A Relevância dos Credos e Confissões (2/2)

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  1. Os Principais Propósitos na Formulação dos Credos

Originalmente, os credos foram elaborados para serem úteis à vida da igreja. Eles eram a confissão daquilo que estava no coração dos crentes; serviam para que os crentes se tornassem conhecidos na sociedade como seguidores de Jesus Cristo; e serviam também para conduzir outras pessoas a ele pela influência do seu testemunho.

Mas, poderíamos dizer de forma mais elaborada que:

  1. Jesus Sempre quis que os Homens Fizessem uma Confissão Daquilo em que Criam

Sempre houve a necessidade de se confessar aquilo em que se crê (Mt 10.32-33; Rm 10.9-10). Segundo Mt 16.15, Jesus perguntou aos seus discípulos: “Mas vós quem dizeis que eu sou?” Ele queria que os seus discípulos afirmassem sua posição com relação à sua pessoa. Todos nós temos que confessar Jesus, quem ele é, o que ele fez. Talvez a primeira formulação de uma doutrina ou dogma cristão esteja relacionada com a resposta de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Obviamente, esta confissão de Pedro foi, posteriormente, expandida e melhor articulada.

A confissão é um elemento essencial da fé. Este princípio fundamental não pode ser negado, segundo o ensino do Novo Testamento. Melanchton, uma das mentes mais brilhantes do tempo da Reforma, disse: “Nenhuma fé é firme se não é mostrada em confissão.”10 Não existe uma fé em Cristo que não se expresse em uma formulação doutrinária ou dogmática. “Uma fé sem dogma, sem confissão, está continuamente em perigo de não mais saber o que realmente crê e, portanto, em perigo de cair ao nível de uma mera religiosidade.”11

  1. Na Igreja Apostólica os Crentes Começaram a Orar ao Senhor Exaltado

Este é um fato que não pode ser ignorado. Mas qual é a dificuldade, alguém perguntaria. De forma correta, cria-se que as orações deviam ser dirigidas somente a Deus. Se eles estavam orando a Jesus Cristo, eles teriam que começar a elaborar uma formulação doutrinária que justificasse aquela sua atitude de oração. Logo, a questão do relacionamento entre Deus e Jesus Cristo tinha que ser estabelecida. Não havia outra forma de tratar o problema. Algum tempo mais tarde começaram as formulações credais oriundas das controvérsias sobre a doutrina da trindade e dos problemas cristológicos. Obviamente, as elaborações mais sofisticadas foram posteriores, somente nos séculos IV e V, nos primeiros concílios ecumênicos. Não é de se estranhar, portanto, que os primeiros dogmas a serem formulados na igreja cristã tenham sido o da trindade e o das duas naturezas de Cristo. Também não foi acidente que, logo em seguida, aparecessem problemas de antropologia, com as doutrinas do pecado e da graça sendo esclarecidas na igreja ocidental nas lutas que Agostinho teve com Pelágio.

  1. O Aparecimento de Crenças Estranhas Levou à Necessária Formulação dos Credos, para que a Genuína Fé Cristã fosse Distinguida das Heresias que Apareciam

Com frequência, os credos tinham que ser elaborados para explicar melhor a formulação doutrinária já existente na igreja. Em todos os tempos, a formulação de doutrinas revelou uma preocupação séria da igreja com algum ponto fundamental da fé. Todas as doutrinas apareceram para explicar problemas de importância fundamental para a vida da igreja, tanto sobre o entendimento como sobre o conteúdo da fé. Era a melhor maneira de educar e catequizar a igreja — que estava em franco crescimento — a respeito das verdades cristãs mais importantes.

  1. Os Credos e Confissões São o Resultado de Uma Experimentação?

Se considerarmos que tais documentos são formulados cientificamente, então temos que admitir que revelam o resultado de uma experimentação. Neles os teólogos trabalham arduamente para chegarem a uma conclusão bem elaborada que reflita a interpretação correta das Escrituras, após analisarem as várias interpretações disponíveis no decurso da história da igreja e na averiguação das interpretações correntes.

Qual deve ser a fonte última de pesquisas para os credos e confissões cristãos? Obviamente, é a Escritura Sagrada. Ela é a fonte básica para a formulação dos credos, assim como a natureza é a fonte básica para as outras formulações científicas. A Escritura deve ser a fonte de toda pesquisa porque ela é uma revelação singular de Deus.

