O Dízimo nos Evangelhos

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Um dos maiores equívocos de interpretação da Bíblia reside na falta do conhecimento de que os quatro evangelhos relatam fatos que ocorreram na vigência da Lei Mosaica, e que, consequentemente, Jesus viveu na vigência da Lei. “Todas as palavras de Jesus nos Evangelhos foram dadas aos que estavam na antiga aliança.” (CROTEAU, 2010, p.130, tradução nossa).

Na época de Cristo, Ele e seus discípulos viviam de acordo com a Lei, suas práticas e costumes.

Apesar de que pessoas, sem qualquer inspiração, definem os quatro Evangelhos como sendo livros do ‘Novo Testamento’, a maioria dos cristãos mais conscientes percebe que, na realidade, a Nova Aliança não começou até o momento em que Cristo morreu no Calvário. (KELLY, 2007, p.116, tradução nossa).

A vida de Jesus precisa assim ser compreendida como uma vida que transcorreu debaixo de toda a instrução da Lei Mosaica. O texto de Mateus 23:23 é citado quando se busca provar que Jesus confirmou a exigência do dizimar aos cristãos:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquela! (Mt 23:23) (ARA)

O juízo, a misericórdia e a fé mencionados por Jesus são, ao contrário do dízimo, amplamente ensinados em todos os escritos da Nova Aliança. Muitos cristãos, ao lerem este texto de Mateus 23, concluem equivocadamente que Jesus estava mandando aos que vivem na Nova Aliança a não desprezarem o dízimo. Estas pessoas equivocadamente concluem que os fatos citados nos evangelhos, por estarem compilados no que chamamos Novo Testamento, são automaticamente da Nova Aliança em Cristo.

O Rev. Augustus Nicodemus Lopes explica bem esse fato, respondendo a pergunta de um irmão em um evento na igreja Batista da Parquelândia, em Fortaleza, quando o mesmo pergunta se esse texto seria uma referência de Jesus quanto ao dízimo no Novo Testamento:

Você tem que lembrar que Jesus está operando ainda no Antigo Testamento. O Novo Testamento se inicia com a morte dele, a ressurreição e o Pentecostes. Jesus ainda está operando debaixo do Antigo Testamento. É por isso que ele, por exemplo, curou o cego, não é? O leproso, ele disse, vai e mostra ao sacerdote no templo. Não é isso? Ele estava operando ainda debaixo do Antigo Testamento. O que marca o Novo Testamento é a morte dele, a sua ressurreição e o dia de Pentecostes. Então, o que Jesus está dizendo ao fariseu é que ele tinha de fazer aquilo que a Lei mandava. Tá bom? Então, não é um endosso para o dízimo no Novo Testamento; é Jesus chamando os fariseus de hipócritas. É isso que ele está fazendo aqui.

Essa citação menciona um interessante aspecto: a orientação que Jesus dava aos judeus que ele curava. Nunca Jesus orientou a gentios, curados por Ele, que se apresentassem ao sacerdote, da mesma forma que Ele jamais requereu dos gentios o cumprir da Lei Mosaica.

Jesus não poderia ordenar os não judeus a se apresentarem aos sacerdotes após serem curados, para trazerem sacrifícios ao templo ou dizimarem. Por quê? Ele não podia fazer isso e ainda observar a Lei! Gentios não eram regidos pela Lei Mosaica e não era permitido pela Lei que os que não eram judeus prosélitos fossem circuncidados ou dizimassem. Dízimos não teriam sido aceitos, mesmo se os cristãos gentios tivessem tentado entregá-los! Para ser legítimo, o dízimo só deveria vir de israelitas de pleno direito e somente a partir de dentro de Israel. Portanto, Mateus 23:23 não tem relevância para os cristãos gentios ou para a igreja. (KELLY, 2007, p. 120, tradução nossa)

Nem tudo que Jesus fazia, assim como nem tudo que Abraão fazia, pode ser exigido dos cristãos gentios na atualidade.

