A Renovação da Criação

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A renovação da criação acontece depois do juízo final. De acordo com a Escritura, o mundo presente não continuará para sempre nem será destruído e substituído por um mundo totalmente novo. Em vez disso, ele será purificado do pecado e recriado, renascido, renovado, totalmente novo. Embora o reino de Deus seja implantado primeiramente de forma espiritual nos corações humanos, a futura bem-aventurança não deve ser espiritualizada. A esperança bíblica, arraigada na encarnação e na ressurreição, é criacional, visível, física e corporal. O novo nascimento dos seres humanos é completado no novo nascimento de toda a criação, a nova Jerusalém, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus. A salvação do reino de Deus, incluindo a comunhão com Deus e a comunhão dos santos, é tanto uma bênção presente quanto uma rica glória consumada no futuro. O reino de Deus veio e está vindo. O alcance de sua misericórdia é amplo. Embora devamos nos abster de um juízo firme a respeito da salvação dos pagãos ou das crianças que morrem na infância, as confissões reformadas são magnânimas em sua estrutura. Embora muitos caiam, em Cristo, a raça humana é salva. O descanso final dos filhos de Deus não deve ser considerado uma inação. Seus filhos continuam sendo seus servos, que, alegremente e de diversas formas, servem a ele noite e dia. O que semeamos na terra é colhido na eternidade; a diversidade não é destruída na eternidade, mas purificada do pecado e tomada útil à comunhão com Deus e com os outros. A Escritura até mesmo ensina graus de glória no reino futuro, proporcionais às obras de cada um. Essa distinção não é merecida pelas boas obras, mas vem p o r meio de uma soberana, livre e graciosa disposição pactuai de Deus – um direito dado aos crentes merecido por Cristo. Deus, assim, coroa sua própria obra para que, nessa diversidade ativa, a glória de seus próprios atributos resplandeça. Todas as criaturas, então, viverão, se moverão e terão seu ser em Deus, que é tudo em todos, que reflete todos os seus atributos no espelho de suas obras e se glorifica nelas.

Depois do juízo final vem a renovação do mundo. Alguns, de fato, juntamente com Tomás de Aquino,1 colocam-na antes do juízo final, mas a opinião comum é que ela acontecerá depois dele e será inaugurada somente depois que os ímpios tiverem sido banidos da terra. Essa ordem, sem dúvida, se harmoniza melhor com a da Sagrada Escritura. No Antigo Testamento, o dia do Senhor é precedido por uma variedade de sinais terríveis e o julgamento sobre as nações acontece em meio a eventos assustadores de diferentes tipos. Porém, a nova

terra, com sua extraordinária fertilidade, só vem à existência quando a vitória sobre os inimigos de Israel tiver sido alcançada e o povo tiver retomado à sua terra e tiver sido restaurado nela. De acordo com o Novo Testamento, o dia do juízo é precedido por muitos sinais, como o escurecimento do sol, da lua e das estrelas, o abalo dos poderes do céu e assim por diante (Mt 24.29). A queima da terra acontece no dia do Senhor (2Pe 3.10) e depois disso acontece a vinda do novo céu e da nova terra, onde habita a justiça (2Pe 3.13). Uma vez que o juízo tenha sido executado, João vê a nova Jerusalém descendo do céu, da parte de Deus (Ap 21.1 s.).

Nessa expectativa da renovação do mundo, a Escritura assume uma posição entre dois extremos. Por um lado, muitos pensadores –  Platão, Aristóteles, Xenofonte, Filo, Maimônides, Averroes, Wolanus, La Peyrère, Edelmann e Czolbe, entre outros – afirmam que este mundo está destinado a continuar em sua presente forma para sempre. Por outro lado, Orígenes, os luteranos, os menonitas, os socinianos, Vorstius, os remonstrantes e vários teólogos reformados, como Beza, Rivetus, Junius, Wollebius e Prideaux creem que o mundo não apenas mudará de forma, mas será destruído em substância e substituído por um mundo totalmente novo.2

 

 

NOTAS:

  1. T. Aquino, Summa theoi, supl. q. 74, art. 7.
  2. C. Vitringa, Doctrina Christiana religionis, 8 vols. (Leiden: Joannis le Mair, 1761-86), IV, 194-200.

 

 

Autor: Herman Bavinck

Trecho extraído da Dogmática Reformada do autor, volume 4, pág 724-725.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.