Uma outra questão surge na mente das pessoas: os credos devem ter como fonte única a Escritura, ou a experiência cristã também deve contribuir para a formulação dos mesmos? Wooley diz que

a experiência de fato lança luz sobre a Bíblia, mas uma ou a outra deve ter a prioridade. Se a Bíblia é apenas um registro da experiência humana, então a questão está resolvida. A fonte básica é a experiência. Mas se as reivindicações da Bíblia devem ser aceitas, ela é um livro que contém um registro singular, totalmente distintivo, da verdade dada por Deus. Em outras palavras, não há nada mais igual a ela. Se isto é verdade, a Bíblia é a fonte definitiva. Neste ponto, a escolha tem que ser feita. O cristão diz que ela tem que ser feita com a assistência de Deus.12

Qual é o significado da Bíblia? O que a Bíblia realmente quer dizer a nós? Os credos e confissões são uma tentativa de responder a estas perguntas de forma sistemática, porque a Bíblia não é um compêndio sistematizado de doutrinas. Quando da formulação de tais documentos, os estudiosos trabalham cientificamente para produzir aquilo que creem ser expressão da verdade de Deus, com base nas informações que possuem. O investigador da Escritura começa por tentar descobrir o que autor humano tinha em mente quando escreveu, o que ele estava tentando dizer. Mas o investigador não pode parar aí se ele crê que a Bíblia é a revelação, ou mesmo um meio de revelação. O investigador também tenta descobrir o que Deus pretendeu que o texto significasse para o leitor de então, e para o leitor de agora.13

Wooley diz ainda que os estudiosos da Escritura devem usar outras ferramentas que os ajudem na sua interpretação e que, consequentemente, ajudem na formulação dos credos e confissões:

Uma das ferramentas usadas na descoberta do significado da Escritura é a história daquilo que as pessoas pensaram sobre ela. A história usa com um propósito didático a evidência do que aconteceu aos homens no passado. A história de como os homens formularam os credos, por que assim o fizeram, qual a utilidade que os credos têm tido na prática, e qual a sua real utilidade, é de extrema importância na avaliação de nossa situação presente.14

Portanto, quando estiverem reafirmando as verdades credais e confessionais, os cristãos deste final de século devem levar em conta a fonte autorizada que é a Escritura e as fontes secundárias de pesquisa, que estão na experiência dos homens verificada na história da igreja.

  1. São os Credos uma Imposição da Igreja sobre os seus Membros?

Muitos cristãos de hoje não aceitam as formulações doutrinárias estabelecidas pelo simples fato de pensarem que são uma imposição das autoridades da igreja sobre eles.

De fato, dentro da Igreja Católica Romana, a ideia de “dogma” tem alguma ligação com imposição. Todos os católicos têm que aceitar as formulações infalíveis da igreja,15 sem qualquer possibilidade de questionamento ou posterior alteração.

Roma reivindica infalibilidade para todos os pronunciamentos do magistério da igreja. Cristo fundou a igreja e ordenou que ela deveria ser a guardiã infalível e intérprete da verdade. Inspirados pelo Espírito de Deus, os concílios da igreja não podem errar. Justiniano I (morto em 565) considerou os ensinos dos quatro concílios ecumênicos da igreja como Palavra de Deus e seus cânones como leis do império. Gregório, o Grande (morto em 604), colocou os decretos dos primeiros quatro concílios em pé de igualdade com os quatro evangelhos. O catolicismo medieval, na plenitude da sua exuberância, elevou os credos acima da Bíblia. Por esta razão, a perspectiva de Roma é que as antigas formulações dos credos contêm verdades reveladas imediatamente por Deus e, assim, são dotadas de autoridade para todas as épocas.16

Os protestantes têm uma atitude diferente com relação aos credos e confissões. Embora eles considerem o Credo dos Apóstolos e os decretos dos quatro concílios ecumênicos em consonância com a Escritura, essa última é a única regra de fé e prática para a igreja. Os dogmas e as confissões sempre têm que estar sujeitos à Escritura. Devem ser testados à luz da Escritura e sua interpretação deve estar sempre em consonância com a mesma. Quando isto acontece, então pode-se dizer que as doutrinas dos credos e das confissões são uma expressão de um correto entendimento das Escrituras e devem ser aceitas pela igreja.

