Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas (Parte 1)

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INTRODUÇÃO

O Que é Calvinismo?

Quando nós nos referimos a calvinismo, estamos falando daquela compreensão da mensagem das Escrituras Sagradas que conclui que Deus é soberano sobre todas as coisas.1

A Palavra de Deus foi habilmente estudada e assim exposta por João Calvino, seguindo as pegadas de Agostinho e do apóstolo Paulo. Nos escritos de Calvino temos não novas doutrinas, mas o ensino cristalino, procedente da Bíblia, de várias doutrinas da fé cristã que refletem essa soberania de Deus em todos os aspectos da nossa vida. Esta compreensão tem sido às vezes rotulada de As Doutrinas da Graça e resumida nos conhecidos Cinco Pontos do Calvinismo.2

Ela esteve presente nos escritos e ensinamentos dos grandes expoentes da Reforma do Século XVI, e é encontrada nas históricas confissões do período, inclusive na Confissão de Fé de Westminster, adotada pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Aqueles que aceitam que a Bíblia apresenta com essa perspectiva a pessoa de Deus, e as limitações consequentes do homem, têm sido chamados de calvinistas, entre os quais nos incluímos.

Esclarecimentos Sobre o Tema

Alguns podem pensar que vamos lidar com “Os Cinco Pecados do Calvinismo”. Apesar dessa ideia possivelmente trazer entusiástica reação de aprovação da parte de certos setores da igreja, quero esclarecer que não estaremos tratando dos “Pecados do Calvinismo” nem iremos escrever contra o calvinismo. Nossa preocupação é com os pecados que ameaçam os calvinistas. Esses, vale esclarecer, não são pecados que caracterizam os calvinistas. Eles podem ser encontrados em muitos campos de persuasão cristã e, nesse sentido, o alerta é generalizado. Nossa preocupação é, entretanto, a de que os calvinistas não se considerem imunes a esses perigos, pois os pecados que vamos mencionar também representam séria ameaça ao seu testemunho como cristãos eficazes na Igreja de Deus.

É importante ressaltar, em adição, que o nosso tema não é “Os Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas”. Infelizmente, existem mais de cinco pecados que nos ameaçam, mas, com a graça de Deus, vamos abordar apenas cinco destes e não todos eles. As pessoas que compartilham uma apreciação pelo calvinismo representam um solo fértil a esse estudo, o qual procede de um intenso desejo de que, como calvinistas, sejamos conhecidos tanto pelas nossas firmes convicções como pela ampla demonstração do Fruto do Espírito em nossas vidas.

Pecados que Não Abordaremos

O Intelectualismo Estéril

A nossa tentativa é a de dar um passo além de alertar aos perigos do intelectualismo estéril. Parece-nos que muitos avisos já foram soados a este respeito. Registro, como exemplo, um artigo na revista Banner of Truth, no qual W. J. Seaton diz:

Nosso sistema educacional está próximo de educar pessoas acima de sua inteligência, e nossas igrejas reformadas devem ter cuidado para não produzir novas gerações educadas teologicamente acima do nível de sua espiritualidade… Podemos ter uma geração que abraça o status da fé reformada, mas que nunca se acha confrontada com o estigma de ser merecedora das chamas do inferno, salva apenas pelo exercício da livre graça de Deus, tão claramente expostas pelo calvinismo.3

Esse é o alerta contra o intelectualismo estéril que, em algumas ocasiões, encontramos em nosso meio. Devemos ter pleno convencimento que não existe aquilo que é chamado de ortodoxia morta, pois ela é nada mais, nada menos, do que heterodoxia viva. Que Deus nos preserve de retirar a vida de sua mensagem e ensinamentos.

Pecados relacionados com caráter pessoal

Não vamos, em adição, tratar de pecados ou atitudes pessoais, como avareza, egoísmo, maledicência e outras situações pecaminosas, das quais oramos para que Deus nos livre sempre. Nossa proposição, portanto, é a de examinar alguns pecados adicionais que, corporativamente, podem estar rondando os calvinistas e que podem prejudicar tanto a nossa vida espiritual quanto a de outros. Geralmente estes pecados ocorrem a partir de distorções de nossas próprias e corretas persuasões. É Satanás, utilizando a alavancagem dessas convicções, procurando confundir os nossos corações, objetivando levar a ruína, de uma forma toda especial, a fé reformada que tanto desejamos propagar e vê-la aceita.

