Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas (Parte 2)

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Uma Demonstração de Tolerância, na Vida de Paulo

Na epístola aos Filipenses (1.12-18), Paulo mostrou-se bastante tolerante com relação àqueles que pregavam a Cristo até com o motivo errado, mas sem adulterar o conteúdo da mensagem. Não é que ele recomende a falta de sinceridade ou os motivos errados dos que se aproveitavam de suas cadeias para pregar, mas ele é surpreendentemente tolerante. No entanto, não há nenhuma menção, no trecho, de que houvesse distorção no conteúdo da mensagem. Paulo sabia analisar os detalhes, discernir as prioridades e se concentrar nas questões cruciais da fé cristã. Ele não temia ser conhecido e caracterizado por sua intransigência, quando o cerne do evangelho estava sendo adulterado. Entretanto, ele não queria ser classificado de intolerante, se este perigo estava ausente. Ele não queria ser “do contra” contra tudo, mas sim contra o que se merecia ser contra. A tolerância tem que ser uma atitude sempre presente em nossa vida para com aqueles irmãos com os quais temos algumas diferenças. A nossa intransigência deve se conter àquelas coisas que estão perturbando os pontos fundamentais do evangelho, mas a caridade cristã e o amor de Cristo deve ser refletido em nossas atitudes, derramando-se sobre todos aqueles que foram resgatados pelo preciosos sangue de Cristo.

John Owen e Tolerância

Um dos maiores teólogos e expositores da Palavra de Deus que já existiu, o puritano John Owen (1616-1683), viveu em uma era retratada por muitos como uma época de intolerância. Owen era realmente intransigente com relação às doutrinas cardeais do evangelho, mas, surpreendentemente, ele era extremamente tolerante com aqueles que não compartilhavam a sua interpretação da Palavra de Deus. Naquela ocasião, ele era conselheiro de governantes e respeitado por esses. Não seria inusitado, para a época, valer-se de sua posição de influência para promover expurgos e perseguições religiosas. Muitos assim o fizeram. Owen, entretanto, proferiu vários sermões e escritos defendendo a tolerância e o tratamento amoroso da falta de entendimento de muitos.

Poderíamos dizer que Owen teve esta coragem de “remar contra a maré” da sua época, defendendo um tratamento meramente eclesiástico das questões religiosas, consciente de que o Senhor era o legítimo proprietário das consciências, a quem os homens haveriam de prestar contas por suas persuasões e convicções.

Em um de seus sermões, ele retrata bem a intransigência de Paulo, quando declara:“Algumas coisas, na realidade, estão tão claramente estabelecidas nas escrituras e tão bem determinadas, que não é possível questioná-las ou negá-las”.Owen continua, entretanto, se posiciona em defesa da tolerância, refletindo uma atitude que, comparada com a nossa intolerância contumaz, deveria nos envergonhar; tamanha é a sua sensibilidade. Escreve ele:

… mas, geralmente, erros ocorrem em coisas de difícil compreensão, que não são tão claras e evidentes. Com relação a tais, é muito difícil classificá-las de heresias. A sensibilidade de nossos próprios males, falhas, incompreensões, escuridão e o nosso conhecimento parcial, deveria operar em nós uma opinião caridosa para com as pobres criaturas que, encontrando-se em erro, assim estão com os corações sinceros e retos, com postura semelhante aos que estão com a verdade.9

Em 1648, Owen pregou um extenso sermão no Parlamento Britânico, na Câmara dos Comuns, intitulado “Sobre Tolerância”, no qual defendeu, mais uma vez, a demonstração do amor cristão e a não intervenção dos poderes governamentais nas diferenças de opiniões eclesiásticas. 10

A Tolerância de Cristo

O grande exemplo de tolerância nos é fornecido pelo próprio Cristo. Em Mateus 20.20-28, lemos sobre o incidente onde Jesus recebe o pedido da mulher de Zebedeu, para que seus filhos (Tiago e João) tivessem lugar de proeminência no reino que Ele havia acabado de anunciar. Possivelmente possuída de um conceito errado sobre a natureza desse reino e pleiteando cargos de importância política, ela funda a instituição do “lobby governamental”. Com essa atitude, ela demonstra uma ampla falta de percepção espiritual, mas essa falha não era só dela. Seus filhos parecem apoiá-la e participar ativamente do pedido. Em sua resposta, Jesus diz que eles estão “por fora”, ou seja, “não sabem o que pedem”.

