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Introdução

Esta palestra foi dada pelo Professor Herman Hanko – professor de Teologia no Seminário das Igrejas Protestantes Reformadas na América – durante uma visita a Ballymena, na Irlanda do Norte em 1990. A procura foi tão grande que foi decidido imprimir a palestra. Esta foi produzida em forma de livreto. Uma grande quantidade foi distribuída no Reino Unido e nos Estados Unidos.

É nosso desejo compartilhar nossa herança reformada com outros, como foi entregue a nós pelos nossos pais e encontrada na Sagrada Escritura (Jd 3). Nossa esperança e oração é que Deus use este livreto para Sua glória.

O que Significa Ser “Reformado”

Senti que era necessário escrever insistindo que batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos (Jd 3).

Esta é a Palavra de Deus – a Palavra de Deus para a igreja. À luz da Palavra de Deus, o significado de ser reformado é um assunto relevante a ser discutido.

É comumente conhecido que a palavra “reformado” passou a ter uma variedade de significados tão grande em nossos dias, e que de fato, ela passou a não significar nada. Há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que estão tão longe de serem reformadas quanto o leste está do oeste. Elas são incapazes de descrever o que a fé reformada é de fato. Até mesmo pior do que isso; há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que além de não serem reformadas, verdadeiramente tem tornado-se inimigas e oponentes da fé reformada.

Há também pessoas que se consideram “reformadas”. Talvez a igreja da qual fazem parte não use o nome “reformado” em seu título eclesiástico, mas elas se consideram “reformadas”. Se vocês perguntarem a elas: “Você é reformada?”, sem hesitação elas responderão: “Sim, certamente”. Mas se vocês pedirem a elas para explicarem o que significa ser “reformado” ou perguntá-las: “Por que você se considera reformada?”, elas seriam incapazes de dar uma resposta. Elas não tem a menor ideia do que significa ser “reformado”. Estas pessoas apenas apegam-se ao título porque soa bem, ou talvez porque a palavra tenha uma história respeitável, ou ainda porque exista algo tradicionalmente atraente nisto. Mas, quanto ao que significa de ser “reformado” está relacionado, elas não têm a menor ideia.

É importante saber o que significa ser “reformado”. É essencial para nós compreendermos isso a fim de que não exista nenhuma confusão sobre o assunto. A questão não é – a meu ver – se você é ou não verdadeiramente “reformado”. Se você é, que bom. Se não é, você é responsável por aquilo que acredita, porém terá que prestar contas diante do Juiz dos céus e da terra por aquilo que você sustenta por verdade. Se você é ou não reformado, esta não é minha maior preocupação. Minha grande preocupação é que de uma vez por todas as pessoas parem de espalhar boatos sobre o termo “reformado”, como se este não tivesse nenhum significado específico e concreto. Sejamos honestos diante de Deus, da igreja e do Rei da igreja – nosso Senhor Jesus Cristo. Se não desejamos ser reformados, que tenhamos então coragem de dizer que a fé reformada não é para nós. Não estamos brincando com trocadilhos quando falamos sobre o que significa ser reformado.

Eu sou reformado. Eu sou “reformado”, pois acredito com todo o meu coração que a fé reformada é a verdade da Escritura. E a verdade da Escritura é eminentemente essencial porque ela é a diferença entre o céu e o inferno. Nós não estamos brincando de casinha. Nosso compromisso não é com a semântica. Não estamos espalhando boatos sobre termos. Nós estamos falando sobre assuntos que são de interesse eterno: a verdade da Escritura, a verdade do próprio Deus, a verdade de nossa salvação.

Existem muitos, muitos diferentes tipos de pessoas que declaram ser “reformadas”. Há aqueles que proclamam ser “reformados” que são conhecidos como “fundamentalistas”. Nos Estados Unidos, o fundamentalismo é um movimento eclesiástico extremamente religioso. É dito em nossos jornais diários que os fundamentalistas foram responsáveis por colocar nossos dois últimos presidentes nos seus cargos. Este é um tipo de poder! Os fundamentalistas proclamam ser reformados. Mas eles não são.

