As Ramificações da Depravação Humana (Parte 2)

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Essa dureza de coração a que se fez referência no encerramento do nosso último capítulo é a perversidade e obstinação da natureza do homem caído, o que faz com que ele resolva continuar no pecado, sem se importar com as consequências do mesmo. A dureza de coração faz com que ele aborreça ser repreendido pela sua própria loucura, e que se recuse a abandona-la, não importa quais métodos sejam ordenados e usados para isso. O profeta fez menção a isso em seus dias, para se referir àqueles que haviam sido advertidos ​​por juízos violentos, e estavam naquele tempo sob as repreensões mais solenes da providência, Deus tinha a dizer sobre eles: “Não me querem dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração” (Ezequiel 3:7). Assim também o Senhor Jesus se queixou: “Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes” (Mateus 11:17). As súplicas mais comoventes e postulações cativantes não moverão o não-regenerado a aderir ao que é absolutamente necessário para sua paz presente e felicidade final. “São como a víbora surda, que tapa os ouvidos, para não ouvir a voz dos encantadores, do encantador sábio em encantamentos” (Salmo 58:4-5; e cf. Atos 8:57).

Os corações dos regenerados são flexíveis e maleáveis, facilmente dobrados à vontade de Deus, mas os corações dos ímpios são tão apegados aos seus desejos a ponto de serem inatingíveis por qualquer apelo. Há uma disposição tão firme contra as coisas celestiais que permanecem indiferentes às ameaças mais alarmantes e trovões. Eles nem são convencidos pelos argumentos mais convincentes nem vencidos pelos incentivos mais tentadores. Eles são tão viciados na autossatisfação que eles não podem ser persuadidos a tomar o jugo de Cristo sobre eles. Em Zacarias 7:11-12, é dito: “Eles, porém, não quiseram escutar, e deram-me o ombro rebelde, e ensurdeceram os seus ouvidos, para que não ouvissem. Sim, fizeram os seus corações como pedra de diamante, para que não ouvissem a lei, nem as palavras que o Senhor dos Exércitos enviara pelo seu Espírito por intermédio dos primeiros profetas; daí veio a grande ira do Senhor dos Exércitos”. Eles são menos suscetíveis a serem forjados pelo pregador para receber qualquer impressão de santidade do que o granito é para ser gravado pela ferramenta do artífice. Eles desprezam ser controlados e se recusam a receber admoestação. Eles são “uma geração contumaz e rebelde” (Salmo 78:8), não estando sujeitos nem à lei e nem ao Evangelho. As doutrinas do arrependimento, da autonegação e do andar com Deus, não encontram entrada em seus corações.

3. Afeições desordenadas. Alguns escritores ampliam mais e outros menos o escopo do termo “afeições”, e talvez seja um ponto discutível tanto teológica quanto psicologicamente se a natureza do desejo deve ser incluída ou considerada separadamente no âmbito das afeições. No sentido mais amplo, em relação às afeições pode-se dizer que são a faculdade sensível da alma. Assim como o entendimento é o poder que julga e discerne as coisas, assim as afeições fascinam e dispõem a alma a favor ou contra os objetos contemplados. É pelas afeições que a alma torna-se satisfeita ou insatisfeita com o que é percebido pelos sentidos corporais ou contemplado pela mente e, assim, movida a aprovar ou rejeitar. Como distinguir os dois? A vontade é essa faculdade que executa a decisão final da mente ou o desejo mais forte das afeições, o que motiva a ação. Posto que as afeições pertencem ao lado sensível da alma, estamos mais conscientes de suas agitações do que dos atos de nossas mentes ou vontades. Neste capítulo vamos empregar o termo na sua mais ampla latitude, incluindo os desejos, pois o que os apetites são para o corpo as afeições são para a alma.

