Uma Defesa da Justificação pela Fé (2/2)

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3. A Justificação pela fé é comprovada pelas Escrituras (3.6-9)

Paulo, agora, “faz uma transição da experiência dos crentes da Galácia para as Escrituras. Ele tira os olhos do presente e volta-os para o passado”.26 O apóstolo “equilibra a experiência subjetiva dos gálatas com o ensinamento objetivo da Palavra de Deus”.27

Conforme sabemos pelos evangelhos e pelas cartas de Paulo, no Novo Testamento, “os judeus consideravam Abraão como seu pai e fonte de suas bençãos espirituais. Eles acreditavam que, pelo fato de serem descendentes físicos de Abraão, isso os tornava justos diante de Deus”28 (Jo 8.31-44, 53,56-59). Era como se a justiça que foi atribuída a Abraão fosse uma dívida que Deus tinha com os judeus por sua obras.29

Portanto, devido ao entendimento equivocado acerca da justificação pela fé, Paulo emprega o exemplo da experiência de Abraão – que creu na promessa feita por Deus pela fé e não pelas obras da lei (que ainda não havia sido instaurada) –, para ilustrar e corrigir a visão dos gálatas.

Tendo em mente Gênesis 15.1-6; 17.5-8, Paulo corrobora que Deus, através de Abraão, suscitaria uma numerosa descendência de filhos na fé. Abraão seria pai de multidões. Todos os crentes da antiga e nova aliança, que haveriam de crer em Jesus como o Messias (Hb 8; 9.1-15, 23-26), assim como Abraão creu em Deus e na promessa, são seus filhos e igualmente justificados pela fé como ele foi (vs.6-9).

Paulo dilucida que a ênfase em Gênesis 15.1-6 e 17.5-8 não está nas obras, mas sim, na fé. Vejamos, pois, os dois argumentos que o apóstolo utiliza.

3.1 Abraão foi justificado pela fé (vs.6-7)

Paulo começa citando o exemplo da experiência de Abraão, relatada em Gênesis 15.1-6 e 17.5-8, ao passo que traça um paralelo entre a justificação dele e a justificação atual dos crentes. “Deus fez uma promessa a Abraão, ele creu em Deus, e a sua fé foi imputada como justiça”.30

“A expressão foi imputado ελογίσθη (elogísthi) [literalmente, “foi atribuído”], aqui e em Gênesis 15.6, possuem o mesmo significado que em Romanos 4.11, 22-24. A palavra significa creditar na conta de alguém. Quando um pecador crê em Cristo, a justiça de Deus é creditada em sua conta. É mais do que isso; os pecados dessa pessoa deixam de ser registrados nesta conta (Rm 4.1-8). Assim, diante de Deus, o histórico da pessoa está sempre limpo, e, portanto, o que creu não pode mais ser julgado por seus pecados”.31

F.B. Meyer salienta que, muito antes de ter-se tornado judeu, por meio do rito de iniciação do judaísmo, que é a circuncisão, Abraão creu na promessa de Deus, e com base nisso foi declarado justo (Gn 15.6).32 Por outro lado, a “sua circuncisão aconteceu somente um década depois da sua justificação, descrita em Gênesis 17.10-14,23-27. Abraão, o incircunciso e ímpio, foi justificado pela fé e não pela lei (Rm 4.11-12).33 Logo, em descendência, Abraão é pai de todos os judeus circuncisos, e, espiritualmente, é pai tanto de judeus crentes como de gentios [incircuncisos] crentes (Rm 4.16; Gl 3.29).

Concluímos, então, a passagem com a seguinte pergunta: Se Abraão, o pai dos crentes, foi justificado pela fé, por que os seus filhos seriam justificados pelas obras da lei? Paulo responde:

3.2 Os gentios são justificados pela fé 34 (vs.8-9)

Paulo cita Gênesis 12.3; 22.17-18 (veja, ainda, At 3.25). Mas, que benção é esta descrita no texto? “A benção é a justificação, a maior de todas as bençãos, pois os verbos justificar e abençoar, são usados como equivalentes no versículo 8. E o meio pelo qual a benção é herdada é pela fé. Com efeito, os gálatas já eram filhos de Abraão, não pela circuncisão, mas pela fé”.35