  1. O pecado do Orgulho Espiritual

Definindo Orgulho Espiritual

O primeiro pecado que procuraremos examinar é o pecado do orgulho espiritual. Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo uma atitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se achar possuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude de rejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos seus servos. Seria achar que se é conhecedor de uma faceta de compreensão que os demais irmãos ainda não alcançaram.

A Tendência de se Criar uma Hierarquia dos Salvos

A natureza humana pecadora carrega para o seio da comunidade cristã o orgulho espiritual sob diversas formas. Uma tendência sempre latente na Igreja, através da história, foi a de subdividir a dicotomia estabelecida pela Bíblia na divisão das pessoas. Com relação ao posicionamento perante o criador, todos estão subdivididos em salvos ou perdidos, crentes ou descrentes, os que receberam a fé por dom de Deus ou aqueles sem fé que se encontram no caminho da perdição.

Ocorrências ao Longo da História da Igreja

O renitente orgulho espiritual tem gerado muitos movimentos dentro da Igreja que acrescentam uma terceira categoria de pessoas, no que diz respeito ao status espiritual dos homens perante Deus: os sobrenaturalmente agraciados com um fenômeno fora do comum, que difere e está além do ato soberano de Deus da salvação.

Se fizermos uma rápida viagem ao longo da história da igreja, veremos que estamos confrontando uma das mais sérias demonstrações da natureza humana caída e que Satanás sutilmente traz, em ondas intermitentes, ao seio da igreja para perturbar o relacionamento dos fiéis.

Os Gnósticos e o Orgulho Espiritual na Igreja Neotestamentária

Mesmo no início de sua história neotestamentária, a Igreja experimentou uma “cristianização” da heresia secular gnóstica, que afirmava certos patamares de conhecimento serem misteriosamente propriedade de uns poucos. Esses protognósticos “cristãos” do primeiro século cresceram e tornaram-se uma força destrutiva dentro das igrejas.

No segundo século da era cristã o movimento gnóstico já havia atingido “grandes proporções”.4 Os gnósticos dividiam os crentes entre os que possuíam conhecimento espiritual apenas rudimentar e aqueles que possuíam o verdadeiro conhecimento (gnosis) velado aos demais. Encontramos presente a tríplice divisão: (1) os descrentes, (2) os crentes rudimentares e (3) os crentes iluminados.

Os Alegoristas e o Orgulho Espiritual

No terceiro século, os alegoristas dividiram os crentes entre aqueles que entendiam o sentido mais espiritual e profundo das passagens e aqueles que não conseguiam penetrar além do significado literal do texto. Orígenes, grande expoente da Escola de Alexandria, mas um dos proponentes do alegorismo, ensinava, na realidade, que a Palavra de Deus possuía três sentidos: (1) o sentido comum, histórico — inteligível aos de mente simples; (2) o sentido espiritual — que se constituía na alma das Escrituras; e (3) o sentido perfeito — que representava um sentido espiritual mais profundo, possível de ser expresso somente por meio de alegorias. Mais uma vez, uma subdivisão estranha ao conceito bíblico do estado espiritual das pessoas é introduzida no ensinamento das igrejas, refletindo o desenvolvimento de orgulho espiritual.

Os Quakers e o Orgulho Espiritual

Na época dos puritanos, tivemos o surgimento dos Quakers, que se declaravam possuidores de uma experiência fora do normal com o Espírito Santo. Algo constante, em suas pregações, era a procura pela “inner light” – luz interior, que declararia a perfeita vontade do Espírito a cada um na qual brilhasse. Com sua diferenciação dos “crentes comuns” eles representaram um novo surgimento da tão prejudicial divisão tríplice, evidência de orgulho espiritual.