Depois de estarem por tanto tempo tão próximos a Jesus, ouvindo os Seus ensinamentos, podemos até pensar: como é que eles erraram o alvo dessa maneira? Como é possível que não se aperceberam da natureza espiritual do reino e da postura de servos que deveriam ter? Mas a situação é mais grave ainda, porque os outros dez passaram a demonstrar igual atitude de inveja e ira, com relação àquele pedido inoportuno. Se eles estivessem imbuídos da atitude de servos, conscientes de que deveriam, cada um, “considerar os outros maiores do que a si mesmo”, certamente teriam dito a Jesus: “realmente, eles parecem ser bem qualificados para terem um lugar de importância no reino! Não nos importamos se eles forem nomeados”. Mas não, eles estavam, com certeza, pensando: “Por que eles e não nós?” Repentinamente, depois de tantos ensinamentos, Jesus viu todos os Seus auxiliares imediatos, os homens com os quais deixaria a Sua igreja, envolvidos em uma disputa rasteira sobre cargos e influência pessoal. Como Ele deve ter se entristecido. Qual foi sua reação?

Registra o texto que Jesus, pacientemente, chamou a todos ao lado e passou a ensinar-lhes, mais uma vez, a natureza do Seu reinado espiritual, a verdadeira missão que lhes seria confiada. Que demonstração de amor e de tolerância com a falta de entendimento daqueles irmãos. Que exemplo de paciência, para nós, e que incentivo para que sejamos mais tolerantes e caridosos com os nossos irmãos. Que Deus nos livre do pecado da intolerância.

  1. O Pecado da Acomodação no Aprendizado

Definindo a Acomodação

Acomodação no aprendizado é quando atingimos um ponto no qual achamos que já dominamos todas as verdades, ou seus aspectos principais, e paramos de nos empenhar no estudo da palavra. Ficamos repisando as mesmas verdades desprezando a riqueza de conhecimento que nos espera na Palavra de Deus.

O Jovem: Presa Fácil desse Pecado

Com frequência encontramos a ocorrência desse pecado nos jovens que foram expostos e convencidos das realidades das Doutrinas da Graça. Após devorarem alguns livros, após aprenderem a formular e a discutir os “cinco pontos”, estacionam por aí. Acham, entretanto, que já dominaram tudo o que se pode saber, dedicando-se a grandes e extensas discussões como se fossem mestres.

O Alerta aos Seminaristas

Em 04.10.1911, o grande teólogo norte-americano Benjamin Breckinridge Warfield, foi comissionado a apresentar uma palestra no Princeton Theological Seminary sobre o tema:“A Vida Religiosa do Estudante de Teologia”. Para surpresa de alguns, ele falou pouco, inicialmente, sobre a parte devocional da vida de cada estudante, mas colocou extrema ênfase na necessidade do estudo. Disse ele: “… antes de ser erudito, o ministro deve ser devotado a Deus, porém o mais grave erro é colocar estas coisas em contradição”. Continua ele: “… existe alguma coisa fundamentalmente errada na vida do estudante de teologia que não estuda”.11

É interessante notar como Warfield identifica a vida cristã espiritualmente rasa. Em sua correta visão ela é evidenciada pelo desprezo ao estudo, pela acomodação no aprendizado.

