As Ramificações da Depravação Humana (Parte 1)

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Enquanto me esforço para apresentar um quadro completo do homem caído como ele é retratado pelo lápis Divino nas Escrituras, é muito difícil evitar uma medida de sobreposição à medida que nos afastamos de um aspecto ou recurso do mesmo para outro, ou evitamos uma certa quantidade de repetição quando nos dedicamos a um retrato separado de cada um. No entanto, visto que este é o método que o Espírito Santo tem tomado em grande parte, um pedido de desculpas é pouco exigido daqueles que procuram seguir o Seu plano. Nos capítulos anteriores mostramos de uma forma mais ou menos geral a terrível devastação que o pecado operou na constituição humana; agora vamos considerar o mesmo, mais especificamente. Tendo apresentado as linhas gerais, resta-nos preencher os detalhes. Em outras palavras, a nossa tarefa imediata é a de refletir e descrever as várias partes da depravação humana de acordo como isso tem corrompido as diversas seções do nosso homem interior. Embora a alma, como o corpo, seja uma unidade, ela também tem um número de membros distintos ou faculdades, e nenhum deles ficou isento dos efeitos degradantes da apostasia do homem em relação ao seu Criador.

A depravação humana, consideramos, foi notavelmente exemplificada nos milagres de Cristo. Os vários distúrbios corporais que o Divino Médico curou durante Sua jornada na terra não eram apenas tantas prefigurações das maravilhas da graça que Ele realizou no reino espiritual em conexão com os redimidos, mas também foram muitas representações emblemáticas das doenças morais que afetam e afligem a alma do homem caído. O pobre leproso, coberto de feridas fétidas, solenemente retratou as corrupções horríveis do coração humano. O homem que nasceu cego, incapaz de contemplar as maravilhas e belezas das obras exteriores de Deus, expressa o estado ignorante da mente humana, que, por causa da escuridão que está sobre ela, não é capaz de descobrir ou aceitar as coisas do Espírito, não importa o quão simples e claramente elas sejam explicadas para ele. Os membros lânguidos do paralítico prefiguraram a incapacidade da vontade para vir a Deus, sendo esta totalmente desprovida de qualquer poder para nos converter a Cristo. A mulher deitada acometida de febre, com desejos não naturais, delírio e etc. retratou o estado desordenado de nossas afeições. O homem possuído pelo demônio, habitando em meio aos túmulos, incapaz de ser devidamente contido, gritando e ferindo-se, esboçou as diversas atividades da consciência no não regenerado.

A corrupção tem invadido cada parte da nossa natureza, espalhando-se por todo o ser complexo do homem. Assim como distúrbios físicos não poupam os membros do corpo, de modo muito semelhante o espírito do homem não escapou da devastação da depravação; no entanto, quem é capaz de compreendê-la em sua terrível amplitude e profundidade, comprimento e altura? Não são simplesmente as potências inferiores da alma que foram infectadas com esta praga do pecado, mas o contágio subiu para as regiões mais altas das nossas pessoas, poluindo as faculdades sublimes. Esta é uma parte do castigo de Deus. É um grande erro supor que o julgamento Divino sobre a deserção do homem está reservado para a próxima vida. A humanidade está fortemente penalizada neste mundo, tanto externa como internamente, uma vez que nele estão sujeitos a muitas dispensações adversas da providência: Externamente, em seus corpos, nomes, propriedades, relações e empregos e, finalmente, com a morte física e dissolução. E, interiormente, pela cegueira de espírito, dureza de coração, paixões turbulentas, o roer de consciência. Embora estas últimas sejam pouco consideradas, em razão da sua estupidez e insensibilidade, contudo as visitas internas da maldição de Deus são muito mais terríveis do que as externas, e são consideradas como tal por aqueles que verdadeiramente temem ao Senhor e veem as coisas em Sua luz.

