O Pecado como Ética Espiritual

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Como o pecado não é físico nem metafísico, mas uma antítese ética do bem, ele não tem uma existência própria, independente. Aqueles que consideram o pecado uma substância parecem estar profundamente convencidos de seu poder e importância, mas, de fato, o enfraquecem, transferindo-o do campo ético para o físico e transformando o conflito ético entre o bem e o mal em uma luta entre luz e trevas, espírito e matéria, um Deus bom e um Deus mau, uma luta que não tem fim e faz com que toda redenção seja impossível. Por essa razão é de extrema importância interpretar o pecado como um fenômeno ético. Certamente, as punições e consequências do pecado se estendem também ao campo físico, mas o pecado em si é e continua sendo de caráter ético. Sendo esse o caso, o pecado não pode ter seu próprio princípio e sua própria existência independente. Ele só se originou depois e só existe em razão e em conexão com o bem. Embora o mal dependa do bem, o inverso não é verdade. “E possível, para o bom (nobre), se tomar mau”.28 “O melhor e mais honorável parece ser anterior por natureza”.29 “O bom (verdadeiro) é seu próprio padrão, assim como o do mau (falso)”. O bem, por meio de uma livre escolha, foi a causa do mal e continua sendo seu substrato. Os anjos e os seres humanos caídos, como criaturas, ainda são bons e existem de momento a momento somente por meio de Deus, nele e para ele.

E assim como o pecado é dependente do bem em sua origem e existência, assim também ocorre em sua operação e trabalho. Ele tem poder para fazer alguma coisa somente por meio dos poderes e dons que recebe de Deus. Satanás, portanto, é corretamente chamado de imitador de Deus. Quando Deus constrói uma igreja, Satanás acrescenta uma capela; em oposição ao profeta, ele levanta um falso profeta; em oposição a Cristo, apresenta o anticristo. Até mesmo um bando de ladrões só pode existir se, dentro de sua própria organização, forem respeitadas certas regras. Um mentiroso sempre se veste com a aparência da verdade. Um pecador persegue o mal sob pretexto do bem. O próprio Satanás aparece como um anjo de luz. Em sua operação e aparência, o pecado é sempre condenado a se apropriar, apesar de si mesmo, do tesouro da virtude. Ele está sujeito ao destino inalterável – enquanto se esforça para a destruição de todo bem – de trabalhar simultaneamente para seu próprio fim. Ele é um parasita do bem.

Portanto, embora o pecado, em virtude de sua própria natureza, se esforce para a não-existência, ele não tem poder sobre si mesmo. Ele não pode criar nem destruir. Portanto, nem o caráter essencial dos anjos, nem o dos seres humanos, nem o da natureza mudou como resultado do pecado. Essencialmente, eles são as mesmas criaturas antes e depois da queda, com a mesma substância, as mesmas capacidades, os mesmos poderes. Antes e depois da queda, os seres humanos têm uma alma e um corpo, intelecto e vontade, sentimentos e paixões. O que mudou não foi a substância, a matéria, mas a forma na qual ela se mostra, a direção na qual funciona. Com o mesmo poder de amar, com o qual os seres humanos, originalmente, amavam a Deus, eles agora amam a criatura.

O mesmo intelecto com o qual, no passado, investigavam as coisas de cima, agora, frequentemente, com admirável intensidade e profundidade, os faz afirmar que a falsidade é verdade. Com a mesma liberdade com a qual outrora serviam a Deus, agora servem ao mundo. Substancialmente, o pecado nem removeu nada da humanidade nem introduziu nada nela. É a mesma pessoa, mas agora andando não em direção a Deus, mas em direção à destruição. “O pecado não é uma essência positiva, mas um defeito, uma tendência corruptora, isto é, uma força que contamina modo, espécie e ordem da vontade criada”.30

A perda da imagem de Deus e a quebra da aliança das obras também não são inconsistentes com essa interpretação do pecado, pois a imagem de Deus, embora não seja um dom acrescentado, mas parte integrante da natureza humana, não era uma substância, mas um acidente, isto é, os seres humanos, como foram criados, eram de tal forma designados que sua natureza, automaticamente – sem graça sobrenatural, mas não sem a boa providência de Deus –, levou consigo e revelou o conhecimento, santidade e justiça, que eram os componentes primários da imagem de Deus. Quando a humanidade caiu, ela não perdeu nada substancial, nenhuma faculdade e nenhum poder. O que aconteceu foi que, desde que o pecado violou a forma de toda a raça humana, essas faculdades e poderes agora funcionam de forma a produzir não mais o conhecimento e a justiça de Deus, mas seus próprios opostos. Como resultado da queda, portanto, os seres humanos não perderam apenas um acréscimo não essencial à sua natureza (um dom acrescentado), ao mesmo tempo em que, quanto ao resto, sua natureza permaneceu intacta, nem se tomaram demônios que, incapazes de serem recriados, nunca podem novamente exibir os elementos da imagem de Deus. Em vez disso, ao mesmo tempo em que permaneciam essencial e substancialmente os mesmos, isto é, humanos, e conservavam todos os seus componentes, capacidades e poderes humanos, a forma, o caráter e a natureza, o conjunto e a direção de todas essas capacidades foram de tal forma mudados que agora, em vez de cumprir a vontade de Deus, cumprem a “lei da carne”.

A imagem se transformou em uma caricatura. Semelhantemente, a aliança das obras foi quebrada porque, pelas obras da lei, nenhuma carne humana pode ser justificada (Rm 3.20; Gl 13.2). Porém, ela foi tão pouco destruída e abolida que a lei da aliança das obras ainda obriga cada ser humano à obediência absoluta. Ela foi incorporada por Cristo na aliança da graça e foi completamente cumprida, e ainda continua uma norma de gratidão para os crentes.

 

 

NOTAS:

28. Platão, Protagoras, trad. C. C. W. Taylor (Oxford: Clarendon Press, 1976), 344.

29.  Aristóteles, Categories, and De Interpretatione, trad. J. L. A ckrilI (Oxford: Clarendon Press, 1963), c.

 

 

Autor: Herman Bavinck

Trecho extraído da Dogmática Reformada do autor, volume 3, pág 143-144.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.