Os Alertas de Provérbios

O livro de Provérbios apresenta inúmeras exortações com relação à importância da sabedoria, e, consequentemente, à dedicação ao estudo e ao aprendizado. Dois versos parecem retratar a nossa observação, de pessoas que se esmeram nas discussões com pouca profundidade de conhecimento. O primeiro é Provérbios 18.12, que diz: “O insensato não tem prazer no entendimento, senão em externar o seu interior”. Se estivermos com grande vontade de externarmos o nosso interior, vamos parar um pouco para meditação: muitas vezes, estamos mesmo é precisando de continuado aprendizado e instrução. O segundo verso é Provérbios 19.27, onde lemos: “Filho meu, se deixas de ouvir a instrução, desviar-te-ás das palavras do conhecimento”. O escritor inspirado do provérbio, pressupõe que o conhecimento foi apreendido e existe na vida do leitor (“filho meu”), mas ele soa um alerta para que não haja acomodação no aprendizado. O ouvir a instrução é uma ação contínua que nos preservará dos desvios do conhecimento.

Com certeza, não podemos nunca deixar que este pecado encontre guarida em nossa vida e nem que venhamos a nos acomodar sem meditação e sem estudo e conhecimento das verdades de Deus.

Pedro Fala aos Calvinistas

Em sua segunda carta (2 Pedro 1.3-11), Pedro traz uma palavra de grande importância aos calvinistas. O trecho diz:

Visto como pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção, das paixões que há no mundo. Por isso mesmo vós, reunindo toda vossa diligência, associai com a vossa fé, a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque, estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora. Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois, desta maneira, é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Pedro enraíza no “divino poder” de Deus (v. 3) todas as questões pertinentes à nossa existência, tudo que é necessário e relacionado com o amor, bem como com o pleno conhecimento do próprio Deus. Não é que ele esteja apenas afirmando que Deus é a fonte, mas ele está ensinando que de Deus recebemos tudo, em plenitude. Com essa proposição, ele reafirma a plena soberania de Deus até na aplicação do conhecimento. A seguir, Pedro nos indica que tudo isso representa o cumprimento das promessas de Deus para nós, representando, igualmente, um grande contraste com as corruções deste mundo (v. 4). Passa, então, a detalhar as áreas importantes da vida, que devem merecer a nossa concentração (vv. 5 a 7). Essas áreas são apresentadas num “crescendo” no qual a interligação de uma com a outra é demonstrada, cada uma sendo construída no alicerce previamente construído, sendo interdependentes (fé, virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade, amor). A demonstração dessas virtudes em nossas vidas não nos deixará ociosos, nem infrutíferos nem com a visão obscurecida, mas nos trará ao pleno conhecimento de Cristo e não deixará que venhamos a nos esquecer do milagre da salvação – daquilo que Cristo fez para a purificação dos nossos pecados (vv. 8 a 9).

Estamos afirmando que a palavra é pertinente para os calvinistas, porque ao iniciar com o detalhamento dessas virtudes que procedem do poder de Deus, e que por Sua agência são derramadas sobre nós, Pedro enfatiza: “…reunindo toda a vossa diligência” (v. 5). Isso significa que não existe lugar para acomodação no aprendizado. Mesmo que tudo isso esteja sob a abrangência da soberana vontade de Deus e intrinsecamente fazendo parte de Seus decretos, temos que procurar com diligência o conhecimento de Deus e a aplicação desse conhecimento em nossas vidas. Devemos nos esforçar e esperar que Deus, em sua divina providência, nos conceda o conhecimento do qual tanto necessitamos e as vidas santas que devem se seguir ao conhecimento da Sua pessoa e dos Seus caminhos.

Essa questão é tão importante para Pedro que ele, sob a divina inspiração do Espírito Santo, repete a admoestação, no verso 10, quando indica que devemos procurar, “com diligência cada vez maior”, a confirmação da nossa vocação e eleição através da prática do conhecimento de Deus, que vem pela dedicação ao contínuo aprendizado e pela consequente vida santa, que Ele requer de cada um de nós. Que Deus nos livre do pecado da acomodação no aprendizado de Suas verdades.

  1. O Pecado da Falta de Ação

Uma Grave Distorção

Esse pecado tem muita relação com o pecado anteriormente mencionado, e representa uma grave distorção da doutrina da soberania de Deus. Muitas vezes seguimos adquirindo conhecimento e profundidade na nossa fé, mas ficamos inativos e não temos colocado a nossa fé em prática – não temos a ação que deveríamos ter. Entendemos e nos convencemos das verdades que dizem respeito à soberania de Deus, mas indolentemente ficamos aguardando o cumprimento dos Seus decretos.