Por exemplo, só porque Jesus celebrou a Páscoa, isso não deve ser entendido como uma ordem para que os cristãos celebrem a Páscoa. Quando Jesus mandou o leproso que curara se mostrar ao sacerdote (Mateus 8:1-4), esta, mais uma vez, não deve ser entendida como uma ordem para os cristãos entrarem domingo numa igreja para adoração a fim de que possam demonstrar sua pureza. Além disso, a oferta que foi prescrita por Moisés (Mateus 8:4; Lv 14) também não é necessariamente prescrita para os cristãos com base na ordem de Jesus a esse leproso. (CROTEAU, 2010, p. 130, tradução nossa).

Jesus Cristo dizimou? A Bíblia não menciona que Jesus era agropecuarista, mas marceneiro. Jesus nasceu numa família pobre, fato comprovado pela oferta levada por seus pais em sua apresentação.

Passados os dias da purificação deles segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: Todo primogênito ao Senhor será consagrado; e para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida Lei: Um par de rolas ou dois pombinhos. (Lc 2:22-24) (ARA).

Havia na Lei a prescrição de que, se não houvesse condições financeiras, ou seja, se a pessoa fosse pobre, a oferta poderia ser de um par de rolas ou dois pombinhos. “Mas, se as suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará, então, duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e o outro para a oferta pelo pecado; assim, o sacerdote fará expiação pela mulher, e será limpa.” (Lv 12:8) (ARA)

As famílias pobres como a de Jesus não dizimavam, antes, recebiam ajuda de um dízimo específico, como já anteriormente demonstrado. Já na fase adulta, em seu ministério, Jesus adotou uma prática reservada aos pobres e prevista na Lei em Levítico: “Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.” (Lv 19:10) (ARA). Deuteronômio:

Quando, no teu campo, segares a messe e, nele, esqueceres um feixe de espigas, não voltarás a tomá-lo; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será; para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em toda obra das tuas mãos. Quando sacudires a tua oliveira, não voltarás a colher o fruto dos ramos; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será. Quando vindimares a tua vinha, não tornarás a rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será o restante. (Dt 24:19-21) (ARA)

O judeu deveria assim lembrar-se do pobre até na hora de colher seus frutos. “O dízimo da terra não incluía toda a terra. Deus ordenou aos proprietários para que não colhessem os cantos e não pegarem o que tinha caído depois da colheita. Este restante era sagrado para os pobres.” (KELLY, 2007, p.63, tradução nossa).

Em três textos é demonstrado aos discípulos de Jesus se alimentando deste resto de colheita reservado aos pobres. Caso não fosse esse restante, eles seriam prontamente acusados pelos fariseus de estarem roubando a colheita alheia e, se eles não fossem pobres, seriam acusados de estarem se aproveitando de uma sobra destinada legalmente apenas aos pobres. Sendo pobres na forma da Lei, os mesmos não dizimavam; antes, recebiam os benefícios da Lei.

Os fariseus não acusaram Jesus de não pagar o dízimo para que ele pagasse. Em vez disso, eles não o acusaram porque ele não seria qualificado para pagá-lo. Jesus e seus discípulos não eram obrigados a dar o dízimo porque eram pobres. O incidente recolhendo restos de espigas, registrado por três vezes (Mateus 12:1-12, Marcos 2:23-24 e Lucas 6:1-2), é importante. Se o dízimo fosse obrigado a todas as pessoas e fosse de todos os tipos de alimentos colhidos, então poderíamos ter esperado que os fariseus acusassem Jesus e seus discípulos de não pagarem o dízimo sobre o grão que tinham acabado de colher e comer. A falta de tal acusação prova que nenhuma lei desse tipo seria aplicada a pessoas pobres que colhiam restos de espigas. (KELLY, 2007, p.120-121, tradução nossa).

Fica assim, claramente demonstrado, que Jesus não dizimou e que, de fato, ordenou nos Evangelhos o cumprimento da Lei Mosaica pelo simples motivo de que Ele viveu na vigência da Lei.

 

 

Para mais detalhes sobre este assunto, leia O Dízimo na Lei MosaicaO Dízimo.

 

 

Autor: João Bosco Costa Vieira

Trecho extraído da Monografia do autor, apresentada como exigência do curso de Bacharelado em Teologia, para a obtenção do titulo de Graduação.

Fontehttps://pt.scribd.com/doc/96753612/DIZIMO-Joao-Bosco-Costa-Vieira

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.