no tempo pretérito perfeito: glorificaram e deram. Aqui Paulo descreve um histórico da depravação total e definitiva da humanidade instalada com a queda de Adão (Gn 3).

Entretanto, ao ser humano não basta apenas ter conhecimento de Deus ou reconhecer a sua existência; para Paulo isso não justifica nada. Os seres humanos têm consciência de que há um Deus e, por mais que sejam ateus, a negação da verdade não se traduz em anulação da existência da divindade do Deus Supremo. Todavia, a grave denúncia do apóstolo Paulo é no sentido de que estes homens “não o glorificaram como Deus e nem lhe deram graças”; eles estão vivendo e se comportando como se Deus não existisse.

Segundo Stern (2008, p. 365), se você reconhece ou não a existência de Deus, a questão não é essa. Até os demônios creem em Deus, mas a ‘crença’ deles os faz tremer [Tg 2.19], porque eles sabem que não podem evitar o castigo que Deus tem para suas más obras e pensamento”. Por isso, é aceito como axiomático que saibam quem Deus é (Rm 1.18-20) e estejam cientes da sua existência. A questão, melhor dizendo, é que eles “não o glorificaram como Deus e nem lhe agradeceram.

A segunda parte do versículo 21 completa estas duplas negações “não e nem”, descrevendo assim a soberba e a ingratidão do homem. A forma como Paulo tece o seu argumento revela o que deveria ser feito para Deus, mas infelizmente não foi, contudo, o que aconteceu, foi uma ação praticada de maneira oposta por estes homens; “pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu” (Rm 1.21b, A21).

“Tornaram-se” deixa claro que a ação não foi externa, nem eles foram passivos, mas sim, eles mesmos decidiram se tornar tolos em suas enganosas especulações. Segundo Paulo, o coração insensível se agarra na escuridão, “os seus pensamentos se tornaram tolos, e a sua mente vazia está coberta de escuridão” (NTLH).  A ação é praticada por um agente ativo, denotando, assim, as consequências negativas que transformaram as vidas deles e os conduziram à imoralidade.

O coração humano é o centro da sua projeção, pois é dele que brota tudo quanto a ideia do homem superior — desejo de ser igual a Deus ou a suposta ciência de que Deus não existe. E ainda, se ele existisse, não tem nada a ver com o ser humano — teísmo aberto. A falsa crença em Deus, colocando-o no universo dele e o homem no seu, cria naturalmente dois reinos antagônicos ou no mínimo desconexos: um manda no céu e outro manda na terra, pois tais homens não querem estabelecer um relacionamento pessoal com Deus. Para Stern (2008, p. 365), não se relacionaram [seres humanos] pessoalmente com ele [Deus] como quem ele é. É esta falha inicial que provoca a longa decadência. Uma vez que Deus não está mais em seu pensamento. Todas as coisas se tornam fúteis ou ‘vãs’. Seu coração se torna espiritualmente obtuso; e sem a luz de Deus [Rm 8.12] […].

Para Paulo, estes homens enganaram a si mesmos, porque “Dizendo-se sábios, tornando-se loucos” (Rm 1.22, A21). O efeito do pecado sobre a mente humana é mudar a sua falsa inteligência em loucura (1Co 1.17-27); como acertadamente Calvino (Apud WILSON, 1969, p. 30) afirma, quando os miseráveis homens vão em busca de Deus, em vez de subirem mais altos que eles próprios, como deveriam fazer, avaliam Deus por sua própria estupidez […]. Daí, não o conceberam segundo o caráter no qual ele se manifesta […].

O termo  empregado por Paulo para descrever os falsos sábios é σοφοὶ (sofhoi), o qual também se traduz por “filósofos”. Os homens da antiguidade, e até a era moderna ou pós-moderna, se orgulhavam e estão se orgulhando por gabar-se de ser filósofos, ou seja, os eruditos da filosofia, ciência sobre a qual se teria dito que é a mãe de todas as demais ciências no campo do saber.