Os fundamentalistas defendem – obviamente – as verdades “fundamentais” da Escritura. Eles defendem a infalível inspiração da Escritura, o nascimento virginal de nosso Senhor Jesus Cristo e a crença em milagres e prodígios. Eles defendem o criacionismo ao invés do evolucionismo, a ressurreição do corpo de Cristo da morte e a volta de Jesus Cristo sob as nuvens. Estas verdades são todas verdades da Escritura. Não há nenhuma dúvida disto.

Porém, acreditar nestas verdades não faz de um homem “reformado”. Há muitos, muitos católicos romanos no mundo que acreditam nestes mesmos fundamentos da Escritura. Eu os conheci e falei com eles. Mas, quem dentre nós, algum dia, considerou a possibilidade de chamar um católico romano de “reformado”?

Uma das características do fundamentalismo é que ele ensina o que se tornou conhecido através dos anos como “arminianismo”. O arminianismo não é “reformado”. Porém, muitos arminianos desfilam sob a bandeira reformada. Eles se vangloriam por serem reformados. E proclamam que verdadeiramente são reformados, embora defendam com firmeza doutrinas que são completamente arminianas.

O Que o Arminianismo Ensina?

O arminianismo – não os reformados – ensinam que a salvação em certas circunstâncias depende do homem – da vontade do homem, da escolha do homem ou do poder do homem de aceitar ou rejeitar Jesus Cristo. Isto não é reformado! O arminianismo ensina de acordo com isto, que Deus não elegeu pessoas para Si desde a eternidade, mas que ao invés disso, Deus escolhe para ser Seu povo aqueles que Ele prevê que irão acreditar, e rejeita aqueles que Ele prevê que irão rejeitar o evangelho. Isso é exatamente a definição de eleição e reprovação que um padre católico romano disse que defendia, quando estávamos discutindo este assunto. Ele disse:

Imagine-se no topo de um grande edifício de muitos andares que avista um cruzamento de uma cidade movimentada. Imagine dois carros correndo em ruas diferentes em direção a este cruzamento a 100 quilômetros por hora, e imagine que esses carros estão apenas a 100 metros do cruzamento. Você consegue prever quase que precisamente que os carros, estando praticamente à mesma distância do cruzamento e correndo a esta velocidade, irão colidir. Desta maneira, Deus prevê quem irá crer e quem irá rejeitar o evangelho. Com esta base Ele elege o Seu povo e rejeita os outros.

Isso não é reformado. Isso é arminianismo. Isso é uma desgraça para o evangelho e algo que contradiz a Escritura. Alguém que defende tal visão e diz que é “reformado”, não sabe do que está falando.

São os arminianos – não os “reformados” – que ensinam que Cristo morreu por todos os homens. Esta é uma doutrina comumente defendida, na verdade, tão frequentemente defendida que, quando alguém se aventura a contradizê-la, as pessoas olham surpresas e maravilhadas como se em toda a sua vida, elas nunca tivessem ouvido ninguém ensinar nada, exceto que Cristo morreu por todos os homens – um por um. Mas isso não é reformado! Nunca foi, não é, e nunca será!

Não é ser reformado, ensinar que o evangelho, o qual Deus faz com que seja pregado em todo o mundo, é um convite para que todos os homens sejam salvos. Não é reformado ensinar que o evangelho expressa a boa vontade, o anseio e o desejo de Deus de salvar todos aqueles que ouvirem o evangelho. Não é reformado ensinar que Cristo está presente no evangelho como Um que, com braços abertos suplica e implora a todos os homens para virem a Ele, O aceitarem e encontrarem seu descanso e esperança nEle. A fé reformada não é “decisionismo”, não é um “convidacionismo” e não ensina que o evangelho é uma “oferta” para todos.

A fé reformada não ensina que é possível para o homem resistir a obra do Espírito Santo. Ele não consegue – com êxito – impedir as investidas do Espírito, nem restringir o Espírito de completar Sua obra. Um homem não consegue – com êxito – continuar no caminho da incredulidade e pecado apesar dos melhores esforços do Espírito. Ele é incapaz – com êxito – de continuar a caminho do inferno, embora o Espírito faça tudo em Seu poder para trazê-lo a salvação. Isso não é reformado! Nunca foi, não é agora, e nunca será.

