Série: A Glorificação dos Santos (Parte 3)

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A base da glorificação

Qualquer coisa que não tenha uma base adequada é vã esperança. O crente não é arbitrariamente e infundadamente glorificado, mas a glorificação lhe é garantida na base da associação com o Cristo glorificado. Não há glória fora de Cristo, mas somos predestinados a nos tornamos semelhantes à imagem de nosso Senhor.

O processo de santificação, que é prosseguido durante a vida presente, se completa quando os santificados são perfeitamente preparados para o serviço e o gozo do céu. Nesta obra do Espírito, inclui-se a ressurreição do corpo e a adaptação dele para ser conforme o corpo glorioso de Cristo. Havendo sido predestinados para sermos conforme a imagem do querido Filho de Deus, a proposta da obra da graça não se completa até que apareçamos em glória, com nossos corpos como o glorioso corpo do Redentor. Há muito os santos na terra anseiam essa conformidade perfeita e a esperam como a consumação de seus desejos e esperanças: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (Salmos 17:15) (J.L. Dagg, Manual of Theology [Manual de Teologia], p. 300 301. Sprinkle. Publications Gano Books, Harrisonburg, VA., 22801, 1982).

Colossenses 3:4 enfatiza essa unidade com a vida de Cristo, quando diz: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória”. Nossa glorificação depende de possuirmos desta vida divina que nos é concedida na regeneração (2 Pedro 1:1 4). Colossenses 1:27 declara isso com clareza: “… Cristo em vós, esperança da glória”. “Esperança” nas Escrituras é um termo mais forte do que a moderna palavra, que geralmente quer dizer pouco mais do que um mero desejo, sem nenhuma certeza de receber o alvo dessa esperança. A esperança bíblica, por outro lado, é a expectação fortemente baseada do bem futuro, porque se baseia numa promessa divina. Assim, Cristo habitando em nossos corações pela fé é a evidência do novo nascimento, e é a base da nossa expectação da glória futura.

Notamos sob a divisão precedente que nossa glorificação é tão certa quanto a nossa justificação, pois Romanos 8:30 mostra que a glorificação se baseia na justificação. Deus tem uma ordem em tudo e o homem não pode anular essa ordem. A ordem de Deus no tempo é (1) Chamado. (2) Justificação, e (3) Glorificação. “… aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou”. A glorificação é um resultado da justificação, e não pode existir sem ela, pois esse versículo não deixa espaço ou para ganho ou perda de pessoas entre os elos dessa corrente. As mesmas pessoas — os eleitos de Deus — estão na fase do conhecimento de antemão e predestinação como estão na fase da glorificação, e vice-versa. As mesmas pessoas que são chamadas deverão ser glorificadas, pois foram justificadas, que é prova incidental da segurança dos santos.

Mas alguém, sem dúvida, objetará que: “Como é que pode ser isso, pois a maioria das pessoas que ouvem o Evangelho não responde ao convite de Deus?” Verdade, mas essa objeção se baseia numa ideia errada do sentido de “chamado”. Presume-se que “chamados” se refere somente ao convite geral para a salvação. “Chamado” se usa em dois sentidos na doutrina bíblica da salvação: (1) O chamado geral do Evangelho, que todos os homens rejeitam até que o Espírito Santo opere em seus corações para vivificá-los, a fim de capacitá-los a ouvir, prestar atenção e responderem a ele. (2) O chamado eficaz do Espírito Santo pelo qual os homens nascem de novo e são capacitados com isso a se arrependerem, crerem e responderem ao convite de Deus. Todos os eleitos respondem a esse chamado, pois Deus opera eficazmente, “vivificando aqueles que quer” (João 5:21), sem nenhuma resposta do pecador até que se complete a regeneração. A cooperação da vontade humana não é parte disso (Romanos 9:15 16), pois, estando espiritualmente morta, não tem a capacidade de nenhuma ação espiritual certa até que o Espírito de Deus a vivifique. Assim, ninguém chega a se salvar apenas pelo chamado geral do Evangelho, mas todos são salvos quando o chamado eficaz acontece. É o poder perfeito de Deus que torna esse segundo “chamado” eficaz. Romanos 8:30 e outros textos fazem referência a esse chamado, onde o termo é usado nesse sentido especial. Esse “chamado” é “para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:14). E precisamos notar, no versículo precedente, que isso se baseia na escolha soberana de Cristo, conforme Romanos 8:29 30. O crente recebe a glória de Cristo de forma futura na salvação, pois a glorificação se baseia na salvação, sendo realmente parte dela.