Os seres humanos recusaram conceber Deus como Deus e se declararam idólatras ao optar por honrar algo no lugar de Deus. Entretanto, eles reprimiram a verdade divina a fim de escapar de sua condenação, e, assim, supostamente viver de um modo livre e independente. Essa supressão nada mais é do que a distorção da verdade por mentira (Rm 1.25). A busca do ser humano por ser livre o conduziu até o ponto de abandonar a verdade e tornar-se quase semelhante a um animal em todos os aspectos: agir e viver instintivamente. Como Eliade (1992, p. 98) sustenta acerca do homem moderno, “só será verdadeiramente livre quando tiver matado o próprio, o último Deus”.

Sem demora, Paulo, com a conjunção coordenativa “e”, dá sequência ao versículo 22 para explicar a insensatez dos homens que se dizem sábios, mas na verdade se tornaram loucos. “E substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos repteis” (Rm 1.23, A21). Paulo apresenta o conhecimento que recebeu no Antigo Testamento, referente à desobediência dos seus antepassados judeus, de abandonar YHVH para seguir outros deuses. “Em Horebe, fizeram um bezerro e adoraram uma imagem de fundição. Assim trocaram sua glória pela imagem de um boi que come capim. Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que havia feito grandes coisas no Egito” (Sl 106.19-20, A21). No livro do profeta Jeremias também se encontra a declaração de Deus: “Mas o meu povo trocou a sua glória por aquilo que é imprestável” (Jr 2.11b, A21).

Depois de minar a verdade de Deus e de não reconhecer a glória divina, o ser humano depravado, em seu ser, ficou sem Deus. Contudo, a sede ontológica de adoração faz parte da constituição humana. Se não adora ao Deus verdadeiro, adorará um falso deus, mesmo que venha a ser por isso condenado! Esse fato esclarece a tendência humana de se entregar à idolatria. “O ser humano trocou a glória do Deus verdadeiro por deuses substitutos que ele próprio havia feito. Colocou a vergonha no lugar da glória, corruptibilidade no lugar da incorruptibilidade, as mentiras no lugar da verdade” (WIERSBE, 2012, p. 675).

Há uma observação relevante nesta lista de falsos deuses: o ser humano ocupa a primeira colocação. A iniciativa da idolatria parte do homem, pelo homem e para o homem, não de Satanás; esta seria a descrição esperada no tocante a idolatria. Porém, isso não significa que Satanás está de fora dessa ação injusta; pelo contrário, o que Paulo descreveu acerca dos homens, em sua depravação, foi o resultado do pecado causado por Satanás no jardim de Éden.

Em Gênesis 3.5, encontra-se o relato do episódio primário em que, pela primeira vez, o ser humano foi seduzido por Satanás a desejar ser como Deus, caso comesse do fruto proibido por Deus: “Na verdade, Deus sabe que, no dia em que comerdes desse fruto, os vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal” (A21). Segundo Wiersbe (2012, p. 675),

Satanás encorajou o homem a exaltar a si mesmo. Em vez de os seres humanos, feitos à imagem de Deus, fizeram deuses para si a sua própria imagem e se rebaixaram a aponto de adorar aves, insetos e outros animais.

Macdonald (2008, p. 418) salienta que, “ao adorar ídolos, o ser humano adora demônios. Paulo afirma expressamente que os sacrifícios oferecidos pelos gentios aos ídolos são sacrifícios feitos a demônios, e não a Deus (1Co 10.20)”.

Portanto, nota-se que o ser humano faz de tudo para se livrar de suas más ações; a troca do objeto da adoração, do Deus Supremo para o deus (homem, satanás e os seus demônios), foi a consequência definitiva da depravação humana. Pois Deus culpou e condenou o homem por ter sido ele o responsável por seus atos perversos e impiedosos. Isso deixa claro que a inocência dele foi vetada pela revelação geral de Deus. Ou seja, ninguém é poupado em seus atos por justificar desconhecer as leis divinas.

  1. As razões que levaram Deus abandonar os gentios (Rm 1.24-28)

Os versículos 24 a 28 explicam as fortes razões que levaram Deus a retirar sua misericórdia daqueles que decidiram pela idolatria. Paulo registra as tríplices rejeições: “Deus os entregou”, “Deus os entregou”, ”foram entregues pelo próprio Deus” (Rm 1.24,26,28, A21). A conjunção do verbo “entregar”, no pretérito perfeito, exibe o sentido do abandono pleno do Criador, como uma resposta iminente de Deus deixando os seres humanos a mercê de suas perversidades explícitas nos versículos 22 e 23. Abaixo, veja como estas três entregas-rejeições foram apresentadas por Paulo.

