O Dízimo antes da Lei Mosaica

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A entrega de dízimos é compreendida por muitos cristãos como um princípio eterno, ou seja, um fundamento sólido que sempre existiu, uma verdade que não precisa ser questionada, investigada, mas que deve ser aceita como uma ordem de Deus presente desde a criação do Universo. Afirmam ainda estes que, nos dias atuais, esta entrega significa a obrigatoriedade de se dar dez por cento de tudo que se ganha a Deus, sendo o mesmo representado no ato do recebimento pelas instituições religiosas cristãs, as igrejas.

A falsa premissa do princípio eterno

Uma parcela considerável de cristãos advoga o dizimar como sendo um princípio eterno pelo fato de haver a menção de dízimos antes da promulgação da Lei Mosaica, e de que a história indica que as nações pagãs dizimavam às suas divindades. Contudo:

A tradição não é automaticamente um princípio moral eterno simplesmente porque é muito antiga, muito comum e muito difundida. O fato de que o dízimo era comum no culto pagão muito antes de a Bíblia ser escrita não o torna um princípio moral. Idolatria, adoração de corpos astrológicos, sacrifício de crianças, prostituição no templo, feitiçaria e necromancia são igualmente muito antigas, muito comuns e muito generalizadas nas culturas pagãs. A prática de dar é encontrada na lei natural, mas uma porcentagem exata não é. (KELLY, 2007, p. 10, tradução nossa).

Não se deve conjecturar uma explicação sem base bíblica com o intuito de impor uma doutrina através de um texto bíblico que não a ensina de forma clara. Tal prática contradiz as regras da exegese que sempre devem orientar a busca de respostas na Palavra, como quando surge a dúvida no:

Por que Abraão deu o dízimo a Melquisedeque? Alguns dizem que ele estava seguindo um princípio eterno. Isso não poderia ser verdade, porque o próprio Deus deu instruções específicas que são diferentes em Números 31. Foi outra situação envolvendo os despojos da batalha. O sumo sacerdote tem 1/500 da metade dos despojos (um décimo de um por cento do total) e os levitas tem 1/50 da metade dos despojos (um por cento do total). (NARRAMORE, 2004, p. 26, tradução nossa).

O dízimo dado por Abraão é o primeiro evento citado quando se defende a tese de que o dízimo é um princípio eterno. É inadmissível crer que basta algo ter sido feito por Abraão para que aquela prática se constitua em um princípio eterno. Ele teve, por falta de fé em Deus, uma relação extraconjugal, gerando descendência com uma serva de sua esposa. Em outra ocasião, ele mandou Sara mentir por medo de ser morto. Nada disso deveria ter sido praticado. Tais fatos são provas inequívocas de que um ato não deve ser compreendido como princípio eterno simplesmente porque foi realizado por Abraão. Dizimar simplesmente porque ele dizimou também não possui qualquer fundamento bíblico.

A linha de raciocínio de que o dízimo é válido apenas por ter sido praticado de determinada forma antes da Lei não encontra subsídios quando analisada de forma detalhada no âmbito de todo o Antigo Testamento, pois:

As pessoas que ensinam que devemos dar o dízimo ensinam sobre esta base. Uma vez que o dízimo era antes de Moisés, uma vez que Abraão dizimou e Jacó dizimou antes da Lei Mosaica, o dízimo era antes de Moisés, era antes da Lei; ele é, portanto, para ser após a Lei. É um princípio universal, portanto, uma vez que o dízimo veio primeiro, a Lei veio no meio, e o que é universal continua depois. Assim, o dízimo é contínuo. O problema com isso é se você vai aceitar qualquer coisa de antes da Lei como norma para depois da Lei, o sábado também foi antes da Lei, certo? Então, nós temos que parar de nos encontrarmos aos domingos. Em segundo lugar, o sistema sacrificial foi iniciado com o jardim e nós vamos ter que voltar para matar animais. E eu não estou realmente certo de que esta é a ideia. […] Agora, a Bíblia não instituiu o dízimo em Gênesis. Não há nenhuma declaração de Deus em relação ao dízimo neste momento. Ninguém disse a Abraão para dar um décimo. Ninguém disse a Jacó para dar um décimo. Certamente Deus não disse. Não há nenhuma lei universal, como tal, declarada nas Escrituras. (MACARTHUR, 1975a, tradução nossa).