Goodwin comparou o desejo natural ao estômago para o corpo. É um vazio completo, feito para receber o que vem de fora, ansiando por um objeto satisfatório. Sua linguagem universal é: “Quem nos mostrará o bem?” (Salmo 4:6). Agora o próprio Deus é o bom chefe do homem, o único que pode pagar a real, duradoura e plena satisfação. No início Ele o criou à Sua própria semelhança; assim como a agulha da bússola sempre se move para o norte, deste modo a alma tocada com a imagem Divina deve levar o entendimento, afeições e vontade, para Ele mesmo. Ele também colocou a alma em um corpo material, e que, neste mundo, arranjando-os um ao outro, lhes forneceu todos os elementos necessários e adequados para cada parte do complexo ser do homem. O desejo natural levou a alma à criatura, mas apenas como um meio de desfrutar de Deus. As maravilhas da obra de Deus foram feitas para serem admiradas, mas, principalmente, como a indicação de Sua sabedoria. A comida deveria ser usada e apreciada, apenas a fim de aprofundar a gratidão pela bondade do Doador e fornecer força para servi-lO. Mas, infelizmente, quando o homem apostatou, seu entendimento, afeições e vontade se divorciaram de Deus e o exercício destes passou a ser dirigidos somente pelo amor-próprio.

Originalmente, o Senhor sustentou e dirigiu a ação das afeições humanas para Si mesmo. Então, Ele reteve o poder, e deixou os nossos primeiros pais por conta própria em sua condição de criatura e, em consequência seus desejos vaguearam buscando alegrias proibidas. Eles procuraram a sua felicidade não na comunhão com o seu Criador, mas na relação com a criatura. Tal como os seus filhos, desde então, eles adoraram e serviram mais a criatura do que o Criador. O resultado foi desastroso em extremo: eles se apartaram do Santo. Isso foi enfaticamente evidenciado por sua tentativa de esconder-se dEle, se o prazer deles estivesse em Deus como seu principal bem, o desejo de ocultação não poderia ter possuído suas mentes. E, como aconteceu com Adão e Eva, assim tem sido com todos os seus descendentes. Muitos provérbios expressam esta verdade geral: “O fluxo não pode subir mais alto do que a fonte”. “Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?” [Mateus 7:16] […] A linhagem do pai da família humana produz descendentes de sua própria natureza. “E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos” (Jó 21:14), isto é o que os corações e as vidas de todos os não-regenerados dizem ao Todo-Poderoso.

O centro natural da alma do homem não caído, tanto para seu descanso e prazer, era o Único que lhe deu existência e, portanto, Davi diz: “Volta, minha alma, para o teu repouso” (Salmo 116:7). Mas o pecado tem levado os homens a “recuar” de segui-lO, e “apartar-se do Deus vivo” (Hebreus 10:38, 3:12). Deus não deveria apenas ser a porção deleitosa dAquele a quem Ele fez à Sua imagem, mas também o fim último de todos os seus movimentos e ações, e seu objetivo deveria ser o de glorificá-lO e agradá-lO em todas as coisas. Mas ele deixou “o manancial de águas vivas” (Jeremias 2:13), a primavera infinita e perpétua de conforto e alegria. E agora as inclinações e desejos da natureza do homem são totalmente retirados de Deus, tudo e qualquer coisa é mais agradável para ele do que Deus, que é a soma de toda excelência; ele faz das coisas temporais e sensuais o seu bem principal, e o agradar de si mesmo o seu fim supremo. É por isso que as suas afeições são denominadas “ímpias concupiscências” (Judas 18), eles estão todos alienados de Deus. Eles não gostam da Sua santidade, não possuem nenhum desejo de comunhão com Ele, nenhum desejo de tê-lO em seus pensamentos.

Mas o que acaba de ser pontuado (a aversão de nossas afeições por Deus) é apenas a parte privativa, o positivo é a sua conversão para outras coisas. Foi disto que Deus acusou a Israel, “Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas” [Jeremias 2:13]. Apegando-se a pobres ninharias que não lhes dão nenhuma satisfação. A criatura é preferida antes do Criador, pois toda a preocupação do homem natural está voltada para como viver à vontade no mundo, e não para honrar e deleitar-se em Deus. Assim eles observam “falsas vaidades” e “deixam a sua misericórdia” (Jonas 2:8), pois, quanto ao seu vazio, elas são vãs, e em relação às suas expectativas, “falsas vaidades”. Eles estão enganados por uma demonstração de vaidade, e o resultado é aflição de espírito, por causa da frustração de suas esperanças. Assim como o amor de Deus derramado nos corações dos redimidos não busca eles próprios (1 Coríntios 13:5), assim o amor-próprio não faz nada além disso, a saber: “todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte” (Isaías 56:11).

