Série: A Glorificação dos Santos (Parte 1)

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A glorificação dos santos é o final da corrente de ouro da graça divina que começa com a preordenação e predestinação. Assim lemos em Romanos 8:29 30: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”.

Note primeiramente que “dantes conhecer” é, como vimos anteriormente, a mesma palavra grega traduzida como “conhecer antes” em 1 Pedro 1:20 (RA), e esse é seu sentido aqui. E o conhecimento de antemão não se refere às ações de certas pessoas, mas em vez disso às próprias pessoas, de modo que por mais que liberemos a imaginação, não dá para ser uma referência à fé prevista. A fé não está em “Qual” (isso está discutido no Capítulo 2, no ponto II, e no Capítulo 9). E de novo temos de notar que não há espaço para perda ou acumulo entre os elos dessa corrente de graça. Repetidamente, a fórmula é “aos quais, a eles”, “aos quais, a eles”, “aos quais, a eles”. As mesmas que o Pai preordenou em Seu conselho na eternidade serão glorificadas na eternidade futura — uma prova simples da segurança eterna de todos os santos de Deus.

Essa cadeia de ouro da graça divina, que é composta de elos forjados e inquebráveis, é a base da garantia de que “sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). A palavra “para”, no versículo 29, mostra isso. Mas não dá para haver essa certeza para a pessoa que mutila, por meio de descrença, um ou mais elos dessa corrente de ouro.

O propósito de Deus para Seu povo é inevitável, certo e completamente glorioso, pois a glorificação eterna é a promessa bendita e inevitável que é estendida ao verdadeiro filho de Deus. Paulo estava disposto a aguentar todas as coisas, não só para que os eleitos fossem salvos, mas também para que eles pudessem obter aquela glória plena que Deus tem para os Seus eleitos, e para a qual Ele os predestinou. “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10). Embora essa condição conhecida como glorificação deva ser a maravilhosa condição final e eterna do povo de Deus, porém pesquisaríamos em vão na maioria dos livros teológicos em busca de uma menção a esse termo. E os que realmente o mencionam, em geral, o fazem apenas do modo apressado, e isso só em conexão com algum outro assunto.

A glorificação é o ponto em que a doutrina da salvação e a doutrina das últimas coisas têm algo em comum, pois olha para além desta vida; olha para o mundo futuro. Esse assunto recebe pouco tratamento nos livros teológicos padrão, e ainda menos atenção nos sermões, mas é rico em importância prática, pois dá aos crentes incentivo e fortalece a esperança deles (Millard J. Erickson, Christian Theology [Teologia Cristã], p. 997. Baker Book House, Grand Rapids, 49506, 1991).

O autor deste, depois de consultar mais de trinta livros teológicos de escritores de quase todas as escolas filosóficas, só descobriu meia dúzia ou mais que mencionavam essa glorificação especificamente. Sem dúvida, alguns tratavam desse assunto sob os tópicos de “céu” e outros, mas cremos que a frequência com que esta palavra aparece na Bíblia assegura tratamento mais específico do que esse, principalmente porque esse é o alvo para onde se inclinam todas as nossas ambições e ações como cristãos.

Andrew Fuller, numa seção de suas Obras sobre “The Heavenly Glory [A Glória Celestial]”, bem diz:

Uma das principais características com que se distingue a religião da Bíblia daqueles sistemas de filosofia e moralidade que muitos querem impor sobre nós em seu lugar é que tudo o que tem a ver com ela sustenta uma relação com a eternidade. O objeto de todos os outros sistemas é, na melhor das hipóteses, reformar as maneiras; mas essa retifica o coração. Eles aspiram somente a preparar os homens para este mundo; mas essa, embora transmita aquelas disposições que tendem mais do que qualquer coisa a promover a paz, a ordem e a felicidade na sociedade, fixa a paixão de forma suprema em Deus e nas coisas de cima. Esse é o tempo de semear e a eternidade é a colheita. Tudo o que se sabe de Deus, e é feito por ele nesta vida, prepara para a alegria que está colocada diante de nós (Works, Vol. III, pp. 725, 726. Sprinkle Publications, Harrisonburg, VA., 1988. (O destaque é meu — DWH)).