Croteau (2010, p. 99) contradiz este ensino de se exigir o dízimo por ser anterior à Lei:

Portanto, a existência de uma prática anterior à promulgação da Lei mosaica, bem como posterior a ela, não prova necessariamente que ela deveria continuar no período da nova aliança. (tradução nossa).

Se houvesse esta obrigação ao cristão gentio, para que o mesmo observasse estas práticas, certamente os escritos da Nova Aliança conteriam instruções específicas para tal. Jerry Horner (1972, p. 177 apud CROTEAU, 2010, p. 99), analisa igualmente este fato:

O dízimo era uma prática pré-hebraica. Entretanto, esse fato em nada sugere que o dízimo é uma lei universal, eterna, possuída intuitivamente por todos os homens como resultado do projeto de Deus. A autoridade cristã e guia em todos os assuntos espirituais é o Novo Testamento, não a história antiga. (tradução nossa).

O curioso em relação à ideia de que o dizimar é um princípio eterno é a total ausência da menção do ato de dizimar no livro de Jó, conforme PARKER (2003, p. 20) salienta:

Jó não menciona uma única vez o dízimo, mas ele fala sobre muitas outras boas obras que ele fez, incluindo dar aos pobres, alimentar os órfãos e vestir os nus (Jó 31:16-20). Jó também é descrito por Deus como um homem justo que teme a Deus e evita o mal (Jó 1:8). (tradução nossa).

Nos dias de hoje, quando alguém passa por dificuldade financeira, logo é questionado se tem sido fiel nos dízimos. Se dizimar fosse um princípio eterno, com certeza os amigos de Jó o teriam questionado se porventura ele fora infiel nos dízimos e ofertas, ou pelo menos Jó teria declarado sua fidelidade na defesa que apresentou perante Deus: “Agora eu lhe pergunto: se Jó fosse verdadeiramente um homem justo, e dizimar era um princípio universal antes da lei, ele não o teria mencionado pelo menos quando fez a defesa de si mesmo a Deus, no capítulo 31?” (PARKER, 2003, p. 21, tradução nossa).

A Palavra de Deus não oferece suporte à ideia do princípio eterno, contudo ela nos apresenta um tipo de dízimo de forma concreta na vida de Abraão.

O dízimo de Abraão

Este dízimo é mencionado no Antigo Testamento, quando Abraão ainda era chamado de Abrão:

“Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo”. (Gn 14:18-20) (ARA).

Bem como no Novo Testamento: “Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores despojos”. Hb 7:4 (ARA).

O primeiro dízimo mencionado na Bíblia é este que Abraão entregou a Melquisedeque. Em primeiro lugar, é necessário atentar para o fato de que Abraão deu o dízimo, dez por cento aqui, dos despojos de guerra, como explica Hebreus 7:4, e não de seu patrimônio ou da renda de seu gado e lavouras como exigia a Lei Mosaica e nem em dinheiro como alguns defendem que hoje seja. Não se sabe qual o motivo de Abraão haver entregado esse dízimo. Alguns historiadores defendem a tese de que ele estava apenas cumprindo uma lei canaanita, pois diversas civilizações tinham leis sobre dádivas aos sacerdotes, apesar de não ser explicitado nas Escrituras.

