Série: A Glorificação dos Santos (Parte 2)

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A Certeza da Glorificação

A glorificação é tão certa quanto a nossa justificação, pois é tanto parte da salvação quanto é da justificação, conforme testemunha Romanos 8:30. A glorificação é a condição final na salvação, pois é a redenção do corpo e a defesa da fé e esperança do santo. Podemos notar  em passagens que a Bíblia fala de salvação sob três tempos gramaticais, e, assim, sugere as três frases dela: (1) Na conversão, somos libertos da pena de todos os pecados, pois somos declarados justificados por Deus, e isso é tempo passado a partir do momento da fé. Mas a Bíblia às vezes fala do tempo presente da salvação — salvação como um processo progressivo — estamos “sendo salvos”, conforme às vezes diz o tempo grego. Assim, (2) na santificação estamos sendo libertos do poder do pecado que habita o corpo, conforme vamos ficando mais santos e vamos nos dedicando mais ao Senhor. Mas às vezes a Bíblia fala de salvação no tempo futuro — “seremos salvos” — que tem a ver com (3) Glorificação, que é a nossa liberdade da própria presença do pecado em nós, ao recebermos novos corpos e mentes na volta de nosso Senhor do céu. Não são três salvações, em vez disso, três fases da única salvação completa que nosso Senhor comprou para todos os Seus eleitos na Cruz.

Depois de se referir a 2 Timóteo 1:9; Filipenses 2:12 e Romanos 13:11, A. W. Pink observa:

Ora, esses versículos não se referem a três salvações diferentes, mas a três aspectos separados de uma, e a menos que aprendamos a distinguir com clareza entre elas, não poderá haver nada senão confusão e dúvidas em nossos pensamentos. Essas passagens apresentam três fases e estágios distintos da salvação: a salvação como um fato realizado, como um processo presente e como uma esperança futura. Tantos hoje ignoram essas distinções, misturando-as. Alguns defendem uma e argumentam contra as outras duas; e vice-versa. Alguns insistem que eles já estão salvos, e negam que estejam agora sendo salvos. Alguns declaram que a salvação é inteiramente futura, e negam que sejam em algum sentido já realizada. Ambos estão errados. O fato é que a grande maioria das pessoas que professam ser cristãs não conseguem ver que “salvação” é um dos muitos termos abrangentes em todas as Escrituras, inclusive predestinação, regeneração, justificação, santificação e glorificação (The Doctrine of Salvation [A Doutrina da Salvação], p. 106-107. Guardian Press, Grand Rapids, 49509, 1925).

A glorificação dos santos é tão certa como a própria glorificação de Cristo, e isso é garantido, pois agora é um fato passado e não se pode mudar a história. João 17:22 24 diz: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade…”. Observa como nosso Senhor diz no versículo 22 que Ele deu (tempo passado) Sua própria glória a eles. Esse mesmo fato se vê em Romanos 8:30. O conhecimento de antemão, e a predestinação no versículo 29, estão no tempo passado: podemos facilmente ver e compreender isso. E o chamado e justificação, no versículo 30, estão no tempo passado: podemos também facilmente ver e compreender como isso é assim para toda pessoa salva. Mas que a glorificação é também tempo passado é difícil para nós aceitarmos, e somos inclinados a tentar evitar tal entendimento por meio de argumentos. “Com certeza”, raciocinamos, “o Senhor ainda não voltou. Com certeza a ressurreição ainda não ocorreu. Com certeza ainda não recebi meu novo corpo. Como, então, se pode usar o tempo passado aqui?” Por mero raciocínio humano, podemos eficazmente invalidar alguma verdade preciosa de Deus acerca da posição gloriosa que Deus nos deu.