A ideia do Crente Carnal e o Orgulho Espiritual

Pulando para época mais recente, até dentro do campo evangélico conservador fundamentalista, mesmo quando este ainda não havia se tornado quase todo pentecostal, foi gerada uma nova e superior categoria de crentes – o crente espiritual. Este seria aquele que deu o segundo passo de aceitação. Já havia aceito a Cristo como Salvador, mas, em um segundo passo e em uma segunda experiência, o aceita como Senhor. Essa aceitação do senhorio de Cristo faz com que ele se dissocie do crente carnal. Crentes carnais seriam aqueles que permanecem em um estágio inferior e primitivo de espiritualidade mantendo um comportamento virtualmente similar ao do descrente. Temos, novamente, o ensinamento da existência de três categorias de pessoas: os descrentes, os crentes carnais e os crentes espirituais.

As Experiências Pentecostais e o Orgulho Espiritual

O pentecostalismo abrigou e renovou esta tendência dentro da igreja, dando-lhe novos rótulos, mas postulando uma hierarquia dos salvos estranha à Palavra de Deus. Ele trouxe à cena evangélica o inusitado e o extraordinário como sendo não apenas parte da realidade existencial, histórica e religiosa da Igreja, mas como objeto de anelo e desejo na vida individual de cada crente. Os ensinamentos do pentecostalismo deixaram a expectativa de que sem estas experiências algo estaria a faltar na vida do cristão. Era necessário se atingir um patamar superior, obter-se uma segunda bênção, elevar-se acima do nível do crente comum. Gerou-se assim uma hierarquia de crentes: os batizados vs. os não batizados pelo Espírito Santo, ou, utilizando outra terminologia, os recebedores vs. os “ainda carentes de uma segunda bênção”.

A questão da Cura Divina e o Orgulho Espiritual

A questão da cura divina, trazida pelo pentecostalismo, segue linhas paralelas semelhantes. Ela coloca os crentes em uma escala hierárquica, qualificando o seu cristianismo, fazendo uma divisão entre os que já atingiram um patamar de fé, que é suficiente a torná-los recebedores de curas milagrosas vs. aqueles cuja fé é insuficiente ao recebimento destas bênçãos. Tais experiências estariam reservadas aos mais aquinhoados espiritualmente. Via de regra, formamos uma casta de orgulhosos espirituais que vivem a propagar as graças “alcançadas”, em função da sua fé.

O Perigo do “gnosticismo reformado”

Com tantas recaídas, de segmentos diversos da igreja cristã, no mesmo problema, o meu ponto é que nós, calvinistas, precisamos nos guardar para não seguirmos esta trilha tão repisada na história da igreja. Não podemos nos considerar imunes ao desenvolvimento de uma atitude de que “nós reformados” somos os iluminados, únicos entendedores das verdades divinas que se encontram veladas à grande parte dos crentes comuns, a não ser que recebam a explicação lógica e incontestável de nossa parte. Muitos calvinistas têm se deixado levar pela síndrome da descoberta da pólvora, passando a demonstrar o mais evidente orgulho espiritual, no relacionamento com os irmãos, prejudicando o testemunho da fé reformada.

Um Exemplo de Como o Orgulho Pode Tomar Conta de Nós

Vou citar o que me disse um grande amigo meu, e não gostaria que entendesse que eu o estou acusando de orgulho espiritual. Faço a citação apenas como exemplo de como devemos nos guardar, porque às vezes, imperceptivelmente, estamos nos colocando, como calvinistas, numa casta especial de iluminados, cujo resultado será o desenvolvimento deste tão perigoso orgulho espiritual do qual devemos fugir. Após haver lido extensivamente vários trabalhos sobre justificação, e de ter ouvido uma brilhante exposição desta doutrina dentro da perspectiva bíblica/reformada, ele me disse: “Estou impressionado e chegando a conclusão de que ninguém sabe na realidade o que é a justificação…” Continuando, disse: “o nosso povo não tem a mínima ideia do que significa ser justificado.”