Não é reformado ensinar que uma vez filho de Deus, não significa necessariamente sempre filho de Deus. A fé reformada não ensina que eu poderia ser filho de Deus hoje, estar perdido amanhã e talvez uma semana depois ser salvo novamente, e um mês depois, mais uma vez estar a caminho da perdição. Isso não é reformado. Nunca foi, não é agora e nunca será!

Não é reformado ensinar que Deus ama todos os homens. Não é reformado ensinar que Deus abençoa todos os homens, é gracioso para com todos ou dá Seus presentes da graça para todos os homens, fervorosamente buscando pelo seu amor e favor em retribuição a Ele. Isso é arminianismo. Qualquer um que ostenta estas doutrinas sob a bandeira de “reformado”, não tem nenhuma noção do que a fé reformada significa ou estão mentindo diante de Deus e da igreja.

A palavra “reformado” veio da reforma de Calvino. A genialidade da reforma de Calvino é que esta foi uma reforma de doutrina, de adoração e governo da igreja. Todas estas coisas foram completamente corrompidas pela Igreja Católica Romana.

Lutero também foi um oponente do catolicismo romano. Porém, Lutero não é chamado de “reformado” – não porque em essência ele não concordava com as doutrinas de Calvino – mas ao invés disso, seu lugar como nomeado por Deus na reforma, foi disparar o poderoso tiro de canhão da verdade da justificação pela fé, contra a imponente e aparentemente invencível fortaleza do ímpio, apóstata e idólatra sacerdotalismo de Roma. E, no disparo deste tiro de canhão, Lutero demoliu esta imponente estrutura.

Sobrou para Calvino se engajar no verdadeiro trabalho da reforma. Ele não somente tinha que destruir aquilo que estava opondo-se a Deus e Sua Palavra, mas edificar e estabelecer o que é a verdade da Escritura. A fé reformada é, portanto, o corpo de doutrina que o grande Reformador de Genebra estabeleceu.

Eu chamo sua atenção ao fato de que a fé reformada é um corpo de doutrina. Vamos ser bem claros nisso, a fim de que não haja absolutamente nenhum mal entendido a este respeito. Vivemos em um tempo em que há pouco ou nenhum interesse pelas doutrinas. Os homens falam sobre uma paixão por “salvar almas”. Falam sobre a necessidade de ir aos não convertidos. Falam da importância de missões – e de fato, nosso próprio Senhor nos ordenou: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho” (Mc 16.15), e estas são as instruções para a igreja prosseguir. Porém, a vida da igreja não é apenas vista em seu chamado missionário. Na verdade, qualquer igreja que esquece que seu chamado fundamental é lutar pela fé, “uma vez por todas confiada aos santos”, é uma igreja que tem se feito incapaz até mesmo para fazer o trabalho de missões. A fé reformada, diga-se, e diga-se com a maior ênfase possível, é um corpo de doutrina, e estas doutrinas são claras, meticulosas e precisas. Esta é a fé reformada. Se você não está interessado em doutrina, você não tem o direito de usar o nome “reformado”.

Se você não acredita que Calvino estabeleceu o corpo de doutrina, eu sugiro que você sente na cadeira de sua sala hoje a noite, com a cópia das Institutas, e que por cinco minutos folheie-a. As Institutas te convencerão, sem nenhuma contradição, que Calvino de fato estabeleceu as doutrinas.

A fé reformada é um corpo de doutrina. Não é como um livro sobre geometria sólida que tem nele proposições e teoremas os quais, se você acreditar ou não, não faz a mínima diferença em sua vida – exceto talvez se o homem para quem você deseja trabalhar requerer algum conhecimento matemático. Ao invés disso, o corpo de doutrina é a verdade concernente a Deus. Aquele que é reformado é cauteloso, justamente porque é uma doutrina a respeito de Deus. Se você estiver descendo a rua, por exemplo, e por acaso você ouve que três homens com lascívia e escárnio em seus rostos, estão falando mal de sua esposa, chamando-a de mulher da vida. Você certamente fará tudo o que for possível para corrigir o equívoco deles e recuperar a reputação de sua esposa. Você fará isto, pois você a ama. As fofocas e as difamações que estão sendo faladas sobre ela, ferem você profundamente. Você deseja que sua esposa seja conhecida por aquilo que verdadeiramente ela é.

