A Lei do Amor e o Amor à Lei

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Alguns cristãos cometem o erro de colocar o amor contra a lei, como se ambos fossem excludentes. Ou você tem uma religião de amor ou uma religião da lei. Mas essa equação é profundamente antibíblica. Para quem não sabe, o “amor” é um mandamento da lei (Dt 6.5; Lv 19.18; Mt 22.36-40). Se você prescreve o amor, está falando da lei. Ao contrário, se você está dizendo que a lei não vale mais, então está dizendo que o amor, o resumo da lei, também não vale.

Além disso, considere a íntima relação que Jesus faz entre o amor e a lei. Para Jesus não existe amor sem obediência à lei (Jo 14.15). Mas ele diz mais do que isso. Jesus coloca a comunhão com Deus junto com a guarda dos mandamentos. Quando guardamos os mandamentos de Cristo, nós o amamos. E quando amamos a Cristo, o Pai nos ama. E todo aquele que o Pai ama, Cristo ama e se revela (Jo 14.21). Então, não se pode permanecer no amor de Cristo à parte dos mandamentos de Cristo (Jo 15.10). O que significa que não há plenitude de alegria à parte da busca da santidade (Jo 15.11). A lei de Deus é uma expressão de sua graça. A lei é o plano de Deus para o seu povo santificado desfrutar da comunhão com ele. Por isso os Salmos estão cheios de declarações de deleite relacionadas com os mandamentos de Deus. Mesmo com o fim da aliança mosaica, certamente o Salmista nos estabelece um exemplo. O homem feliz se deleita na lei do Senhor e medita nela de dia e de noite (Sl 1.2). Os preceitos e as regras do Senhor são mais doces do que o mel e devem ser mais desejados que o ouro (Sl 19.10). Sim, a lei pode levar o homem natural a pecar (Gl 3.19,22). Mas o povo de Deus se regozija nos seus estatutos e percebe coisas maravilhosas na sua lei (Sl 119.18). Anseia estar constantemente guardando seus estatutos (v.5). Aos olhos do crente, a lei ainda é boa e verdadeira; é a nossa esperança, nosso consolo e nosso cântico.

Não precisamos ter medo de aterrissar na lei – nunca como meio de merecimento de justificação, mas como a expressão exata de tê-la recebido. Podemos concluir um sermão com alguma coisa que devemos fazer. Não está errado aconselhar os outros à obediência. O legalismo é um problema na igreja, como também o antinomianismo. É claro que não ouço ninguém dizer: “vamos continuar pecando para que a graça abunde” (Rm 6.1). É a pior forma de antinomianismo. Mas de maneira estrita o antinomianismo simplesmente significa “sem lei”, e alguns cristãos dão pouquíssimo lugar à lei na busca da santidade. Um mestre comenta sobre um pastor antinomiano do século XVII na Inglaterra: “Ele cria que a lei serviu para um propósito útil de convencer os homens da necessidade de um Salvador; não obstante, não lhe deu quase nenhum lugar na vida, uma vez que declarou que ‘a graça livre é a mestra das boas obras’.” Enfatizar a graça pura não é o problema. O problema é presumir que as boas obras vão fluir invariavelmente do nada a não ser de uma ênfase diligente do evangelho.

A ironia consiste em colocarmos cada imperativo em ordem para crer no evangelho mais fortemente, transformar o evangelho em outra coisa e a fé naquela coisa que precisamos para ser melhores. Se realmente cremos, a obediência vem junto. Não há necessidade de mandamentos ou esforço. Mas a Bíblia não raciocina desse modo. Não há problema com a palavra “portanto”. Graça, graça, graça, portanto, pare com isto, comece a fazer aquilo, e obedeça aos mandamentos de Deus. As boas obras sempre estarão enraizadas nas boas novas da morte e ressurreição de Cristo, mas eu creio que estamos esperando demais do “fluxo” e não fazemos o suficiente ensinando que a obediência à lei — com um espírito disposto, possível quando operado pelo Espírito Santo — é a devida resposta à graça pura.

Por mais que Lutero ridicularizasse o mau uso da lei, ele não rejeitou o papel positivo da mesma na vida do crente. A Fórmula Luterana da Concordância está absolutamente certa quando diz: “Cremos, ensinamos e confessamos que a pregação da Lei deve ser recomendada com diligência, não apenas ao incrédulo e impenitente, mas também aos verdadeiros crentes, que foram verdadeiramente convertidos, regenerados e justificados pela fé” (Epítome 6.2). Os pregadores devem pregar a lei sem acanhamento. Os pais devem insistir na obediência sem timidez. A lei pode e deve ser recomendada aos verdadeiros crentes — não para condenação, mas para correção e promoção do Cristianismo. As Escrituras indicam e Deus manda para o nosso bem e na graça.

 

 

Autor: Kevin DeYoung

Fonte: Gospel Translations

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.