Série: A Glorificação dos Santos (Parte 4)

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 O tempo da glorificação

Quando poderemos esperar que essa experiência maravilhosa ocorra? E onde deverá acontecer? Muitas pessoas acham que ocorre logo que morremos, quando passamos para o céu. Isso é incorreto, embora seja correto dizer que alguém que morreu “entrou na glória”, pois a frase descreve a presença de Deus, para onde vamos quando morremos (Eclesiastes 12:7; 2 Coríntios 5:8). Contudo, não descreve a condição dos santos no céu enquanto eles estão aguardando o episódio final em sua redenção. Há um sentido em que aqueles que morreram em Cristo foram aperfeiçoados. Dagg diz:

Além dessa perfeição final, a qual os santos são ensinados a aspirar, há fases em seu progresso às quais o nome perfeição é, num sentido subordinado, aplicado nas Santas Escrituras. Os santos fora do corpo, agora na presença de Deus, embora não tenham alcançado a ressurreição do corpo, são apesar disso chamados “os espíritos dos justos aperfeiçoados”. Eles são livres do corpo da morte, livres do pecado, livres de todas as tribulações e tristezas deste mundo, e estão presentes com o Senhor, no gozo de seu amor (Manual of Theology [Manual de Teologia], p. 301. Sprinkle Publications. Gano Books, Harrisonburg, VA., 22801, 1982).

A citação mencionada aqui é Hebreus 12:23. E como prova do que Dagg diz dessa “perfeição” sendo usada apenas em um sentido subordinado, e não em um sentido absoluto, temos apenas de notar a negação anterior de perfeição absoluta naqueles que ainda não alcançaram a ressurreição. Depois de ter enumerado muitos que haviam triunfado pela fé no Senhor, Hebreus 11:39-40 diz de todos eles que ainda não haviam sido aperfeiçoados. “E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados”. O aperfeiçoamento, ou a consumação final e absoluta dos santos, como muitas vezes a palavra grega quer dizer, ocorrerá quando todos os santos de todas as épocas forem glorificados juntos. E fazemos essa declaração com esta exceção: estamos inteiramente cientes de que havia alguns santos do Antigo Testamento que, juntamente com Cristo, constituíam as primícias da ressurreição (Mateus 27:51-53). Não temos nenhuma explicação para isso, exceto aceitá-la como revelação verdadeira dos fatos. É o negócio de Deus cuidar de tudo o que está envolvido nisso.

Nosso Senhor gracioso revelou “as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou”. (Romanos 9:23) E é o fato de que Ele os preparou antes para a glória, e glória para eles, que a glorificação foi colocada no tempo passado, em Romanos 8:30. Mas o crente não pode ser fisicamente glorificado até o julgamento de Cristo, pois é ali e naquela época que o grau de sua glória será decidido, conforme mostra 2 Coríntios 5:9 10: “Pois que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes. Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal”. Mas esse julgamento ocorre na volta de Cristo à terra, após a Grande Tribulação, conforme diz Mateus 16:27: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras”. Sua vinda então será com poder e grande glória (Lucas 21:27), e Ele se sentará no trono de sua glória (Mateus 19:28). A glória será a característica principal deste grande evento.

O grau da glória de uma pessoa dependerá da fidelidade de seu serviço, e assim, recompensas entram nesse assunto, e essas recompensas deverão ser distribuídas na vinda de Cristo. Mas considere: tanto as ações boas quanto más praticadas por cristãos têm consequências que não terminam, como as ondulações que uma simples pedra atirada num lago deixam, e não dá para se saber plenamente as consequências totais de um ato por várias gerações. Daí, só no julgamento de Cristo, quando todas as ações humanas forem avaliadas, os homens saberão as consequências totais de qualquer ato determinado, bom ou mau, e assim se saberá devidamente os graus de recompensa.

A ordem divina de tudo isso vem apresentada em 1 Tessalonicenses 4:16-17. “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor”. Aí vemos: (1) A vinda de Cristo do céu com um alarido, e com a voz do arcanjo, e com a trombeta de Deus. (2) A redenção do corpo (Romanos 8:23), pois os corpos dos santos mortos são ressuscitados (Isaías 26:19), então os corpos dos santos vivos são transformados, sendo instantaneamente renovados (1 Coríntios 15:51). (3) Esse será nosso ajuntamento com Ele (Salmo 50:3 5; 2 Tessalonicenses 2:1), a bendita esperança de todos os crentes (Tito 2:13). (4) O momento das recompensas será depois disso (Mateus 16:27; Apocalipse 22:12). (5) Esse momento de recompensas incluirá o direito de governar sobre toda a terra como reis e sacerdotes (Salmo 149:5 9; Apocalipse 5:9 10; 11:15-18).