Primeira entrega

Paulo fundamenta-se na resposta de Deus à perversidade humana, iniciando com o motivo da entrega: “É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações, para desonraram seus corpos entre si” (Rm 1.24, A21). Deus, em sua ira, os entregou, isto é, foram pagos segundo a medida dos seus pecados (Rm 1.26,28). Para Radmacher (2010, p. 363):

A ira de Deus já se manifesta em nossos dias (v.18), porém, ela se manifestará plenamente por ocasião da volta de Cristo (1Ts 1.10). A Bíblia nos informa que Deus não desistiu da humanidade, mas Ele permitiu que ela se afundasse no pecado, de acordo com os desejos pecaminosos do coração humano. Frequentemente, Deus dá ao homem novas oportunidades de enxergar toda a malignidade do pecado.

O evangelho, além de proclamar o juízo vindouro, também prega o juízo presente, pois fala das consequências na vida terrena para quem não o aceitar. Isso é atestado com o tipo da entrega descrita por Paulo no versículo 24. Os seres humanos, assediados neste contexto, foram entregues à impureza sexual, prática ilícitas, ao desejo ardente de seus corações — intensidade da prática — demonstrando a amplitude e intensidade do mal projetado e armazenado no coração humano. A preposição “para” indica que a imoralidade humana e o coração insensato do homem produzem o seguinte estado: “desonraram seus corpos entre si”. Macdonald (2007, p. 418) sustenta:

Em outras palavras, a ira de Deus se voltou contra toda a personalidade do ser humano em resposta a concupiscência perversa do coração dos homens. Deus os entregou à impureza heterossexual: adultério, relações ilícitas, lascívia, prostituição, etc. A vida de tais indivíduos se tornou uma sucessão de orgias nas quais desonram os seus corpos entre si.

Nos versículos 23 e 24, Paulo descreve os seres humanos substituindo a glória do Deus incorruptível por imagens parecidas aos seres criados, e essa depravação espiritual resultou em outro abandono divino. No versículo 25 está o registro do motivo da primeira entrega à desgraça do pecado: “Pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito eternamente. Amem” (A21). Este versículo ecoa o sentimento do versículo 23, porém, de modo algum é mera repetição dele. Ora, o que Paulo tem em mente é vindicar a manifestação da severidade do juízo divino sobre os idolatras (Rm 1.24), como a dura resposta à odiosa natureza depravada deles. Depois, revela no versículo 23 a intenção humana de detratar a glória essencial de Deus com sua idolatria. Entretanto, a fervente tribulação de louvor apresentada no texto é também a declaração da bendita santidade do Criador. Se isso fosse possível ao homem, ter sucesso em modificar a glória divina, então a linha divisória entre o Criador e a criatura deixaria de existir, e Deus já não seria Deus (WILSON, 2007, p. 33).

Segundo o mesmo autor, é absolutamente impossível ao homem obter sucesso em sua pecaminosidade na tentativa de diminuir a glória de Deus. Mais adiante, Paulo registra que todas as criaturas terão de pagar tributo aos direitos da glória do Criador, querendo ou não, seja sob a misericórdia ou sob a ira (Rm 9.22,23; Ap 4.11). Paulo culpou os homens em dois graves erros: um residente em suas mentes, “eles substituíram a verdade de Deus em mentira”, e o outro residente na vontade deles: “serviram mais a criatura no lugar do Criador”. David Brown (Apud WILSON, 2007, p. 34) bem dizia: “Professando servir o Criador por meio da criatura, logo deixaram de ver o Criador, fixando-se na criatura”.

Segunda entrega

Por terem invertido a ordem e a essência do Criador, a depravação dos seres humanos os levou a um abandono vergonho: “Por causa disso, Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza” (Rm 1.26, NVI). O termo grego descrito no texto quanto à relação das mulheres também pode ser traduzido por “fêmeas”, uma vez que Paulo escreveu θήλειαι (thêleiai; fêmeas) e não γυνή (gynê; mulher).