Os desejos do não-regenerado não estão apenas apartados de Deus e fixados nas criaturas, mas isso de forma excessiva e ávida. Assim, lemos de “afeições desordenadas” (Colossenses 3:5), o que significa tanto imoderadas quanto anormais, um espírito de gula e um desejo por coisas que são contrárias a Deus: “cobiçando as coisas más” (1 Coríntios 10:6). O primeiro é o pecado de intemperança, este último tendo “prazer na injustiça” (2 Tessalonicenses 2:12). O corpo é valorizado mais do que a alma, visto que todos os esforços do homem natural são direcionados para fazer provisão para a carne e para satisfazer as suas concupiscências, enquanto ele pensa pouco e cuida menos ainda de seu espírito imortal. Quando a providência sorri sobre seu trabalho, sua linguagem é: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga” (Lucas 12:19). Seus pensamentos se elevam para uma vida superior no futuro. Eles estão muito mais preocupados com a roupa e com o adorno do homem exterior do que com o cultivo de um espírito manso e tranquilo, que aos olhos de Deus é de grande valor (1 Pedro 3:4). A terra é preferida antes do Céu, as coisas temporais antes do que as eternas. Embora a morte e a sepultura possam colocar um fim a tudo o que tiveram aqui muito mais cedo do que imaginam, ainda assim os seus corações estão tão fixados sobre essas coisas que eles se alegram certos de que não serão privados dessas coisas.

Assim é que as afeições, que no princípio eram servas da razão, agora ocupam o trono. Aquela que é a glória da natureza humana elevando-a acima dos animais do campo é presa agora aqui e acolá pela rude turba de nossas paixões. Deus colocou no homem um instinto de felicidade para que ele encontrasse a felicidade nEle, mas agora este instinto se arrasta no pó e se derrama sobre cada vaidade. Os conselhos e as invenções da mente estão engajados para a realização dos desejos carnais do homem. Não somente as suas afeições não se deleitam nas coisas espirituais como possuem forte preconceito contra elas, pois as suas afeições correm diretamente para a gratificação de sua natureza corrupta. Seus desejos são fixados sobre mais riqueza, mais honra mundana e poder, mais alegria carnal, e porque o Evangelho não contém nenhuma promessa de tais coisas ele é desprezado. Porque inculca a santidade, a mortificação da carne, a separação do mundo e o resistir ao Diabo o Evangelho torna-se muito desagradável para eles. Pois apartar as afeições daquelas coisas materiais e temporais das quais ele fez o seu principal bem, e convertê-las às coisas espirituais invisíveis e às coisas eternas, distancia a mente carnal do Evangelho, pois este não oferece nada que atraia o homem natural mais do que os ídolos que estão no âmago de seus corações. Portanto, renunciar à sua justiça própria e fazer-se dependente de Outro é igualmente desagradável para seu orgulho.

As afeições não estão apenas alienadas e opostas às exigências sagradas do Evangelho, mas também opostas ao seu mistério. Esse mistério é o que as Escrituras denominam: a sabedoria oculta de Deus, e, o homem natural não somente é incapaz admira-lo e adorá-lo, mas considera-o com desprezo e contumácia. Ele olha para todas as partes de sua declaração como noções vazias e ininteligíveis. Esse preconceito tem prevalecido sobre os sábios e entendidos deste mundo em todas as épocas, e nunca tão eficazmente do que em nosso dia mau. A maior sabedoria de Deus parece loucura para todos os que andam inchados pelo orgulho de sua própria inteligência, e o que é loucura para eles é desprezado e escarnecido. Aquilo que direciona à fé mais do que a razão é repulsivo. Pois, “não te estribes no seu próprio entendimento, mas confie no Senhor de todo o coração”, é um “duro discurso” para aqueles consideram-se como tendo grande intelecto. Renunciar às suas próprias ideias, abandonar seus pensamentos (Isaías 55:7) e tornar-se como “crianças pequenas”, e dizer que sem isto eles de modo algum entrarão no reino dos céus é muitíssimo abominável para eles. Não pequena parte da depravação do homem consiste na sua disponibilidade para abraçar esses preconceitos, a aderir a eles perniciosamente, sendo totalmente impotentes para livrarem-se deles.

