Exortação aos Debatedores de Teologia

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Em meados dos anos 90, de forma discreta e inesperada, várias igrejas, influenciadas pela teologia reformada, começaram a expandir nos Estados Unidos. Além dessas igrejas, surgiram também seminários reformados e ministérios de capacitação de igrejas e líderes, como o 9 Marks (Washington, DC), de Mark Dever, Desiring God (Minneapolis), de John Piper, Ligonier Ministries (Orlando), de R. C. Sproul, Grace to You (Sun Valley, California), de John MacArthur, o seminário teológico Batista do Sul, de Albert Mohler, cujo intuito é resgatar princípios conservadores da Fé Reformada, entre outros.

Todavia, foi apenas no início dos anos 2000, com a eclosão da internet e o surgimento de sites, blogs e do you tube, que a teologia reformada começou a despontar novamente em todo o mundo, agregando muitos novos cristãos.

No Brasil, a teologia reformada tem crescido significativamente durante os últimos 10 anos. Cresce o número de literatura reformada, de igrejas, de instituições de ensino teológico, de eventos, de sites, blogs e de pessoas que afirmam serem adeptas da fé reformada, especialmente jovens e oriundos do pentecostalismo.

Atualmente, o Facebook é a maior rede social do mundo. E nesta plataforma não poderia ser diferente: a teologia reformada é excessivamente divulgada. Isso é prejudicial? Não! De forma alguma! As redes socais, quando bem utilizadas, são uma ferramenta poderosa no evangelismo e no progresso da reforma. No entanto, o que tem sido contraproducente, nefasto, diabólico, hostil à reforma e ao crescimento na vida cristã, são os populares DEBATES DE TEOLOGIA! Vamos entender melhor sobre essa questão…

Velhos Debates e Novos Debates

A reforma protestante, que teve início no século 16, com Lutero, foi marcada por intensos debates sobre questões cruciais da fé cristã. Doutrinas importantes que compreendem a salvação, como a justificação pela fé, somente, entre outras, estavam sendo veementemente adulteradas pela igreja católica e, posteriormente, pelos arminianos, isso sem mencionar outros debates que marcaram a história da igreja. Por isso, os debates foram tão necessários naquela época, para que fossem estabelecidas, através de documentos e confissões baseadas na Escritura, as doutrinas corretas que a igreja cristã deveria observar.

Contudo, a intenção dos reformadores não era somente apologética, isto é, defender a fé cristã refutando as heresias e os equívocos do catolicismo, arminianismo e outros movimentos perniciosos, como é atualmente, com os novos debates; pelo contrário, os antigos reformadores também primavam pelo ensino e a piedade. O que isso quer dizer? Os reformadores possuíam uma teologia equilibrada. Eles expunham as heresias, os erros teológicos, refutava-os e ensinavam, com profundidade e piedade, as questões em voga.

Não podemos dizer o mesmo dos debates hodiernos, que geralmente acontecem nas redes sociais, principalmente no Facebook.  Estes debates online, em sua maioria, são caracterizados exacerbadamente por uma apologética desprovida de amor, hostil, sem profundidade e, sobretudo, impiedosa. O que está em jogo não é a libertação de uma pessoa presa nas heresias ou a edificação espiritual, mas, sim, a disputa de egos, aquele tem mais conhecimento que o outro.

Jovens e homens impiedosos

Os debates que acontecem constantemente no Facebook são bem diferentes. Conforme eu disse, no passado, doutrinas importantes da fé cristã estavam sendo distorcidas, e, portanto, os debates foram imprescindíveis. Hoje, no século 21, com a teologia praticamente desenvolvida, muitos debates são completamente desnecessários.

Eu já fui um debatedor virtual. Em 2010, quando o Facebook não era tão popular como hoje, e ainda existia a extinta rede social Orkut, eu era um jovem de vinte poucos anos que havia descoberto a teologia reformada há cerca de um ano, em 2009. Um “novo reformado” que acabara de romper definitivamente com o neopentecostalismo, embora já fosse cristão.