Ora, como a palavra θήλειαι aparece no dicionário e léxico grego sem nenhuma declinação, é θήλυς (thelus). O dicionário grego de Taylor (1991, p. 99) traduz o termo por “sexo feminino – mulher”. oO Novo Testamento Grego (ed. ALAND e outros, 2009, p. 857) traduz “feminino como substantivo, mulher, Rm 1.26”. Já o léxico do Novo Testamento de Gingrich & Danker (1984, p. 98), traz “fêmea”. O Novo Testamento Interlinear da Vida Nova traduz θήλειαι por “mulheres”; e o de Luz apresenta “fêmeas”.

Entretanto, as versões em língua portuguesa traduzem por “mulheres” e não “fêmeas”, pois thêleiai (fêmeas) é a sua forma no plural do caso nominativo, termo este diferente de γυνή (gynê; mulher ou esposa). Independente da tradução, “mulheres” ou “fêmeas”, a intenção apresentada por Paulo, quando preferiu empregar θήλυς e não γυνή, é que os comportamentos sexuais das mulheres se fundiram até mesmo no sentido de que abandonaram a sexualidade de mulher e se fizeram superficialmente fêmeas semelhantes às fêmeas dos animais. Portanto, Paulo não está tratando mais da imoralidade sexual em termos gerais, como no versículo 24, porém a torna específica e centraliza a atenção das repugnantes manifestações da depravação humana, a saber, a homossexualidade obstinada.

“As paixões vergonhosas” destacam o sentido do versículo 24b “para desonrarem seus corpos entre si”. Paulo não ataca as mulheres diretamente; parece que a ideia do pecado neste versículo remonta à queda adâmica. No entanto, “as suas mulheres”, ou melhor, “suas fêmeas”, “trocaram suas relações naturais por outras, contrarias à natureza”. Isto nos leva a lembrar da mesma troca já registrada nos versículos 23-25; a glória do Deus imortal por uma imagem de seres criados. Deus, que é a verdade, trocado por mentira. Segundo Hendriksen (2001, p. 103), “é evidente que o apóstolo está censurando a prática obstinada da homossexualidade ou sodomia”.

Ao censurar a homossexualidade, primeiro a prática lésbica é reprovada: relações sexuais entre as mulheres. É evidente que o conceito de lesbianismo ou lésbica não foi descrito por Paulo, mas a prática, tendências e comportamentos, são obviamente descritos e condenados neste trecho e, consequentemente, na visão geral da Bíblia.  Portanto, “pois até as mulheres trocam as relações naturais pelas que são contra a natureza” (NTLH) deixa claro que o apóstolo condena as fêmeas lésbicas, as quais inverteram o uso legitimo do sexo.

Segundo Lopes, lesbianismo é a relação sexual entre mulher e mulher e já era uma prática “normal” na época de Paulo, mas não como nos dias atuais. Ainda segundo Lopes (2010, p. 91), “Deus tirou o pé do breque. Entregou essas pessoas a paixões infames, e as mulheres se entregaram ao lesbianismo”. Essa afirmação de Paulo, em 1.26, “está enfatizando o grau superlativo da degradação. As mulheres sempre foram guardiãs da moralidade.  Quando até as mulheres se corrompem, a cultura já chegou ao fundo do poço”, diz Lopes.

Infelizmente, não são somente as mulheres que perderam suas identidades de feminismo em relação ao sexo. “Os homens, da mesma maneira, abandonando as relações naturais com as mulheres, arderam em desejo sexual uns pelos outros, homem com homem, cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro” (Rm 1.27, A21). Paulo inicia este versículo com o adjetivo que coloca em igualdade de dois gêneros, classificando-os em uma mesma situação, ὁμοίως (omoiôs; semelhantemente). A boa tradução da versão Almeida Século 21 “os homens, da mesma maneira” deixa claro e explícito que a depravação atingiu igualmente homens e mulheres (Rm 1.26), no mesmo nível (Rm 1.27).

