Um Perigo à Santidade

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1 Pedro 1.14 – Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância.

Pedro tece uma advertência. Uma vez que foram eleitos para a salvação em Cristo Jesus por Deus Pai (vs.2), regenerados pelo Espírito Santo para a esperança da salvação futura e para uma vida em santidade (vs.3, 13), os cristãos, todavia, não devem retornar ao estilo de vida que tinham no passado, quando não conheciam o evangelho, o qual era caracterizado pela prática do pecado. Sendo assim, Pedro declara o que estes cristãos “devem fazer” (imperativo positivo). Vejamos, então:

1) Os cristãos devem ser obedientes

A expressão filhos da obediência “é um linguajar semita (hebraico). Significa algo como “pessoas que são cunhadas integralmente pela obediência”8 (veja os exemplos similares em Lc 10.6; Ef 5.8; 2Ts 2.3).

Geralmente, os filhos obedientes “são os filhos de uma pessoa que faleceu e deixou um testamento para que recebam a herança. Os cristãos são chamados de filhos, não por nascimento, mas por adoção. Entre os gregos e romanos do século 1, a prática da adoção era bem comum. Um filho adotivo desfrutava dos mesmos privilégios que o filho natural, até mesmo a ponto de dividir a herança”. Destarte, Pedro chama os seus destinatários e todos os cristãos de filhos da obediência ou de “filhos obedientes”, a fim de esboçar o conceito de santidade a eles. Portanto, ser filho da obediência é viver uma vida que converge em obediência, que pode ser definida simplesmente como fazer a vontade de Deus (1.2).

Após delinear o que os cristãos devem fazer, Pedro, agora, assevera o que eles “não devem fazer” (imperativo negativo). Senão vejamos:

2) Os cristãos não devem se amoldar novamente aos desejos que tinham no passado

Embora os destinatários históricos de Pedro fossem uma mescla de Judeus e gentios (1.3, 12, 14, 18, 22-23, 25; 2.9-10; 4.3), o apóstolo aqui relembra especificamente o estilo de vida dos cristãos gentios no passado, antes da conversão, para avisá-los do perigo de retornar a este velho estilo de vida que Deus não se agrada. Diferente dos judeus, que conheciam a lei moral, estes gentios eram pagãos e ignorantes quanto ao conhecimento da vontade de Deus revelada nas Escrituras. Por essa razão, tinham o seu modus vivendi (modo de viver) conduzido pelas mais variadas paixões9 ou “prazeres pecaminosos”.

No grego, a expressão não vos amoldeis σνσχηματιςόμενοι (syschematizomenoi) – literalmente “não vos amoldando” –, pode ser traduzida como “não se deixem conformar”10 ou, trivialmente, como uma exortação a “não entrar no esquema”. Essa expressão “significava assumir a forma de alguma coisa, a partir de um molde no qual se era encaixado”.11 Tendo sido libertos da escravidão do pecado (Ef 2.1-3), Pedro alerta estes cristãos gentios a não entrarem novamente no antigo esquema do mundo de uma vida regida pelos prazeres carnais (veja, como exemplo, Êx 20.13-17).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Os cristãos foram salvos para a obediência, por isso os salvos são filhos obedientes. Como os filhos herdam a natureza dos pais, precisamos viver em santidade, pois nosso Pai é santo.

Como filhos obedientes, não podemos retroceder e nem cair nas mesmas práticas indecentes que marcavam nossa conduta quando vivíamos prisioneiros do pecado. Naquele tempo, os desejos e as paixões carnais constituíam o esquema determinante da nossa vida e a nossa norma de conduta. É incoerente, incompatível e inconcebível um salvo amoldar-se às paixões de sua velha vida12 (veja Ef 4.22-25, 28-29, 31). Que não sigamos o mau exemplo de homens ímpios e desobedientes; pelo contrário, sejamos corajosos o bastante para rejeitar o padrão de vida que eles gostariam de impor-nos por seu exemplo e influência.13

 

 

NOTAS:

  1. Uwe Holmer. Comentário Esperança. 1 Pedro, pág 21.
  2. σνσχηματιςόμενοι (me syschematizomenoi) é um particípio presente passivo, que influenciado pelo verbo principal “sede” γενήθητε, no versículo 15, o qual é um imperativo aoristo ativo, é traduzido como um imperativo.
  3. Ênio Mueller. 1 Pedro – Introdução e Comentário, pág 101.
  4. A palavra grega traduzida pela ARA por “paixões” é έπθυμία (epthymia), que é comumente descrita como “um anseio por algo que é proibido”. Denota um “forte desejo pela luxúria”, podendo ser traduzida como “concupiscências” ARC, ou, literalmente, como “desejos”, conforme a NVI e a Almeida Século 21 traduziram-na. Pessoalmente, para melhor entendimento, prefiro a tradução da BJC em virtude do acréscimo do adjetivo “mau”, traduzida assim como “maus desejos”.
  1. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 48-49.
  2. Russel Norman Champlin. O Novo Testamento Interpretado – Vol 6. 1 Pedro, pág 104.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Fonte: Trecho extraído do Comentário Expositivo de 1 Pedro do autor

Divulgação: Reformados 21

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.