Para nos informar quem a possuirá, e sobre que base, se chama herança, indicando claramente que ninguém, senão os filhos de Deus, a gozarão: pois um servo, em si mesmo, não pode herdar. Temos, pois, de ser os filhos do Altíssimo, por adoção e regeneração, antes que possamos com justiça gozar o patrimônio celestial (Abraham Booth, The Reign of Grace [O Reino da Graça], p. 269. American Baptist Publication Society, Philadelphia, sem data).

A glorificação também se baseia em nossa posição como crentes, pois somos predestinados a sermos aceitos no amado Filho de Deus, conforme declara Efésios 1:5-6. “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado”. A beleza da glorificação não está em nós e em nossos esforços, mas totalmente em Cristo e em Sua beleza espiritual, que foi colocada sobre nós, conforme Ezequiel 16:14 representa de modo belo. “E correu de ti a tua fama entre os gentios, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor DEUS”. De modo geral, Israel, e também os gentios, não conseguiram de forma alguma entender essa verdade.

É tanto por meio da vida ressurreta e glorificada de Cristo, quanto por Sua morte sacrificial, que somos aceitos diante do Pai, pois Sua justiça nos é imputada, conforme Romanos 4 testifica de forma tão abundante. E Romanos 5:10 diz claramente: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”. É por isso que aqueles que negam a ressurreição de Cristo não têm nenhuma esperança de vida e glória eterna, pois negam aquilo que é parte integral da salvação e glorificação do santo. Somente na vida de Cristo há vida e luz para os homens (João 1:4), e é aos que receberam essa vida e luz que se dá a promessa de participar da glória de Cristo. A justiça imputada de Cristo é aquela que, sozinha, torna os homens dignos de serem aceitos diante de Deus e de entrarem em Seu reino. A justiça humana jamais é suficiente, pois os fariseus e escribas eram as pessoas mais legalmente justas na terra, mas nosso Senhor advertiu Seus discípulos em Mateus 5:20 de que eles precisavam mais do que essa justiça para serem aceitos no reino de Deus. “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”.

A vinda de nosso Senhor em majestade gloriosa a terra é apresentada em Apocalipse 19:11 13, e o versículo 14 nos mostra quem são Seus companheiros. “E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro”. Esse simbolismo é explicado no contexto imediato, pois o versículo 8 diz: “E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos”. Na base do versículo 7, “já a sua esposa se aprontou”, alguns creem que a justiça no versículo 8 é uma justiça pessoal, não imputada, mas uma palavra no versículo 8 refuta isso. “Garantido” é a palavra grega comum para “dado”, de modo que claramente a justiça que caracteriza os santos é uma justiça imputada — o único tipo que qualquer pessoa pode ter.

Assim, quer eles sejam considerados como indivíduos ou coletivamente como a esposa do Cordeiro (versículo 7-8), ou militantemente como um exército (versículo 14), a glória deles é o resultado da justiça imputada de Cristo. Mas não só por isso, pois conforme notamos sob a primeira divisão, a glorificação do crente se baseia no poder onipotente de Deus, em Sua onisciência e em todos os Seus atributos gloriosos. Abraham Booth observa:

Portanto, sua felicidade é permanente como a perfeição divina que eles adoram e gozam; e garantidos para suas próprias mentes abrangentes além da possibilidade de dúvida. Isso torna a condição deles supremamente gloriosa. Isso constitui o céu, aliás. E além disso, se os limites das capacidades deles eternamente se ampliassem, e eternamente recebessem medidas maiores de glória? Pois a Deidade é uma fonte infinita de bem-aventurança; e vasos finitos poderão se expandir eternamente, e se encher eternamente, naquele oceano da total suficiência divina (The Reign of Grace [O Reino da Graça], p. 284. American Baptist Publication Society, Philadelphia, sem data).

Rastreando até o fundamento máximo, a glorificação dos santos se baseia na graça de Deus, conforme indica Efésios 1:3, 10. “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra”. Esses dois versículos estão ligados pelos versículos interpostos que detalham como a graça trabalha para trazer essa bênção espiritual até nós. A glorificação, como o chamado e a justificação, tem de ser baseados na graça de Deus, já que nenhum de nós pode reivindicar merecer mesmo que seja a menor parte dessas bênçãos espirituais.

 

 

A Glorificação dos Santos (Parte 1)

A Glorificação dos Santos (Parte 2)

A Glorificação dos Santos (Parte 4)

 

 

Autor: David W. Huckabee

Trecho extraído do livro Fundamentado na Graça: Estudos em doutrinas centrais da fé cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.