O abuso das línguas em Corinto

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Observe que em 1 Coríntios 14.2 Paulo criticou aqueles crentes por usarem o “dom de línguas” para a comunicação com Deus, e não com os homens: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”.16 O comentário de Paulo não sugere que as línguas deviam ser usadas como uma “língua de oração”; ele usou o recurso da ironia, ressaltando a futilidade de falar em línguas sem a presença de um intérprete, pois apenas Deus saberia o que era falado. Os dons espirituais jamais foram concedidos para o benefício de Deus ou do indivíduo que os possuía. Pedro afirmou claramente: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu” (1 Pe 4.10a).

Paulo acrescentou: “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja” (1 Co 14.4). Outra vez, Paulo não recomendou o uso das línguas para a edificação da própria pessoa; ao contrário, ele condenou aqueles que usavam o dom violando o seu propósito e desconsiderando o princípio do amor (o amor “não procura os seus interesses” — 1 Co 13.5). O verbo “edificar”, em 1 Coríntios 14.4, significa “construir”. Ela pode conter um sentido positivo ou negativo dependendo do contexto.17 Os crentes de Corinto usavam as línguas para a edificação de si mesmos, em um sentido egoísta. A motivação deles não era correta, e sim egocêntrica. Sua paixão pelas línguas surgiu do desejo de exercerem os dons mais espetaculares e pomposos diante dos outros crentes. O argumento de Paulo era que haveria nenhum proveito nessa exibição — quem falava em línguas acabava fortalecendo o próprio ego. Em 1 Coríntios 10.24, Paulo já estabelecera o princípio: “Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem”.

As línguas constituíam outro problema: da maneira como eram usadas em Corinto, elas obscureciam a mensagem, em vez de esclarecê-la. Paulo escreveu: “E, se tu bendisseres apenas em espírito, como dirá o indouto o amém depois da tua ação de graças? Visto que não entende o que dizes; porque tu, de fato, dás bem as graças, mas o outro não é edificado” (1 Co 14.16-17). Ou seja: aquele que falava em línguas era egoísta, porque ignorava os demais membros da congregação, confundindo a mensagem comunicada pelo dom e praticando o dom apenas para agradar ao próprio ego, a fim de exibir-se e evidenciar aos outros sua própria espiritualidade.

À luz de tudo isso, podemos ficar surpresos com a ordem apresentada em 1 Coríntios 12.31: “Entretanto, procurai com zelo os melhores dons”. A tradução desse versículo apresenta sérios problemas de interpretação. Uma vez que Paulo ressaltou a soberania de Deus na distribuição dos dons e escreveu com o objetivo de corrigir aqueles cristãos quanto ao favorecimento dos dons mais vistosos, por que ele lhes ordenaria que procurassem “os melhores dons”? Isso não os encorajaria a continuarem disputando por status?

Na verdade, o versículo não é uma ordem. Essa versão dá a impressão errada do que Paulo queria dizer. A forma verbal usada aqui pode apontar tanto o indicativo (a constatação de um fato) quanto o imperativo (uma ordem). A forma indicativa faz mais sentido.

A Nova Versão Internacional (NVI) apresenta (em nota de rodapé) a forma do indicativo como uma leitura alternativa: “Mas vocês estão buscando os melhores dons”. Albert Barnes optou pelo conceito indicativo, afirmando que muitos comentaristas, contemporâneos seus, de meados do século XIX (Doddridge, Locke e Macknight), procederam igualmente. Ele disse que, no Novo Testamento em siríaco, o versículo foi traduzido da seguinte maneira: “Visto que vocês são zelosos dos melhores dons, eu lhes mostrarei um caminho mais excelente”.18

Em outras palavras, Paulo estava dizendo: “Entretanto, vocês procuram com zelo os dons mais vistosos”. Isto é uma repreensão, que se harmoniza melhor com as próximas palavras de Paulo: “E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente”. Ele não lhes ordena a busca de certos dons, de fato, condena-os por procurarem os dons mais vistosos. O “caminho sobremodo excelente” do qual ele fala é o do amor, que ele descreve imediatamente no capítulo 13.

Os carismáticos buscavam de forma egocêntrica os dons mais proeminentes, ostentosos e notórios. Desejavam ser admirados pelos demais. Buscavam o aplauso humano. Queriam ser vistos como “espirituais”. É evidente que as pessoas haviam chegado ao extremo de usar línguas falsas. O abuso do dom de línguas em Corinto ameaçava a igreja.

Infelizmente, os mesmos problemas ameaçam a igreja moderna.

 

 

NOTAS:

  1. Devido à ausência do artigo definido no texto grego, também é possível traduzir assim esse versículo: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a um deus”. De qualquer modo, 1 Coríntios 14.2 é uma condenação, e não uma recomendação.
  2. Em 1 Coríntios 8.10, por exemplo, o mesmo vocábulo grego é usado para falar sobe “induzir” a consciência de alguém à a prática do pecado.
  3. Barnes, Albert. Notes on the New Testament: 1 Corinthians. Grand Rapids: Baker, 1975. p. 240. Gordon Fee, comentador das Escrituras, reconheceu a legitimidade da opinião a favor do indicativo (The first epistle to the corinthians. Grand Rapids: Erdmans, 1987. p. 624). Ele também apresentou a seguinte lista de eruditos que apoiam essa ideia: Arnold Bitlinger (Gifts and graces, a commentary on 1 Corinthians 12-14. Grand Rapids: Eerdmans, 1967. p. 73-75); Ralph P. Martin (The Spirit and the congregation: studies in 1 Corinthians 12-15. Grand Rapids: Eerdmans, 1984. p. 34-35); D. L. Baker (The interpretation of 1 Corinthians 12-14. Evangelical Quarterly, v. 46 (1974), p. 226-227); G. Iber (Zum vertändnis von I Cor. 12:31”, Zeitschrift für die neutestamentliche Wissenschaft, v. 54 (1963), p. 42-52); M. A. Chevallier (Esprit de Dieu, paroles d’hommes. Neuchâtel, 1963. p. 158-63).

 

 

Autor: John MacArthur

Trecho extraído do livro Caos carismático, pág 303-306.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.