Discuti bastante no Orkut e, posteriormente, com o fim desta rede social, no Facebook. Fui uma pessoa extremamente obstinada, inexorável, egocêntrica. A minha alegria não residia em ver um cristão sendo liberto do engano religioso com as informações teológicas que eram apresentadas nos debates. Eu gostava de humilhar implacavelmente os cristãos mais simples, limitados no conhecimento bíblico e teológico, com seus argumentos equivocados e heréticos. Vencer um debate, exibir minha inteligência e ser aclamado nos comentários era o meu prazer, e não “ganhar o irmão equivocado”. Ao invés de atrair, eu repelia as pessoas. Era demasiadamente áspero. Na verdade, eu fui um exemplo nefasto para o evangelho, para a fé e a espiritualidade reformada, como muitos debatedores virtuais são.

De 2010 a 2014 eu fui assim. Entretanto, convencido internamente pelo Espírito Santo através das Escrituras, reconheci que minha conduta nas redes sociais era assaz pecaminosa e decidi abandonar os debates. Me arrependi amargamente, implorei o perdão de Deus em Cristo Jesus e a restauração espiritual. Eu estava saturado de conhecimento teológico, mas longe da presença de Deus.

Muitos dos populares “teólogos de facebook”, “apologistas polêmicos”, “caçadores de heresias”, como rotularam a si mesmos, são jovens, homens [mulheres e até mesmo senhoras!] petulantes eivados de arrogância, os quais conheceram a fé reformada em meses, um, dois ou três anos. Vários desses não possuem formação teológica, o conhecimento bíblico é deveras limitado, escrevem incorretamente… Debatem sobre quase tudo, mas sabem muito pouco. Questões difíceis e que não foram estabelecidas na teologia pelos grandes teólogos do passado, como escatologia, dons espirituais, credobatismo e pedobatismo, liturgia, entre outras, são debatidas com avidez pecaminosa por estes “jovens meninos” na fé. Como são patéticos, iludidos e tolos! São anões sentados nos ombros de gigantes da teologia do passado!

2 Timóteo 2.24 – Ao servo do Senhor não convém discutir, mas, pelo contrário, deve ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente…

Tito 3.9 – Mas evita questões tolas, genealogias, discórdias e debates acerca da lei; pois são coisas vazias e inúteis. 

Pastores Imaturos

Não vemos somente jovens, homens e mulheres envolvidos em discussões teológicas nas redes sociais. Muitos  pastores também gostam de debater. Através de seus perfis no Facebook ou por suas Fan Pages, desprovidos de bom senso, equilíbrio, domínio próprio e sabedoria, mas saturados de empáfia, tolice e insolência, pastores incitam debates com os temas mais obtusos que podemos imaginar. Eles sentem prazer em “colocar lenha na fogueira”. Com efeito, seus “discípulos”, que também “adoram” discutir frivolidades, surgem como abelhas, quando suas colmeias são cutucadas pelos pastores.

Assim como os jovens, vocês, pastores, são ardilosos! Hipócritas! Deveriam ser um modelo de piedade e sensatez para a sua igreja e outros cristãos seguirem (1 Co 11.1; Tt 1.4; Hb 13.7). Mas não, vocês são um exemplo de homens para não serem imitados.  O testemunho pastoral de vocês é nocente, maléfico, lesivo para a igreja!

Em vez de serem inimigos, vocês são amigos da discórdia (1 Tm 3.3). Em vez de serem humildes, vocês são arrogantes. Em vez de serem pacíficos, tendem a brigas [virtuais] (Tt 1.7). Em vez de serem equilibrados, vocês são desequilibrados (1.8). São pastores repreensíveis!

Então, não devemos mais debater teologia?    

Indubitavelmente, a maioria dos debates que ocorrem no Facebook são completamente prejudiciais para a fé cristã. O que está em risco não é o crescimento espiritual dos irmãos e uma igreja mais saudável. Afigura mentira ou demasia, mas os “teólogos virtuais” não estão preocupados com a reforma [intelectual e espiritual] nem tampouco com os que estão presos no engano religioso. Na verdade, a motivação daqueles que incitam debates teológicos – através de publicações alegadamente despretensiosas – é simplesmente munir seus egos excessivamente narcisistas. Estes “bezerros de ouro” da pós-modernidade querem ser adorados e ovacionados nos comentários de suas publicações. Semelhante a bandas e cantores famosos, a meta dos arrogados teólogos/debatedores “Facebookianos” [e de suas páginas] é conseguir o maior número de “tietes” ou “fãs retardados”, pois são “viciados” em curtidas; necessitam delas para sobreviverem emocionalmente e não sucumbirem ao descontentamento.