Notem que essas palavras foram ditas não com orgulho, mas com humildade e profunda admiração pelo trabalho de Cristo, mas quero chamar atenção para o fato de que essa apreensão doutrinária, e até essa apreciação das doutrinas da graça, traz em si a semente latente e destruidora que pode germinar, sem muito esforço, em orgulho espiritual. Minha resposta, na ocasião, foi: “Sabem, meu irmão, elas sabem, sim. Se uma pessoa foi realmente resgatada pelo precioso sangue de Cristo ela sabe experimentalmente o que é justificação”.

A Experiência da Graça de Deus

Não estou colocando experiência acima da revelação escriturada, mas estou fazendo uma distinção entre saber o que é e saber realizar uma exposição lógica, sistemática e detalhada de uma doutrina. Não podemos nunca cair no engano de que a ignorância espiritual é algo que será arraigado pela visão que temos da soberania de Deus. Não podemos nunca menosprezar a simplicidade dos crentes comuns que foram resgatados por Cristo Jesus, pelo Deus soberano que todos amamos, predestinados desde a fundação do século, separados para a glória do Deus todo poderoso. Eles sabem o que é justificação, mesmo que nunca tenham ouvido falar de Lutero e Calvino, mesmo que não consigam dizer os cinco pontos do calvinismo, mesmo que não consigam explicar o que é justificação. O Deus poderoso que salva, o faz soberanamente, não dependendo da perspicácia, lógica ou inteligência do escolhido.

O Exemplo do Cego de Jericó

Temos que nos mirar no exemplo do cego curado por Jesus, em João 9. Ele não sabia muitas coisas. Havia discernido autoridade nas palavras de Jesus, por isso fez o que ele mandou e o classificou como “profeta” (v. 17). Não sabia, entretanto, a razão da sua cura. Não sabia a procedência ou o destino do soberano que o curara (vs. 12 e 25). Além do lodo com o qual havia sido untado, não sabia, obviamente, explicar como fora curado (vs. 11 e 27). Uma coisa, porém, ele sabia, e isso lhe era suficiente naquela ocasião: “uma coisa sei, eu era cego e agora vejo”.

Razões Para Nossa Ampla Comunhão

Por que podemos ter comunhão genuína com aqueles que não são calvinistas? Porque se somos verdadeiramente salvos, somos irmãos, filhos do mesmo Deus soberano. Porque apesar das inconsistências verificadas nas suas formulações teológicas, por mais que digam que a salvação foi fruto do pretenso “livre-arbítrio” do homem, por mais que, em seus discursos, venham a inferir uma subordinação das ações de Deus a este “livre-arbítrio”, quando se põem de joelhos e oram, oram a um Deus soberano que tudo pode, a um Deus que é tudo e oram a ele reconhecendo que nada são.

Incoerências Humanas

Temos que reconhecer que nós mesmos, como seres humanos falíveis, nunca somos totalmente coerentes com nossas premissas. Querem um exemplo? Sabemos da importância do Dia do Senhor, do domingo. Temos a convicção que neste dia devemos nos reunir e adorarmos o nosso Deus. A maioria de nós, aqui, nunca pensaria esquecer o nosso culto dominical para nos envolvermos em, vamos dizer, uma partida de futebol. Entretanto, muitos de nós torcemos bastante por este ou aquele clube de futebol. Secretamente apoiamos tanto o divertimento quanto o ganha-pão naquele dia, ou pelo menos fechamos os olhos e estabelecemos um duplo padrão de comportamento: um para nós e para os nossos filhos e outro, desculpável, para aqueles por quem nós torcemos. Chegamos até a inventar uma categoria de cristãos, “os atletas de Cristo”, que sacramentaliza, cristianiza e justifica a atividade no domingo. Isto é: peça a nossa opinião e condenaremos o esporte dominical. Observe a nossa prática e condescendência e verificará uma aceitação tácita dos esportes praticados no Dia do Senhor. O que é isso? Incoerência humana, para sermos bem gentis, e Deus nos aguenta!