Tanto no Antigo quanto no Novo testamento, a salvação sempre foi pela fé, e nunca pelas obras. Todas as figuras, rituais e sacrifícios inerentes antes e depois da lei apontavam para Cristo como o antítipo de cada um deles (Hb 8, 9). “A palavra abençoados é usada de forma variada nas Escrituras; aqui, porém, ela significa adoção à herança da vida eterna”.36

Deus pré-anunciou o evangelho a Abraão e nele abençoou todos os povos;37 portanto, todos os que creem (sem distinção de judeu ou gentio) são abençoados como ele foi. (NTLH)

Calvino sintetiza que “os crentes são abençoados não com o Abraão circuncidado, não com pessoas que tem o direito de se gloriar nas obras da lei, não com os hebreus, não com pessoas que confiam em sua própria dignidade, mas com Abraão, que pela fé, somente, obteve a benção”.38

4. O contraste entre a justificação pelas obras da lei e a justificação pela fé (vs.10-14)

Nesta seção, que encerra a perícope em voga, Paulo destaca o contraste entre o viver pela fé (vs.11b) e o viver pela lei (vs.12) como formas de justificação. No entanto, ao invés de justificar, a lei amaldiçoa aquele não a observa plenamente (vs.10), porquanto suas exigências são impossíveis de serem cumpridas com perfeição.

No versículo 12, Paulo diz que a obediência não é um ato absoluto de se praticar toda a lei, somente, mas se trata de um ato contínuo de sempre estar obedecendo-a. Por sua obediência e morte de cruz, Jesus fez por nós o que éramos incapazes de fazer: Ele removeu de nós a maldição por causa da desobediência da lei (vs.13).

É através da fé que recebemos os benefícios fornecidos pela morte de Cristo, incluindo a justificação (vs.11b) e a promessa do Espírito Santo (vs.14).39 Vejamos, então, cinco pontos essenciais que abarca o contraste entre a justificação pelas obras da lei e a justificação pela fé.

4.1 A lei é perfeita e exige perfeição (vs.12)

Em Romanos 7.12, Paulo assinala que a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom. Aquele que observar os seus preceitos, por eles viverá (3.12). (ARA) Contudo, todos nós somos pecadores e não temos a capacidade de obedecer as demandas da lei. Tiago diz no capítulo 2.10 que qualquer que guardar toda a lei, mas tropeçar em um só ponto, se torna culpado de todos. (ARA) O papel da lei não é salvar, mas revelar o pecado ao pecador, e mostrá-lo o caminho para a vida – Jesus (Jo 14.6). (ARA) A lei é o caminho que nos leva até Cristo (3.24).

4.2 A lei determina maldição ao desobediente (vs.10)

A lei é baseada em obras perfeitas. Como o homem é imperfeito, débil e incapaz de observar a lei com perfeição, ela o “amaldiçoa”. “Aqueles que buscam a justificação pelas obras da lei estão debaixo de maldição, pois esta é a sentença que a lei impõe para aqueles que não permanecem em perfeita obediência aos seus preceitos”.40

Deuteronômio 27.26 – Maldito quem não puser em prática as palavras desta lei. (NVI)

4.3 A lei produz frustração 41 (vs.11)

Todos os que fazem das obras lei a ponte que leva a salvação eterna não chegam nem mesmo a dar os primeiros passos nesta ponte. É uma completa insensatez pensar da forma como os gálatas pensavam e como muitos na igreja evangélica hodierna pensam. “Ninguém, jamais, conseguiu (e conseguirá) alcançar o padrão de obediência exigido pela lei”.42

William barclay afirma que “o princípio da lei e o da fé são totalmente antitéticos; não se pode dirigir a vida por ambos ao mesmo tempo; a pessoa terá que escolher: ou a lei ou a fé. E a única escolha lógica é a de abandonar a via do legalismo e entrar pelo caminho da fé”.43

4.4 A fé é o único meio para a justificação 44 (vs.11b)

A palavra justo significa ser contado como justo aos olhos de Deus, e viver pela fé refere-se ao plano superior da vida que abrange a vida eterna.45 Nesta passagem, Paulo cita Habacuque 2.4. O apóstolo utiliza a mesma citação em Romanos 1.17 para tracejar a mesma verdade: somos justificados não pela tentativa de obediência a lei, mas pela obediência de Cristo em nosso lugar pela fé.

