O Abuso de Autoridade nas Igrejas do Evangelho da Prosperidade

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Durante o tempo do meu serviço no pastorado, por muitas vezes me deparei com cristãos feridos por líderes da igreja. Em algumas ocasiões, essas queixas ocorreram porque a pessoa fugiu da responsabilidade por suas ações pecaminosas. Mas, na maioria das vezes, essas feridas aconteceram por causa do abuso de autoridade de seus ex-líderes.

Em quase todas as histórias, vi uma linha comum: esse abuso de autoridade ocorreu em igrejas que propagam o evangelho da prosperidade.

Alguns anos atrás, eu escrevi um artigo chamado “Nine Marks of a Prosperity Gospel Church” [Nove Marcas da Igreja do Evangelho da Prosperidade]. Meus comentários sobre a última marca – a liderança da igreja bíblica – mexeram com o sentimento de alguns leitores que me contataram suas histórias. Essas conversas, tanto pessoalmente como online, afligiram meu coração profundamente.

Ficou claro que não houve reflexão suficiente sobre o abuso de autoridade nas igrejas do evangelho da prosperidade. Espero que este artigo produza uma discussão valiosa que acabará reajustando os corações em direção a uma compreensão bíblica da autoridade como um bom presente que Deus pretende expressar no contexto de uma igreja local saudável.

Na minha avaliação, existem três convicções nos corações de líderes ditadores que justificam suas ações arbitrárias. Essas convicções são uma “escatologia realizada”, uma “interpretação e aplicação incorreta da Escritura” e um “coração orgulhoso que deseja adoração a si mesmo”.

Após refutar cada uma dessas convicções, irei terminar com um raciocínio bíblico que considera o papel da autoridade na vida do crente, focalizando em três de suas fontes oriundas de Deus: nosso Deus soberano, as Escrituras e os pastores biblicamente qualificados.

Escatologia realizada   

Líderes das igrejas do evangelho da prosperidade anunciam uma escatologia realizada em seus podcasts, sermões e programas de televisão. Uma escatologia realizada é simplesmente a insistência de que Deus fará tudo no presente o que ele irá cumprir plenamente apenas no futuro. Por exemplo, um pastor com uma escatologia superdimensionada pode ensinar que Deus prometeu ao cristão que ele acabará com todas as suas dificuldades financeiras, físicas ou emocionais “agora”.

Frequentemente eles manipularão textos como Provérbios 18:21, Jeremias 29:11, Isaías 53: 5, Malaquias 3:10, 2 Coríntios 8:9, ou Tiago 4:2. Eles farão uso dessas passagens em conjunto para formar textos-prova que alegadamente endossem a ideia de que as riquezas do céu serão concedidas aos cristãos hoje. Quando os líderes destas igrejas prosperam financeiramente, por muitas vezes isso é atribuído aos seus fiéis como o resultado do caminhar nas promessas de Abraão (Gálatas 3:14), e usado como um modelo para seus seguidores, que são convidados a partilhar destas bênçãos semelhantes, mas apenas se eles servirem a seu líder fielmente.

As implicações desse ensinamento prejudicam as pessoas pelo menos de três maneiras. Primeiro, acredita-se que a doutrina é baseada na Bíblia se o líder prospera financeiramente. Segundo, os membros que não vivem vidas prósperas e saudáveis não tiveram fé, não pagam o dízimo, não ofertam ou vivem em rebelião contra a liderança. Terceiro, o evangelho da prosperidade garante aos líderes que busquem ganhos materiais por qualquer meio possível (legal ou ilegal) para enriquecerem.

Interpretação e aplicação incorreta da Escritura

Fundamentalmente, uma escatologia realizada é construída sob uma interpretação errada, que resulta em um colapso da fé quando as provas chegam. Para entender melhor como uma escatologia realizada se relaciona com o abuso de autoridade, seria bom trabalhar com a expressão popular “não toque no ungido do Senhor”, em 1 Crônicas 16:22 (veja também o salmo 105:13-15 ).

Quando os pecados ou os falsos ensinamentos dos líderes das igrejas do evangelho da prosperidade estão em conflito com 1 Timóteo 3:1-7 ou Tito 1:6-16 – e os membros os questionam ou tentam responsabilizá-los – “não toque no ungido do Senhor” é muitas vezes a repreensão utilizada pelos líderes ou seus defensores. A aplicação desta passagem oferece a liderança da igreja uma proteção inexpugnável contra a responsabilidade ou disciplina.

No contexto, as palavras de Davi são de louvor a Deus por proteger soberanamente os patriarcas de Israel de danos físicos para preservar sua nação santa. Certamente, esta passagem não está criando uma classe especial de “ungidos” de Deus que estão livres da responsabilidade bíblica e congregacional. O próprio Davi não estava imune, como mostra 2 Samuel 12. Além disso, 2 Coríntios 1:20-22 e 1 João 2:20-27 identificam “o ungido do Senhor” como todo crente, no qual o Espírito Santo habita, e não os líderes da igreja, somente. Por fim, a ideia do evangelho da prosperidade de que os líderes estão desobrigados da responsabilidade e disciplina, está em conflito direto com 1 Timóteo 5:19-21.

Um coração que deseja adoração a si mesmo 

Uma vez que todo coração humano é atraído e muitas vezes rendido à idolatria, é tolice pensar que os líderes da igreja se considerem imunes a essa luta. Todavia, encontrei líderes do evangelho da prosperidade que descobrem seu desejo de adoração quando empregam a mentalidade de um salvador em relação ao seu povo.