Sendo assim, não é surpreendente a observação de que estes homens foram denominados ἄρσενες, (arseves; machos) e não ἀνθρώποἱ (antrõpooi; homens (plural)), ou ἀνθρώπος (antropos; homem (singular)). As versões da língua portuguesa traduzem homens/homem (A21, NTLH, KJA, NVI, RA, e a Vulgata-Latina traz masculi e não hominis).

Paulo preferiu primeiro iniciar com as mulheres, para enfatizar ainda mais a depravação através da prática odiosa, mas sem excluir a estrutura masculina, pois esses “abandonando as relações naturais com a mulher…” (Rm 1.27b). O termo grego para natureza é φυσικὴν (fhysikên), o qual denota “de acordo com a natureza”, isto é, os homens violaram o princípio do uso natural e correto do seu sexo, criado para a procriação e prazer conjugal, ato exclusivo entre o homem e a sua mulher (Hb 13.4).

Com o abandono do uso ordenado por Deus para a relação sexual, a depravação maculou os homens e eles “arderam em desejo sexual uns pelos outros, homem com homem”. Além do ardor, Paulo aponta a intensidade do desejo homossexual utilizando a palavra grega empregada para ação reflexiva ἀλλήλους (allêlous; uns pelos outros). Nesse termo, há uma preposição muito forte que requer afinidade de pessoas da mesma comunidade. Paulo, em outras cartas, recomendou aos cristãos que tenham amor e que orem uns pelos outros, para indicar a ideia de comunhão local. Por incrível que pareça, os seres humanos, em seu estado profundo de depravação, vivem e se relacionam no homossexualismo em uma perversa e imoral harmonia.

O texto não afirma que tais pessoas tiveram algumas relações sexuais entre si mesmas. A ênfase é muito mais do que uma mera prática homossexual, pois se trata de viver e aprovar o homossexualismo. Para Paulo, bastaria o desejo sexual ardente nos corações dos homens para com homens para que se caracterize pecado abominável perante Deus; todavia eles foram à prática “cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro” (Rm 1.27, A21).

É importante ressaltar que o termo “erro”, encontrado em nossa versão, é uma tradução idiomática da palavra grega πλάνης (palanês; desvio); em outras palavras “desvio do alvo traçado por Deus”. Esta ideia define muito bem a origem do pecado. Portanto o erro denota, em primeira instância, o desvio do caminho ou de uma instrução em que a pessoa foi orientada. A queda de Adão é uma evidencia óbvia para isso.

Homossexualismo (Rm 1.24,27), segundo Lopes (2010, p. 92), é fruto do “homem que desprezou o conhecimento de Deus e perverteu o culto divino, perdeu a própria identidade. Homossexualismo é uma total negação do mundo real”. A prática homossexual nega qualquer possibilidade de continuidade da raça humana e ameaça extinguir a identidade da pessoa como fruto do relacionamento biológico entre seres humanos do sexo oposto. Como deve ser o posicionamento cristão perante o universo do homossexualismo? Lopes nos responde:

Não podemos concordar com a bandeira levantada pela homofobia [sic] , quando os ativistas desse movimento afirmam que o homossexualismo é uma opção normal e que o casamento entre as pessoas do mesmo sexo é uma união de amor que deve ser chancelada pela lei de Deus e dos homens. Ao descrever homossexualismo, Paulo aponta sete características desse pecado abominável: 1) imundícia (1.24); 2) desonra para o corpo (1.24); 3) paixão infame (1.26); 4) antinaturalidade (1.26); 5) contrariedade à natureza (1.26); 6) torpeza (1.26) e 7) erro (1.28)” (LOPES, 2010, p. 92).

O autor do livro de Provérbios estava ciente da amplitude progressiva das manifestações da depravação humana quando afirmou: “Seis coisas o SENHOR detesta, sim, a sétima que ele abomina” (Pv 6.16, A21). As seis características do pecado da depravação sexual apontadas por Paulo são insuportáveis para Deus, porém, a sétima lista delas está no topo da escala, pois é do erro ou do que brotam todos os tipos de pecados. É certo que isto não traduz graus de pecados, mas sim, intensificação da manifestação natureza pecaminosa já totalmente depravada.