Os protestantes sempre reconheceram concílios fiéis e concílios infiéis. Portanto, alguns expressaram-se corretamente e outros não, em matéria de fé. É exatamente esse o pensamento da Confissão de Fé de Westminster.

Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e outra coisa (Confissão de Fé de Westminster, XXXI, 3).

Para que os cristãos aceitem os credos e confissões, estes têm que refletir o pensamento da Escritura e têm que ser julgados pela própria Escritura. Se isto acontecer, os credos nunca serão uma imposição da igreja, mas os crentes terão o dever de aceitá-los.

  1. A Possibilidade de Revisão dos Credos

Um credo ou confissão, pelo menos dentro da teologia reformada, não é um sistema de doutrina absolutamente fechado que não possa ser alterado com o desenvolvimento sério dos estudos sobre uma determinada matéria. Wooley diz que “os credos existem para o propósito de aplicação e deveriam ser frutíferos para experimentação e teste posteriores, e sujeitos a constante mudança e revisão.”17

É importante observar que a teologia reformada não é um sistema hermeticamente fechado ou irreformável. Não possuímos um credo sacrossanto, que nenhum concílio possa alterar. A teologia reformada sempre se desenvolveu, desde a Reforma Protestante do Século XVI. Quanto mais os teólogos refletem sobre a revelação divina da Escritura, mais eles podem aprender com ela. A teologia reformada permite a revisão dos credos para que se melhore a formulação das doutrinas.

Um padrão de fé não pode ser mudado sem um exame acuradíssimo das Escrituras. Toda e qualquer alteração tem que possuir uma base escriturística justificável. A ideia de reformar os credos e confissões não é algo simples, nem deve ser tratada levianamente. “A revisão de uma confissão é sempre possível, mas tal revisão é proveitosa somente se a própria igreja estiver num plano espiritual elevado e for capaz de inteligentemente descobrir com precisão, nas Escrituras, as expressões da sua fé.”18

Embora a teologia reformada não seja irreformável, por causa da sua solidez, ela não tem sido alterada em sua história. As gerações presentes têm que possuir um elo de ligação com as gerações passadas. Esses elos nunca podem ser quebrados. O que cremos hoje tem que refletir a fé dos nossos antepassados. Devemos diferir deles naquilo em que eles não foram absolutamente justos com o ensino geral das Santas Escrituras, mas onde estiveram certos, devemos seguir com eles. O que foi verdade no passado, deve ser verdade para o povo de Deus no presente.

A verdade de Deus conforme revelada na Escritura nunca muda. O entendimento da Escritura é que pode ser melhorado. Nesse sentido, a fé reformada se desenvolve.

  1. As Razões para a Depreciação dos Credos

Vivemos numa época anti-dogmática, e muitos crentes querem que a igreja viva sem um corpo de doutrinas. Eles dizem que somente a Bíblia é necessária. Eles querem saber somente de Jesus Cristo, e não de doutrinas, o que é uma grande insensatez. Como pode haver amor a Cristo e à sua Palavra sem haver amor pela sã doutrina ensinada de maneira inequívoca na Escritura?

Contudo, há algumas razões para esse comportamento da igreja contemporânea:

  1. O Subjetivismo Radical do Iluminismo e do Pós-Modernismo

Uma razão para esse comportamento pode sem depreendida do fato de que desde o período do Iluminismo apareceu dentro da igreja um subjetivismo radical que levou a uma depreciação dos credos. No período pós-iluminista, com Schleiermacher, Kierkegaard e toda a tradição existencialista, creu-se que a realidade de Deus não podia ser objetivamente conceptualizada. A verdade tinha que ser alcançada pela exploração do caráter intrínseco da existência humana. O teólogo católico Karl Rahner insiste que “o conteúdo da fé não é visto como um número vasto e quase incalculável de proposições que, coletiva e diversamente, estão garantidas pela autoridade formal de um Deus que se revela.”19 Segundo Rahner, a verdade é subjetiva, não objetiva.