Reconheço a importância e a historicidade do debate teológico na história da igreja cristã no combate de heresias, na defesa da verdade e de uma ortopraxia bíblica. Aliás, endosso o debate teológico nas redes sociais, por efeito da livre manifestação de ideias e como consequência da Reforma Protestante. Ora, não contestar  o erro é admiti-lo, e não defender a verdade é rejeitá-la.

No entanto, rejeito e abomino, como pretexto para a defesa do evangelho, discussões frívolas e ataques pessoais que promovem dissensões, porfias, inimizades e escândalo para a fé cristã, bem como todo e qualquer conteúdo depreciativo e jocoso que atente contra a honra e a imagem de alguém. A discordância e a confrontação de posições diferentes, quando for o caso, devem ser conduzidas com ética e honestidade intelectual, sem ataques ofensivos.

Estou convicto de que é diametralmente incompatível, com os preceitos que devem reger a conduta dos cristãos, posturas antiéticas que fomentam a zombaria e o desrespeito para com os outros, baseadas em distorções e mentiras. Calúnia e/ou difamação é crime contra a honra de alguém, conforme destaca o Código Penal Brasileiro, e é incompatível com o caráter do verdadeiro cristão, que deve expressar uma vida piedosa (Rm 13.11-14; Ef 4.17-32; Cl 3.5-10; 1 Pe 1.14-16; 2.1-2).

Por outro lado, deve-se ter em mente que nem toda discordância de opinião sobre certos assuntos na teologia requer debates públicos ou, na maioria dos casos, online. É necessário recorrer as Escrituras e ao bom senso, a fim de ponderar – com sabedoria, equilíbrio, piedade e intrepidez – se o embate teológico é necessário ou não.

John MacArthur corrobora:

Não estou sugerindo que toda divergência seja motivo para uma discussão aberta, nem mesmo para palavras ásperas. Longe disso. Muitas diferenças de opinião são tão insignificantes que de nada adiantaria procurar briga por causa delas. Conflitos meramente pessoais, debates sobre coisas misteriosas ou vagas e discussões semânticas normalmente entram nessa categoria (2 Timóteo 2:14,23; 1 Coríntios 1:10). Nem todas as questões sobre as quais poderíamos ter opiniões firmes e discordar são de suma importância.

Além disso, ninguém que seja mental e espiritualmente saudável gosta de entrar em conflito só por entrar. Ninguém que pense de um modo bíblico gostaria de brigar ou se daria conscientemente ao gosto de “discutir assuntos controvertidos” (Romanos 14:1). A maioria de nós conhece pessoas que são totalmente propensas a brigas ou incorrigivelmente inclinadas a discussões sobre quase tudo. De modo algum Jesus era assim. E as Escrituras não nos dão licença para sermos dessa forma. Divergências mesquinhas ou insignificantes normalmente devem ser deixadas de lado de um modo gentil ou resolvidas por meio de um diálogo amigável. Qualquer pessoa que esteja preparada para procurar briga por causa de toda diferença sem importância é espiritualmente imatura, pecaminosamente hostil — ou pior. 

Mas, às vezes — especialmente quando uma verdade bíblica de vital importância está sendo atacada, quando a alma das pessoas está em jogo ou (sobretudo) quando a mensagem do evangelho está sendo deturpada por falsos mestres —, é simplesmente errado deixar que uma opinião contrária seja exposta sem nenhuma contestação ou correção. Uma das piores coisas que um cristão pode fazer é demonstrar um tipo de respeito acadêmico fingido ou de cordialidade artificial a quem incita a um erro sério, o qual destrói a alma (Salmo 129:4-8; 1 Coríntios 16:22). A ideia de que uma conversa agradável sempre é superior ao conflito aberto é muito contrária ao exemplo que o próprio Cristo nos deu.

