A necessidade de abandonar o pecado

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Texto base: 1 Pedro 2.1

Pedro tece o último imperativo negativo (exortação) relacionado ao propósito da salvação. Dentre os aspectos supramencionados, tais como “uma vida em santidade”, “uma vida com reverência” e “uma vida em amor”, o apóstolo agora se refere especificamente a questão da santidade. Pedro admoesta seus primeiros destinatários e a todos os cristãos a se despojarem de atitudes negativas. Ele lista cinco tipos de pecados que abarcam os relacionamentos interpessoais que devem ser deixados. A conduta diária dos cristãos deve evidenciar a nova vida em Cristo Jesus.

2.1 Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências.

No grego, a palavra despojar Αποθέμενοι (apothemenoi), é um particípio que “compartilha da força imperativa do verbo principal”,2 e significa “deixar de lado”; abandonar algo”. Esta palavra traz a ideia de “despir-se” de uma roupa. “A metáfora tencionada, provavelmente, é a de tirar algo desnecessário, ou, mais particularmente ainda, tirar vestes sujas, que se tornaram repelentes para a pessoa, devido a sua imundícia e mau cheiro”.3 Portanto, uma vez que foram eleitos, regenerados e resgatados de uma vida norteada pelo pecado (1.1,3,14, 18-21, 23-25), os cristãos devem renunciar uma pequena lista de cinco vícios apresentada por Pedro. Vejamos, pois:

1) Os cristãos devem rejeitar as roupas da maldade

A conjunção portanto está gramaticalmente conectada à seção anterior (1.22-25), demonstrando, assim, continuidade do tema já esboçado. A palavra toda abrange vários tipos de maldade. Por sua vez, a palavra maldade, no grego κακίαν (kakia), equivale a “todos os pecados do mundo ímpio” (Rm 1.29-31; 1Co 5.8; 14.20; Ef 4.31; Cl 3.8; Tt 3.3); enfatiza o desejo de causar mal ao próximo sem motivo algum ou por vingança. Matthew Henry expande:

[…] Em um sentido mais restrito, a maldade é a raiva que está estabelecida no coração dos tolos, raiva enraizada e enorme, represada até que leva o homem a planejar o mal ou se alegrar com qualquer mal que sobrevenha a outra pessoa.4

O restante dos vícios pecaminosos traçados nesta lista são expressões resultantes dessa maldade. “Se permitirmos que o mal se expresse em nosso relacionamento com os outros, o amor ao próximo desaparece”.5

2) Os cristãos devem rejeitar as roupas do dolo

A palavra todo – utilizada por Pedro com a palavra anterior maldade – embora apareça no grego, na ARC, na Almeida Século 21 e na NVI, é omitida aqui pela a ARA. Inclui todo o tipo de dolo. Por sua vez, a palavra dolo envolve “falsidade”, “traição”; “representa aquele espírito traiçoeiro que não hesita em usar meios questionáveis para sobressair-se ou obter vantagens”.6 Assim, dolo seria melhor traduzido por engano (ARC, Almeida Século 21, NVI). Este substantivo era usado para a ideia de “isca de pesca”. Ilustra a maneira de enganar os outros através de armadilhas (veja e compare com 2.22; 3.10; Mt 26.4; Mc 7.21-23; 14.1; Jo 1.47; At 13.10; Rm 1.29; 2Co 12.16; 1Ts 2.3). O enganador assume a aparência de verdadeiro para que o incauto seja enganado. Se a maldade é uma atitude intencional e explícita de fazer o mal ao próximo, o engano é uma atitude implícita de fazer o mal ao próximo, de maneira oculta.