Igualmente, o reformado quer que Deus seja conhecido pelo que Ele verdadeiramente é. Ele não somente opõe-se, mas também odeia com todo o seu ser a difamação de seu Deus. Ele não apenas opõe-se, mas odeia com todo o seu ser aqueles que não falam a verdade sobre Deus, e surgem com invenções humanas ou com suas próprias ideias – sua fofoca e difamação sobre Deus. Estes não se submeteram a verdade da Escritura. A fé reformada ensina a verdade de Deus! E aquele que conhece a fé reformada e a ama, é zeloso por ela. Ele ecoa as palavras que Elias falou quando estava debaixo da árvore, repetidas no Monte Horebe: “Eu tenho sido muito zeloso pelo Senhor, o Deus dos Exércitos” (1 Rs 19.14).

Mas, o Que é a Fé Reformada?

Como a fé reformada é a verdade a respeito de Deus, ela ensina – assim como Calvino – que Deus é o único Deus, absolutamente soberano em todas as Suas obras e caminhos. Ele faz tudo de acordo com Sua boa vontade e realiza todo o Seu soberano propósito. A fé reformada ensina que Deus é o Criador do céu e da terra. Ele sustenta todas as coisas pela Palavra de Seu poder e rege todas as criaturas pelo Seu soberano poder. Logo, todas as criaturas somente efetuam a Sua vontade. Esta não é apenas uma verdade para as estrelas que Ele move em seus cursos no firmamento. Não é apenas uma verdade para o besouro em seu caminho pela calçada. Ela é verdade também no coração dos reis. “Pois o coração do rei”, Salomão diz, “é como um rio controlado pelo Senhor; Ele o dirige para onde quer” (Pv 21.1).

A fé reformada crê em um Deus soberano. A fé reformada crê, como Isaías proclama, que até mesmo a Síria – a potência mundial da época – era uma serra e um machado na mão do Senhor, para serrar e talhar conforme Ele desejava (Is 10.15). A fé reformada ensina que embora nosso Senhor Jesus Cristo foi entregue por Pilatos, Herodes e pelas mãos ímpias dos judeus, mesmo assim foi de acordo com o determinado conselho e presciência de Deus (At 2.23). A fé reformada crê, como o profeta Amós reconheceu, que se existe mal na cidade, o Senhor o fez (Am 3.6). Esta é a fé reformada. O Senhor é soberano. O Senhor realiza toda a Sua boa vontade. O Senhor faz o que Lhe apraz em cima nos céus e em baixo na terra. O Senhor põe reis em seus tronos e os tira segundo a Sua vontade.

A fé reformada exige a resposta para esta questão confrontadora: É nossa doutrina essa que contempla a soberania do Senhor dos céus e da terra? Essa é, afinal, a questão que enfrentamos. Por acaso, nós desejamos, adoramos, servimos e colocamos nossa confiança na soberania de Deus? Ou é satisfatório para nós termos um ídolo impotente diante da soberana vontade do homem? Nós estamos servindo algo que é incapaz de salvar aqueles a quem ele deseja trazer para o céu: Um Deus que implora, um Cristo que implora enquanto o homem é soberano para fazer o que lhe apraz? Este tipo de Deus eu não preciso e não quero. Eu preciso de um Deus que pode salvar um desamparado, depravado e pecador corrupto. Se eu não tiver este tipo de Deus, não há esperança alguma.

A fé reformada acredita – e Calvino ensinava – que Deus é soberano sobre todo o trabalho da salvação, do começo ao fim. O homem não contribui em nada. A fé reformada crê – e Calvino ensinava – que desde a eternidade, antes da fundação do mundo e antes dos fundamentos da criação terem sido estabelecidos, Deus escolheu para Si mesmo – sem qualquer consideração aos trabalhos ou méritos humanos –um povo que Ele deu à Cristo (Ef 1.4). Estes foram destinados para serem d’Ele e foram destinados a viver com Ele em eterna glória no mundo vindouro.

Deus soberanamente determinou aqueles que seriam os réprobos (Rm 9.22). Ele determinou como manifestação de Sua justiça que os réprobos revelariam esta justiça quanto aos seus pecados eternamente no inferno.

