Não Mais Crianças no Senhor

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O Apóstolo Paulo mostra que as crianças têm certas características e tendências particulares. Ele chama a atenção para estas com as palavras, “para que, doravante, não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente”. Aqui temos um exemplo do conhecimento que o apóstolo tinha do que hoje se descreve como “psicologia infantil”. É uma perfeita descrição das crianças, e do modo de ver e da mentalidade da criança, e isso corresponde fielmente a todos nós, quando começamos na vida cristã. Há uma passagem paralela no capítulo 3 da Primeira Epístola aos Coríntios, onde de novo ele analisa esta condição, mas sob um aspecto e um ponto de vista ligeiramente diferentes. Para o nosso crescimento é essencial que compreendamos e continuaremos sendo crianças. Não conheço nada que seja mais trágico do que ver cristãos permanecem exatamente onde sempre estiveram e sendo o que sempre foram. Terminam como crianças, como começaram. Eles achavam que tinham tudo no começo e, assim, nunca cresceram espiritualmente, permanecem crianças a vida toda. Não parecem que tenham compreendido que temos apropriar-se e apossar-nos do que é prometido e tornado possível a cada um de nós, e que temos que “crescer na graça e no conhecimento” do Senhor.

Segundo o apóstolo, há duas principais tendências nas crianças. A primeira é instabilidade. Ele utiliza uma frase bastante pitoresca para descrever isso: “lançados para lá e para cá” (“inconstantes”), “agitados como as ondas”. Não significa que somos agitados de um lado para outro pelas ondas, porém que nós somos semelhantes às ondas, agitadas para lá e para cá e constantemente em movimento. Na verdade podemos traduzir a frase por, “lançando-se por todos os lados”. A palavra que o apóstolo empregou, e é o único caso em que ela se acha no Novo Testamento, comunica o sentido de violência – “um violento lançar-se das águas ao redor”. Tiago tem a mesma ideia no capítulo primeiro da sua Epístola, onde a palavra empregada significa “lançada de um lado para outro” ou “agitada” (1:6). Nada é tão característico do mar como a sua inquietação, o seu constante movimento e mudança. A palavra do apóstolo transmite esta ideia do mar agitado para lá e para cá, ondas ondas do mar em constante movimento, com a ideia de violência e agitação. E isso, diz o apóstolo, caracteriza a condição infantil.

Contudo, devemos analisar isto mais detalhadamente, como o apóstolo claramente tenciona que façamos. A condição nos lembra que uma das características mais proeminentes da criança é a inconstância e mutabilidade. Quão rapidamente uma criança pode mudar do riso para o choro! Pode-se ver no seu rosto as rápidas mudanças. A criança não pode evitar isso, é claro, porque é criança. Nas Escrituras há muitos exemplos disto, nos casos em que se aplica a uma condição infantil. Vejam, por exemplo, o que lemos no último capítulo de Atos dos Apóstolos. Paulo tinha desembarcado, após um naufrágio, na ilha de Melita (Malta). Fazia frio, e eles juntaram uns gravetos para fazer uma fogueira para esquentar-se. De repente, uma víbora prendeu-se na mão do apóstolo. Os outros concluíram imediatamente que ele devia ser um homem muito mau, e ficaram na expectativa de que ele começasse a inchar a qualquer momento e sofresse morte violenta. Todavia, quando viram que ele nem inchava nem morria, mudaram de opinião e disseram que ele era um deus. Passaram imediatamente de um extremo ao outro. Essa conduta é típica da criança, “agitada para lá e para cá, como as ondas do mar”. É sempre triste ver essa espécie de comportamento no povo cristão, entretanto todos começamos como crianças.

Outra coisa que caracteriza esta condição infantil é a falta de domínio próprio. É por isso que as crianças devem estar sob o controle de pessoas mais velhas. As crianças são criaturas de impulsos e caprichos; pouco sabem de autodisciplina, e elas não conseguem dominar-se, controlar-se e controlar o seu gênio. Diz-nos o livro de Provérbios que o homem pode dominar o seu gênio é o maior do que aquele que pode capturar uma cidade. O domínio próprio é uma tarefa muito difícil. A criança não pode dominar-se; ela dá livre expressão de si mesma. Quer uma coisa, e a quer imediatamente; mostra o seu temperamento e o seu desagrado, se lha negam. A criança manifesta-se incapaz de controlar as suas reações e respostas às coisas que lhe sucedem.

Outra característica da criança, e característica que se segue às anteriores, é que a criança sempre reage exagerada e violentamente às coisas que lhe acontecem. A criança age de maneira global, e o faz com um elemento de violência e excesso. A criança ou gosta demais de uma coisa, ou a odeia; não há meio termo. Ela vai direto de um extremo ao outro. Todas as reações da criança exibem este elemento de excesso, de violência e de falta de disciplina e de controle. Quão desconcertante as Escrituras podem ser quando colocam de nós esse tipo de espelho! O verdadeiro cristão, e adulto, não deve reagir violentamente e com excesso; ele precisa manifestar disciplina e controle, e um elemento de temperança. “Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, de amor, e de moderação”, diz o apóstolo ao jovem Timóteo (2 Timóteo 1:7). “Moderação” (VA: “mente sã”) quer dizer disciplina e domínio próprio, não devemos reagir com excesso e com violência às coisas que acontecem conosco.

Mais uma característica da criança é que ela defende as suas ideias violentamente, e tende a mudar de um extremo para o outro. Todos nós conhecemos o dogmatismo da criança; e o que a torna mais difícil ainda é que quando ela muda completamente de ideia, defende a novas ideia de maneira igualmente dogmática. Além disso, nunca se sabe quando a mudança vai acontecer. O resultado disso tudo é que a criança vive num estado de perpétuo tumulto e agitação mental. Do mesmo modo, o adulto que acabou de se tornar cristão tende a mostrar estas características, tanto individualmente como em grupos. Observem um pequeno grupo de crianças. Elas parecem terrivelmente perturbadas; uma coisa de nada as transtornou, e elas se juntam em bloco e parecem falar todas ao mesmo tempo. São violentas em suas reações, agitadas, e estão num estado de tumulto. Acham que o fim do mundo está prestes a acontecer, tudo porque um brinquedinho se quebrou ou por causa de alguma coisa igualmente trivial. São como as ondas do mar, agitadas para lá e para cá. A agitação mental é sempre indicativa de uma condição infantil, a não ser que se deva a uma verdadeira doença mental.

Tudo isso deve levar-nos a perguntar se nós estamos manifestando estas características da criança, esta instabilidade, este constante movimento e agitação, esta tendência para ser violenta nestes diferentes aspectos; esta falta de disciplina e de domínio próprio, e especialmente esta incapacidade de controlar as nossas reações às coisas que nos acontecem. Noutras palavras, a vida da criança é uma vida vivida na superfície. A criança não tem reservas às quais recorrer. Isto não é uma crítica à criança; é uma descrição. E a característica da criança. E porque é criança, não pode evitá-lo. Contudo, quando você vir esta condição em alguém que é cristão há algum tempo, a primeira coisa necessária é fazê-lo compreender que ele está muito errado e que “doravante” não deve continuar nesse estado.

 

 

Autor: D. Martyn Lloyd-Jones

Fonte: Martyn Lloyd-Jones

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.