Nem sempre pode ser fácil saber se uma divergência é meramente insignificante ou realmente importante, mas uma aplicação cuidadosa e atenciosa da sabedoria bíblica normalmente esclarecerá quaisquer dúvidas que possamos ter sobre a importância relativa de qualquer verdade admitida. As Escrituras deixam claro, por exemplo, que devemos adotar a postura de tolerância zero com alguém que adultera ou altera a mensagem do evangelho (Gálatas 1:8,9). E aquele que nega a deidade de Cristo ou se afasta essencialmente de seu ensino não deve ser aceito em nossa comunhão nem receber algum tipo de bênção (2 João 7-11).

O princípio é claro: quanto mais qualquer doutrina admitida se aproxima da essência do evangelho, do âmago da sã cristologia ou dos ensinamentos fundamentais de Cristo, com mais diligência devemos evitar as distorções da verdade — e com mais agressividade precisamos combater o erro e defender a sã doutrina.

Para fazer a distinção entre verdades espirituais realmente essenciais e meramente periféricas, é preciso muito cuidado e discernimento. A distinção nem sempre é imediatamente óbvia. Mas não é tão difícil traçar essa linha como algumas pessoas, hoje, alegam. Mesmo que a linha pareça um pouco vaga aqui e ali, não há motivo para eliminar completamente a distinção, como alguns pós-evangélicos parecem estar decididos a fazer.1

Albert Mohler Jr. acrescenta:

A história da igreja nos lembra da necessidade de controvérsia quando a verdade do evangelho está em jogo. Uma e outra vez, vemos momentos cruciais em que a verdade deve ser defendida ou negada. A igreja tem que olhar diretamente para o que está sendo ensinado e decidir se o ensino a respeito das Escrituras é verdadeiro. Isso geralmente produz controvérsia. Se a igreja acreditasse que a controvérsia deveria ser evitada a todo o custo, não teríamos nenhuma ideia do que é o evangelho.

Para nossa vergonha, a igreja tem se dividido muitas vezes sobre controvérsias erradas. Congregações e denominações têm se dividido acerca de questões que são, à luz da Palavra de Deus, indiferentes. Ademais, algumas igrejas parecem prosperar na controvérsia, assim como alguns membros da igreja e líderes são agentes da desunião. Isso traz vergonha e censura sobre a igreja, e distrai a mesma de sua tarefa de pregar o evangelho e fazer discípulos.2

 

Conclusão

Diante do que foi proposto, constatamos que a maioria [95%, para ser mais exato] dos debates que acontecem no Facebook são irrelevantes, frívolos e ignóbeis. Na verdade, tais discussões são simplesmente manifestações repulsivas da corrupção inerente nos corações dos que se envolvem nesta sujeira. Recomendo aos cristãos piedosos a não seguirem e se envolverem com pretensos “teólogos virtuais”, com “pastores ardilosos”, páginas e grupos que estimulam “discussões malignas”. Para os que são propensos a isso, eu os admoesto:

Vocês deleitam-se quando “o circo está pegando fogo”! Gostam de instigar debates para serem “glorificados” por seus “devotos”, não é mesmo? Arrependam-se de seus pecados! Você são demasiadamente vaidosos, narcisistas, arrogantes e impertinentes! Estão repletos de teologia, mas vazios de Deus! O coração de vocês é diabólico! Prestam um desserviço para o reino de Deus! São um escândalo para o evangelho, para os cristãos! Hipócritas! A conduta de vocês nas redes sociais [e fora delas também] é insidiosa!

Muitos de vocês são irregenerados! Precisam nascer de novo! Vocês estão perdidos e distantes de Deus! Necessitam de transformação espiritual! Só assim vocês serão salvos da ira de Deus, que se manifestará em sua plenitude no lago de fogo, que é o destino de vocês na eternidade, se não arrependerem-se de seus pecados! Entretanto, se Cristo, o nosso Senhor, que perscruta os corações, encontrar sinceridade no arrependimento de vocês, certamente serão regenerados, perdoados, salvos e restaurados.

 

 

Leia também Exortação aos Jovens da “Zueira”

 

 

NOTAS:

1. John MacArthur, A outra face, pág 13-15.

2. Albert Mohler Jr., Why Controversy is Sometimes Necessary, originalmente publicado no site Ligonier Ministries. Este artigo foi divulgado em português no Reformados 21, com o título de “A controvérsia às vezes é necessária”.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.