  1. A Aridez do Protestantismo Escolástico

A segunda razão para a depreciação dos credos e confissões pode ser vista na aridez do protestantismo escolástico dos séculos XVII e XVIII, com sua tonalidade racionalista, que enfatizava as formulações confessionais esvaziadas de verdadeira piedade cristã. Essa aridez resultou no aparecimento do Pietismo, que rejeitou quase todas as formulações doutrinárias. Mais recentemente, como resultado da aridez ortodoxa dentro do catolicismo, começou-se a enfatizar a ortopraxia ao invés da ortodoxia. Demarest diz que “os modernos católicos progressistas tais como Schillebeeckx, Dulles and Küng insistem que o que vale não é um credo cristão, mas os atos concretos dos cristãos.”20

Por causa da ênfase extremada nos credos e confissões do protestantismo escolástico e da aridez com que ensinavam as doutrinas, sofremos ainda hoje algumas consequências. Todas as igrejas que são confessionais levam sobre si o estigma de “ortodoxia morta.” Num certo sentido isto tem sido verdadeiro. Várias igrejas confessionais têm perdido historicamente o gosto pela evangelização, pelo testemunho cristão e pela vibração com o evangelho de Cristo. Por essa razão, o evangelicalismo moderno tem apelado mais para a religião prática e para a experiência individual do que para confissões de fé objetivamente afirmadas.

Esse erro comportamental do passado não é justificativa para abandonar-se os credos. É perfeitamente possível afirmá-los e confessá-los e, ainda assim, possuir ardor pela evangelização, missões e comunhão pessoal com Deus, pois eles próprios ensinam estas coisas.

  1. O Relativismo Cultural

Uma terceira razão para a depreciação dos credos e confissões está relacionada com o problema do relativismo cultural. O pós-modernismo foi o grande beneficiado com o relativismo cultural, mas nos seus resultados ele não foi diferente do Iluminismo. Apenas mudou a metodologia. Ele retirou a verdade afirmada objetivamente e colocou a verdade na subjetividade do indivíduo. O pós-modernismo democratizou a verdade, fazendo com que ela fosse propriedade de cada indivíduo, e não uma verdade afirmada objetivamente, como está na Escritura, por exemplo. A cosmovisão individual determina a verdade.

Alguns críticos dizem que “as crenças e formulações do passado são inevitavelmente condicionadas pela cultura da época que as produziu.”21  Os credos e confissões são sempre a expressão cultural de um povo, numa determinada época. Portanto, aquilo que foi válido para aquela época, não o é para a nossa presente geração.

Como consequência, alguns pensamentos são vigentes na igreja moderna:

1) Frequentemente se diz que alguém pode ser um cristão bom e sincero sem ter suas doutrinas formuladas sistematicamente. Isto tem sido o produto de um pietismo que sempre procurou o seu cristianismo na vida prática, sem a crença necessária em dogmas para ser cristão. Alguns ainda pensam que doutrinas são meras palavras, que não têm qualquer aplicação prática.

2) Tem-se dito que as doutrinas são o produto de uma época particular com as suas características próprias, como o tempo da Reforma. Naquela época as doutrinas eram necessárias por causa das controvérsias religiosas. Mas a situação daquele período não mais se repetiu. Ele foi singular.

3) Tem-se dito que as doutrinas mudam quando comparadas com a Bíblia. “Nós temos que ficar com o que não muda.” Isso é verdade quando as doutrinas não tem um fundamento correto. Por exemplo: os Reformadores alteraram aquilo que era crido no período medieval. Por quê? Porque algumas doutrinas medievais não expressavam o conteúdo geral das Escrituras. Foi exatamente o princípio da Sola Scriptura que alterou o que estava estabelecido. Mas as doutrinas não são algo que necessariamente se altera. A mutabilidade das mesmas está relacionada com a sua fidelidade ou não à Escritura.

11. A Autoridade dos Credos e Confissões

Modernamente, tem havido duas atitudes para com os credos e confissões: uma de divinização e a outra de rejeição dos mesmos. Uma atitude sábia está em evitar esses dois extremos.

Classicamente falando, há duas posições com respeito aos credos e confissões, expressas em frases latinas: norma normata, que deve ser preferida a norma normans.