Deus, como soberano Senhor, deu Seu filho, não para morrer por todos os homens, mas para morrer pelas Suas ovelhas (Mt 1.21). Ele fez expiação por aqueles que foram dados à Ele pelo Pai (Jo 6.37). Assim, Ele, por Sua obediência perfeita na cruz, conquistou para Seus eleitos – que são preciosos aos Seus olhos – a plenitude da salvação eterna.

A fé reformada ensina que o Espírito de Cristo – que é o Senhor exaltado à direita de Deus – é irresistível em Seu poder salvífico. Este Espírito passa por toda a extensão da vasta criação. Ele conhece quais são os eleitos por quem Cristo morreu, e por quem Ele derramou Seu sangue. Ele entra em seus corações, subjuga sua resistência, demole as paredes de sua rebelião e vence seu amargo ódio e inimizade contra Deus. Ele saqueia as cidadelas da sua incredulidade. Movendo-se em seus corações, Ele faz de pecadores, santos. De blasfemos, Ele cria aqueles cujas bocas exaltarão a Deus. Através de um poder irresistível e poderoso Ele os transforma e liberta da escravidão do pecado.

A fé reformada crê e ensina – assim como Calvino ensinava – que o homem é totalmente depravado (Rm 3). Ele é tão depravado que não é somente incapaz de fazer nenhum bem, mas também quer deseja o bem. Ele é incapaz de querer o bem. Ele é incapaz buscar o bem. Ele é incapaz de procurar por isso. Ele não tem nenhum desejo por isso. Tudo o que ele tem é ódio e amargura, um ódio eterno e implacável por tudo o que é bom e tudo o que vem de Deus. Sua salvação depende em sua totalidade do trabalho soberano e irresistível do Espírito.

A fé reformada ensina – e Calvino ensinava – que “uma vez filho de Deus, sempre filho de Deus” (Fp 1.6). Assim como o próprio Senhor disse em João 10.28: “Ninguém as poderá arrancar da minha mão”. Podemos até cair profundamente no pecado, desviar-nos para muito longe do caminho dos mandamentos de Deus, porém, ainda assim seremos mantidos seguros pela poderosa mão de nosso Salvador – que nos preserva e nos mantém. Ele irá mais uma vez, mesmo que seja através do castigo, restaurar-nos em arrependimento e confissão. Então, cairemos de joelhos e clamaremos por perdão, enquanto o Espírito nos guiará à cruz. Em seguida, mais uma vez, nos apegaremos ao corpo ensanguentado de nosso Salvador.

A fé reformada ensina que a salvação é uma obra de Deus desde o princípio até sua definitiva e perfeita conclusão, na ressurreição do corpo e na vida eterna no céu.

A fé reformada ensina que a fé – pela qual nós nos unimos a Cristo – não vem de nós mesmos, ela é um presente de Deus (Ef 2.8). Deus não apenas nos dá a capacidade para crer, mas também opera em nós o próprio ato de crer. A fé reformada ensina que, por este motivo, o evangelho não é um convite, não é uma proposta, não é uma expressão do amor universal de Deus, não é uma oferta de um Salvador suplicante. Ao invés disso, ela é – assim como Paulo disse em Romanos 1.16: “O poder de Deus para a salvação”.

A fé reformada não crê que Deus ama todos os homens, nem que todos os homens são objetos do Seu favor e de Sua graça. Bem pelo contrário, Deus se ira com o ímpio todos os dias, assim como o salmista diversas vezes expressa (Sl 7.11, etc…). A fé reformada crê, assim como o sábio expressa em Provérbios 3.33, que “a maldição do Senhor está sobre a casa dos ímpios, mas ele abençoa o lar dos justos”. A fé reformada acredita que não há nada além de ódio, nada além de maldição para os ímpios. E Deus os coloca – assim como Asafe canta em Salmos 73.18 – em lugares escorregadios de destruição.

A fé reformada ensina – e Calvino ensinava – que todas as coisas são para a salvação dos eleitos por quem Cristo morreu (Rm 8.28). A fé reformada ensina essas doutrinas, pois elas sustentam que Deus é Deus! Que Ele faz toda a Sua boa vontade. Que Ele é o único soberano e o Santo de Israel a Quem pertence todo o louvor, a glória e o poder para sempre. Essa é a fé reformada. E somente ela é a fé reformada.

