Os Três Atos da Triunidade na Salvação dos Eleitos

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Texto base: 1 Pedro 1.2

O PROPÓSITO ETERNO DE DEUS

Pedro destaca que a salvação é, indubitavelmente, uma obra exclusiva de Deus (veja Ef 2.8-10; Rm 9.11-33). O apóstolo corrobora esta verdade por meio de três atitudes do Deus triúno no plano da salvação.

1.2 – Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Vejamos, pois, o papel de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo na salvação dos eleitos:

  1. Deus Pai escolhe mediante a sua presciência

A eleição é a base da salvação. Sendo assim, o autor e responsável pela eleição é Deus Pai, segundo a sua presciência. A presciência, por sua vez, pode ser definida como o conhecimento antecipado que Deus tem dos eventos antes deles acontecerem na história. Ela está relacionada com o conhecimento de Deus, que é um dos seus atributos incomunicáveis.

Todavia, a presciência vai muito além do fato de Deus simplesmente “prever” o que vai acontecer; antes, ela tem base em sua soberania, ou seja, naquilo que já foi decretado pelo próprio Deus que acontecesse, e isso antes da fundação do mundo. Em suma, Deus prevê o que ele mesmo já determinou que aconteça.

Calvino, citando Agostinho, afirma que, se Deus previsse aquilo que não queria que existisse, Deus não seria autoridade suprema. Portanto, Deus estabeleceu o que virá a acontecer no futuro, porque nada acontece a não ser por causa da sua vontade.9

Acerca da presciência divina, Heber Carlos de Campos escreve:

O conhecimento antecipado de Deus não é mera adivinhação em Deus. Esse conhecimento que Deus tem do nosso futuro é algo inseparavelmente ligado ao seu propósito. Deus sabe porque ele resolveu fazer as coisas que conhece antes de elas acontecerem. Deus mesmo designou tudo o que há de ser, e tudo o que designou certamente acontecerá (Pv 19.21). Deus sabe todas as ações antecipadamente simplesmente porque ele as determinou.10

Se qualquer evento acontece fortuitamente – como se a história caminhasse por acaso, fazendo o seu próprio destino, sem que Deus saiba de antemão o futuro, como se ele apenas “previsse” e não tivesse “predeterminado” tal evento, como a conversão de alguém –, Deus, então, não seria um Deus Soberano, onisciente e que governa, mas sim, um “deus imperfeito e limitado”, que dependente das circunstâncias e das pessoas para cumprir os seus propósitos. Deus prevê que alguém irá se converter porque simplesmente ele predeterminou a sua conversão. Vejamos um exemplo, dentre vários nas Escrituras, que irá elucidar o nosso entendimento sobre a presciência divina:

Lucas 24.44-47 – (Jesus) Depois lhes disse (aos discípulos): São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco (vs.25-27): Era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre mim na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento (dos discípulos) para compreenderem as Escrituras; e disse-lhes: Está escrito (em Is 53.1-12) que o Cristo sofreria, e ao terceiro dia ressuscitaria dos mortos (Os 6.2); e que em seu nome se pregaria o arrependimento para perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. (Almeida Século 21)

Após a sua ressurreição, Jesus ilumina a mente dos discípulos para compreenderem aquilo que ainda não estava claro para eles nas Escrituras, isto é, que todo o seu sofrimento e morte de cruz eram necessários, pois faziam parte do propósito da redenção dos pecadores eleitos. No entanto, é relatado por Lucas neste trecho do evangelho a presciência de Jesus acerca do seu sofrimento e morte de cruz, que havia sido profetizado desde os tempos remotos na lei de Moisés, nos livros dos Profetas e nos Salmos. Jesus não apenas “previu” que estes eventos e todos os seus detalhes aconteceriam, mas que eles aconteceram porque já havia sido predeterminado ou decretado por Deus que eles acontecessem na história.11

  1. O Espírito Santo santifica os eleitos redimidos

O Espírito Santo é o responsável pela santificação dos eleitos, porquanto ele é quem aplica os benefícios da obra de Cristo (ou da salvação), santificando-os para a vida eterna. Podemos definir a santificação como um ato exclusivo e sobrenatural de Deus que começa no novo nascimento e converge no progressivo abandono do pecado, cujo alvo é a semelhança com Jesus Cristo. Destarte, a santificação é o resultado da salvação.

Antony Hoekema enfatiza que a santificação deve ser entendida tanto definitiva quanto progressivamente. No seu sentido definitivo, significa a obra do Espírito que causa nossa morte para o pecado, nossa vivificação em Cristo e sermos novas criaturas. No seu sentido progressivo deve ser entendido como a obra do Espírito que continuamente nos renova e nos transforma à semelhança de Cristo, habilitando-nos a prosseguir crescendo na graça e aperfeiçoando nossa santidade. A santificação definitiva é o princípio do processo, e a santificação progressiva é a maturação continua do novo homem criado na santificação definitiva.12 A santificação é um processo contínuo que começa na conversão, tem a participação ativa do crente e dura a vida toda.