Romanos 3.26 – … mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. (ACF)

4.5 A justificação é por intermédio de Cristo 46 (vs.13-14)

A justificação não é um processo, mas um ato jurídico, legal, forense e, portanto, completado. Não acontece em nós, mas fora de nós. Se a lei dispõe pecadores sob maldição, Cristo os redime da maldição. Se desejamos a bênção de Abraão, ela é recebida por intermédio de Cristo. Necessitamos do dom do Espírito? Ele é adquirido pela fé. “Tudo que precisamos encontra-se em Cristo! Não há motivo algum para voltar a lei”.47 Depender da lei significa depender de si mesmo. Exercer a fé significa depender de Cristo.48

 

CONCLUSÃO

Após dizimar o conceito errôneo dos falsos mestres judaizantes sobre a questão lei, mostrando aos gálatas a inabilidade do homem na tentativa de ser justificado por Deus mediante as obras da lei, Paulo conclui sua argumentação sobre a justificação pela fé acentuando as marcas da obra de Cristo em dois aspectos.

  1. Os crentes são justificados com base no sacrifício expiatório de Cristo (vs.13)

Jesus agiu de duas maneiras na cruz. Ele foi o nosso representante substitutivo e o nosso fiador. A palavra resgatou εξηγόρασεν (eksagoradzo), no grego, refere-se ao ato de comprar a liberdade de um escravo ou devedor.

Outrora, éramos escravos de satanás e do pecado. E Cristo nos resgatou da maldição da lei. (ARA) Ele nos libertou da escravidão (Ef 2.1-3; Rm 6.6,17-18,22; 7.14). Ele levou sobre si a maldição que era nossa por direito, por termos infringido a lei. Não tínhamos condições de pagar pelos nossos pecados.

Cristo se tornou maldição em nosso lugar. Ele levou sobre si, de forma voluntária, a maldição que estava sobre todos aqueles que violaram a lei, pecando contra a santidade de Deus. E que maldição era esta? A sentença da morte eterna (Rm 6.23; Ez 18.4). Cristo exauriu e desviou para si mesmo a ira de Deus contra o pecado e contra o pecador em nosso lugar, pagando nossa dívida para com Deus.

  1. A justificação é a benção de Abraão destinada a todos os crentes pela fé (vs.14)

Assim como Abraão foi justificado pela fé, todos os que creem recebem a benção da justificação pela fé (At 13.39).

Romanos 5.1 – Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. (ARA)

Pela fé, os crentes recebem o Espírito Santo prometido (Jl 2.28-29; At 2.17-18), que regenera (Jo 3.3,7), convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8-11), ajuda em nossas fraquezas (Rm 8.26), intercede por nós junto a Deus (Rm 8.27), guia-nos (Rm 8.14) e possibilita-nos a ter uma profunda comunhão com Deus em Cristo Jesus, o nosso Senhor e redentor (1Co 1.9; 2Co 13.13; Fp 2.1).

 

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NOTAS:

  1. Hernandes Dias Lopes, Gálatas, pág 136.
  2. Warren Wiersbe, Comentário Bíblico expositivo do Novo Testamento, pág 914.
  3. Bíblia de Estudo Plenitude. Notas de Rodapé, pág 1217.
  4. Hendriksen, Gálatas, pág 128.
  5. Hernandes Dias Lopes, Gálatas, pág 137.
  6. Warren Wiersbe, Comentário Bíblico expositivo do Novo Testamento, pág 914.
  7. F.B. Meyer, Comentário Bíblico.
  8. Adolph Pohl, Comentário Esperança: Gálatas, pág 105.
  9. Hernandes Dias Lopes, Gálatas, pág 138.
  10. John Stott, A mensagem de Gálatas, pág 69.
  11. Calvino, Gálatas, pág 90.
  12. Hernandes Dias Lopes, Gálatas, pág 138.
  13. Calvino, Gálatas, pág 90.
  14. Bíblia de Estudo Plenitude. Notas de Rodapé, pág 1217.
  15. Hernandes Dias Lopes, Gálatas, pág 140.
  16. Ibid.
  17. Ibid., pág 141.
  18. William barclay, Gálatas, pág 31.
  19. Hernandes Dias Lopes, Gálatas, pág 141.
  20. Donald Guthrie, Gálatas, pág 121.
  21. Hernandes Dias Lopes, Gálatas, pág 142.
  22. Warren Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo do Novo Testamento, pág 915.
  23. Hendriksen, Gálatas, pág 137.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.