O estado desordenado de nossas afeições é visto no fato de que as ações do homem natural são reguladas muito mais por seus sentidos do que pela sua razão. Sua conduta consiste principalmente na resposta aos clamores de suas concupiscências ou invés dos ditames da razão. Os desejos de crianças são inclinados e velozes para qualquer desvio que leve à corrupção, mas lentos para exercitarem-se em fazer qualquer bem; daquele dificilmente podem ser contidos, para estes devem ser obrigados. Que as afeições estão alienadas de Deus se manifesta cada vez que Sua vontade se opõe aos nossos desejos. Esta doença aparece muito nos objetos nos quais nossas diversas afeições são colocadas. Em vez do amor estar posto em Deus, ele está centrado no mundo e na adoração de ídolos. Em vez de dirigir ódio contra o pecado, elas se opõem à santidade. Em vez de alegrar-se e encontrar o seu deleite nas coisas espirituais, gastam-se naquelas que em breve passarão. Em vez de temer agir de maneira que desagrade ao Senhor, ele teme mais as carrancas de seus companheiros. Se há dor, é pela frustração de nossos prazeres e esperanças, e não por causa da nossa desobediência. Se há compaixão, é exercida sobre si mesmo, e não em relação aos sofrimentos dos outros.

Agora nos resta salientar que a primeira ambição dos nossos desejos é o próprio mal. As paixões ou desejos são os movimentos da criatura dirigidos por sua natureza, para uma inclinação aos objetos que promovam o seu bem, e uma aversão àqueles que são nocivos. E, assim, eles são para a alma o que as asas são para o pássaro e as velas são para o navio. O desejo está sempre em busca da satisfação, e se é para ser satisfeito deve ser regulado pela razão correta. Mas, infelizmente, a razão foi destronada e as paixões e inclinações do homem estão sem lei, e, portanto, Suas primeiras aspirações pelos objetos proibidos são essencialmente más. Estes eram, como Mateus 5 demonstra, negados pelos rabinos, que restringiram o pecado a uma transgressão aberta e externa. Mas o nosso Senhor declarou que a raiva injustificável contra o outro se constitui um assassinato, e que olhar para uma mulher e cobiçá-la era uma violação do sétimo mandamento, que pensamentos impuros e imaginações devassas eram nada menos do que adultério. Por isso, é que a Escritura fala de “concupiscências do engano” (Efésios 4:22), “concupiscências loucas e nocivas” (1 Timóteo 6:9), “paixões mundanas” (Tito 2:12), “concupiscências carnais, que combatem contra a alma” (1 Pedro 2:11) e “paixões pecaminosas” (Judas 18).

Mesmo a primeira agitação de desejo por algo mau, a menor irregularidade nos movimentos da alma é pecado. Isso fica claro a partir do mandamento universal: “Não cobiçarás”, ou desejar qualquer coisa que Deus proibiu. Esse anseio irregular e maligno é chamado de “concupiscência” em Romanos 7:8 “no qual o apóstolo incluiu o desejo mental bem como o sensual” (Calvino). A palavra grega é geralmente traduzida como “desejos”; em 1 Tessalonicenses 4:5, este é encontrado em uma forma intensificada: “a paixão da concupiscência”. Estas concupiscências da alma são seus movimentos iniciais, muitas vezes, inesperados por nós mesmos, que precedem o consentimento da mente, e são designados “a vil concupiscência” (Colossenses 3:5). Eles são as sementes de onde brotam nossas más obras, as ambições originais da corrupção que habita em nós. Elas são condenadas pela lei de Deus, pois o décimo mandamento proíbe as primeiras inclinações das afeições para o que pertence a outrem, de modo que o desejo que inicia-se, antes da aprovação da mente ser obtida, é pecado, e precisa ser confessado a Deus. Gênesis 6:5 declara sobre o homem caído que “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente”, pois pecados enquanto na sua fase embrionária, contaminam a alma, sendo o contrário à pureza que a santidade de Deus exige.

