Quem são “os mais pequeninos?”

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Mateus 25.31-46 é uma belíssima declaração da preocupação de Jesus pelos fracos e vulneráveis. É também uma exortação desafiante para os cristãos demonstrarem a mesma preocupação.

Contudo, o que Jesus quis dizer exatamente com “os mais pequeninos?”

É geralmente admitido que “os mais pequeninos” são os pobres e oprimidos da sociedade, e que, por implicação, Jesus quer que apoiemos qualquer programa (igreja, governo ou outro) que tenha como objetivo ajudar as pessoas necessitadas. Embora seja benéfico cuidar dos que estão fora da igreja (Gl 6.10), devemos ter o cuidado para não fazer com que Mateus 25 diga mais do que realmente quer dizer. Como o governo gasta nosso dinheiro do imposto é uma pergunta que os cristãos sinceros podem discordar sobre. Não cabe a mim, como pastor, tecer declarações definitivas sobre os orçamentos federais propostos.

O que é mais importante para mim é que lidamos com a Bíblia cuidadosamente, tanto no púlpito como em nossos pronunciamentos públicos. É por isso que devemos tentar entender “os mais pequeninos” em seu contexto adequado. O que Jesus diz em Mateus 25 não é “conservador” ou “liberal”; é cristão e tem tudo a ver com o modo como tratamos os demais cristãos.

“Os mais pequeninos” referem-se a outros crentes em necessidade – especificamente pregadores itinerantes, cristãos dependentes de outros cristãos para a hospitalidade e apoio. Essa é a minha resposta para o título desta postagem no blog.

Permitam que eu apresente quatro pontos que corroboram esta interpretação.

Pontos de apoio

  1. No versículo 45, Jesus utiliza a frase “a um destes mais pequeninos”; entretanto, no versículo 40, ele utiliza uma frase mais exata: “a um destes meus irmãos”. As duas frases se referem ao mesmo grupo. Portanto, a frase mais completa no versículo 40 deve ser usada para explicar a frase mais sintética no versículo 45. Qualquer que seja “os mais pequeninos” trata-se dos “pequeninos” que são irmãos.

A referência a “meus irmãos” não pode ser uma referência a toda a humanidade que sofre. “Irmão” nunca é usado dessa maneira no Novo Testamento; a palavra sempre se refere a um irmão físico, de sangue, ou à família espiritual de Deus. Com relação à primeira categoria, Jesus claramente não está requerendo de nós que apenas cuidemos de seu irmão Tiago. Ele deve estar falando da segunda categoria, insistindo que tudo o que fazemos para os crentes necessitados estamos fazendo por ele.

Esta interpretação é confirmada quando examinamos o último momento antes do capítulo 25, onde Jesus fala de “irmãos”. Em Mateus 23, Jesus diz às multidões e aos seus discípulos (v.1) que eles são todos irmãos (v.8). O grupo de “irmãos” é restringido nos versículos seguintes para aqueles que têm um Pai, que está no céu (v. 9), e tem um “guia” – Cristo (v. 10). “Irmão” é uma categoria mais limitada do que todas as pessoas que sofrem ou todas as pessoas em todos os lugares. Os que pertencem a Cristo e fazem a sua vontade são seus irmãos (Mc 3.35).

  1. De igual modo, faz mais sentido entender que Jesus está comparando o serviço dos colegas crentes com o serviço a ele, ao invés de ouvi-lo dizer: “Você deve ver minha imagem nos rostos dos pobres”. Decerto, Jesus foi um “homem sofredor” para que outros sofredores possam se identificar com ele de uma maneira especial. Todavia, no restante do Novo Testamento não é o pobre, mas o corpo de Cristo (a igreja) que o representa na terra. Cristo “em nós” é a promessa do evangelho para aqueles que acreditam, e não uma realidade assumida para aqueles que vivem em uma determinada condição econômica.

Mateus 25 equivale a cuidar da família espiritual de Jesus com o zelo de Jesus. A passagem não oferece a mensagem genérica: “Ao cuidar dos pobres, vocês estarão cuidando de mim”. Isso não significa que Deus é indiferente às preocupações dos pobres ou que deveríamos ser. Significa, simplesmente, que “os mais pequeninos” não é uma afirmação geral sobre privação física.

  1. A palavra “mais” é o superlativo de mikroi (pequenos), e mikroi sempre se refere aos discípulos no evangelho de Mateus (10.42; 18.6, 10, 14; veja, também, 11.11).
  1. A semelhança entre Mateus 10 e 25 não é acidental. Em Mateus 10.40-42, Jesus diz aos discípulos: “Quem vos recebe a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta, no caráter de profeta, receberá o galardão de profeta; quem recebe um justo, no caráter de justo, receberá o galardão de justo. E quem der a beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão”. O contexto para estas observações é Jesus enviando seus discípulos para ministrarem nas cidades de Israel (v. 5-15).

Os discípulos não levariam bolsa ou vara para a jornada. Em vez disso, eles deveriam procurar uma casa “digna” que os acolhesse. O sucesso deles como pregadores dependeria da bondade dos outros. Diante da perseguição e de um mundo hostil (10.16-39), Jesus exorta seus discípulos a cuidarem do ministro itinerante, não importa o custo. Os discípulos dependeriam da boa vontade dos outros para recebê-los, alimentá-los e apoiá-los em seu ministério itinerante. Assim, Jesus explica que mostrar o amor desta maneira a seus embaixadores é realmente mostrar amor a ele.

Um dos primeiros documentos pós-cânon, o Didaquê, demonstra que cuidar dos ministros itinerantes era uma questão urgente nos primeiros séculos da história da igreja. O Didaquê – essencialmente uma constituição da igreja primitiva – contém 15 capítulos breves, três dos quais tratam do protocolo de acolhimento de pregadores itinerantes, apóstolos e profetas. Alguns ministros chamados, o documento conclui, são trapaceiros procurando um folheto. Mas, quanto ao verdadeiro mestre, “acolhe-o como faria o Senhor” (11.2). Essa era uma questão urgente na igreja primitiva e no cerne da preocupação de Jesus em Mateus 10 e 25.

Conclusão

Mateus 25 é sobre a justiça social no sentido de que trata de cuidar dos necessitados. Porém os necessitados em vista são colegas cristãos, especialmente aqueles que dependem de nossa hospitalidade e generosidade para o seu ministério. “Os mais pequeninos” não é uma declaração geral sobre a responsabilidade da igreja em atender as necessidades de todos os pobres, muito menos uma declaração definitiva sobre os orçamentos federais.

Reitero, isso não é um pretexto para ser indiferente em relação aos pobres ou alheios em prejudicar as pessoas. Os cristãos podem argumentar para qualquer número de programas baseados em outros textos e outros princípios. Mas, como ponto exegético sobre Mateus 25, devemos tentar o nosso melhor para constatar o que o texto realmente quer dizer. E, neste caso, Jesus diz que nós somos um grande problema se estivermos demasiadamente envergonhados, preguiçosos ou covardes demais para apoiar os cristãos que dependem da nossa ajuda e sofrem pela causa do evangelho.

 

 

Autor: Kevin DeYoung

Tradução: Leonardo Dâmaso

Fonte: The Gospel Coalition

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.