Por acaso achamos que poderemos encontrar total coerência entre o discurso e a prática nos demais cristãos? Digo isso apenas para reforçar que é bastante provável que venhamos a encontrar a fé genuína reformada em pessoas, mesmo quando o discurso externo estiver um pouco incoerente com a nossa fé reformada. Nunca devemos ser orgulhosos e menosprezadores daqueles que constituem a verdadeira igreja de Cristo, pela qual ele deu o seu sangue. Conclamando calvinistas a ter um comportamento cordato e humilde, o Rev. Ian Hamilton, da Escócia, disse: “A graça de Deus deveria adoçar nossas discordância. Existe um grande perigo de absolutizar a nossa forma de fazer as coisas. Devemos nos apegar àqueles que se apegam a Cristo”.5

O Amor que Aniquila o Orgulho

O apóstolo Pedro, escrevendo em sua primeira carta (1.22 e 23), nos fala do amor cristão que aniquila o orgulho. Neste trecho lemos: Tendo purificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos outros, ardentemente, pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.

A base deste amor é a regeneração comum (v. 23) que todos os cristãos têm em Cristo Jesus. Ele é também o nosso exemplo, pois no verso 17 lemos que ele julga “sem acepção de pessoas”, isto é, com equidade de tratamento. O amor comissionado no versículo 22 possui três características:

a) É questão de obediência (“obediência à verdade”)
b) Tem que ser sincero (“não fingido”) e
c) Tem que ser intenso (“ardentemente”)

Tendo sido regenerados pelo Deus vivo e pela Palavra viva, de nada podemos nos orgulhar, nem mesmo da nossa compreensão de Deus e de Sua majestade, pois só dele procede a iluminação para o entendimento das verdades espirituais e ele deseja que sejamos caridosos e pacientes na instrução da Sua Palavra. Que Ele nos livre do pecado do orgulho espiritual.

  1. O Pecado da Intolerância Fraternal

O Pós-modernismo e a Tolerância

Uma das características do pós-modernismo é a excessiva tolerância impingida a todas as opiniões, ou o que poderíamos chamar de relativização das verdades. Como brilhantemente já expôs o Dr. Heber Carlos de Campos,6 o pós-modernismo caracteriza-se pelo pluralismo de ideias e pela premissa de que nenhuma verdade é a “verdade verdadeira”, e que temos que ser tolerantes ou politicamente corretos com todos os pontos de vista. Como calvinistas, acreditamos estarmos firmados na verdade, não em uma verdade sujeita à compreensão subjetiva de cada um. Essa verdade é proposicional, objetiva, não contraditória e inquestionável, pois procede de revelação da parte de Deus ao homem, representada pelas inerrantes Escrituras Sagradas – a Bíblia.

Pode parecer estranho, consequentemente, que estejamos classificando intolerância como pecado, quando nossa própria compreensão das verdades bíblicas nos impele em direção contrária ao pós-modernismo, exigindo a nossa intolerância. Devemos fazer uma diferenciação, entretanto, entre tolerância externa e a tolerância na fé ou fraternal (entre irmãos da mesma fé). Nesse sentido, o próprio Heber Campos declara: “Devemos ser politicamente corretos quando a verdade não está em jogo”.7

Intolerância vs. Intransigência

Nesse sentido, por uma questão de clareza, gostaria de propor que diferenciássemos as duas situações distintas, chamando a intolerância externa de intransigência. Assim, consideradas e verificadas a aceitação de certas verdades bíblicas, básicas e comuns, devemos ser tolerantes, mantendo, simultaneamente, a intransigência (intolerância externa).

Um dos grandes problemas que confrontamos é o de confundir intolerância com intransigência. Em muitas ocasiões somos intolerantes e chegamos a nos orgulhar disso, como se fosse uma marca necessária às nossas convicções teológicas. Definindo mais detalhadamente, intolerância fraternal, a atitude que não deveríamos ter, o pecado que deveríamos evitar, é:

a) Falta de amor no trato com os nossos irmãos;

b) Falta de discernimento das questões prioritárias, do que é mais importante em nossa fé cristã.

O ensino de Paulo Sobre Tolerância Fraternal

Em Colossenses 3.12-16, temos ensinamento do apóstolo Paulo sobre a necessidade de demonstração de tolerância fraternal. Diz-nos o texto:

Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de coração compassivo, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. E a paz de Cristo, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós ricamente, em toda a sabedoria; ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão em vossos corações.

