O que a Deserção Espiritual não é

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Em primeiro lugar, ao discutir sobre a deserção espiritual, não entendemos isso como uma referência à deserção do não convertido. Deus concede muita prosperidade temporal, riquezas, honra e proeminência aos não convertidos. Ele pode conceder-lhes iluminação externa, fé histórica, convicção, euforia para o arrependimento e uma fuga para longe das poluições básicas do mundo. Quando tais pessoas abusam de todas essas bênçãos comuns e não se arrependem, como consequência disso, Deus as deserta completamente e as entrega a elas mesmas. Assim, elas tornam-se ainda mais abomináveis do que antes, sobre as quais mais julgamentos terríveis podem suceder. Isso pode ocorrer neste mundo, para que a justiça divina seja observada e glorificada neles. Entretanto, isso ocorrerá especialmente depois que eles morrerem – no inferno. Isso deve ser observado em 1 Samuel 16:14: Tendo-se retirado de Saul o Espírito do SENHOR, da parte deste um espírito maligno o atormentava, bem como em Romanos 1:21-26. Contudo, estamos tratando aqui da deserção do regenerado.

Em segundo lugar, não entendemos isso como uma deserção completa ou final. Isso é impossível, por conta do decreto e da eleição imutáveis de Deus, da expiação de Cristo, do selo e da permanência do Espírito Santo e de todas as promessas garantidas de Deus. Durante um período de deserção, o Senhor sustenta o regenerado por influências secretas e imperceptíveis. O Senhor sustém os que vacilam e apruma todos os prostrados (Sl 145:14).

Em terceiro lugar, não entendemos que isso seja uma menor infusão de graça espiritual em um em comparação com o outro. Em Sua igreja, Deus tem filhos em vários níveis de maturidade. Existem crianças, jovens e pais. As crianças têm uma medida de graça muito menor do que os pais, mas elas não se encontram em estado de deserção. Um pai pode estar em um estado de deserção ao ter e preservar mais graça do que as crianças.

Em quarto lugar, também não entendemos isso como um traço da cessação de iluminações extraordinárias e confortos em detrimento dos que possuem uma natureza comum. Quando Paulo retornou do terceiro céu, não se podia dizer que ele estava abandonado. Deus também concede a alguns de seus filhos algo extraordinário que está acima e além do caminho que eles são geralmente conduzidos. Quando isso cessa, ele faz com que eles retornem ao seu estado normal. Isso não é para imaginarem que estão abandonados em maior ou menor grau, uma vez que agora eles têm que perder o extraordinário.

Em quinto lugar, não entendemos isso como uma alusão a ofensas diárias, mesmo que elas ocorram devido à ausência da influência do Espírito, que, de fato, teria podido nos impedir de tais ofensas. Isso não é, todavia, um cancelamento de Suas influências normais. O cair em pecados especiais (contra os quais poderíamos permanecer firmes pelo auxílio natural do Espírito), com efeito, ocorre devido à retirada de Sua influência. A expressão Deus o desamparou, em 2 Crônicas 32:31, não é, portanto, a deserção que está em discussão aqui.

Em sexto lugar, também não entendemos isso como uma prova da redução da graça habitual. Deus não apenas move o seu por meio de influências externas, antes, Ele traz vida espiritual para a alma, e essa vida é mais vigorosa naquele do que no outro. Por causa de seu princípio espiritual, esta vida não só tem uma inclinação inerente a ser ativa, mas na realidade também é ativa em virtude da operação normal do Espírito. Sendo assim, essa propensão infundida é aperfeiçoada por meio do exercício, mas também pode ser diminuída por uma variedade de causas. Na deserção espiritual, Deus não remove essas propensões inteiramente nem parcialmente. Em vez disso, ele retém a operação natural do Espírito, e, como consequência necessária disso, as graças habituais às vezes diminuem. Porém, não é verdade para toda deserção, pois, em alguns casos, as graças habituais aumentarão – como é verdade para as raízes das árvores –, tanto durante as tempestades quanto durante os invernos.

 

 

Leia também Deserção Espiritual e sua Definição

 

 

Autor: Wilhelmus à brakel

Trecho extraído de The Christian’s Reasonable Service, volume 4.

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.