A glorificação é resultado da justificação, conforme Romanos 8:30, acima citado mostra, e assim é garantida pela graça de Deus, que é o poder por trás de todas as ações de Deus lidando com Seus eleitos. É também resultado da eleição e predestinação eterna de Deus, que estão apenas dois elos atrás a mais nessa corrente da graça. Assim, se um homem quiser ter certeza de sua glorificação, ele tem de se certificar de seu chamado e eleição, a única coisa que garante sua rica entrada no eterno reino de glória do Senhor. “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:10-11). Essa passagem é um contraste do versículo 9. É essa certeza de glória futura que capacita o crente a aguentar tudo o que o mundo possa trazer sobre ele: ele tem uma esperança que olha para além deste mundo e sua glória que logo passa. Alexander Carson diz dos santos:

Se as esperanças deles se confinassem a este mundo, de todos os homens vivos, eles, na verdade, seriam os mais miseráveis; pois, embora a sobriedade, a dedicação e outras virtudes da vida cristã os isentem de muitos dos males, aos quais outros são expostos, mas as tribulações peculiares às quais são sujeitos seriam mais do que um contrapeso a isso. A maior parte de sua presente felicidade consiste na antecipação de sua glória futura (The Doctrine of the Atonement [A Doutrina da Expiação], pp. 240 241. Edward H. Fletcher, New York, 1853. (O destaque é meu — DWH)).

A glorificação não é a mesma coisa que recompensas, embora as duas tenham relação, pois a glorificação é o destino de toda alma verdadeiramente nascida de novo, apesar de que ela possa não ter feito uma única obra em sua vida cristã que seja digna de recompensa. As recompensas se basearão na nossa fidelidade ao Senhor. A extensão da nossa glorificação poderá ser ampliada por nossa atitude de mais fidelidade e de servir a Deus a partir de motivos certos. Talvez Daniel 12:3 indique isso: “Os que forem sábios [ou ‘mestres’], pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas sempre e eternamente”. Alguns sustentam que isso apresenta dois graus de fidelidade com graus correspondentes de glória.

Talvez isso seja o que o termo “amplamente” de 2 Pedro 1:11 indique. Embora o homem justificado verdadeiramente seja glorificado no reino eterno de nosso Senhor, embora ele entre cheio de dúvidas e temores e com pouco serviço alegre para seu crédito, contudo, aquele que assegurou seu chamado e eleição, com o resultado de que ele serve alegremente seu Senhor na certeza da glória futura, terá ampla entrada, em oposição à entrada infrutífera e sem recompensa do outro.

É evidente em tais textos como 2 Coríntios 4:17 que a perseverança do crente nas tribulações e aflições tem algo a ver com o grau de glória que será dele. Esse versículo diz: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente”. Como, então, temos de nos envergonhar por toda a choradeira e reclamação por causa de nossas pequenas e insignificantes inconveniências e desconfortos quando nosso Senhor gracioso nos prometeu que essas situações serão o próprio meio para mais glorificação para nós se as aguardarmos com paciência para que em tudo Deus seja glorificado?! Lembremo-nos: Deus não será devedor do homem: o que se faz por Ele será recompensado no devido tempo. “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gálatas 6:9). A “glória” tem a ver com aquela sublime e inconcebível condição e estado que vem logo após a vida presente, e que, desde Sua ressurreição, agora caracteriza Jesus como o Deus-homem (Lucas 24:26; 1 Pedro 1:11). É isso o que caracterizará todos os santos depois de sua ressurreição (Romanos 8:17 24; Filipenses 3:20 21). Essa é a condição para a qual todos os santos verdadeiros estão se mudando, pois é seu destino predeterminado e prometido (Romanos 8:29 30; 9:23; 1 Coríntios 2:7). Não conhecemos nenhum outro texto que seja mais adequado para nosso estudo desse assunto do que Colossenses 3:4, que diz: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória”.

 

 

A Glorificação dos Santos (Parte 2)

A Glorificação dos Santos (Parte 3)

A Glorificação dos Santos (Parte 4)

 

 

Autor: Davis W. Huckabee

Trecho extraído do livro Fundamentado na Graça: Estudos nas Doutrinas Centrais da Fé Cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.