Disciplina na Igreja

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Depois da pregação da Palavra, a administração fiel da disciplina é uma das características da igreja verdadeira; mas esta característica está desaparecendo em nossos dias. Os sermões não atacam os pecados sociais e o materialismo. E os pecados morais raramente são confrontados. O resultado dessa atitude é uma gradual infiltração do mundanismo na igreja. Muitas igrejas pensam que uma estrita aceitação da disciplina na igreja é subversiva ao seu crescimento. Para uma época que não vê nada menos que sucesso em números, a disciplina se torna uma desvantagem. Exceto nos casos de pecados horríveis, a disciplina na igreja tem sido amplamente abandonada por muitos.

Não importa qual seja a sua tendência de pensamento, desejo afirmar que o critério de avaliação de uma liderança saudável e bem-sucedida é uma igreja bem disciplinada. Pretendo salientar cinco aspectos da disciplina que são dignos de nossa reflexão. Mateus 18.15-20 nos oferece os princípios mais esclarecedores a respeito deste assunto. Em vez de apresentar uma exposição completa desta passagem, considerarei de modo breve os princípios extraídos deste e de outros textos bíblicos.

  1. Formas de disciplina

Quando nos referimos à disciplina na igreja, devemos pensar não somente na punição do erro. A disciplina bíblica na igreja se inicia com atitudes de prevenção e, por conseguinte, inclui tanto a disciplina formativa como a reformativa. A primeira envolve todo o processo que resulta em prevenir os crentes de caírem no pecado. Todo o processo de batismo, tornar-se membro da igreja, submeter-se ao ministério de ensino, manter a prática da oração e da comunhão com o povo de Deus, alcançar o perdido, separar o dízimo de sua renda para o Senhor e submeter-se à liderança dos pastores — essas coisas estão antecipadas na disciplina formativa da igreja. A disciplina reformativa, assim como nos sugere o termo, se preocupa com o aprimoramento de um crente que se beneficia pouco da disciplina formativa, um crente que erra em sua jornada cristã. Estaremos nos referindo a esta disciplina sempre que utilizarmos o termo disciplina sem qualificativos.

Os crentes culpados de algum erro em seu viver, como o “irmão” mencionado no versículo 15, estão sujeitos a diversos modos de atitude reformativa, dependendo do seu pecado. Essa atitude é reabilitadora e punitiva em seu propósito. Às vezes, os pastores têm evitado o termo “punição” ao descrever este aspecto da disciplina. No entanto, o apóstolo Paulo a chama de “punição” em 2 Coríntios 2.6. Portanto, a punição é uma parte integral da disciplina. É claro que não significa punição física; tampouco se refere a confiscação de bens. É uma disciplina infligida emocional e psicologicamente pela terrível vergonha experimentada pelo disciplinado. Quanto menos odioso for o pecado, tanto menos severa deve ser a punição. Precisamos dizer que a seriedade do pecado de alguém está mais relacionada à atitude da própria pessoa para com o pecado cometido do que ao caráter intrínseco do seu pecado. Este é um fato importante na administração da disciplina. Basicamente, quatro ofensas devem estar sujeitas à reprovação imediata da igreja.

A forma mais branda de disciplina reformativa é a simples repreensão entre um crente e outro (Mt 18.15). Mas o que realmente nos interessa neste artigo é o exercício da disciplina mais formal e pública. Neste caso, a primeira coisa a fazer é a repreensão pública (1 Tm 5.20). Nesta repreensão, o crente errante é ordenado a desculpar-se diante da congregação do povo de Deus e repreendido publicamente por um pastor ou presbítero. O próximo passo é o isolamento social (Rm 16.17-20). Trata-se do esforço dos membros para reterem sua comunhão, seu amor e seu cuidado para com o irmão que pecou. Este esforço tem o objetivo de produzir embaraço ou vergonha (2 Ts 3.14,15). Alguns se referem a isto como suspensão da comunhão. Por último, temos a forma mais severa, que é a excomunhão (Mt 18.17; 1 Co 5.4,5). Por meio desta forma de disciplina, o membro que continua no erro é excluído da igreja, declarado contagioso à comunhão da igreja e entregue de volta ao mundo, do qual Satanás é o senhor. Na realidade, este membro é declarado e tratado como um não crente, até que prove o contrário. Ao mesmo tempo em que este membro terá permissão de frequentar os cultos e será encorajado a fazer isso, ele o fará na condição de réprobo. A membresia da igreja, conforme se pode observar, é um pré-requisito para qualquer forma de disciplina.