Aquele que nega essas verdades não é reformado. Aquele que defende alguma outra ideia, não pode reivindicar a si mesmo o nome “reformado”. Desde os dias do reformador de Genebra, nunca foi reformado ensinar nada além disso, não é agora, e nunca será até que o Senhor volte.

Aqueles que afirmam ser reformados e ensinam o contrário, ou fazem isto por ignorância ou estão marchando sob uma bandeira falsa. Eles esteiam a bandeira do exército de Sua Majestade em embarcações piratas. Eles fazem isto para que com engano possam espreitar aqui e ali e enganar a outros, levando-os à destruição. Estes são inimigos da fé reformada. Vamos ter certeza que nós entendemos isto.

O Senhor foi muito claro quando disse aos Seus discípulos, há somente duas posições que vocês podem ocupar: Ou você é por Mim ou você está contra Mim (Mt 12.30) ou um ou outro. Não há terreno neutro. Não existe uma área “cinza” onde o homem pode ficar enquanto ele se decide. Ou você é pela fé reformada, ou você é contra ela. Ou você acredita nela e a ama com cada fibra de seu corpo, ou você se opõe a ela. A fé reformada requer por si mesma este tipo de exclusividade, pois ela afirma a exclusividade da Escritura e de um Deus soberano, que revelou a Si mesmo nas páginas da Sagrada Escritura.

Em segundo lugar, a fé reformada é uma visão “do mundo e da vida”. É a maneira como se olha para o mundo.

A fé reformada ensina que um filho de Deus, um filho eleito que crê em Deus – que está no meio do mundo – deve usar as palavras de Jesus em João 17.14: “Embora no mundo, não são do mundo”. Vamos deixar isso bem claro, que a doutrina e a vida andam juntas.

Que tragédia é que no nosso século doutrinariamente analfabeto, em nossos tempos de negligência e indiferença doutrinária, as pessoas “piedosamente” tagarelam sobre o fato que a doutrina é insignificante. “Isto faz diferença apenas quanto à como se vive” – eles dizem. Por acaso, toda a fé reformada e toda a religião cristã é reduzida a um jogo moral? Esta é a posição que nós devemos tomar? Deus nos livre! Moralidade sem doutrina é igual a nada. O mundo – o mundo dos incrédulos, o mundo dos pagãos – tem produzido alguns dos homens mais morais de todos os tempos. A filosofia grega produziu homens de grande estatura moral. Isso é cristianismo? Isso é a fé reformada? Não. Doutrina e vida andam juntas. O que um homem acredita, determina sua vida, e se sua vida não está enraizada em sua fé, esta fé não significa absolutamente nada. De fato, o que um homem crê a respeito da verdade da Escritura é por si mesmo um estilo de vida. Isso é o que se entende por “antítese”.

É necessário enfatizar que se – como é tão defendido em nossos dias – Deus ama todos os homens, que todos os homens são alvos de Sua graça, que todos são alvos de Sua benevolência, bondade e graciosidade; se todos os homens são alvos de Sua “graça comum”, e se todos são alvos de Seu amor revelado na cruz – onde Cristo morreu por todos os homens cabeça por cabeça – então não há lugar para nenhuma “antítese” entre o mundo e a igreja.

Se Deus ama todos os homens, se Deus é gracioso para com todos os homens, se Deus é amável para com todos os homens, isso resulta em um certo tipo de bondade que você encontra no mundo em geral. Embora haja monstros de iniquidade, Stalins e Hitlers na história, de modo geral os homens têm muita bondade em si mesmos. Eles são homens da filantropia. Eles são homens capazes de produzir obras formidáveis no campo das artes: Pinturas encantadoras e composições musicais de glória insuperável. Eles são capazes de dar seus milhões aos trabalhos filantrópicos, tais como construir hospitais. Eles são capazes de lutar por boas metas neste mundo de pecado, metas tais, por exemplo, um mundo no qual a paz reine e as guerras sejam abandonadas. E até mesmo você encontrará no mundo, alguns homens bondosos que se opõem ao aborto, a homossexualidade e as corrupções da depravação sexual e perversidades. No entanto, se você atribuir todas estas coisas a obra da graça, bondade e benevolência de Deus através da operação universal de Seu Espírito e Sua bondade para com todos, então você verá que por este tipo de “graça comum”, você destruirá o profundo abismo que Deus estabeleceu entre a igreja e o mundo. A graça comum constrói uma ponte sobre o abismo. A graça comum permite que o mundo inunde a igreja e a igreja se lance avidamente no mundo. Ela encoraja que a igreja se una com o mundo em todos os tipos de causas comuns. Quer seja no campo científico, no campo da filantropia, no campo da moralidade, no campo da política – no interesse de colocar certos homens nos cargos – no campo da economia ou qualquer outro, existe então uma abundância de espaço para cooperação e acordos. Há muitas ocasiões para o ímpio e o justo trabalharem juntos, lado a lado.