A expressão norma normans (“uma regra que regula”) reflete a posição católica romana. Ela expressa a idéia de que a autoridade dos antigos credos é absoluta e infalível. Os credos antigos eram considerados Palavra de Deus.

A expressão norma normata (“uma regra que é regulada”) reflete a posição protestante. Observa-se que o credo é uma regra, uma norma. Os credos sempre refletiram a consciência doutrinária e religiosa das gerações da igreja cristã. Eles são de uma importância enorme para a igreja contemporânea, pois expressam aquilo que os nossos antigos creram. E tem que haver uma identidade de fé que nos une a todos, cristãos de todas as épocas. Mas temos que observar também que o credo é não somente uma norma, mas uma norma que é regulada. Como o credo é uma formulação humana, ele tem que estar submisso (regulado) à Escritura, a regra infalível e suprema de fé e prática. A Escritura, sim, é norma normans, isto é, ela é divina e absoluta, e tem a finalidade de regular os credos, que são uma autoridade secundária e derivada. Em última análise, os credos e confissões devem sempre ser testados e regulados pela Palavra de Deus.

Os Padrões de Fé de Westminster, por exemplo, não são norma normans, mas norma normata, não uma regra com norma intrínsica, mas uma regra derivada da fé. Eles são um produto humano, totalmente subordinado à Palavra de Deus. A Escritura possui uma autoridade intrínseca, e não a igreja ou os seus credos. Tanto a igreja como os seus padrões de fé devem ser julgados pela norma normans, que é a Escritura.

Vivemos num tempo de indefinição teológica e doutrinária por causa do abandono dos credos e confissões. O retorno aos credos e confissões é absolutamente necessário para que essa indefinição termine. Contudo, a aceitação de proposições confessionais deve levar a uma vida prática, sadia, cheia de amor pela Palavra de Deus e santo temor e reverência pelo seu autor e inspirador.

  1. A Necessidade da Volta aos Credos e Confissões

Essa volta é absolutamente necessária porque precisamos rejeitar a subjetividade daquilo que tem sido ensinado nas universidades e em alguns seminários evangélicos. O retorno aos credos precisa incluir a rejeição do subjetivismo moderno que tem negligenciado a verdade como é revelada objetivamente. Temos que afirmar as verdades de Deus que estão objetivamente reveladas nas Escrituras Sagradas.

Essa volta aos credos deve ser uma resposta à ênfase exclusiva na ortopraxia. Demarest diz que “a única garantia de uma ortopraxia bíblica responsável é uma ortodoxia bíblica autêntica, tal como a fé que temos enraizada nos credos. Não há nenhuma integridade de vida à parte de uma integridade de crença.22

Essa volta aos credos deve ser uma resposta à ideia do relativismo cultural. O que é verdade espiritual uma vez, sempre o será. A verdade não está condicionada a um tempo ou época. A verdade de Deus é para sempre. Aquilo que se considerou verdade numa época e depois caiu, não é expressão da verdade. Por essa razão, os credos não são infalíveis. Eles podem ser aperfeiçoados e melhorados.

  1. A Importância da Subscrição dos Credos e Confissões

Nos dias em que vivemos, por causa do baixo nível ético de crentes e de ministros da Palavra que prometem verbalmente fidelidade aos padrões doutrinários, mas logo se afastam deles por uma questão de conveniência teológica, precisamos subscrever um conjunto de doutrinas que expressem a nossa fé. Essa atitude significa nadar contra a correnteza. Por causa do pluralismo vigente em nossos dias, as pessoas têm reservas até mesmo quanto à ideia de subscrever uma formulação teológica.

Contudo, esta época é extremamente apropriada para que mostremos a nossa definição teológica, assinando documentos de fidelidade ao que professamos crer. Segue abaixo uma sugestão do que os oficiais e ministros das igrejas confessionais deveriam assinar:

Nós, abaixo assinados, sinceramente e de boa consciência, declaramos que, por esta subscrição, estamos firmemente persuadidos de que todos os pontos contidos em nossos símbolos de fé reformados, elaborados pelos nossos antepassados espirituais, refletem com fidelidade, por sua interpretação, os ensinos da Palavra de Deus.

Prometemos, assim, ensinar com toda a diligência as doutrinas afirmadas em nossos símbolos de fé, sem que as contradigamos direta ou indiretamente, quer por pregação pública ou pelos nossos escritos.