1. Cegueira de espírito. A mente é aquela faculdade da alma pela qual os objetos e as coisas são primeiramente conscientizados e apreendidos. Para distinguir o entendimento dela, o último é o que pesa, discrimina e determina o julgamento entre os conceitos formados na primeira, sendo o guia da alma, o seletor e rejeitador dessas noções que a mente recebeu. Ambos são igualmente perturbados pelo pecado, pois nos é dito que “os seus sentidos foram endurecidos” (2 Coríntios 3:14), e também lemos: “Entenebrecidos no entendimento” (Efésios 4:18). Como um abandonado de Deus, a Queda fechou completamente as janelas da alma do homem, mas ele pensa que não; sim, enfaticamente ele nega isso. Tanto os filósofos pagãos como os escolásticos do medievalismo admitiram que as afeições, na parte inferior da alma, foram um pouco contaminadas, mas insistiram que a faculdade intelectual era pura, dizendo que a razão ainda dirige e nos aconselha as melhores coisas. Quando nosso Senhor declarou: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos”, alguns dos fariseus que o ouviam, indignados perguntaram: “Também nós somos cegos?” (João 9:39-40).

Agora, não é estranho que a razão cega pense que pode ver, pois, enquanto ela julga todo o restante, ela é menos capaz de avaliar-se por causa da muita proximidade consigo mesma. Embora o olho de um homem possa ver a deformidade das mãos ou pés, não pode ver o que é subjetivo em si mesmo, a menos que tenha uma lente através do qual possa discerni-lo. Da mesma forma, até mesmo a natureza corrupta, por sua própria luz, reconhece a desordem na parte sensorial do homem, mas ela não pode discernir a corrupção que está no próprio espírito. A lente da Palavra de Deus é necessária para descobri-la, e até mesmo o espelho não é suficiente: a luz da graça Divina tem que brilhar interiormente, a fim de expor e desvelar a imbecilidade da faculdade de raciocínio. E, portanto, é assim que a Sagrada Escritura lança a principal ênfase na depravação desta parte mais alta do ser do homem. Quando o apóstolo mostrou quão impuros são os incrédulos, embora estes conhecessem a Deus, ele asseverou, “antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” (Tito 1:15). Acima de todas as suspeitas, estas partes deles foram contaminadas, especialmente desde que foram iluminados com alguns raios do conhecimento de Deus. Assim, em oposição a esta presunção, as faculdades superiores só são mencionadas, e enfatizadas com um “antes”.

Quão significativo e pleno o testemunho da Escritura é sobre essa característica solene que transparece a partir do seguinte: “Porquanto, tendo conhecido a Deus [tradicionalmente], não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1:20-21), a referência aqui é aos gentios, depois do dilúvio. Uma das maldições terríveis executadas sobre Israel, porque eles não deram ouvidos à voz do Senhor seu Deus, e se recusaram a observar os seus mandamentos, foi: “O Senhor te ferirá com loucura, e com cegueira, e com pasmo de coração; e apalparás ao meio-dia, como o cego apalpa na escuridão”, (Deuteronômio 28:28-29). De toda a humanidade, é dito: “Não há ninguém que entenda… e não conhecem o caminho da paz” (Romanos 3:11, 17); tão longe disso que “há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Provérbios 14:12). “O mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria” (1 Coríntios 1:21). Apesar de todas as suas escolas, eles eram ignorantes dEle. “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” (1 Timóteo 1:7). “Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade” (2 Timóteo 3:7).

A escuridão natural que os cega dessas operações regulares que são direcionadas por seus sentidos exteriores é dupla: externa ou interna. Quando a noite cai, a menos que haja o auxílio de luz artificial, eles não podem mais realizar seu trabalho. Se eles forem cegos, então para eles é noite perpetuamente. Assim também é com a escuridão espiritual: objetiva e subjetiva, uma escuridão que está tanto sobre os homens quanto nos homens. A primeira consiste em uma falta desses meios pelos quais, somente, eles podem ser iluminados no conhecimento de Deus e das coisas celestiais. O que o sol é para a terra em relação às coisas naturais, assim a Palavra e a pregação do Evangelho são para as coisas espirituais (Salmo 19:1-4. Cf. Romanos 10:10-11). Esta escuridão está sobre todos a quem o Evangelho ainda não foi declarado ou sobre quem o despreza e rejeita. Ora, é a missão e a obra do Espírito Santo remover essa escuridão objetiva, e até que isso seja feito ninguém pode ver ou entrar no reino de Deus. Isso Ele faz enviando o Evangelho a um país, nação ou cidade. Ele não obtém entrada ali, nem é retido em qualquer lugar, por acidente ou por esforço humano, mas é dispensado de acordo com a vontade soberana do Espírito de Deus. Ele é Quem capacita, chama e envia homens para pregar, determinando os locais onde eles ministrarão, seja por Seus impulsos secretos ou pelas operações de Sua providência (Atos 16:6-10).

