Traducianismo vs. Criacionismo

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Das teorias sobre a origem da alma humana, somente duas parecem compatíveis com a teologia evangélica: criacionismo e traducianismo. O criacionismo afirma que cada alma é criada por Deus ex nihilo, enquanto o traducianismo propõe que a alma é transmitida pelos pais, assim como é o corpo (Evangelical Dictionary of Theology, Walter A. Elwell, pp. 1037, 1106). Cada teoria tem suas forças e fraquezas, bem como seus aderentes entre teólogos notáveis.

O criacionismo, seguido por Aristóteles, Jerônimo, Pelágio, Calvino, católicos romanos e teólogos reformados modernos, diz que cada alma individual é criada imediatamente por Deus e colocada no corpo na concepção, ou um pouco mais tarde (Theologia, David H. Wietzke). O corpo material é transmitido por geração através dos pais, mas a alma é criada por Deus e colocada no corpo. O relato da criação em Gêneses declara que o corpo foi tomado da terra, enquanto o espírito veio diretamente de Deus.

“Essa distinção é mantida por toda a Bíblia, onde corpo e alma não são apenas representados como substâncias diferentes, mas também como tendo diferentes origens”, diz L. Berkhof, em sua Systematic Theology (p. 199).

As passagens da Escritura comumente usadas para apoiar a visão criacionista incluem: “E o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Ec 12:7). “Ó Deus, Deus dos espíritos de toda carne…” (Nm 16:22); “Assim diz Deus, que dá a respiração ao povo que nela (a terra) está e o espírito, aos que andam nela” (Is 42:5); O Senhor “que forma o espírito do homem dentro dele” (Zc 12:1).

Essa visão vangloria-se de muitas forças. Wayne Grudem aponta para o Salmo 127:3 (“Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre, o seu galardão”) como uma indicação que a pessoa inteira, alma e corpo, são uma criação de Deus e, portanto, não podem ser atribuídas aos pais, somente (Systematic Theology, pp. 484, 485). Berkhof (p.199) aponta que o criacionismo impede uma divisão da alma, a qual ele diz o traducianismo requerer. Também, ele diz, impede a conclusão que Cristo compartilhou da culpa do pecado de Adão. Tivesse a alma de Cristo sido transmitida dos pais para os filhos desde Adão, Cristo teria herdado o pecado original.

A despeito desses argumentos, o criacionismo também tem as suas fraquezas. Augustus H. Strong em sua Systematic Theology (p. 493) argumenta que a teoria faz de Deus o autor do mal, visto que ele estaria criando almas e forçando-as a se tornarem corruptas ao uni-las a um corpo caído. Berkhof (p. 200) aponta que poderia ser dito que o criacionismo “atribui aos animais poderes mais nobres de propagação que os homens”, visto que os animais reproduzem segundo sua espécie, mas o homem precisa que Deus reproduza a sua porção espiritual. Demais, diz Berkhof, ele ignora o fato que Deus agora age por meio de causas secundárias. Mas ele observa que a objeção não é muito séria para aqueles que não sustentam uma cosmovisão deísta.

Finalmente, William G.T. Shedd, em Dogmatic Theology (Vol. 2, p. 28), diz: “Os poucos textos que são citados em favor do criacionismo são facilmente aplicáveis ao traducianismo” (e.g. Is 57:16, “as almas que eu fiz”. Não existe nenhuma distinção entre alma e corpo provada).

A objeção mais forte parece ser a de Deus criar almas sem pecado que são forçadas a pecar. Os católicos romanos creem que o homem não mais é criado à imagem de Deus, mas recebem esse dom, de forma que a objeção se torna imaginária para eles. Para os teólogos reformados, essa é uma objeção muito difícil de ser respondida. Certas passagens, tais como a referência de Hb 7:10 a Levi no corpo de Abraão pagando o dízimo a Melquisedeque, provavelmente receberiam a classificação de linguagem metafórica (Wietzke).

O traducianismo, seguido por Tertuliano, Lutero, a Igreja Oriental e alguns teólogos reformados como Strong, afirma que, visto que o homem reproduz segundo sua espécie, a alma é parte do que é procriado juntamente com o corpo. Embora Deus seja o Criador da alma individual, essa criação é mediata – é feita através de meios secundários (Elwell p.1106). Deus criou durante seis dias, e então descansou de sua obra criadora no sétimo dia e tem estado “em descanso” desde então. A Escritura diz que Deus soprou o sopro de vida em Adão, dando-lhe uma alma, mas nenhuma menção é feita de Deus dando uma alma a Eva ou a algum outro descendente humano (Charles Hodge, Systematic Theology, p. 254). E Hebreus 7:10 diz que Levi estava pagando um dízimo a Melquisedeque, pois, embora ainda não nascido, ele estava no corpo de seu ancestral Abraão (Wietzke).

As passagens das Escrituras citadas pelos traducianistas incluem: “E, havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra, que tinha feito, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito” (Gn 2:2); “ainda ele [Levi] estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hb 7:10); “Porque o varão não provém da mulher, mas a mulher, do varão” (1Co 11:8).