Terceira entrega

Romanos 1.29 começa com uma conjunção aditiva de uma oração, και (kai; e), seguida do adjetivo καθèς (kathôs); ambos podem ser traduzidas por “e como, assim como, conforme, de acordo com”. “Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus” (Rm 1.28a, A21), é uma implicação causal de que suas atitudes foram reprovadas por Deus. O apóstolo Paulo insiste em sua teologia de que Deus não pode ser responsabilizado pelos erros humanos, e nem os homens que ignoram a Deus são independentes ou irresponsáveis por suas ações. Em outras palavras, agindo eles em seu suposto absolutismo de decisão, não estão isentos da intervenção de Deus.

A segunda parte do versículo 28 revela o controle absoluto do Deus todo poderoso sobre as suas criaturas. Por terem rejeitado a majestade de Deus, estes homens “foram entregues pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm” (Rm 1.28b, A21). Somente neste versículo, Paulo repete a ideia da reprovação divina pela ação do homem perverso. No início do versículo 28, ele emprega οὐκ ἐδοκίμασαν (ouk edokimasan; não foram aprovados por Deus), e na segunda parte do mesmo versículo encontra-se ἀδόκιμον νοῦν (adokimon noun; “mente reprovada” ou “mente não aprovada”). A tradução da A21, “mentalidade condenável”, apresenta a fundamentação paulina da depravação que causou a esses homens a rejeição de Deus.

A maior desgraça com a qual o ser humano pode se deparar é ser reprovado por Deus. Se o homem for reprovado pelo homem ainda terá esperança pela frente, pois o julgamento humano limita-se apenas às coisas externas ou aquelas que ele mesmo pode ver, enquanto Deus vê além e conhece toda verdade dos fatos e intenções (Sl 139). Ser reprovado por Deus significa a aplicação do justo juízo divino, o qual intensifica a pratica de mais ações ilícitas, uma vez que tais atitudes geram consequências punitivas por si mesmas. Deus entregou os seres humanos depravados aos “seus maus pensamentos, de modo que eles fazem o que não devem” (Rm 1.28, NTLH). Sem o temor do Senhor no coração, e tendo as mentes deturpadas e incapazes de funcionar com consciência para zelar pelos valores morais humanos, o resultado foi fazer “tudo quanto suas mentes malignas poderiam imaginar” (Rm 1.28, BV).

Segundo Stott (2007, p. 86), os homens, com a sua mente depravada, são conduzidos não apenas à imoralidade, mas a praticar o que não deviam (Rm 1.28), “evidenciando em uma inúmera variedade de práticas antissociais, as quais, juntas, descrevem a derrocada da comunidade humana, na medida em que os padrões desaparecem e a sociedade se desintegra”. O ser humano entregue a sua depravação gera a sua própria desgraça.

  1. Uma lista de pecados (Rm 1.29-32a)

Paulo apresenta uma longa lista de pecados praticados pelos seres humanos depravados em seu ser, e por isso são reprovados por Deus. A disposição das mentes deles é a fonte para fazer as coisas que saciam sua sede pecaminosa. A lista de pecados registra vinte e um itens encontrados nos versículos finais de Romanos 1. Para Stott, os 21 itens de vícios que compõem a lista não eram incomuns na época, na literatura estoica, judaica e  na igreja primitiva. Todos os comentaristas parecem concordar que é uma lista que resiste a qualquer classificação mais esmerada.

A identificação dos vícios é dividida por Stott em seis partes, a saber:  1) Começa com quatro pecados generalizados, dos quais os seres humanos tornaram-se cheios e diz respeito a toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação (Rm 1.29); 2) Depois vem outros cincos pecados que retratam relacionamentos humanos maculados ou rompidos: inveja, homicídio, discórda, engano e malícia (Rm 1.29); 3) Prosseguindo, segundo Stott, vem um par isolado que sublinha a calúnia e a difamação — bisbilhoteiros, caluniadores; 4) Em seguida, outros quatro tipos de pecados que tratam de maneiras de orgulho distintos e extremos: inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; 5) Aparece outro par independente de palavras que traduz pessoas que são criativas em relação ao mal e rebeldes em relação a seus pais: inventam maneiras de praticar o mal e são desobedientes aos pais (Rm 1.30); 6) A lista termina com outros graves tipos de pecados: insensatos, desleais, sem amor pela família e implacáveis (ou como diz a BLH, “são imorais, não cumprem a palavra, não têm amor por ninguém e não têm pena dos outros” (Rm 1.31)) (STOTT, 2007, p. 86).