Entretanto, sobre as mentes dos não regenerados está a escuridão subjetiva com suas influências e consequências, o que é aqui mais imediatamente considerado. Esta não é uma mera coisa privativa, mas algo positivo, que consiste não apenas de ignorância, mas em uma doença maligna, com uma habitual disposição para mal. “É soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, perversas contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais” (1 Timóteo 6:4-5). Não são apenas as suas mentes que não assentem a sã doutrina, mas eles estão doentes e corruptos: “delira acerca de questões” […] Esta destemperança da mente é também chamada de “comichão nos ouvindo por desejo de ouvir fábulas” (2 Timóteo 4:3-4). Ainda mais solenemente, a Escritura chama esta sabedoria controversa da qual o erudito deste mundo é tão orgulhoso, de “terrena, animal e diabólica” (Tiago 3:15); tanto o versículo anterior quanto o seguinte mostram que toda inveja, malícia, mentira e dissimulação, embora encontrem-se também nas afeições e na vontade, estão enraizadas na compreensão. Por isso, é que Deus deve dar “arrependimento” ou uma mudança de mente antes que haja um reconhecimento da verdade e uma libertação do laço do Diabo (2 Timóteo 2:25-26).

Esta escuridão do entendimento é a causa da rebelião que está nas afeições, e por esta é que os homens procuram assim desordenadamente os prazeres do pecado; mas, porque suas mentes não conhecem a Deus e são estranhas a Ele e não podem ter comunhão com Ele? Porque toda a amizade e companheirismo são fundamentados no conhecimento. Para ter comunhão com Deus, é necessário o conhecimento de Deus, e, consequentemente, a principal coisa que Deus faz quando Ele dá admissão no Pacto da Graça é ensinar os homens a conhecê-lo (Jeremias 31:33-34): Por outro lado, os homens estão afastados dEle por ignorância (Efésios 4:17-19). A escuridão da mente não é apenas a raiz de todo o pecado, mas é a causa da maioria das corrupções na vida dos homens. Assim vemos que Paulo menciona “sabedoria carnal”, como a antítese do princípio da graça (2 Coríntios 1:12). Pela mesma razão, sobre os homens é dito: “são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jeremias 4:22). Que esta é a causa da maior parte da maldade que há no mundo Isaías 47:10 deixa bem claro: “a tua sabedoria e o teu conhecimento, isso te fez desviar”. Raciocínios corruptos e falsos julgamentos das coisas são os principais motivos de todo o nosso pecado. O orgulho tem o seu lugar de primazia na mente, como Colossenses 2:18 demonstra.

Que essa escuridão é forte e influente, transparece na dinâmica da expressão registrada em Colossenses 1:13: “O qual nos tirou da potestade das trevas”, a palavra significando aquilo que vacila ou dominado. Isso preenche a mente com inimizade contra Deus e contra todos os seus caminhos, e leva à vontade no sentido contrário, de modo que, em vez das afeições serem postas nas coisas de acima, os não-regenerados “só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:19). Essa é a sua inclinação habitual. Ele pensa nas coisas da carne (Romanos 8:5), buscando atender aos objetivos sensuais para a gratificação do corpo. Ele preenche a mente com fortes preconceitos contra as coisas espirituais propostas no Evangelho. Esses preconceitos são chamados de “fortalezas” e “conselhos [ou “raciocínios”], e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus” (2 Coríntios 10:4-5), que são destruídos e expressos e derrubados no dia do poder de Deus, levando as almas à sujeição voluntária a Ele. Os pecados da mente são os mais permanentes, pois quando o corpo se decompõe e suas concupiscências murcham, os pecados da mente são tão vigorosos e ativos na velhice como na juventude. Posto que o entendimento é a parte mais excelente do homem, a sua corrupção é pior do que a das outras faculdades: “Se a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mateus 6:23).