A fé reformada pronuncia com toda a sua força um anátema, um anátema feroz a todo tipo de pensamento como esse.

Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: ‘Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo’. Portanto, ‘saiam do meio deles e separem-se’, diz o Senhor (2 Co 6.14-17).

Esta é a fé reformada: A faca cortante da antítese atravessa cada parte da vida do filho de Deus no mundo.

Sim, nós estamos no mundo e o ímpio está no mundo. O ímpio trabalha próximo a nós nas fábricas e mora ao nosso lado, na mesma rua. Nós vamos ao mesmo supermercado, comemos a mesma comida e partilhamos da criação de Deus de forma igual e comum. Não existe nenhum questionamento sequer a respeito disso. Mas em cada parte de sua vida, sem exceção, o incrédulo vive partindo do princípio do ódio a Deus, o cristão vive partindo do princípio da vida de Cristo em seu coração. Paulo ainda fala sobre o fato que nosso choro é fundamentalmente diferente do choro do ímpio: “A tristeza segundo Deus não produz remorso, mas sim um arrependimento que leva à salvação, e a tristeza segundo o mundo produz morte” (2 Co 7.10). Sua alegria é diferente da risada do mundo. Toda a sua vida é diferente, pois há vida em você, pelo poder do Espírito de Cristo, a vida do céu. Você é um cidadão do reino dos céus. Você está andando nesta vida como um peregrino e um estrangeiro na terra. Você é “indiferente” para as coisas deste mundo presente. Sua cidadania é a do alto. O alvo de sua jornada terrena é a casa de seu Pai. As coisas deste mundo somente chamam sua atenção na medida em que elas são necessárias para que você continue seu chamado como um peregrino e estrangeiro, em agradecimento ao Pai celestial. Você serve o Senhor Cristo por toda a sua vida e o reino d’Ele não é deste mundo. O reino Dele é do céu (Jo 18.36).

A fé reformada tem tido como lema – desde os dias de João Calvino – o seguinte: “A igreja reformada é uma igreja se reformando”. O que isso significa? Significa, em poucas palavras, que nenhuma igreja jamais pode ficar estagnada. Uma igreja estagnada é como uma poça de água parada: Esta logo é coberta com limo verde e começa a feder. Uma igreja não pode ficar estagnada. Ou ela se move para frente ou ela resvala para trás, um ou outro. A grande tragédia de nossos dias é que a igreja, a igreja nominal – que chama a si mesma de “igreja” – tem ido para trás. E ela tem ido tão longe para atrás, que não somente tem perdido qualquer senso do que significa ser “reformado”, mas também tem perdido a noção do que significa ser igreja! Embora ela esteja estabelecendo estruturas, tenha poderosos programas – os quais tem custado milhões de libras – embora ela tenha voz ativa sobre todo o tipo de empreendimento social e erga a voz em protesto nos conselhos dos homens e nações, ela deixou de ser “igreja”.

A Igreja Reformada Vai em Frente. Por Quê?