Não há necessidade de enfatizar que somente os membros da igreja local estão sujeitos à disciplina. O ofensor é chamado de “irmão” (Mt 18.15), não somente porque mantém um relacionamento social para com o ofendido, mas também porque os dois pertencem a um corpo idêntico chamado igreja. Todo o contexto ressalta isto. Toda igreja verdadeira deve ter um rol de membros constituído de crentes batizados, com bom testemunho diante da igreja e do mundo. Na frequência da igreja, haverá aqueles que não são membros. Estes serão crentes ou não crentes. Os não crentes não devem ser membros de uma igreja, em nenhuma circunstância. De modo semelhante, nenhum crente deve, em qualquer circunstância, deixar de fazer parte da membresia de uma igreja local. Na ocorrência de um pecado, a disciplina será aplicada aos membros, e não àqueles que estão fora da membresia da igreja. Embora os crentes não membros devam ser advertidos particularmente, por causa do seu erro, isto não é um exercício da disciplina da igreja. No máximo, isto equivale às admoestações e repreensões dirigidas aos não regenerados que ouvem a mensagem do evangelho na igreja.

Há boas razões que explicam por que a disciplina reformativa dever ser aplicada somente aos membros da igreja. Primeiramente, a disciplina é um privilégio deles. Hebreus 12.5-11 nos recorda que a disciplina é um instrumento de confirmar a filiação; é uma evidência de ser amado, bem como uma preparação da santidade que compartilharemos com Deus. Em segundo lugar, são os próprios crentes que desfrutam de todos os privilégios da membresia; e a disciplina da igreja consiste na perda de alguns desses privilégios. Seria uma zombaria retirar privilégios de pessoas que não os desfrutavam antes. A perda de privilégios peculiares só pode ser aplicada a pessoas que estão no gozo desses privilégios. Por essa razão, somente os membros de uma igreja local podem ser disciplinados.

Os incrédulos não podem ser objetos da disciplina da igreja, porque medidas de disciplinas têm o objetivo de restaurar os crentes que erram e não o de regenerar os incrédulos, que, em primeira instância, não devem ser aceitos na membresia da igreja. Tais pessoas são insensíveis aos propósitos disciplinadores da restauração; por essa razão, não podem ser objetos da disciplina da igreja. É Deus que tem de julgar aqueles que estão fora da igreja, enquanto esta julga os seus membros (1 Co 5.12,13).

Alguns talvez desejem saber que medidas devem ser aplicadas a um crente que erra e não é membro da igreja que ele frequenta com regularidade. As Escrituras desconhecem esse tipo de pessoa. Todo crente tem de pertencer à membresia de uma igreja. Visto que tal pessoa não existe nas Escrituras, fazer considerações hipotéticas somente daria crédito à possibilidade inaceitável da existência de tal pessoa.

Na melhor das situações, podemos apenas nos referir ao caso de um crente que é passível de disciplina enquanto participa de outra igreja, da qual ele não é membro. Alguém que está nesta condição deve ser disciplinado por sua igreja de origem sob a recomendação e superintendência da igreja onde ele frequenta. Em outras palavras, ao receber a informação dos líderes da igreja a qual ele frequenta, os líderes da igreja de origem decidirão que medidas disciplinares apropriadas devem ser aplicadas ao membro errante.

Este foi o princípio que o apóstolo Paulo abordou, quando, ao se encontrar distante da igreja de Corinto, onde o pecado fora cometido, ele, como presbítero de outra igreja (em Éfeso), disse: “Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás….” (1 Co 5.3-5.) Tudo isso deve nos mostrar com clareza que os membros da igreja são os objetos da sua disciplina.

  1. Casos para disciplina

As ofensas passíveis da disciplina da igreja são: (1) permanência no erro – Mt 18.15-17; (2) conduta ou ensino causadores de divisão – Rm 16.17; Tt 3.10; (3) comportamento desordenado – 2 Ts 3.6-15; (4) pecado escandaloso – 1 Co 5.1-13; e, (5) desacato à disciplina da igreja – Mt 18.17; Nm 16.12-20.

  1. Propósito da disciplina

Embora a vergonha (2 Ts 3. 14b), a repreensão (1 Tm 5.20) e a humilhação (1 Co 5.5) sejam os objetivos da disciplina, são objetivos secundários. Os propósitos primários da disciplina são a purificação da igreja, a restauração do pecador e a glorificação do nome de Deus.