A lista dos pecados descridos por Paulo é a mais longa encontrada nas suas cartas e descreve suficientemente a amplitude da depravação da natureza pecaminosa, porém não significa que os pecados das pessoas se limitavam apenas aos da lista. Wilsom argumenta que Paulo não intencionou oferecer um catálogo completo dos vícios da época, mas apresentar uma descrição dos pecados que dominavam o mundo pagão.

[…] O apóstolo não parece seguir nenhuma ordem particular. Às vezes, há associação “de som e às vezes de sentido” (Brown). Paulo não quis dizer que todos esses pecados se achavam em toda pessoa, indivíduo, mas sim, “todos eram culpados de alguns, e alguns eram culpados de todos eles (Poole) (WILSON, 2007, p. 36).

O apóstolo Paulo termina a sua denúncia tenebrosa aos homens que vivem sem nenhuma proteção divina, declarando um agravante: eles são conhecedores do juízo de Deus. A inocência humana, em relação aos seus atos pecaminosos, foi descartada por Paulo durante o seu discurso, particularmente nos versos 18-28. O apóstolo insiste que o que pode ser conhecido sobre Deus foi suficientemente manifestado pelo próprio Deus (Rm 1.19), e mesmo tendo conhecido a Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; ao contrário, tornaram fúteis em suas vanglórias e especulações e o seu coração insensível se obscureceu (Rm 1.21). Portanto, a partir daí, Paulo apresenta as claras razões da inversão da verdadeira essência do Deus verdadeiro, a verdadeira essência do deus falso — inclusive os seres humanos que se auto-deificam — das imagens e dos ídolos.

Por isso, Paulo afirma que os seres humanos depravados foram sentenciados “conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que praticam essas coisas” (Rm 1.32a, A21). A palavra grega traduzida por decreto é δικαίωμα (dikaioma), que possui a mesma raiz de justiça (dikaiosyne) e de justo (dikaios). No entanto, a justiça de Deus é também punitiva, e isto em nada afeta a verdade de Deus continuar sendo perfeito em todas as suas ações. Mais a frente, o texto paulino define dois polos que separam definitivamente o homem que tem Deus como seu Salvador e vive sob sua proteção, do homem sem Deus, que vive desprotegido por estar fora da graça especial de Deus. A sentença divina anunciada por Paulo em Romanos 6.23 serve como salário para todos os transgressores da justiça divina, os quais são dignos de morte. “Porque o salário do pecado é morte”, entretanto, a ruptura da impiedade acontece por um ato de graça, “mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Jesus Cristo, nosso Senhor” (A21).

  1. Aprovar o ato ilícito é cometer pecado (Rm 1.32b)

Nesse trecho, o leitor é confrontado com questões acerca da concordância com alguém em pecado, mesmo sem ter praticado. Paulo deixa claro que os que praticam ações pecaminosas são dignos de morte, porém “não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (Rm 1.32b, A21). É verdade que no texto grego não se encontra os dois verbos “aprovar” e “praticar”, e sim “parecer” e “fazer”. A frase grega ἀλλὰκαὶ συνευδοκοῦσιν τοῖς πράσσουσιν (ala kai syneudokusin toîs proassoysin) pode ser traduzida por “mas também parecem bem com os que fazem”.

Cranfield (2005, p. 52) descreve, com firmeza, o que Paulo quis dizer ao afirmar que não apenas os que cometem pecados, mas também os que concordam com os que cometem são dignos de morte:

A frase sugere que aprovar a prática de más ações de outros é ainda mais depravado do que fazê-las; […] que é, de fato, verdade que o homem que aplaude ou encoraja os que praticam algo vergonhoso, embora não praticando ele mesmo, não só é tão depravado como os que praticam, mas muitas vezes, se não sempre, é mais depravado do que eles realmente. Pois os que aplaudem e encorajam as ações perversas de outros contribuem deliberadamente para o estabelecimento de opinião pública favorável ao vício, e, com isso, promovem a corrupção de uma multidão inumerável; eles não terão estado muitas vezes […], (CRANFIELD, 2005, p. 52).