A posição traducianista apresenta um entendimento mais simples de como os descendentes de Adão são culpados pelo pecado original. Talvez os criacionistas estejam corretos que a natureza corrupta é imputada por causa da representatividade federal de Adão, sendo ele assim um representante de toda a humanidade. Mas se essa suposição estiver incorreta, pode ser difícil explicar o porquê essa imputação é justa. Pode ser argumentado que a imputação do pecado não é menos justa que a imputação da justiça de Cristo ao cristão, visto que nenhuma das duas é merecida. Mas para aqueles que não podem conceber um Deus que declara seres racionais corruptos antes deles terem feito o bem ou o mal, o traducianismo é a única escolha lógica, visto que diz que a alma é transmitida a partir de pais pecadores. E um arminiano poderia argumentar adicionalmente que existe de fato uma diferença entre imputação de pecado e imputação de justiça, visto que nenhum humano jamais escolheu nascer, mas alguns escolheram “nascer de novo”, fazendo assim algo para receber a recompensa da justiça imputada.

É dito que Tertuliano argumentou que “nossos primeiros pais traziam dentro deles a semente não desenvolvida de toda a humanidade” (Shedd, p.7). Isso poderia se parecer como um zigoto unicelular que se divide em duas células, então em quatro, etc., até que algo mais parecido com um homem seja desenvolvido. A célula única era o humano completo naquele momento, embora alguns anos mais tarde tenha se tornado uma pessoa plenamente madura. Adão (o macho e a fêmea juntos) era a humanidade completa no momento do pecado original. Por meio da procriação, a humanidade tem desde então incluído mais de milhões de pessoas, assim como o zigoto que se divide em células. Eu sou de Adão assim com sou de um zigoto unicelular. E se meu corpo é de Adão, por que não minha alma? Como resultado, Shedd diz (p.14), a posteridade de Adão “pecou o primeiro pecado estando seminalmente existente e presente”.

Hodge (p. 255) observa que um dos argumentos mais fortes em favor do traducianismo é o fato que “as peculiaridade étnicas, nacionais, familiares e até mesmo paternais de mente e temperamento” são transmitas aos filhos. Isso seria apontar para uma derivação não somente do corpo, diz Hodge, mas também da alma. Esse argumento, contudo, também leva a uma das mais fortes objeções a essa teoria.

Os criacionistas dizem que se a visão traducianista é válida, então a alma de um dos pais (ou de ambos) deve dar parte de si mesma. Berkhof diz (p.198) que uma das três teorias deve ser usada para evitar esse problema: (a) a alma da criança tinha uma existência prévia; (b) a alma da criança está potencialmente presente na semente da mãe e/ou pai, o que é igual ao materialismo; ou (c) a alma é criada de alguma forma pelos pais, fazendo deles criadores. Além do mais, Cristo, se plenamente humano, teria herdado o pecado original por meio de Maria, visto que teria obtido sua alma por meio dela. Talvez Deus criou uma alma humana especial para Cristo, mas isso faria dele uma raça humana diferente do restante da humanidade, negando a sua capacidade de redimir os caídos (Wietzke).

Quanto à objeção da divisão da alma, uma pessoa precisa apenas olhar para o mundo animal. Uma estrela do mar, por exemplo, pode ser cortada em cinco partes iguais e cada parte se regenerará numa estrela completamente nova. Um animal que anteriormente possuía um espírito ou consciência, agora possui cinco. Embora uma estrela do mar não seja capaz de conhecer ou rejeitar a Deus, certamente ela não é uma planta e assim, possui consciência. Pode ser impossível entender plenamente que uma entidade pensante única, não importa quão primitiva, pode se tornar cinco entidades distintas; todavia, esse é o caso com a estrela do mar. A consciência desse animal é dividida ou são quatro novas criadas? É impossível saber, mas seja por qual meio for, isso acontece.

Quanto a Cristo herdar o pecado original através de Maria: seguindo a ligação do corpo e alma na visão traducianista, é possível que nenhum humano herde o pecado através da alma da sua mãe, assim como ele não herda o DNA mitocondrial do seu pai. As mitocôndrias são organelas que energizam cada órgão do corpo (Charles Pellegrino, Return to Sodom and Gomorrah, p.67), mas elas são transmitidas somente por meio da mãe. Da mesma forma, somente o pai pode passar o cromossomo Y. É possível que apenas o pai transmita a natureza corrompida? Se sim, por que a mãe não contribuiria, sendo ela caída também?

Se o corpo e alma estão de fato unidos, alguém poderia considerar a diferença entre os gametas masculino e feminino. Uma fêmea nasce com cada óvulo que possuirá, mas o macho produz esperma durante toda a sua vida. Assim, o esperma é perpetuamente produzido dentro de um corpo corrompido, mas o óvulo pode ser teoricamente rastreado até Eva, antes dela cometer o pecado original. Se o óvulo é considerado não corrompido, então uma fertilização sobrenatural do Espírito Santo produziria uma pessoa sem pecado, que também compartilhasse da nossa humanidade.

Outra objeção ao traducianismo é que ele afirma que Deus age somente mediatamente desde o ato original da criação (Berkhof, p. 198). Embora essa possa ser a posição de alguns traducianistas, essa não é uma regra inerente à posição. Deus pode criar almas por meios secundários e, todavia, ainda criar outras coisas sem mediação. Uma coisa não implica na outra.

No final, os traducianistas parecem ter os argumentos mais sólidos, embora não haja nenhuma prova bíblica absoluta para nenhum dos lados. Reconhecendo isso, é melhor concordar com Agostinho que esse assunto, embora intrigante, não deve ser enfatizado de forma exagerada. Antes, devemos todos concordar que a “morada apropriada” e o “lar” da alma é com Deus (Elwell p. 1037).

 

 

Autor: Owen Tew

Fonte: Monergismo

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.