O que tem sido demostrado acima é repudiado pelos católicos romanos, pois enquanto eles concordam que os desejos da carne são a matéria do pecado, ou nos quais o pecado se origina, eles não vão admitir os mesmos como sendo essencialmente maus. O Concílio de Trento negou que o movimento original da alma tende para o mal é próprio do pecador, afirmando que estes só se tornam assim, quando são consentidos ou cedidos. Semelhantemente, a maioria dos Arminianos (que em muitas de suas crenças são um com os papistas) limitam o pecado a um ato da vontade. Agora é livremente confessado por todos os Calvinistas em alto e bom som que a mente entretém-se inicialmente com o desejo do mal e este é mais um grau de pecado, e que o assentimento real ao mesmo é ainda mais hediondo; mas os Arminianos, enfaticamente argumentam se o impulso original também é mau aos olhos de Deus. Se o impulso original é inocente (em si mesmo), como poderia sua gratificação ser pecado? Os motivos e excitações não sofrem qualquer alteração em sua natureza essencial em consequência de ser consentida ou incentivada. Não pode ser errado atender impulsos inocentes. O Senhor Jesus nos ensina a julgar a árvore pelos seus frutos, se os frutos forem corruptos, assim também é a árvore que a produz.

Em Romanos 7:7, o termo é efetivamente atribuído ao pecado: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás [ou desejarás]”, pois no grego a mesma palavra é empregada para ambos os termos. Aqui, então, o pecado e os desejos são usados ​​alternadamente, qualquer não-conformidade interior com a Lei é pecaminosa. Paulo estava ciente desse fato quando o mandamento foi aplicado com poder, assim como o sol que brilha em um monte de excremento faz exalar seu fedor. Os homens podem negar que o próprio desejo pelo que é proibido é culpável, mas a Escritura afirma que até mesmo as imaginação são más, os brotos da maldade, pois elas são contrárias a essa retidão de coração que a Lei exige. Observe quão terrível é esta lista que Cristo enumerou com as coisas que procedem do coração, sendo iniciada com “maus pensamentos” (Mateus 15:19). Nós não podemos conceber qualquer inclinação ou propensão para o pecado em um ser absolutamente santo; certamente não havia nenhuma no Senhor Jesus: “se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim” (João 14:30), nada que fosse capaz de responder às suas solicitações vis, nenhum movimento de seus apetites ou afeições dos quais ele poderia tirar proveito. Cristo estava inclinado apenas para o que é bom.

Porque, quando estávamos na carne [ou seja, enquanto os Cristãos estavam em seu estado não-regenerado], as paixões dos pecados [literalmente, as afeições do pecado, ou o princípio de nossas paixões], que são pela lei, operavam em nossos membros [as faculdades da alma, bem como do corpo] para darem fruto para a morte” (Romanos 7:5). Essas “afeições do pecado” são os fluxos imundos que fluem da fonte poluída de nossos corações. Eles são os primeiros sinais de nossa natureza decaída, os quais precedem os atos explícitos de transgressão. Eles são os movimentos ilegais de nossos desejos antes de examinarmos e consentirmos com os pensamentos pecaminosos da mente. “Mas o pecado [corrupção que habita em nós], tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência [ou concupiscência do mal]” (Romanos 7:8). Atente bem que para a expressão “operou em mim”, havia uma disposição poluída ou propensão para o mal operando, distinta da fonte das obras que ele produziu. O pecado que habita em nós é um princípio poderoso, constantemente exerce uma má influência, estimulando sentimentos profanos, despertando a avareza, a inimizade, maldade, etc.

 

 

As Ramificações da Depravação Humana (Parte 1)

As Ramificações da Depravação Humana (Parte 3)

 

 

Autor: A. W. Pink

Trecho extraído do Capítulo 10 do Livro The Total Depravity of Man.

Tradução: O Estandarte de Cristo

 

Marcos Frade
Marcos Frade

Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.