Falta de Compreensão da Responsabilidade Humana

Esse pecado é aquele que leva calvinistas a cruzarem os braços, quando deveriam estar agindo, achando que Deus vai atuar de qualquer forma. É aquele pecado que faz com que a gloriosa doutrina da predestinação, em vez de ser alvo de admiração e humildade, seja utilizada como uma desculpa. É o pecado que evidencia a falta de compreensão do que é o ensinamento bíblico sobre a responsabilidade humana. Temos que nos mirar no exemplo de Paulo. Ele foi o magistral expositor das doutrinas da graça, escolhido para isso pelo Espírito Santo de Deus. Mesmo assim, ou melhor, precisamente pela sua completa compreensão da soberania divina e da responsabilidade humana, vemos Paulo trabalhando, lutando, sofrendo, escrevendo cartas, chegando a perder o sono, com o propósito de executar o serviço de Deus.

A “História” de um Casal Puritano

Lembro-me de uma ilustração que ouvi sobre um casal da época dos puritanos. Por mais duvidoso que seja o relato, ele estimula o nosso pensamento sobre a atitude de pessoas com relação à questão da responsabilidade humana. Conta-se que um puritano, na Nova Inglaterra, habitava com sua família em uma cabana no meio da floresta, distante de tudo e de todos, cuidando apenas dos campos plantados, em clareiras abertas no meio da floresta. Certo dia ele teve que sair de sua cabana para ir ao vilarejo, atravessando aquela floresta infestada de ursos ferozes, que atacavam animais e pessoas. O puritano colocou a sua melhor roupa preta e começou a se preparar para a jornada. Ao chegar perto da porta de saída, ele estendeu a mão e pegou sua espingarda, verificando se estava carregada. Nesse momento sua esposa exclamou!

– Não entendo essa sua preocupação com a espingarda, porque se você estiver predestinado a ser devorado por um urso, será devorado por ele; mas se estiver predestinado a chegar ao vilarejo em segurança, assim chegará! Deixe essa arma aí!

O puritano voltou-se à esposa, e com toda longanimidade que lhe era habitual, respondeu:

– Ó, mulher! E se eu encontrar um urso que esteja predestinado a levar um tiro da minha espingarda e eu estiver sem ela, como é que eu vou fazer?

Podemos rir com a história, mas muitas vezes estamos, em nossas vidas, retratando aquela atitude da mulher daquele puritano. Com freqüuência, passamos a descansar indevidamente na soberania de Deus, quando Ele está colocando as coisas na nossa frente, requerendo, de nós, alguma ação.

Temos que nos conscientizar de que vivemos sob a égide da vontade decretiva de Deus, mas no conhecimento e sob a diretriz clara de sua vontade prescritiva. Nela, conforme expressa nas Escrituras, temos tudo o que precisamos saber para agirmos responsavelmente, da forma como Ele quer que venhamos a agir.

Um exemplo prático de Paulo

Talvez a maior confirmação prática, de como Paulo conjugava esses dois lados da moeda, da soberania divina e da responsabilidade humana, é encontrado em Atos 27, no relato do naufrágio que sofreu, a caminho de Roma. Principalmente os versículos 22 a 44.

Uma das dramáticas declarações de Paulo, no meio da tempestade que precedeu o naufrágio, é que nenhuma vida iria se perder! Ele afirma esse prognóstico com tanta segurança porque o anjo de Deus lhe dissera isso. Paulo era possuidor, nesse evento, de um conhecimento específico por revelação. No auge da época apostólica, ele recebe esta revelação, de que todos aqueles no navio seriam preservados. Ninguém iria se perder, pois Deus tinha outros propósitos. Assim, com uma determinação tão clara, Paulo transmite com toda segurança a informação recebida – apesar de todos estarem temerosos, as vidas seriam poupadas, no meio da feroz tempestade. Notemos, entretanto, que Paulo não fica de braços cruzados, dormindo, esperando a milagrosa preservação de todos. Pelo contrário – encontramos Paulo ativo, dialogando e persuadindo ao centurião que era necessário que aqueles que procuravam safar-se do barco voltassem ao navio. Paulo manda que se alimentem, para ficarem fortes, apesar de saber que Deus iria salvar a todos, mesmo em jejum. Ele estava ali cumprindo as suas responsabilidades, aquelas que foram colocadas por Deus perante ele. Paulo andava passo a passo sob a vontade prescritiva do Senhor. Depois que todas as 270 pessoas que se encontravam a bordo se alimentaram, passaram a fazer o que estava à frente para ser feito: aliviaram o navio, lançando a carga ao mar. Diz-nos o verso 44 que “foi assim que todos se salvaram em terra”.