Claramente o tempo da glorificação dos santos será na época da própria entronização de Cristo sobre toda a terra. O que confirma isso é a parábola que Jesus ensinou em Lucas 19:12,15. “Disse, pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois… E aconteceu que, voltando ele, depois de ter tomado o reino, disse que lhe chamassem aqueles servos, a quem tinha dado o dinheiro, para saber o que cada um tinha ganhado, negociando”. Aí está (1) A Volta. (2) A Autoridade para Reinar. (3) As Recompensas. Não dá também para se entender isso como um presente “reinado da igreja”, como foi o popular ensino do passado. A. W. Pink bem diz desses versículos:

Aí aprendemos que a volta de Cristo e Sua recepção do “Reino” são inseparavelmente conectados. Não só as Escrituras claramente refutam a afirmação de que Cristo está agora reinando, mas também não dá para se ajustar as condições presentes com essa descrença. Como é absurdo dizer que Cristo está agora reinando sobre a terra quando o mundo descrente inteiro despreza e rejeita Sua autoridade (The Redeemer’s Return [A Volta do Redentor], p. 108. Calvary Baptist Church Book Store, Ashland, KY., sem data).

Na base desse fato, os crentes são ensinados na oração modelo a orar “Venha o teu reino” (Mateus 6:10), pois a vinda do Reino de Cristo será a realização das esperanças e desejos de todos os santos também, pois marcará a entrada deles na glória de Cristo em toda a sua plenitude. Mas esse próprio dever de orar isso torna evidente que o Reino ainda não chegou à terra, caso contrário o dever de orar teria sido revogado.

Não sabemos quais profecias ainda restam para se cumprir antes da volta do Senhor, e nossa consequente glorificação. Talvez não haja nenhuma para se cumprir, mas só a soberana vontade de Deus segura esse grande evento, porque seu tempo ainda não chegou. Embora Deus nos tenha chamado já para ter parte nessa glória, porém Ele declarou que isso só ocorrerá depois que tivermos “sofrido um tempo” (1 Pedro 5:10), pois nosso sofrimento aumentará nossa apreciação dessa glória quando aparecer. Aliás, mostra-se que há uma correlação entre nosso sofrimento com Cristo e nossa glorificação junto com Ele (Romanos 8:17): “…  se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados”. E 2 Timóteo 2:11-12 diz: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; se sofrermos, também com ele reinaremos…” A disposição de sofrer por amor a Cristo é uma prova da nossa fidelidade e amor a Ele, bem como nos ensina a apreciar a glória quando vir. A. J. Gordon diz:

Essa frase repetida na parábola que segue a das dez virgens — “Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei” — parece indicar a natureza da herança dos santos. Reinar com Cristo sobre a terra durante o milênio inteiro, o posto deles em Seu reino manifesto será de acordo com a fidelidade deles durante o tempo de Sua ausência. No julgamento das nações que agora segue, eles serão associados com seu Senhor — “Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo?” (1 Coríntios 6:2) — e em sua proximidade dEle em honra e autoridade consistirá a grandeza de sua recompensa (Ecce Venit, p. 271. Hodder and Stoughton, London, 1900).

Assim, se torna uma questão de grande importância perguntar a nós mesmos sobre quanto estamos dispostos a sofrer por amor ao Senhor, à luz de Sua promessa de recompensar a todos os que sofrem por Seu amor. Um ponto importante é que Ele determinou nos permitir sofrer por um tempo para Sua glória, que é em si um dom de Sua graça, conforme mostra Filipenses 1:29: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele”. Assim, aqueles que estão indispostos a sofrer por Cristo tentam frustrar a própria razão para a aparente demora de Sua volta para glorificá-los, e os próprios meios do aumento de sua própria glorificação. Quando ocorrerá a vinda de Cristo e a glorificação dos santos? Não se fixou nenhum tempo definido, e é tolice tentar marcar datas. O que é importante é estar atento ao cumprimento dos eventos que marcam a aproximação do grande evento, e ter cuidado para que sejamos sempre preparados para não termos vergonha de nos encontrar com Ele em Sua vinda.

Queremos nos livrar da ideia de que há uma data que o Senhor fixou para Sua vinda. Sem dúvida, Deus sabe o tempo exato quando ocorrerá. Mas a coisa para marcarmos é que não ocorrerá porque chegou determinada data fixada. Esse é o jeito que ajustamos todos os nossos assuntos humanos, fixando datas, e então fazendo as coisas nessas datas, a menos que comprovem ser impossíveis. Esse não é o jeito aqui. E quanto mais claramente isso for fixado em nossas mentes, melhor entenderemos os planos de Deus. O tempo da Vinda é fixado como o tempo da colheita é fixado, isto é, ocorrerá quando as coisas estiverem maduras. Esse é o princípio que determina o tempo (S.D. Gordon, Quiet Talks About Our Lord’s Return [Conversas Tranquilas acerca da Volta de Nosso Senhor], p. 177. Fleming H. Revell, New York, 1912).

Em harmonia com isso está a palavra que nosso próprio Senhor falou em Mateus 25:13: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir”. Temos de estar atentos aos sinais dos tempos (Mateus 24:32 34), e esses sinais nos darão uma ideia geral do tempo da volta de nosso Senhor à terra, e de nossa glorificação com Ele.

 

 

A Glorificação dos Santos (Parte 1)

A Glorificação dos Santos (Parte 2)

A Glorificação dos Santos (Parte 3)

 

 

Autor: David W. Huckabee

Trecho extraído do livro Fundamentado na Graça: Estudos em doutrinas centrais da fé cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.