Restauração e Reforma

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“Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 4:17). Qual foi a primeira palavra proferida por João Batista e por Jesus quando começaram a pregar? Ambos retornaram da estadia no deserto proclamando a mesma coisa (Mateus 3:1-2; 4:17).

A palavra arrepender evoca uma imagem em nossas mentes de um homem do deserto, com o cabelo despenteado portando um sinal: “Arrependam-se, o fim está próximo”. Essa é exatamente a imagem que Satanás quer que tenhamos. Muitos evangélicos evitam o assunto arrependimento por causa dessa conotação. Devemos lembrar que os dois maiores pregadores e líderes da reforma cristã começaram seus primeiros sermões com a palavra arrepender-se. A verdadeira reforma começa com o arrependimento.

O que João e Jesus tinham em mente quando chamaram pessoas ao arrependimento? Seus ouvintes eram pecadores de coração, cujas vidas demonstravam características estranhas ao reino de Deus. Portanto, eles estavam chamando-os para renunciar os seus pecados e assumir uma nova vida.

Há um arrependimento falso e incompleto que confessa um pecado e até desenvolve uma animosidade e aversão a esse pecado, mas não adota uma característica justa oposta ao comportamento ilícito. Esse arrependimento falso não produzirá reforma. Não é suficiente que o arrependido evite a ganância; Jesus o conclama a um evangelho sincero. Assim, o arrependimento genuíno leva à reforma – uma reforma do indivíduo e da sociedade arrependida. A autenticidade de um cristianismo que não muda indivíduos e sociedades deve se questionada.

O arrependimento e a reforma nascem de uma mudança no homem interior moldado por Deus. O homem, com seu ego arrogante, quer produzir a reforma por sua própria força. Tal foi a santificação superficial de Nicodemos. Externamente, ele era o epítome da obediência religiosa. Internamente, ele estava repleto de corrupção pútrida. Tal foi declaração inicial de Jesus a respeito de um renascimento espiritual no homem interior (João 3:3). O mundo secular prega uma reforma do comportamento externo (a grande sociedade utópica) formada pelo poder da educação, da capital ou do governo. Tais instituições são apenas placebos que não alcançarão a profundidade da depravação da humanidade. O arrependimento que produz a reforma começa profundamente nos recessos internos do coração.

Se o pecado corrompe todas as partes do nosso ser (e o faz), deve haver arrependimento e reforma em todas as áreas da nossa vida. Às vezes, costumamos dizer que fofocas, ciúmes ou preconceitos são os nossos pecados. Desconsideramos outras áreas de nossas vidas, pensando que estamos bem com Deus e outros. Quem de nós pode dizer que existe uma área de nossas vidas onde não precisamos de arrependimento e mudança? Como cristão, eu sei que todas as esferas da minha vida necessitam de arrependimento diário, e se precisa de arrependimento, necessita ser reformada. Há uma reforma que ocorre continuamente na vida do cristão desde o momento da sua conversão até que ele seja chamado para casa. O homem ou a mulher que tem sido cristão setenta anos ainda está se arrependendo, crescendo em Cristo e sendo reformado pelo Espírito Santo.

Sempre houve uma tendência de “espiritualizar” o arrependimento e a reforma para que não alcancem os detalhes mundanos de nossas vidas “reais”. Por exemplo, o jovem cristão é frequentemente ensinado que, se ele deseja uma santificação genuína, ele deve entrar em algum ministério que serve a igreja. Muitos de nós ensinamos na escola dominical, cantamos no coral ou servimos como oficiais na igreja, pensando que estas são as únicas formas em que podemos realmente expressar nosso amor por Cristo, quando vivemos no mundo secular durante a semana. Quando João Batista conclamou as multidões para que se arrependessem, alguns coletores de impostos e soldados foram até ele e perguntaram: “O que devemos fazer?” (Lucas 3:12, 14). João não lhes disse para deixar seus empregos (e muitos os consideravam como algo inerentemente mau). Ele não disse para se tornarem profetas ou sacerdotes. Ele disse a eles para se arrependerem dos pecados, geralmente predominantes em suas linhas de trabalho e demonstrarem um caráter piedoso em seus empregos.

Por muitos anos, tive o privilégio de conhecer cinco ministros de igrejas muito grandes. Essas igrejas conservadoras tinham uma associação conjunta de 48.000 membros. Uma vez, perguntei a esses ministros qual é a porcentagem de suas congregações que entendiam que eram chamadas por Deus para servi-Lo com suas vocações. Cada ministro considerou cuidadosamente a questão e deu a sua resposta. Nenhuma estimativa foi de mais de dez por cento. Noventa por cento dessas congregações não manifestavam arrependimento e reforma nos lugares onde passaram a maior parte de sua semana. Somos chamados por Deus para trazer arrependimento sincero e reforma para cada área de nossas vidas e no mundo. No decorrer do século passado, os cristãos em nossa sociedade abandonaram instituições de comunicação, governo, educação, artes, negócios, etc. A estranha verdade é que abandonamos essas instituições em nome de Cristo. Devemos perguntar: “Que Jesus estamos servindo?” Certamente, não o Jesus, cuja primeira palavra pregada foi sobre o arrependimento, enquanto buscava trazer restauração e reforma para uma criação perdida.

 

 

Autor: John Sartelle

Fonte: Ligonier Ministries

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.