Temerosos de fato são os efeitos dessa escuridão. Suas faculdades se mostram incapazes de discernir as coisas espirituais ou de recebê-las, pelo que há uma total incapacidade no que diz respeito a Deus e as formas de agradá-lo. Não importa o quão bem dotado intelectualmente o homem não-regenerado seja, ou a extensão de seu saber e aprendizado, ou quão hábil em relação às coisas naturais, em assuntos espirituais ele é desprovido de inteligência até que ele seja renovado no espírito de sua mente. Como uma pessoa que não tem o poder de ver é incapaz de ficar impressionada com os raios mais fortes de luz quando refletidos sobre ele, e não pode formar qualquer ideia real da aparência das coisas, de modo semelhante o homem natural, por causa desta cegueira de espírito, é incapaz de discernir a natureza das coisas celestiais. Disse Cristo aos judeus de sua época: “Ah! Se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos” (Lucas 19:42). As coisas celestiais estão ocultas de sua percepção tão eficazmente como as coisas que são propositadamente escondidas de olhares indiscretos. Mesmo que um homem tivesse o desejo de descobri-las, ele iria procurar em vão por toda a eternidade, a menos que Deus quisesse revelá-las, como fez a Pedro (Mateus 16:17).

A cegueira espiritual que está sobre a mente do homem natural não só impossibilita de fazer a primeira descoberta das coisas de Deus, mas, mesmo quando elas são publicadas e postas diante de seus olhos, como claramente estão na Palavra da verdade, ele não pode discerni-las. Quaisquer que sejam as noções que ele possa formar delas, elas são dissonantes à sua natureza, e os pensamentos que ele concebe em relação a elas são o inverso do que de fato são, a mais alta sabedoria eles consideram como loucura, e os objetos mais gloriosos em si são desprezados e rejeitados. “Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; porque opero uma obra em vossos dias, ora tal que não crereis, se alguém vo-la contar” (Atos 13:41). Os versículos anteriores mostram que Paulo claramente lhes havia pregado a Cristo e Seu Evangelho, e, em seguida, concluído com uma advertência para que vigiassem para que não viesse sobre eles o que foi dito pelo profeta. Assim, não é a apresentação clara da verdade que irá convencer os homens. Embora claramente proposta, a verdade ainda pode ser obscura para eles: “Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos” (2 Coríntios 4:3-4). Seus entendimentos precisam ser divinamente abertos para que possam compreender as Escrituras (Lucas 24:45)!

Os objetos desta escuridão são espiritualmente insensíveis e tolos. Isso é o que os impede de fazer um verdadeiro exame de seus corações. Eles veem apenas o homem exterior, e não sentem a ferida mortal que está por dentro. Há um mar de corrupção, mas é imperceptível. A santidade, beleza e retidão de sua natureza já se foram, mas eles estão mui despreocupados. Eles são miseráveis e pobres, cegos e nus, mas são totalmente inconscientes disso. Isso é o que faz com que os não-regenerados prossigam em um curso de rebelião contra o Senhor, e ao mesmo tempo concluam que todas as coisas estão bem com eles. Assim, eles vivem de forma segura e feliz. Como se a bondade de Deus não os quebrantasse, nem os Seus mais dolorosos juízos os movem a consertarem os seus caminhos. Muito longe disto, eles são semelhantes ao ímpio rei Acaz, de quem está registrado: “E ao tempo em que este o apertou, então ainda mais transgrediu contra o Senhor” (2 Crônicas 28:22); quão louca e desafiadoramente as massas se comportaram durante a batalha da Grã-Bretanha! Então, mesmo agora, enquanto a paz de todo o mundo está tão seriamente ameaçada: “Senhor, a tua mão está exaltada, mas nem por isso a veem” (Isaías 26:11).