  1. Os agentes da disciplina

A natureza da igreja exige que todos os membros estejam envolvidos na disciplina. Aqueles que veem um irmão ou uma irmã em pecado se encontram na linha de frente do dever — isto é o que afirma Mateus 18.15. Em segundo, o dever recai sobre aqueles que são informados ou aqueles que são chamados a tentar promover a restauração do crente que está no erro (v. 16). Em terceiro, a responsabilidade da disciplina recai sobre os presbíteros ou pastores que, encontrando dificuldade em assegurar-se do arrependimento, trazem o caso à igreja, para que haja uma ação formal (v. 17).

É muito importante que os membros sejam encorajados a cumprir seu papel de protegerem um ao outro e em insistir que os errantes se arrependam. Uma igreja que fecha os olhos ao pecado, deixando que os líderes farejem sua existência e o resolvam por si mesmos, essa igreja logo será dominada por imoralidade e escândalos. Os primeiros passos mencionados em Mateus 18.15,16, envolvendo os membros da igreja, são importantes para que o trabalho pastoral não se faça necessário. O dever dos pastores e líderes deve aparecer nos últimos estágios. Eles devem agir no estágio final de procurar estabelecer as circunstâncias que cercam o pecado, de validar as exortações ao arrependimento e de exercer a forma ideal de punição, se esta for necessária. A exceção, conforme elucidaremos, ocorre nos casos em que o pecado tem uma natureza escandalosa.

  1. Procedimento na disciplina

O papel de membros individuais da igreja

A passagem de Mateus 18, conforme já a apresentamos, é o procedimento que temos de seguir. Mas este procedimento se aplica, frequentemente, àquilo que chamamos de comportamento desordenado e não ao pecado escandaloso. No caso específico de um comportamento desordenado, o crente pode ser instado ao arrependimento, em particular. Quando há ocorrência de pecado escandaloso, o culpado não somente é confrontado com a realidade de seu pecado por aqueles que o testemunharam, como também está sob a responsabilidade de contá-lo imediatamente aos líderes. Nenhuma confissão particular, ou remorso, ou arrependimento manifesto para com os membros comuns termina o processo de disciplina. Os pastores ou presbíteros devem ter a permissão de lidar urgentemente com esse tipo de pecado, por causa do dano que pode ser causado ao ofensor, à sua igreja e à obra de Cristo (1 Co 5.1-13). Nos casos em que os crentes não têm certeza a respeito de como classificar o pecado, eles são advertidos a procurar o conselho dos líderes sobre o pecado, enquanto mantêm suas atitudes particulares.

O papel dos líderes da igreja

Depois de estabelecer as circunstâncias relacionadas ao pecado e ao caráter do arrependimento, se este ocorrer, os líderes decidem a punição apropriada que o ofensor merece, a fim de satisfazer adequadamente os propósitos para os quais a disciplina foi instituída. Eles devem trazer esta decisão aos membros da igreja, para que eles a ratifiquem. Quando o apóstolo Paulo disse aos crentes de Corinto: “Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás” (1 Co 5.3-5), ele especificou o papel que um pastor ou presbítero desempenha no processo de disciplina. Nesta passagem, o apóstolo deixou claro que os líderes têm de formular o juízo com o qual o restante da igreja deve concordar. Não compete ao membro realizar o papel dos líderes. Àqueles compete apenas ratificar a decisão destes, a menos que a decisão tenha sido uma decisão mal formulada e não esteja em harmonia com a lei de Cristo. As decisões de natureza disciplinar não são necessariamente atingidas por procedimentos democráticos ou por concordância da maioria.

O corpo de presbíteros ou pastores que julga um caso de disciplina tem de ser visto como um conselho de juízes que, depois de muita investigação, deliberação e busca da orientação divina, chegam a um veredito. Normalmente, eles têm o privilégio de conhecer informações referentes ao caso com o qual estão lidando, informações que outras pessoas, devido aos ditames da confidência, não podem saber. Este fato merece grande respeito. É claro que os membros da igreja ouvirão a respeito dos detalhes relevantes e os discutirão, quando necessário. As informações dos membros da igreja são importantes, porque servem para eliminar a possibilidade de perder informações vitais relevantes ao caso em apreciação, informações que os membros talvez possuam. Isso também revela, de maneira formal, a opinião, a sabedoria e o dever dos membros para com Deus, no que se refere àquele caso de disciplina.