Esta entrega de Abraão foi voluntária, provavelmente de acordo com um percentual da cultura local de Salém e, na Lei Mosaica, não há nenhuma menção de que este dízimo de Abraão tivesse qualquer relação com o dízimo da Lei e nem o inspirou, pois, inclusive, o dízimo de despojo de guerra na Lei Mosaica segue um percentual totalmente diferente deste, conforme estudos de Narramore (2004).

Abraão não entregou nada de seu patrimônio pessoal nem do fruto de seu trabalho honesto, mas de despojos de guerra, de um patrimônio alheio, um despojo de guerra “que poderia até mesmo ter incluído pessoas” (WEBB; WEBB MITCHELL, 1998, p. 163, tradução nossa).

Não existe nenhuma menção de que era costume seu entregar dízimos a ninguém; não existe nenhuma menção que ele tenha dado algum outro dízimo durante sua vida e nem a menção que ele tenha tido qualquer outro contato com Melquisedeque antes ou depois daquele fato, como bem explica este autor:

Abraão pagou a Melquisedeque o dízimo dos despojos de uma vitória militar. Neste caso, também, Deus não nos revelou o motivo e não falou se era ou não o costume de Abraão dar o dízimo de tudo o que recebia. Se houve alguma lei atrás disso, exigindo que Abraão oferecesse o dízimo, as Escrituras não a relatam. As pessoas que alegam algum tipo de lei geral do dízimo, baseadas nos textos citados, estão ultrapassando a Palavra do Senhor. (ROSA, 2009, p. 32-33)

São muitos os questionamentos necessários a real compreensão do dízimo de Abraão:

Agora não se diz que Deus lhe disse para fazer isso. Novamente, não é ordenado que ele desse um décimo. E eu acho que é mais interessante saber que não significa necessariamente que ele deu o dízimo de tudo que possuía. Ele deu um décimo de algo que ele tomou nesta batalha. Outro pensamento, Abraão viveu 160 anos. Em nenhum momento nas Escrituras é registrado, antes ou depois deste incidente, que ele alguma outra vez deu um décimo. Esta é a única vez que ele deu um décimo que conhecemos no registro de 160 anos de vida na terra. Agora isso indica alguma coisa para nós. E não foi um décimo de sua renda e não era um décimo anual. Era simplesmente o que ele escolheu fazer. (MACARTHUR, 1975a, tradução nossa).

Murray (2000, p. 69, apud Croteau, 2010, p. 113, grifo do autor) analisa de forma precisa este dízimo de Abraão:

De fato, se o dízimo de Abrão é qualquer tipo de modelo para os cristãos, ele fornece suporte apenas para dízimos ocasionais de fontes incomuns de renda. (tradução nossa).

Após analisar o dízimo de Abraão, percebe-se que este dízimo em nada condiz com a natureza do dízimo atualmente exigido por denominações cristãs.

À luz do que veremos neste texto, este é um caso isolado do ato de dizimar que lança pouca luz ao modelo no qual o dízimo tem sido enquadrado nos dias de hoje. (PAGANELLI, 2010, p. 18).

O dízimo de Abraão está bem definido nesta conclusão sobre este assunto:

Portanto, a entrega de um dízimo por Abraão está diretamente conectada com o seu voto a Deus de que ele não iria ficar com nenhum dos despojos, e ele a fez nos moldes da cultura local. Não existe evidência de que Abraão foi ordenado a entregar o dízimo, nem há evidência de que Abraão dizimou consistentemente; em vez disso, ele deu voluntariamente e nunca é descrito nas Escrituras que ele deu o dízimo do aumento de suas posses. (CROTEAU, 2010, p. 90, tradução nossa).

 

Para mais detalhes sobre este assunto, leia O Dízimo.

 

Autor: João Bosco Costa Vieira

Trecho extraído da Monografia do autor, apresentada como exigência do curso de Bacharelado em Teologia, para a obtenção do titulo de Graduação.

Fontehttps://pt.scribd.com/doc/96753612/DIZIMO-Joao-Bosco-Costa-Vieira

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