Na grande maioria das vezes, avaliamos pela aparência, e somos tão sujeitos ao tempo e espaço que achamos difícil compreender que nosso grande Deus está acima tanto do tempo quanto do espaço, e Ele não está sujeito a nenhum dos dois. Ele considera a glorificação dos santos como passada, porque em Sua mente e propósito é tão certa quanto se já tivesse sido feita. Duvidamos disso em geral porque aceitamos o humanismo — tentamos sujeitar o propósito de Deus às ações do homem em vez de reconhecermos a capacidade soberana de Deus de fazer tudo o que Ele quer, onde quer que Ele queira fazê-lo sem nem mesmo pedir um simples “com licença” ao homem. Aliás, pelo fato de que Deus não está sujeito ao tempo e espaço, todas as coisas são para Ele como se houvesse apenas um grande presente, algo que nós, criaturas do tempo e espaço, não podemos visualizar e compreender.

O texto em Colossenses 3:4 mostra que a glorificação do santo é tão garantida quanto a volta do Senhor Jesus Cristo, pois diz “quando”, não “se Ele aparecer”. Não é uma questão de se o santo será glorificado, mas só uma questão de quando. Não há incerteza em nada com o Senhor, pois Ele sabe todas as coisas, e Ele controla todas as coisas. Não há possibilidades inesperadas com Deus, como há com o homem, pois Ele faz tudo o que Ele tenciona fazer. “Lembrai-vos das coisas passadas desde que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim. Pai, aqueles que me deste, quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade. Que chamo a ave de rapina desde o oriente, e de uma terra remota o homem do meu conselho; porque assim o disse, e assim o farei vir; eu o formei, e também o farei”. (Isaías 46:9-11) Deus tencionar algo e então não fazê-lo se cumprir não refletiria na capacidade da Sua Divindade. Implicaria que ou Ele não tinha a sabedoria de antever todas as possibilidades e fazer-lhes espaço para eles, ou que antevendo todas elas, Ele não tinha o poder de resolver os seus problemas. Ou que, tendo tanto a sabedoria quanto o poder, Ele, apesar disso, mudou de ideia acerca do que queria fazer. Mas os atributos divinos da onisciência, onipotência e imutabilidade são contra todas essas suposições.

A certeza da volta de Cristo, e a subsequente glorificação dos santos, é apresentada em Filipenses 3:20 21: “Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. A palavra traduzida “esperar” significa, literalmente, esperar e aguardar em confiança e expectação, algo. Note como essa mesma palavra grega é usada no mesmo sentido básico em todas as sete vezes em que aparece em Romanos 8:19,23,25; 1 Coríntios 1:7; Gálatas 5:5; Filipenses 3:20 e Hebreus 9:28. Com a possível exceção de Gálatas 5:5, todas essas passagens olhem para com a grande esperança do cristão — a volta do Senhor Jesus para completar sua salvação. E, mesmo Gálatas 5:5 pode ter essa mesma aplicação, pois foi falado por, e dirigido a, aqueles que já estão salvos, de modo que essa espera da justiça pode se referir ao reino de justiça de Cristo em que os santos terão parte. Embora uma palavra diferente seja usada em 1 Tessalonicenses 1:10, porém essa é a mesma ideia. É na volta de Jesus que Sua vontade, conforme expressa em João 17:22, se cumprirá.

A glória para a qual Cristo foi exaltado não é assunto de especulação ociosa, no qual nenhum interesse temos. Em sua fala ao seu Pai, ele disse, em alusão a seus discípulos, “Eu dei-lhes a glória que a mim me deste”. Daí, embora soframos com Cristo e por Cristo neste mundo, podemos nos regozijar na esperança de sermos glorificados com ele (J.L. Dagg, Manual of Theology [Manual de Teologia], p. 207. Sprinkle Publications, Harrisonburg, VA., 22801, 1982).

De novo, a glorificação para o povo de Deus é tão garantida quanto a Palavra de Deus, pois Sua integridade se fundamenta em que Ele guarda a Sua palavra. Ele promete que assim será, não poderá ser de outro jeito. Virá a todos os que buscam glória por meio da verdade, mas a todos os que rejeitam a verdade, só indignação, ira, tribulação e angústia (Romanos 2:6 11). “que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade; mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça. Tribulação e angústia virão sobre a alma de qualquer homem que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego; glória, porém, e honra, e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego. Porque para com Deus não há acepção de pessoas”.