A orientação de Paulo é precisa e inquestionável. Da mesma forma com que fomos perdoados e recebidos em extrema graça e tolerância, por nosso Senhor Jesus Cristo, assim também, seguindo o Seu exemplo, devemos desenvolver semelhante atitude e testemunho para com os nossos irmãos (v. 13). O sentimento que deve ser notado pelos circunstantes é o amor, o qual ele nos comissiona, deve ser nossa vestimenta (“revesti-vos” – v. 14). Esse estilo de vida é compatível e conduz à paz de Cristo (v. 15), gerando harmonia e ações de graças. Notem que, realisticamente, Paulo constata a possibilidade de diferenças de opiniões, situação em que é própria e cabível o ensino e a admoestação (v. 16). Tais diferenças devem ser tratadas com a palavra de Cristo, que deve habitar em nossos corações, resultando em amplo louvor ao nome de Deus.

Detalhando o Conceito de Intransigência

Não obstante, as advertências acima existem no campo para a intransigência que não é pecado. Dentro da definição que propusemos, intransigência seria, então:

a) zelo pela verdade

b) compreensão das doutrinas prioritárias da Palavra de Deus

Intransigência é o contrário de transigir, ou seja, ultrapassar os limites; quebrar as regras recebidas. Nesse sentido, intransigência deve ser característica de cada calvinista, de cada crente convicto das verdades bíblicas. Ele não pode abrir mão das doutrinas claras, declaradas na Palavra de Deus. Ele não pode ultrapassar os limites traçados por Deus.

O Ensino de Paulo sobre Intransigência

Um exemplo dessa atitude, que é correta e própria, é encontrado na pessoa de Paulo, conforme sua inspirada declaração, em Gálatas (1.6-10). Nesse trecho, Paulo fala de crentes “não tão quentes” que estão desenvolvendo um ministério paralelo ao seu, indo de igreja em igreja, pregando. A reação de Paulo é bastante diferente daquela expressa na carta aos Filipenses 1.12-18, onde foi bastante benevolente e tolerante. Os dez primeiros versos da carta aos Gálatas dizem o seguinte:

Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por intermédio de homem algum, mas sim por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos), e todos os irmãos que estão comigo, às igrejas da Galácia: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, o qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém. Estou admirado de que tão depressa estejais desertando daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho, o qual não é outro; senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema. Como antes temos dito, assim agora novamente o digo: Se alguém vos pregar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema. Porventura procuro eu agora o favor de homens, ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.

Nos versículos 1 a 5, Paulo fez a sua apresentação, indicando a sua autoridade apostólica, demonstrando que ela vem de Deus e não de homens. A carta foi primariamente dirigida à Igreja da Galácia, mas teve ampla circulação entre as demais igrejas. Paulo dá glória a Deus e indica que Jesus Cristo se deu por nós para nos livrar das maldades desta era, passando a tratar de um problema que estava surgindo naquela igreja: a aceitação de um evangelho adulterado.

No v. 6 ele mostra uma profunda perturbação interna – “estou assombrado”, demonstrando grande admiração que os membros daquela igreja estivessem mudando rapidamente de convicções. A afeição e a lealdade estava sendo colocada em outra doutrina, pois estavam dando ouvidos a “alguns” (v. 7) que perturbavam e queriam perverter o evangelho de Cristo. Pregavam um outro evangelho (grego, heteros – distinção com o outro do verso seguinte, que é allos. Aqui, heteros = ouk allo, ou seja, diferente, “não outro”). Paulo referia-se, sem dúvida, aos judaizantes que pretendiam adicionar algumas coisas “palpáveis, visíveis” à simples pregação do evangelho. Quem sabe eles diziam que era apenas uma questão de método? Talvez fosse muito mais atraente, desse mais substância, ou talvez até mais emoção ao evangelho. Estas pessoas se apresentavam com autoridade e se propunham a declarar o método de salvação. Paulo mantém a designação “evangelho” porque era apresentado como tal, mas na realidade, diz ele, não é evangelho nenhum (sistema diferente, mensagem diferente, doutrina diferente)!