Porque as insondáveis riquezas do conhecimento de Deus na Escritura são profundas: Profundas em glória, profundas em verdade e bem-aventuranças, as quais ninguém jamais será capaz de compreender deste lado do céu (Rm 11.33). “Vemos”, Paulo diz como nós observamos na Escritura, “apenas um reflexo obscuro” (1 Co 13.12). A Escritura é como um espelho. Por trás de nós Jesus Cristo brilha. A Escritura reivindica Jesus Cristo e reflete uma parte de Sua glória, e esta glória de Cristo é a revelação de Deus para nós na Escritura. Esta glória que vemos é irresistivelmente bela. Mas nós apenas podemos conhecer parte dela. Algum dia, diz Paulo, nós nos viraremos e O veremos face a face (1 Co 13.12). E, então, já não mais precisaremos do espelho, pois estaremos com Ele e conheceremos a verdade em toda a plenitude de sua perfeição. Porém, a Escritura é uma mina que, se o mundo durasse dez mil vezes dez mil anos, continuaria a conter as verdades que nossas mentes débeis apenas começaram a compreender. Esta é a revelação de Deus na face de Cristo. E a igreja reformada a reconhece.

A igreja reformada não vira as costas para o passado. De maneira nenhuma! Ela recebe aquele glorioso legado da fé reformada como um presente do Espírito da verdade para a igreja. Ela recebe este presente com humilde gratidão. Ela o recebe como um bem de valor inestimável pelo qual incontáveis morreram. Por este legado eles derramaram seu sangue, não amando suas vidas até a morte. Santos e mártires, os quais agora foram se juntar a companhia de justos homens aperfeiçoados. Este é um legado escrito no sangue de nossos santos companheiros, com quem algum dia nós viveremos em glória. Nós recebemos este legado em total humildade e reverência. É quase como se, tendo-o em nossas mãos, nós compreendemos que Deus nos colocou como responsáveis por um bem de valor inestimável.

O que nós devemos fazer com ele? Deveríamos vendê-lo por um prato de lentilhas? Deveríamos lançá-lo aos quatro ventos? Deveríamos ser infiéis ao sangue destes que o compraram em face ao sofrimento? Deveríamos falar de qualquer jeito, com indiferença ou de forma tola sobre a fé “reformada”, enquanto traímos aqueles que deram suas vidas por ela? Não. Nós o tomamos como o bem mais querido ao qual devemos ser leais. Nós o deixamos aos cuidados de nossos filhos, pois este é o conhecimento de Deus. “Esta é a vida eterna”, Jesus ora, “que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Quando temos este tesouro, aquela fé uma vez confiada aos santos, então é o nosso chamado lutarmos com zelo por ele (Jd 3), ainda que para isto tenhamos que ser desprezados e escarnecidos. Apesar de estarmos em pequeno número, nosso legado é demasiadamente precioso para ser sacrificado no altar da popularidade e nos agradáveis olhares de meros homens. Esta é a nossa salvação.

A igreja reformada pega esta herança e avança com entusiasmo e anelo. Em alegria na verdade, ela procura a Escritura para ter um entendimento mais claro, pleno e abençoado da preciosa Palavra de Deus. A igreja reformada é uma igreja leal, uma igreja que continua crescendo na verdade da Escritura. Essa é a verdade reformada.

Você é “Reformado”?

Se você não é, se essas doutrinas não são as doutrinas que você deseja, o problema é seu. Afinal de contas, neste mundo você tem o direito de acreditar no que quiser, no entanto, você dará contas a Ele que está assentado no Grande Trono Branco, e quando você estiver diante Daquele que se assenta no Grande Trono Branco, Ele não irá te perguntar: “Quais prodígios você realizou? Quantas almas você salvou para Mim?” Ele não irá perguntar se você tentou fazer deste mundo o reino de Cristo. Ele não está interessado nisso. Ele fará apenas uma pergunta: “Você foi fiel a Minha Palavra e a Verdade?” Isso é tudo.

Se você não deseja isso, que assim seja. Mas, com toda a honestidade diante de Deus e da Igreja, não diga que você é “reformado”. Seja o que for que você queira acreditar, o problema é seu, mas não chame a si mesmo de “reformado”.

Se você é reformado e deseja ser reformado, se você ama a verdade da grande glória do Todo-Poderoso, então levante-se conosco nestes dias maus e lute pela causa da verdade do evangelho. O tempo é curto. O fim está próximo. Vamos trabalhar enquanto ainda é dia antes que a noite venha na qual nenhum homem pode labutar (Jo 9.4).

 

 

Autor: Herman Hanko

Tradução: Fireland Missions

Fonte: CPRC

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.