No que se refere ao juízo e recompensa, Deus é totalmente imparcial, não respeita nem faz acepção de pessoas. Mas é um grande erro tentar aplicar tal princípio a Deus em todas as situações, e manifesta ignorância das Escrituras, pois em várias áreas Ele realmente faz acepção de pessoas, conforme declaram muitas passagens das Escrituras, principalmente onde há o assunto eleição, salvação ou qualquer questão envolvendo a aliança de Deus (veja Gênesis 4:4; Êxodo 2:25; Levítico 26:9; 2 Reis 13:23; Salmo 74:20; 138:6, e outros). E, na medida em que Deus é a fonte de todos os dons bons e perfeitos (Tiago 1:17), e é Aquele que distingue uma pessoa de outra (1 Coríntios 4:7), vê-se comumente na vida essa acepção de pessoas. Por exemplo, nem todos os homens têm as mesmas vantagens na vida ou fisicamente, mentalmente, moralmente, psicologicamente, espiritualmente, pois todos não são dotados com as mesmas capacidades e talentos, e as oportunidades variam de pessoa à pessoa. Mesmo que não houvesse tantas Escrituras declarando o contrário, seria suficiente para refutar a ideia de que Deus jamais faz acepção de pessoas em qualquer área. Uma análise de todos os textos que declaram que “Deus não faz acepção de pessoas” revelará que esse termo só é aplicado com relação ao juízo, e no juízo final não se verá graça nenhuma, mas apenas pura justiça condenatória que cobra tudo o que é devido dos pecadores.

Na eleição e salvação, Deus respeita e faz acepção de algumas pessoas acima de outras, pois a própria palavra “eleito” indica que alguns foram escolhidos e outros foram deixados. Uma eleição universal é uma contradição de termos. A primeira vez em que a palavra “respeito” aparece na Bíblia (e as primeiras vezes são sempre importantes, e são muitas vezes as mais decisivas), em Gênesis 4:4 5, mostra que Deus teve tanto respeito por Abel quanto por sua adoração, mas não por Caim e sua adoração. Esse texto e os outros, citados acima, nesse aspecto mostram com clareza que Deus realmente respeita e faz acepção de uma pessoa sobre outra em assuntos da Sua graça. O motivo disso é que a graça é sempre incondicional, do contrário não é graça. Os homens mais sábios reconheciam essa verdade, e oravam para gozá-la (1 Reis 8:28). Só em juízo e recompensas, repetimos, deve Deus lidar imparcialmente com os homens; todas as Suas ações em graça, pelo motivo de que não notam algum mérito ou valor na criatura, têm de respeitar ou fazer acepção de pessoas.

Deus se comprometeu a dar glória a toda alma salva porque ela é salva. Isso envolve graça, em que há respeito e acepção de pessoas em todo exemplo. Mas Deus também se comprometeu a recompensar todo serviço (corretamente motivado) feito para Ele, aumentando essa glória inicial. E, pelo fato de que envolve serviço e recompensas, Deus não respeita e não faz acepção de pessoa, mas o baseia na fidelidade das atitudes certas (Romanos 2:7,10). Esse é um ponto em que temos de “distinguir corretamente a Palavra da verdade”, e não apenas papaguear alguma frase bíblica indevidamente aplicada que se encaixe em nossos preconceitos. As Escrituras falam claramente sobre esse assunto. Qual será a nossa resposta?

 

 

A Glorificação dos Santos (Parte 1)

A Glorificação dos Santos (Parte 3)

A Glorificação dos Santos (Parte 4)

 

 

Autor: Davis W. Huckabee

Trecho extraído do livro Fundamentado na Graça: Estudos em doutrinas centrais da fé cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.