Nessa mesma linha de pensamento, Gordon Clark atesta que a santificação, contudo, não é instantânea, nem o homem é passivo nela. Ela não é instantânea porque é um processo que consome tempo, que é subjetivo e perdura durante toda a nossa vida. Nem ela é um ato de Deus, somente. De fato, ela depende do poder contínuo de Deus, mas é também atividade do homem regenerado. Tanto Deus como o homem são ativos.13 A eleição divina, longe de ser um desestímulo à santificação, é seu maior encorajamento, uma vez que fomos eleitos e redimidos pela santificação e para a santificação.14

2 Coríntios 7.1 – Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do Espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus. (ARA)

Filipenses 2.12-13 – Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade. (ARA)

APLICAÇÃO PRÁTICA

John MacArthur define a santificação em uma de suas pregações como “o poder do Espírito ativando a verdade da Escritura na vida do crente”. Portanto, entendemos que o cristão é santificado por intermédio da verdade das Escrituras aplicada pelo Espírito Santo em sua vida. Se o cristão negligencia o estudo das Escrituras, ou conhece pouco ou quase nada delas, pouco ou quase nada será santificado pelo Espírito. Quanto mais conhecemos as Escrituras mais o Espírito nos santifica e progredimos no processo da santificação. É absolutamente indispensável crescermos não somente na graça, através de uma vida piedosa e em comunhão com Deus através dos meios de graça, mas também no conhecimento do nosso Senhor e salvador Jesus Cristo pelas Escrituras (2Pe 3.18).

  1. Jesus Cristo redime os eleitos pelo seu sangue

A redenção dos pecadores eleitos é através da aspersão do sangue de Jesus Cristo. A finalidade pelo qual o Espírito Santo santifica os eleitos redimidos no sangue de Jesus Cristo é para a obediência a ele (1.14; 22). A maior evidência de que uma pessoa foi regenerada e é salva é a obediência à Palavra de Deus (Jo 8.31; 14.15). Ser cristão é ser obediente, e não ser cristão é ser desobediente (2.8).

Os termos obediência e aspersão referem-se à aliança que Deus fez com o povo de Israel no AT, onde “Moisés fez do sangue do sacrifício sobre o povo de Israel um símbolo que selava a aliança na qual eles haviam prometido obedecer a Palavra de Deus”15 (veja Êx 24.3-8; Hb 9.18-28; 12.24). Através do sacrifício e da morte de Jesus, ele redimiu e comprou para si pessoas de toda língua, povo, tribo e nação (Ap 5.9), a saber, os eleitos de Deus de todas as gerações espalhados por todo o mundo (1.18-19).

Não obstante, é importante ressaltar, para um entendimento correto, que o sangue de Jesus Cristo derramado na cruz [que implica o sacrifício do cordeiro] não é a base da justificação no processo da salvação; antes, é a justiça de Cristo [o cordeiro perfeito] que sintetiza tudo o que ele fez em favor dos eleitos. Cristo obedeceu toda a lei e sofreu a punição dos pecados dos eleitos na cruz como o substituto deles. A justiça perfeita de Cristo, imputada aos eleitos mediante a fé, é à base da justificação no processo da salvação (veja Rm 3.24-26; 5.9; 1 Co 1.30; 6.11; 2Co 5.21; Fp 3.9).

A expressão aspersão do sangue de Jesus Cristo é simplesmente a transferência dos méritos da justiça de Cristo aos eleitos.16 O sangue de Jesus não possui “fluídos mágicos” ou “propriedades especiais” em si, mas remonta a totalidade do sacrifício vicário de Jesus por amor aos eleitos de Deus. Com efeito, não seria errado dizer, baseado nesse entendimento, que o sangue de Jesus Cristo derramado na cruz é a causa indubitável da nossa salvação (Hb 9.13-15).

APLICAÇÃO PRÁTICA

O sangue derramado no sacrifício a nosso favor garante nossa purificação, nossos privilégios e a investidura na ordem de sacerdotes de Cristo (2.5, 9). Apesar de tropeçarmos e permitirmos que o pecado nos manche, quando os confessamos arrependidos, o sangue purificador de Cristo apaga toda a nossa mácula (1Jo 1.7, 9). Pelo sangue de Jesus, somos declarados limpos. Todas as barreiras caem. Podemos ter livre acesso ao Santo dos Santos (Ef 2.14-22).17

  1. A saudação cristã

O termo graça é bem amplo em seu significado. Graça, de maneira simples, pode ser definida como “o favor eterno e totalmente gratuito de Deus, manifestado na concessão de bênçãos espirituais e eternas às criaturas culpadas e indignas”.18

A.W. Pink define graça nestas sublimes palavras:

A graça divina é o soberano e salvador favor de Deus exercido na dádiva de bênçãos a pessoas que não têm em si mérito nenhum, e pelas quais não se exige delas nenhuma compensação. Não apenas isso; é o favor de Deus demonstrado a pessoas que, não só não possuem merecimentos próprios, mas são totalmente merecedoras do inferno. É completamente imerecida, não é procurada de modo nenhum e não é atraída por nada que haja nos objetos aos quais é dada, por nada que deles provenha, e tampouco pelos próprios objetos. A graça não pode ser comprada, nem obtida, nem conquistada pela criatura. Se pudesse, deixaria de ser graça.19

Graça é simplesmente ter feito aquilo que não deveria ter sido feito e se fez. Ainda, na graça, estão inclusos estes três conceitos: “misericórdia, amor e remissão de pecado”. A graça é distinta da misericórdia porque a misericórdia de Deus está sobre toda a sua criação (Sl 136), inclusive sobre os não eleitos. A graça e os dois conceitos – amor (salvador) e remissão de pecados – são restritos somente aos eleitos.20 Em contrapartida, os eleitos também são benificiários da misericórdia de Deus. John MacArthur salienta a distinção de graça e misericórdia na perspectiva dos eleitos da seguinte maneira:

A misericórdia trata dos sintomas; a graça trata dos problemas. A misericórdia oferece o alivio para o castigo; a graça oferece perdão para o pecado. Primeiro vem à graça. Ela remove o pecado. Depois, a misericórdia elimina o castigo.21

O termo paz, todavia, está intimamente ligado ao termo graça. A graça pode ser entendida como a causa, e a paz como o efeito; ou seja, o dom da graça sobre o eleito resulta na paz com Deus (Rm 5.1-2). Hernandes Dias Lopes completa, ressaltando que a graça é a base da salvação, e a paz, seu resultado. A graça é a raiz, e a paz, o seu fruto. A graça é a causa, e a paz, sua consequência. Não há graça sem paz nem paz sem graça. Ambas caminham juntas.22

Finalmente, graça e paz representam a saudação familiar que os cristãos empregavam. Graça é a oração velada para que Deus pudesse continuar a mostrar sua benevolência para com os pecadores em perdão e benção. Paz é o shalom típico da esperança do AT, o futuro glorioso quando as bênçãos de Deus não mais estariam misturadas aos efeitos da maldição do pecado.23

5. Um desejo por graça e paz abundantes

Pedro termina a sua saudação com estas palavras de oração: Graça e paz vos sejam multiplicadas, que também estão descritas em sua segunda carta (2Pe 1.2) e na carta de Judas (Jd 2). A expressão vos sejam multiplicadas “é bastante comum nas saudações judaicas, as quais envolvem o desejo de paz para as pessoas saudadas”.24

 APLICAÇÃO PRÁTICA

Pedro anseia e pede a Deus para que a sua graça e paz sejam multiplicadas aos seus primeiros leitores no sentido de tê-las em abundância. Devido as perseguições que vinham sofrendo, estes cristãos precisavam de abundante graça e paz se quisessem permanecer firmes na presença de Deus. Não somente estes cristãos históricos, mas também nós, os cristãos hodiernos, necessitamos da graça e da paz de Deus em abundância, para assim termos força para perseverarmos firmes em sua presença, diante das prementes intempéries da vida.

 

 

NOTAS:

  1. João Calvino. A providência Secreta de Deus (organizado por Paul Helm), pág 58-59.
  2. Heber Carlos de Campos. O Ser de Deus e Seus Atributos, pág 230.
  3. Para mais detalhes sobre a presciência divina, veja também Marcos 9.31; Lucas 9.44; 18.31-33; 22.22, 37 e Atos 2.23; 3.18.
  4. Antony Hoekema. Salvos pela Graça, pág 205.
  5. Gordon Clark. Introdução do livro Santification, pág 1-2.
  6. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 31.
  7. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1728.
  8. Para mais detalhes sobre a base da justificação, veja na Teologia Sistemática de Louis Berkhof, pág 520, e o livro Salvos pela Graça, de Antony Hoekema, pág 154.
  9. Russell Shedd. Nos passos de Jesus. Uma exposição de 1 Pedro, pág 15.
  10. Abraham Booth. The Reign of Grace, pág 47.
  11. A.W. Pink. Os Atributos de Deus.
  12. A graça e o amor restrito aos eleitos é no sentido de salvação. Quanto ao restante dos homens não eleitos, Deus manifesta a sua misericórdia e “providência geral”, ou o que chamamos de “graça comum”. Ambas – “misericórdia e providência geral” – são características da Bondade de Deus a todos os homens (Mt 5.45; At 17.25).
  13. John MacArthur. O Caminho da Felicidade, pág 122.
  14. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 31.
  15. Russell Shedd. Nos passos de Jesus. Uma exposição de 1 Pedro, pág 15.
  16. Russel Norman Champlin. O Novo Testamento Interpretado – Vol 6. 1 Pedro, pág 94.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Trecho extraído do Comentário Expositivo de 1 Pedro do autor.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.