No v. 8, Paulo dirige-se ao fundo do seu extenso vocabulário grego para classificar estas pessoas e lança uma fortíssima condenação. Independentemente de quem quer que seja: estas pessoas, ele próprio, ou até um anjo do céu — se vier trazer um evangelho que vá além (note que não era necessariamente diferente na aparência, mas com algumas coisas adicionadas) daquele que eles tinham previamente ouvido da parte dele, tal pessoa deveria ser considerada anátema (isto é: amaldiçoado). Estas palavras contêm uma terrível responsabilidade a nós que fomos comissionados a pregar e a transmitir as verdades de Deus.

Para que não pairasse qualquer dúvida sobre o seu zelo, sobre sua posição, ele repete mais uma vez as mesmas palavras no versículo 9. Não quer ser mal entendido, não quer deixar “passar em branco”, não quer parecer precipitado – é um pensamento depurado e destilado sob o fogo do zelo e sob o direcionamento sobrenatural do Espírito Santo.

Podemos negligenciar o aviso contido e pensar que Paulo se referia somente à sua situação específica. Afinal, não temos mais judaizantes em nosso meio! Muitos de nós chegam a fazer, corretamente, a aplicação destas palavras à pregação da Igreja Católica Romana, com suas adições e condições anexadas à Graça salvadora de Cristo. Isso não basta, temos que analisar o que está acontecendo no campo chamado “evangélico”. Tristemente iremos, em muitas ocasiões, encontrar a proclamação de “outro” evangelho.

Paulo poderia ter particularizado a questão, especificado quem ele combatia, mas quis o Espírito Santo, em sua soberania, deixar a colocação de forma genérica, de tal modo que o princípio fosse enfatizado — não podemos mexer com o cerne do evangelho.

Nesse sentido, devemos ser intransigentes porque, no versículo 11, ele coloca: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem; porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo”. Eis a razão de Paulo para ter esta convicção: o evangelho não é doutrina de homens, mas sim revelação de Jesus Cristo. Ele contraria a perspicácia, os desejos e as motivações carnais do homem. Temos que ter a coragem de “remar contra a maré” e proclamar o puro Evangelho de Cristo, sendo intransigentes nisso.

 

 

Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas (Parte 2)

 

 

NOTAS:

  1. Benjamin Breckinridge Warfield indica que o princípio fundamental do calvinismo é “uma profunda compreensão de Deus e de Sua majestade, acompanhada da constatação, inevitável e precisa, da natureza exata do relacionamento mantido entre Ele e Suas criaturas, mui especialmente entre Ele e as criaturas caídas em pecado” – Calvin and Augustine (Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1956/1971) 288.
  2. (1) A depravação ou corruPção total da natureza humana, caída em pecado; (2) a eleição incondicional, dos que constituirão a Igreja de Cristo; (3) a expiação limitada, do nosso Senhor Jesus Cristo, que deu o Seu sangue por Sua igreja; (4) a graça irresistível do Espírito Santo, chamando os eleitos à salvação; (5) a perseverança dos santos até a glorificação, preservados pelo poder e pelas promessas de Deus.
  3. W. J. Seaton, Are We Outgrowing the Five Points of Calvinism? Em Banner of Truth (166/167, July/August 1977).
  4. Kenneth Scott Latourette, A History of Christianity (N. York: Harper & Row, 1953, 1975) pp. 26, 114, 123, 124.
  5. Ian Hamilton, palestra: “O Propósito que Governa o Culto Reformado”, no VI Simpósio do Projeto Os Puritanos, Águas de Lindóia, 6-13 de junho de 1997.
  6. Heber Carlos de Campos, O Pluralismo do Pós-Modernismo, Fides Reformata (São Paulo: Seminário Presbiteriano José Manoel da Conceição, 1997), 2/1, 5-28.
  7. Campos, palestra realizada no VI Simpósio do Projeto Os Puritanos, Águas de Lindóia, São Paulo, 6-13 de junho de 1997.

 

 

Autor: Solano Portela

Fonte: Solano Portela

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.