A plena consciência e convicção da soberania de Deus, na vida de Paulo, nunca o levou a ser vítima do pecado da falta de ação. Que este pecado nunca esteja presente em nossas vidas, mas que, como Paulo, estejamos andando passo a passo debaixo da vontade prescritiva de Deus, revelada nas Sagradas Escrituras. Que possamos, como calvinistas, ser confiantes na soberania de Deus, mas também que estejamos engajados nas Suas verdades, na Sua obra e na Sua palavra.

  1. O pecado do isolamento

Viver no Passado ou Estudá-lo?

O isolamento é um pecado que está sempre a nos rondar. O calvinista verdadeiro não é aquele que vive no passado, mas o que procura aplicar as doutrinas bíblicas reveladas à sua situação, ao seu contexto. O seu apreço pela história e pelos reformadores não procede de um interesse meramente “arqueológico”.

A Abordagem do Antiquário

Martin Lloyd-Jones nos alerta para um perigo que existe dentro do interesse pelos acontecimentos que marcaram a Reforma e nossa herança puritana. Na realidade, ele nos confronta com uma forma errada e uma forma certa de relembrar o passado, do ponto de vista religioso.12

A forma errada seria estudar o passado por motivos meramente históricos. Esse estudo seria semelhante à abordagem que um antiquário dedica a um objeto. Por exemplo, quando ele examina uma cadeira, ele não está interessado se ela é confortável, se dá para se sentar bem nela, se ela cumpre adequadamente a função de cadeira. Basicamente, a preocupação se resume à sua idade, ao seu estado de conservação e, principalmente, a quem pertenceu. Isso determinará o valor daquele objeto para ele e, consequentemente, o seu estudo é motivado por esta visão. O estudo errado da história ocorre, muitas vezes, em função dessa abordagem do antiquário.

O Alerta de Jesus registrado por Mateus

Em Mateus 23.29-35, teríamos um exemplo desse apreço errado pelo passado. O trecho diz:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices no derramar o sangue dos profetas. Assim, vós testemunhais contra vós mesmos que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar.

Jesus diz que aquelas pessoas pagavam tributo à memória dos profetas e líderes religiosos do passado. Eles prezavam tanto a história que cuidavam e enfeitavam os sepulcros. Proclamavam a todos que os profetas eram homens bons e nobres e atacavam quem havia rejeitado os profetas. Diziam eles: “se estivéssemos lá, se vivêssemos naquela época, não teríamos feito isso!” Mas Jesus não se impressiona e os chama de hipócritas! A argumentação de Jesus é a seguinte: Se vocês se dizem admiradores dos profetas, como é que estão contra aqueles que representam os profetas e proclamam a mesma mensagem que eles proclamaram? Ele testa a sinceridade deles pondo a descoberto a atitude no presente para com aqueles que hoje pregam a mensagem de Deus e mostra que eles próprios seriam perseguidores e assassinos dos proclamadores da mensagem dos profetas.

O Nosso Teste

Esse é também o nosso teste: uma coisa é olhar para trás e louvar homens famosos, mas isso pode ser pura hipocrisia se não aceitamos, no presente, aqueles que pregam a mensagem de Lutero e de Calvino. Somos mesmo admiradores da Reforma, daqueles grandes profetas de Deus? Se não aplicamos na vida prática as doutrinas reformadas, o nosso interesse é apenas o de antiquários. Estamos promovendo e encorajando o pecado do isolamento, com esse tipo de visão da história?