Portanto, Paulo veta qualquer futura objeção humana, quando se quer livrar do juízo ou tentar se justificar da sua falsa inocência. Uma pessoa pode até ser inocentada pelo juízo humano, mesmo tendo sido o infrator, desde que não tenha suas más ações vistas pelos homens, mas jamais poderá esconder-se aos olhos do Todo Poderoso. Os pecados de todos os seres humanos não são considerados apenas pela mera prática, muito mais que isso, são considerados pecados que produzem depravação total. E mais, toda maldade que nasce no coração e toda concordância para com aqueles que vivem as suas vidas sem nenhum temor ao Deus Criador estão debaixo da justa condenação divina.

Palavras finais

Acabamos de apresentar a denúncia e repúdio de Paulo aos seres humanos depravados. A forte linguagem empregada parece dar a entender que os povos gentios foram alvo particular das denúncias, uma conclusão restrita no que diz respeito à significância e graves consequências do pecado. Visto que todos os seres humanos pecaram, somos direcionados a aplicar a doutrina da depravação pelo pecado a todos os povos que viviam ou que estão vivendo sob domínio da impiedade e injustiça, independentemente das origens étnicas. O próprio Paulo, em sua carta aos Efésios, descreveu a situação de pessoas que viviam sem Deus, sem nenhuma distinção racial, como se segue:

Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos (Ef 2.3-5, NVI).

Entretanto, o que parece inacreditável é que, muitas vezes, aqueles que se intitulam cristãos estão tendo os mesmos comportamentos parecidos com os dos pagãos. Pseudo cristãos dizem que têm o conhecimento de Deus, contudo, não fazem a sua vontade. Este assunto Paulo retoma em Romanos 2.1-8, só que desta vez o foco são os moralistas judeus e não judeus, pois eles também cometem pecados e serão julgados por Deus.

É prudente registrar que a descrição dos pecados catalogados por Paulo em Romanos 1.29-32a não deve denotar que são mais graves em relação aos outros que não foram listados, muito menos que devem ser interpretados como se fossem somente estes pecados que foram condenados. Ora, qualquer pecado é pecado mortal e depravador, isto é, qualquer pecado é um desvio de um alvo traçado por Deus, e neste sentido, quem se desviar deste alvo é tido como depravado, transgressor. Por isso, nenhum ser humano é isento de pecado, exceto Jesus Cristo, o nosso Grande Deus (Tt 2.13). Quando o cristão autêntico comete pecado, ele deve se sentir contrito, arrependido e confessar perante Deus o seu erro. Esta atitude traduz bem o pleno sentido bíblico da santificação, e Paulo destina os capítulos 6 a 8 da carta aos Romanos para tratar desse assunto.

É ainda relevante afirmar que os perfis de depravação apresentados refletiam o contexto da época e eram os pecados mais comuns ou populares no mundo greco-romano. É como se hoje, no século XXI, se pedisse para um pastor cuidadoso e capaz apresentar uma lista dos pecados mais praticados no mundo atual. Certamente essa lista hodierna não teria muita diferença daquela apresentada por Paulo. Pessoalmente, eu relacionaria onze pecados: imoralidade, mentira, assassinato, roubos, fraude, tráfico humano, corrupção, arrogância, nepotismo, idolatria e descriminação/injustiça.

Portanto, na qualidade de cristão regenerado, cada crente deve evidenciar, através da sua prática, a sua fé em Cristo. Os filhos de Deus não são nem vivem como depravados. O povo de Deus foi resgatado da depravação do pecado para ser luz às nações, a fim de que o nome de Cristo seja glorificado (1Pe 2.9).

Em um mundo de pessoas que vivem alienadas de Deus e depravadas pelo pecado, Deus tem homens e mulheres que não se deixam ser vencidos pelo pecado, pessoas que se humilharam e decidiram imitar a Cristo. Que contraste radical! Depravação total versus santidade; vida de pecado versus vida luta contra o pecado. Que Deus nos ajude a servi-lo e adorá-lo sempre!

 

 

Autor: Roger Cá

Fonte:  Teologia Brasileira

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.