Este espaço vai permitir-nos de mencionar apenas um outro efeito, e é o que está em Efésios 4:17: “A vaidade de sua mente”. As coisas na Escritura são ditas ser vãs quando são inúteis e infrutíferas; em Mateus 15:9, significa “sem propósito”. Por isso, os ídolos das nações e os ritos utilizados na sua adoração são chamados de coisas vãs (Atos 15:15). Em 1 Samuel 12:21, coisas vãs seriam aquelas “que nada aproveitam”. Isto também é sinônimo de loucura, pois em Provérbios 12:11, os homens vãos são todos como aqueles que são “faltos de juízo”. Em Jeremias 4:14, coisas vãs estão unidas com “maldade”, assim homens vãos pecaminosos e filhos de Belial são sinônimos (2 Crônicas 13:7). Esta vaidade da mente induz o homem natural a perseguir sombras e perder a substância, a envolver-se com invenções em vez de realidades, a preferir a mentira ao invés da verdade. Isso é o que leva os homens a seguirem a moda e se deleitarem com os prazeres de um mundo vão. Esta vaidade pecaminosa da mente está em todos os tipos de pessoas e idades agindo em si mesma com imaginações insensatas, pelo que cuidam de agradar à sua carne e às suas concupiscências. Ela se manifesta em um ódio de pensar sobre as coisas sagradas, de forma que, quando sob a pregação da Palavra a mente vagueia como uma borboleta no jardim. Ela “apascenta de estultícia” (Provérbios 15:14), e tem uma curiosidade inquietante para saber dos outros.

2. Dureza de coração. O coração é o centro do nosso ser moral, do qual fluem as fontes da vida (Provérbios 4:23, cf. Mateus 12:35). A natureza deste é ao mesmo tempo indicada por ele ser descrito como um “coração de pedra” (Ezequiel 11:19). A figura é muito adequada. Como uma pedra nada mais é que um produto da terra, assim tem a propriedade da terra, pesada e com tendência a cair. Assim, é com a mente natural: as afeições dos homens são totalmente postas sobre o mundo, e se Deus fez o homem reto, com a cabeça erguida, agora a alma está abatida até o pó. A maldição física pronunciada sobre a serpente também é cumprida em sua semente, pois as coisas sobre as quais eles se nutrem tornam às cinzas, assim, que aquele pó é o alimento deles (Isaías 65:25). O pecado deixa o coração do homem tão calejado que, para com Deus, é sem amor e sem vida, frio e insensível. Essa é uma razão pela qual a lei moral foi escrita em tábuas de pedra: para representar emblematicamente o tipo de coração que os homens tinham, como é claramente implícito o contraste apresentado em 2 Coríntios 3:3. O coração de pedra é tolo e inflexível.

O coração do regenerado também é comparado a uma “rocha” (Jeremias 23:29), e uma “pedra de diamante” (Zacarias 7:12), que é mais duro do que uma pederneira. Semelhantemente também os não-regenerados são chamados de “duros de coração” (Isaías 46:12), e em Isaías 48:4, Deus diz: “Porque eu sabia que eras duro, e a tua cerviz um nervo de ferroo, e a tua testa de bronze”. Esta dureza é frequentemente atribuída ao pescoço (“dura cerviz”), esta é uma figura da obstinação do homem extraída a partir do exemplo dos bois indomados que não aceitam o jugo. Esta dureza se evidencia por uma completa ausência de sensibilidade espiritual, pois eles não se importam com a bondade de Deus, não têm temor de Sua autoridade e majestade, e não temem a sua ira e vingança, uma apresentação das alegrias do Céu ou dos horrores do Inferno não lhes causam nenhuma impressão. Como o antigo profeta lamentou: “Ó vós que afastais o dia mau” (Amós 6:3), rechaçando-os de seus pensamentos como um assunto desagradável sobre o qual meditar. Eles não têm nenhum sentimento de culpa, nem consciência de ter ofendido o seu Criador, nem se assombram por Sua ira permanecer sobre eles, antes estão seguros e à vontade em seus pecados. Até o momento em que o pecado se torne um fardo para eles, ele é a substância e deleite do desfrute de seus prazeres temporais.

 

 

As Ramificações da Depravação Humana (Parte 2)

As Ramificações da Depravação Humana (Parte 3)

 

 

Autor: A. W. Pink

Trecho extraído do capítulo 10 do Livro The Total Depravity of Man.

Tradução: O Estandarte de Cristo

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.