3) Os cristãos devem rejeitar as roupas da hipocrisia

No grego, a palavra hipocrisias ύποκρίσεις (hypokrisis), significa “fingimento”. Esta palavra remonta aos atores que representam por detrás de máscaras uma peça de teatro. A ARC traduziu hipocrisias por fingimentos, o que facilita o entendimento. Portanto, hipocrisia é dissimulação! “É assumir uma falsa aparência de religião; um propósito perverso sob a aparência de piedade (Mt 23.28; Gl 2.13)”.7 Um hipócrita é um ator que coloca uma máscara para esconder a sua verdadeira identidade, fingindo aquilo não é. Jesus condenou severamente a hipocrisia dos líderes religiosos de sua época (Mt 15.7-9). Aqueles que se destacam na posição de liderança na igreja, como pastores, professores e pregadores, são vulneráveis à hipocrisia. Uwe Holmer complementa:

Existem muitas tentações para a hipocrisia. Há o risco de realizar, por exemplo, o jejum, a oração e as oferendas não por amor a Deus, mas por amor ao ser humano; não de coração, mas para usufruir uma imagem favorável perante as pessoas. […] Tudo o que fizermos para parecer devotos perante as pessoas é hipocrisia. Em algumas esferas cristãs até mesmo se espera uma aparência devota. Dessa maneira, o ser humano é seduzido e impelido ao fingimento. Igualmente é hipocrisia quando um ser humano alimenta secretamente um pensamento pecaminoso e por fora ainda preserva as aparências devotas.8

4) Os cristãos devem rejeitar as roupas da inveja

A palavra grega Φθόνους (fthonos), traduzida por invejas, mostra o desejo odioso de possuir algo que pertence a outra pessoa (Mt 27.18; Mc 15.10; Rm 1.29; Gl 5.21; Fp 1.15; 1Ts 2.3; 1Tm 6.4; Tt 3.3). É o desejo de querer ocupar o lugar do próximo (Mc 10.35-41). Corresponde ao desejo de ser o que o outro é.

5) Os cristãos devem rejeitar as roupas da maledicência

Mais uma vez, Pedro utiliza a palavra toda para descrever vários tipos de maledicência. No grego, a palavra maledicências κατακρίσεις (katalalia), significa “difamação”, “calúnia” (vs.12; 3.16; Rm 1.30; 2Co 12.20; Tg 4.11). Enfatiza os pecados da língua; denota “falar mal das pessoas, quase sempre como fruto da inveja instalada no coração e geralmente quando a vítima não está presente”.9 Maledicência traz ideia de um falatório maldoso a respeito da vida alheia. Não é apenas sentir e desejar o mal contra o próximo, mas afligi-lo e atormentá-lo com o azorrague da língua.10 Não há pecado em que os cristãos são mais inclinados do que o pecado da língua.

APLICAÇÃO PRÁTICA

Para que possam crescer espiritualmente (vs.2), os cristãos não devem lutar, mas evitar a prática destes cinco vícios pecaminosos enumerados. Quando desejamos crescer espiritualmente, nos despimos das roupas da maldade, do dolo, da hipocrisia, da inveja e da maledicência. Assim desfrutaremos da alegria da nova vida em Cristo.

 

 

NOTAS:

  1. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo Testamento Grego, pág 556.
  2. Russel Norman Champlin. O Novo Testamento Interpretado – Vol 6. 1 Pedro, pág 112.
  3. Matthew Henry. Comentário Bíblico do Novo Testamento – Atos a Apocalipse, pág 865.
  4. Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 110.
  5. Ênio Mueller. 1 Pedro – Introdução e Comentário, pág 120.
  6. Albert Barnes. Comentário Expositivo online de 1 Pedro, disponível em: http://www.studylight.org/commentaries/bnb/view.cgi?bk=59&ch=2. Acessado em 27/06/2014.
  7. Uwe Holmer. Comentário Esperança. 1 Pedro, pág 29.
  8. William barclay. 1 Pedro, pág 68.
  9. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 64.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Fonte: Trecho extraído do Comentário Expositivo de 1 Pedro do autor

Divulgação: Reformados 21

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.