Declaramos, além disso, que não somente rejeitamos os erros que militam contra essas doutrinas, mas estamos dispostos a refutar e a contradizer os ataques à sã doutrina, para que a conservemos pura, e a igreja seja livre de cair em heresia.

A subscrição de padrões doutrinários deveria ser exigida por seminários e concílios da igreja, os subscritores ficando passíveis de ser submetidos ao juízo das autoridades eclesiásticas caso sigam um padrão diferente daquilo que subscreveram. Contudo, uma pessoa não deve ficar para sempre presa ao que assinou, no caso de não mais concordar com o que subscreveu anteriormente. O subscritor tem o direito de ter as suas dificuldades doutrinárias, e pode querer o reexame das doutrinas afirmadas. Uma saída para essa situação está prevista na fórmula de subscrição sugerida:

Se, porventura, tivermos quaisquer dificuldades ou sentimentos diferentes com respeito ao que subscrevemos, prometemos não ensinar sobre eles nem pública nem particularmente, seja por pregação ou por escritos, até que tenhamos primeiro revelado tais dificuldades aos concílios competentes, e sejam essas dificuldades e sentimentos devidamente examinados por eles, estando nós dispostos a aceitar o juízo desses concílios, ficando sob penalidade, em caso de recusa, de sermos suspensos de nosso ofício.23

Creio firmemente que muitos oficiais das igrejas confessionais teriam dificuldade em assinar um documento como o sugerido acima, porque o tempo presente dificulta essa atitude. Infelizmente, a igreja sempre tem se defrontado com a falta de seriedade de alguns de seus ministros ordenados, numa atitude não condizente com a ética cristã. Juram e não cumprem o juramento feito ao tempo da sua ordenação. Como agravante, as dificuldades individuais de ministros e professores de seminários não têm feito com que esses problemas e sentimentos opostos aos padrões confessionais cheguem aos concílios superiores. Eles preferem ignorar os problemas que vêem e fecham os olhos aos padrões doutrinários violados por muitos colegas, em nome do “amor.” Em nome desse mesmo “amor de coleguismo,” permitem que a verdade de Deus seja sacrificada. É uma pena que as coisas sejam assim.

Todavia, eu conclamo os meus colegas de presbiterato, sejam eles docentes ou regentes, a assumirem uma postura de lealdade àquilo que cremos ser uma exposição fiel das verdades da Escritura Sagrada. Somente assim, haveremos de livrar a igreja que amamos das ameaças teológicas que a rodeiam. Que Deus assim nos ajude!

 

 

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NOTAS:

  1. Philip Melanchton, Apology of the Augsburg Confession, IV, 385, em Thedore G. Tappert, ed., The Book of Concord (Philadelphia: Fortress Press, 1959), 166.
  2. Bernhard Lohse, A Short History of Christian Doctrine (Philadelphia: Fortress Press, 1989), 10.
  3. Wooley, “What is a Creed For?,” 97.
  4. Ibid.
  5. Ibid.
  6. Obviamente, nos dias de hoje nem todos os católicos, sejam eles teólogos ou não, aceitam a infalibilidade dos dogmas como foi crido em tempos passados. Otto Karrer enfatizou que “os dogmas da Igreja Católica Romana devem ser entendidos e apreciados com referência ao período do desenvolvimento dos mesmos. Infalibilidade significa que uma certa explicação é apropriada e livre de erro na sua resposta a certas questões condicionadas historicamente” (Lohse, Short History of Christian Doctrine, 13).
  7. Demarest, “Christendom’s Creeds,” 347.
  8. Ibid., 97.
  9. Hughes, The Encyclopedia of Christianity, “Confessions and Creeds,” vol. 3, 90.
  10. Karl Rahner, Belief Today (New York, 1967), 71.
  11. Demarest, “Christendom’s Creeds,” 353.
  12. Ibid.
  13. Ibid.
  14. Esta sugestão de fórmula de subscrição é parcialmente retirada daquela seguida pelos ministros da Igreja Cristã Reformada dos Estados Unidos, que está inserida no Psalter Hymnal, 71.

 

 

Autor: Heber Carlos de Campos

Fonte: Mackenzie

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.