O batismo do Espírito é um fato ou um sentimento?

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A doutrina carismática da subsequência conduz a outros erros. A crença no batismo do Espírito como uma segunda obra da graça tornou-se um das doutrinas norteadoras do movimento carismático. Como já vimos, os escritores e mestres carismáticos concordam, de forma geral, que “o batismo”, evidenciado por falar em línguas, é o passo crucial posterior à salvação.

No entanto, se nos volvermos às epístolas, acharemos um quadro diferente. Por exemplo: 1 Coríntios 12.13 esclarece que o batismo do Espírito é, na realidade, parte da experiência de salvação de todo crente. Paulo escreveu: “Em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. Essa passagem não se refere ao batismo nas águas. Paulo não falava sobre a ordenança do batismo nas águas, por mais importante que esta seja em outro contexto. Paulo se referia à presença do Espírito de Deus no crente. Ele usou o vocábulo baptizō, o mesmo termo grego usado em Romanos 6.3-4 e Gálatas 3.27 para referir-se à imersão espiritual.

O batismo do Espírito leva o crente à união vital com Cristo. Ser batizado com o Espírito Santo significa que Cristo nos imerge no Espírito, concedendo-nos, por meio desse ato, um princípio vital comum. Esse batismo espiritual é aquilo que nos une a todos os outros crentes em Cristo e nos torna parte de seu corpo. O batismo com o Espírito unifica todos os crentes. Isto é um fato, e não um sentimento.

Infelizmente, a verdade tremenda que há nesse versículo tem sido entendida de modo errado. Nesse versículo, Paulo mesclou dois pensamentos vitais. Um deles é que a igreja, o corpo de Cristo, é formada pelo batismo do Espírito; o outro é que a vida do corpo é mantida quando todos bebemos do único Espírito. Os conceitos inter-relacionados da imersão pelo Espírito e do beber do Espírito retratam o relacionamento todo-suficiente que temos com o Espírito de Deus, que une todo crente a Cristo e ao resto do corpo.

1 Coríntios 12.13 começa com a expressão: “Em um só Espírito”. É exatamente nesse ponto que se inicia a confusão dos carismáticos. O texto grego usa a preposição en. Essa preposição pode ser traduzida por “junto a”, “por” ou “com” — e alguns eruditos a traduzem por “em”. As preposições gregas têm traduções diferentes, dependendo da terminação do caso das palavras que vêm após as preposições. A tradução exata de 1 Coríntios 12.13, e mais coerente no contexto do Novo Testamento, usaria por ou com. Em outras palavras, na conversão, somos batizados pelo Espírito ou com Ele.

Isso não deve levar ninguém a concluir que o Espírito seja o agente do batismo. Em nenhuma passagem, a Bíblia afirma que o Espírito Santo é Aquele que batiza. João Batista disse aos fariseus e saduceus que os batizaria com água e que Alguém, cuja vinda seria posterior, “vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” (Mt 3.11-12).

Uma interpretação carismática desse versículo considera o “fogo” como uma referência às línguas de fogo vistas no dia de Pentecostes. No entanto, com base no versículo 12, é óbvio que João se referia ao fogo do juízo, o fogo inextinguível do inferno. É evidente que as línguas de fogo do Pentecostes não podem ser comparadas com o fogo inextinguível que queima a palha. Temos aqui uma referência clara ao fogo do juízo; e seu agente não é o Espírito Santo, e sim Jesus (v. Jo 5.22). Portanto, o que João Batista estava dizendo, na verdade, era que existem apenas dois tipos de pessoas neste mundo: os que serão batizados com o Espírito Santo e os que serão batizados com o fogo inextinguível do inferno.

Marcos 1.7 e 8 e Lucas 3.16 contêm expressões semelhantes. João 1.33 afirma a respeito de Cristo: “Esse é o que batiza com o Espírito Santo”. Em todas essas passagens, Jesus é quem realiza o batismo.

No sermão do Dia de Pentecostes, Pedro declarou a respeito de Cristo: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (At 2.33). Novamente, Cristo é apontado como Aquele que batiza, que “derrama” o Espírito, nos acontecimentos miraculosos do Pentecostes.

Em Romanos 8.9, Paulo escreveu: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele”. Se retirarmos o conceito de que cada crente é batizado e habitado pelo Espírito Santo, destruiremos a doutrina da unidade do corpo. Por quê? Porque existem algumas pessoas que não se encontram “em”. Onde elas estão? Alguém pode ser salvo e não ser parte do corpo de Cristo? É possível ser cristão e não ser parte de Cristo? É claro que não. O ponto estabelecido por Paulo em 1 Coríntios 12.12-13 é que todos os cristãos são batizados com um Espírito em um só corpo. Todos nós estamos em um corpo, compartilhando da mesma fonte vital, habitados pelo único Cristo. O ponto de vista carismático sobre o batismo do Espírito Santo redefine a salvação. De acordo com esse ponto de vista, a salvação não nos outorga todas as coisas necessárias para a vitória espiritual. Ainda precisamos de alguma coisa, de algo mais. Embora, às vezes, os carismáticos admitam que todo crente possui o Espírito Santo em grau limitado, creem que o poder pleno do Espírito é negado a quem não passou pelo batismo do Espírito, com a evidência do falar em línguas. Essa é a perspectiva de Larry Christenson, conhecido carismático de origem luterana.15 No entanto, seu ponto de vista parece ignorar o significado claro de 1 Coríntios 12.13. Christenson declarou:

Além da conversão, além da segurança da salvação, além da habitação do Espírito Santo, existe um batismo com o Espírito Santo. Talvez esse batismo não faça sentido ao entendimento humano, assim como não fazia sentido Jesus ser batizado por João… Não somos chamados a entendê-lo, justificá-lo ou explicá-lo, e sim, apenas, a nos apropriarmos dele, com obediência humilde e fé expectante.16

Christenson estava aceitando algo sem sentido, em vez de admitir a verdade contida em 1 Coríntios 12.13, que, evidentemente, faz senti- do? Ao ser batizado, Jesus identificou-se com os israelitas arrependidos que procuravam pelo Messias. Christenson continuou afirmando:

Às vezes, o batismo com o Espírito Santo ocorre de modo espontâneo; às vezes, por meio de oração e imposição de mãos. Outras vezes, ele aconteceu após o batismo ou antes dele. Algumas vezes, ele ocorre quase simultaneamente à conversão ou após um intervalo de tempo… No entanto, existe uma constante muito importante na Escritura: nunca presumimos que alguém foi batizado com o Espírito Santo. Quando alguém é batizado com o Espírito Santo, ele sabe disso. É uma experiência definida.17

Ao fazer essas afirmações, Christenson tentou fundamentar a verdade na experiência. Como vimos, o batismo com o Espírito Santo é um fato espiritual, e não uma experiência física relacionada a algum sentimento.

 

 

NOTAS:

  1. Christenson, Larry. Speaking in tongues. Minneapolis: Dimension, 1968. p. 37.
  2. Ibid.
  3. Ibid. p. 38.

 

Autor: John MacArthur

Trecho extraído do livro Caos Carismático, pág 250-254. Editora: Fiel

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.