A forma correta de relembrar o passado

Mas existe uma forma correta de relembrar o passado. Deduzimos esta não apenas por exclusão e inferência do texto anterior, mas por que temos um trecho na Palavra de Deus —Hebreus 13.7-8, que diz: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus, e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente.”

As doutrinas são de Cristo. Ele e os seus ensinamentos são os mesmos ontem, hoje e eternamente. A maneira correta de relembrar a Reforma é, portanto, verificando a mensagem, a palavra de Deus, como foi falada, e isso não apenas por um interesse histórico de “antiquário”, mas para que possamos imitar aquela fé demonstrada. Devemos observar aqueles eventos e aqueles homens, para que possamos aprender deles. Vamos verificar como eles aplicaram as doutrinas eternas aos seus dias e vamos seguir os seus exemplos, discernindo a essência da sua mensagem e aplicando-a aos nossos dias.

Deus é Sempre Contemporâneo em Seu Falar

Não podemos, portanto, viver num mundo isolado, demonstrando falta de aproximação com a nossa igreja, com os nossos irmãos, com o nosso povo, com a nossa realidade.

Hebreus 1.1-4 mostra que Deus fala de forma diferente a tempos diferentes. O cerne da mensagem não muda. Nos nossos dias, a revelação escriturada está completa e não estamos defendendo a existência de novas revelações. Entretanto, reconhecemos que Deus sempre demonstrou querer falar com o homem nos seus termos. Na Palavra de Deus temos os muitos antropomorfismos – descrições figurativas da pessoa de Deus, em características de homem. Isso é um exemplo de como Deus condescende em chegar até o homem.

Paulo enfatiza a necessidade da comunicação eficaz, indicando que fez-se fraco para os fracos; judeu, para os judeus; e gentio, para os gentios (1 Co 9). A linguagem das escrituras era o grego comum, falado pelo povo que diferia tanto do grego clássico, da literatura, que durante muitos anos estudiosos bíblicos postulavam que era um tipo de “grego sagrado”. Se Deus chega-se até ao homem, nas suas limitações e circunstâncias, objetivando a melhor comunicação, porque pensamos que devemos fazer os crentes chegar até estilos e formas que não são mais nossas? Porque prejudicamos a eficácia da nossa comunicação? Porque cristianizamos estilos e formas que não fluem da Bíblia, mas pertenceram a uma época? Porque nos tornamos antiquários em vez de usuários e aplicadores práticos das verdades de Deus? Lembremo-nos que Deus tem a palavra certa, na certeza de sua palavra, para a ocasião certa, na hora certa. Supliquemos a Ele que nos livre do pecado do isolamento.

Minha oração é que nós, calvinistas, possamos ser conhecidos tanto por nossa doutrina firme, sadia, segura, intransigente, quanto por nosso amor fraternal, por nossa gentileza, por nossa dedicação no estudo e por nossa aplicação veraz e eficaz das sãs doutrinas ao nosso tempo. Que não apliquemos esses alertas aos nossos conhecidos ou vizinhos, mas que possamos realmente, com sinceridade, buscar a presença de Deus e verificar se não estamos sendo alvo das ciladas de Satanás, caindo nesses cinco ou mais pecados.

 

 

Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas (Parte 1)

 

 

NOTAS:

8. John Owen, Sermão: “A Prática do Governo da Igreja” em The Works of John Owen (Londres: The Banner of Truth Trust, 1967) Vol. VIII, 60.

9. Owen, Works, VIII, 61.

10. Owen, “Of Toleration”, Works, VIII, 163-206.

11. Benjamin Breckinridge Warfield, “The Religious Life of Theological Students”, em Selected Short Writings of B. B. Warfield, John E. Meeter, ed. (Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1970) I, 411-425.

12. D. M. Lloyd-Jones, Rememorando a Reforma (S. Paulo: PES, 1994) p. 2-5.

 

 

Autor: Solano Portela

Fonte: Solano Portela

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.