Eu vi isso em situações em que eles se posicionam como o único agente de distribuição de Deus quando se trata de bênção e direção. Assim, os membros são persuadidos a procurar seu líder, não Jesus, como seu mediador em momentos de necessidade.

Este ensinamento se entrelaçou na tapeçaria do ministério através da criação e exploração de funcionários. Os líderes do evangelho da prosperidade criam grupos de discípulos conhecidos como “funcionários”, os quais devem submeter-se às demandas do “pastor-chefe” para ser uma benção ao “homem/mulher de Deus”. As demandas para o propósito do ministério podem variar de massagens pessoais, compartilhar refeições, pagar contas ou tecer palavras de louvor depois que o líder pregou. Como recompensa pela “fidelidade”, os “funcionários” geralmente recebem promessas de compartilhar o manto dos pastores, quando forem promovidos no reino/denominação, maiores oportunidades no ministério ou mesmo uma herança da igreja.

Se um “funcionário” se recusar ou for incapaz de completar uma tarefa solicitada, o líder pode culpá-lo, compará-lo a um “funcionário” mais “fiel”, removê-lo do grupo ou mesmo questionar sua fidelidade a Jesus. Então, por culpa e desejo de estarem em uma posição correta para com o líder, o que implica numa posição correta para com Deus, esses “funcionários” cedem ou deixam a igreja. Infelizmente, esta partida geralmente significa deixar a igreja local completamente.

Resposta bíblica de um pastor

Por muitas vezes, eu me sentei numa mesa de corações feridos, porquanto eles descreveram relatos similares aos que mencionei. Pouco depois do nosso encontro inicial, ao lado de meus irmãos, iniciei uma caminhada com eles para um processo de reabilitação bíblica e teológica. Na maioria dos casos, comecei com uma introdução a uma compreensão bíblica da autoridade – como é expressada por Deus, como ela é comunicada a nós através de sua Palavra – e como uma liderança biblicamente qualificada na igreja local desempenha um papel em tudo isso. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria que eles entendessem a linha de base, uma vez que o próprio Deus é o nosso modelo perfeito de autoridade.

Muitos cristãos são feridos por pastores mundanos porque se desligaram da igreja ou pelo abuso de autoridade. É sábio pastorear cuidadosamente os corações, apresentando a todos um evangelho saturado dos atributos de Deus. Ensina-lhes que a obra redentora de Cristo projeta Deus, o Pai, como sendo justo e justificador (Romanos 3:26), que fielmente estende o seu amor perfeito por nós (1 João 3:1-4), e, portanto, sua autoridade soberana sobre o nossas vidas pode ser confiável (Efésios 1:11), porque resulta em nosso bem e glória (Romanos 8:28).

Em seguida, lembre-os de que o nosso Pai celestial, perfeito e amoroso, é incapaz de mentir (Números 23:19, Hebreus 6:18), para que possamos confiar plenamente no que ele revelou em sua Palavra (1 Timóteo 3: 16-17; 2 Pedro 1:19-21), que fornece a voz de autoridade sobre o que acreditamos e como vivemos.

Depois disso, caminhe com eles pelas estruturas de autoridade particular que Deus colocou na sociedade para ordem e mordomia, como pais/tutores (Efésios 6:1-4; Colossenses. 3:20), sociedade/governo (Romanos 13; 1 Timóteo 2:1-5; 1 Pedro 2: 13-17), escola/trabalho (Romanos 12:9-21, Colossenses 3:23) e a igreja local (1 Tessalonicenses 5: 12-13, Hebreus 13: 7-19).

Então, use o tempo para mostrar a submissão de Jesus à autoridade boa e justa do Pai (Marcos 14:36; João 6:38); como em muitas coisas, ele serve de modelo para cada cristão. Depois disso, mostre-lhes como o próprio Jesus recebeu toda a autoridade do Pai e que ele agora convoca a sua igreja para a obediência (Mateus 28: 16-20).

Finalmente, expresse pacientemente a liderança de Jesus sobre a igreja (Mateus 16:18; Efésios 1:22-23), destacando as formas pelas quais ele distribui generosamente dons para ela (Efésios 4:11-16), sob o governo de líderes que são chamados a equipar os santos para o trabalho do ministério, ao mesmo tempo em que vivem no âmbito da qualificação (1 Timóteo 3: 1-7; Tito 1: 6-16).

Conclusão

Neste ponto, se o Senhor quiser, a relação entre um pastor e um membro da igreja será desenvolvida e aprofundada. Isso permite que o ensinamento e o cuidado dos líderes sejam mais admissíveis, levando as pessoas a uma compreensão corrigida e bíblica da autoridade. Não há maiores evidências de liderança confiável do que a de líderes que possuem uma visão elevada das qualificações bíblicas e uma visão humilde de si mesmo.

Para terminar, se você foi ferido pela liderança totalitarista da igreja, minha oração é que você não abandone a igreja local e todos os seus benefícios para Deus por conta de sua experiência anterior. Em vez disso, peço que você procure igrejas saudáveis, com líderes que são qualificados biblicamente para pastoreá-lo em um lugar espiritualmente saudável.

Que o fruto deste processo lhe ofereça a alegria da graça de Deus. Que você amadureça em sua caminhada com Cristo, unido com seus irmãos e líderes da sua igreja local saudável.

 

 

Autor: D. A. Horton

Fonte: 9Marks

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.