Será proveitoso mencionar que haverá casos com os quais os líderes terão de lidar e resolver em particular. Os membros nunca saberão desses casos, até, provavelmente, o Dia do Juízo. Nesses casos, o crente errante será repreendido e aconselhado particularmente. Por causa de sua própria consciência, esse crente pode ser advertido a se abster de funções públicas na igreja, tais como liderar a música da igreja, orar em público, assumir qualquer função de liderança e/ou participar da Ceia do Senhor, por algum tempo. A natureza do pecado desse crente e o seu estado determinarão as restrições. Casos dessa natureza envolvem aqueles cuja confissão de erro é imediata e voluntária, cujo remorso e arrependimento são inconfundíveis e cujo pecado não tenha causado escândalo público e não envolva implicações legais (Rm 13.3,4). A razão para tal procedimento, neste caso, é que já se cumpriu o propósito fundamental da disciplina na igreja — ou seja, a restauração do pecador e purificação da casa de Deus (cf. Pv 28.13; 2 Co 2.6-8,10b). O que a igreja deveria ter produzido por um ato de censura o Espírito Santo produziu logo que o pecado foi cometido.

O papel da congregação

Se os membros da igreja não têm razões boas e convincentes para deixarem de concordar com as recomendações dos líderes, eles têm o dever de apoiá-las. A igreja tem de participar da decisão disciplinar, porque os membros tomarão parte na aplicação da disciplina. O levantar as mãos é uma maneira segura, embora não indispensável, de manifestar concordância. Por conseguinte, todo membro de igreja, incluindo aquele que se abstém de votar e aquele que se ausenta da assembleia, está obrigado a aplicar a disciplina que a assembleia concordou.

Além disso, precisamos enfatizar que os procedimentos na assembleia de membros são confidenciais. Os pronunciamentos dos membros presentes não podem ser ditos aos membros ausentes e, menos ainda, à pessoa cujo caso disciplinar a assembleia estava considerando. As contribuições de cada membro são feitas em confidência. Sem a autorização prévia dos autores de tais pronunciamentos, citá-los (ignorando o perigo de má interpretação do fato ou do contexto) a alguém que não se inteirou dos procedimentos da assembleia significa ser um difamador e pode constituir-se numa quebra dos estatutos da igreja, bem como da aliança de amor (o amor “tudo suporta” — 1 Co 13.7). Somente os presbíteros ou pastores têm o direito de comunicar a decisão da igreja ao membro culpado e de responder às suas perguntas; e os membros disciplinados têm de mostrar respeito aos pastores e presbíteros nas ocasiões em que lhes dirigem tais perguntas. E os pastores e presbíteros, devemos ressaltar, não têm o direito de revelar os nomes daqueles que lhes forneceram informações, sem que estes os autorizem previamente. Revelar tais nomes, sem consentimento antecipado, seria uma traição. Se não tivermos este cuidado, amargura, ódio e cismas podem surgir na igreja. E o bem almejado pela disciplina será arruinado.

O lugar do irmão errante

Embora o crente errante possa estar presente para ouvir as acusações contra ele e o veredito da igreja lhe possa ser anunciado diante dos presentes na assembleia, minha opinião é esta: ele deve ser mantido ausente das deliberações sobre o seu caso. Isto permite que haja liberdade de expressão e julgamento entre os membros, assim como protege o irmão de manter sentimentos aversivos, contra pessoas específicas, ao fazerem revelações negativas de sua conduta e vereditos dolorosos. Assim como os juízes deliberam entre si mesmos, na ausência do acusado, para chegarem a uma decisão, é recomendável que a assembleia faça seu julgamento na ausência do crente acusado. Isto é bom para ambas as partes.

Existe a urgente necessidade de restaurarmos a disciplina da igreja ao seu lugar de importância. Frequentemente, os líderes se comprometem neste assunto, quando eles mesmos não vivem corretamente. Quer sejam culpados de suas próprias práticas erradas, as quais exigem disciplina, quer não estejam mantendo um relacionamento saudável com os membros da igreja, ambos os casos envolvem culpa de cumplicidade. A timidez é outro fator que enfraquece a disciplina, ou seja, o temor dos homens ou o amor pelo louvor dos homens. O amor por números é outro fator.

Com fidelidade e cuidado, devemos pastorear nossas ovelhas da maneira como elas devem ser pastoreadas. Quando errarem de modo grave, devemos corrigi-las com amor ou discipliná-las sem cairmos em autoritarismo, o qual as Escrituras condenam (1 Pe 5.2,3). Oh! Devemos meditar sobre o fato de que a medida de uma igreja saudável e de uma liderança bem-sucedida é uma igreja bem-disciplinada! Isto mantém a pureza da igreja, visto que aspira à pureza de Cristo, o seu cabeça, a quem seja a glória para sempre. Amém!

 

 

Autor: Choolwe Mwetwa

Fonte: Ministério Fiel

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.