Catolicismo Romano e os Carismáticos

Share

A semelhança entre o conceito carismático da revelação e os ensinamentos tradicionais da Igreja Católica Romana é algo que vale a pena avaliar. O ponto de partida é o conceito católico romano da tradição. O estudioso católico Gabriel Moran faz alguns esclarecimentos:

Tradição dogmática é a verdade revelada por Deus na Escritura, anterior à morte do último apóstolo. A tradição dogmática é comumente designada “revelação primária”.

A tradição disciplinar inclui as práticas e os ritos litúrgicos da igreja, nas eras apostólica e pós-apostólica, que não fazem parte da revelação divina contida na escritura. A tradição disciplinar é comumente chamada “revelação secundária”.27

“A tradição”, disse o católico francês George Tavard, “é o excedente da Palavra, o que vai além da Sagrada Escritura. Não se trata de algo separado nem idêntico a ela. Seu conteúdo consiste em ‘outros escritos’ por meio dos quais a Palavra tornou-se conhecida”.28

Outro católico com uma opinião bastante similar ao que os carismáticos afirmam hoje era Kasper Schatzgeyer (1463-1527). Ele ensinou:

“A ‘revelação íntima do Espírito Santo’ é uma possibilidade diária. Tão logo a incredulidade seja vencida, ela se torna tão necessária quanto o ensino procedente dos lábios do próprio Cristo”.29

Tudo isto suscita a questão: “Onde termina a Bíblia?”. Por causa da interpretação da palavra “tradição”, o ensino doutrinário católico romano está aberto. Sempre existe a possibilidade de acrescentar algo de autoridade semelhante à das Escrituras. O Concílio de Trento (1545-1563), reunido para confirmar a oposição católica à Reforma Protestante, promulgou o seguinte decreto a respeito da igualdade entre a Escritura e a tradição:

O Santo Sínodo Geral e Ecumênico de Trento… tendo sempre em vista o objetivo da remoção dos erros e da purificação do evangelho preservado na igreja — anteriormente prometida pelos profetas nas Sagradas Escrituras —, anunciado pela primeira vez por boca de nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, para ser pregado pelos apóstolos a toda criatura como fonte da verdade salvífica e da disciplina da conduta; percebendo que essa verdade e disciplina estão contidas nos livros escritos e nas tradições não escritas — recebidos pelos apóstolos dos lábios do próprio Cristo ou pelos mesmos apóstolos mediante o ditar do Espírito Santo — foram passados de geração em geração até chegarem a nós; seguindo o exemplo dos Pais ortodoxos, este Sínodo recebe e venera, com afeição e reverência iguais e pias, todos os livros no Novo e do Antigo Testamento… e as mencionadas tradições… como procedentes dos lábios de Cristo ou do falar do Espírito Santo, em sucessão preservada e ininterrupta na Igreja Católica.30

De acordo com essa declaração, Deus tem supostamente concedido revelações por meio da Igreja Católica Romana, desde os dias do Novo Testamento. Das “tradições não escritas… passadas de geração em geração até chegarem a nós”, há um curto passo até à infabilidade do papa, que, de acordo com o dogma católico, é o sucessor de Pedro. A teologia católica ensina que, ao pronunciar-se ex cathedra (como pastor e mestre de todos os cristãos), o papa o faz com autoridade apostólica absoluta e infalível. Dois exemplos de acréscimos “infalíveis” à Escritura e de tradição nos últimos anos são:

Na bula papal de 8 de dezembro de 1854, intitulada Ineffabilis Deus (‘Deus inefável’), Pio IX decretou solenemente que a “a bendita Virgem Maria foi, desde o primeiro momento de sua concepção, por graça singular e privilégio do Deus todo-poderoso, com vistas aos méritos de Cristo Jesus, o Salvador da raça humana, preservada imune de toda mancha do pecado original; [isso] foi revelado por Deus e, portanto, [deve ser] firme e totalmente crido pelos fiéis”.31

O último acréscimo à longa lista de doutrinas católicas… surgiu em 1 de novembro de 1950, com um pronunciamento ex cathedra do papa Pio XII, do trono de São Pedro, de que o corpo de Maria foi ressuscitado do túmulo logo após sua morte e seu corpo e sua alma foram reunidos, elevados aos céus e entronizados como Rainha do Céu. A esse pronunciamento foi adicionada a advertência costumeira: “Todo o que, de agora em diante, duvidar ou negar esta doutrina, terá se afastado completamente da fé católica”. 32

Esses dois decretos possuem dois pontos comuns. Primeiro, foram revelados à revelia da Escritura, como parte da “tradição” — revelações extrabíblicas. Segundo, os fiéis da Igreja Católica são admoestados a crer neles sem questioná-los, sob a ameaça de excomunhão.

Uma vez que a doutrina católica dá ocasião a revelações adicionais que têm autoridade igual à da Escritura, ela é capaz de produzir um erro após outro, ao conceber ensinos não encontrados na Palavra de Deus. Quando um grupo vai além da Escritura e permite a existência de outra fonte da verdade, as portas escancaram-se, e qualquer coisa pode passar por elas.

O catolicismo acrescentou muitas tradições às Escrituras, como penitências, o purgatório, a infalibilidade papal, as orações pelos mortos e todo o sistema de sacramentos. Nada disso tem o apoio na Bíblia; mas são todos afirmados pelos fiéis católicos como verdade divina revelada por meio da igreja.

Será que os carismáticos não têm estabelecido, de modo semelhante, tradições particulares? Por exemplo, em vários círculos carismáticos, “cair no Espírito” é uma expressão comum. Quem “cai no Espírito” é derrubado, sem os sentidos ou em transe, pelo toque de algum suposto transmissor do poder divino. A prática possui mais pontos comuns com o ocultismo do que com a Bíblia (ver Capítulo 7).

Conversei com um carismático que me disse: “Sim, é fundamental cair no Espírito. Na verdade, não se deve passar mais do que duas ou três semanas sem ele”. Um ex-carismático disse-me não existirem limites. Às vezes, torna-se uma competição para saber quem “cai” mais frequentemente.

Perguntei a um amigo carismático: por que você faz isso? Sua resposta foi: “Por que esta é a maneira como o poder de Deus vem sobre mim”. Que passagem bíblica afirma isso?, perguntei. Ele respondeu: “Bem, não há nenhuma passagem”.

Nenhuma passagem bíblica? Então, onde achamos autorização para essa prática? Na tradição pentecostal? A metodologia católica romana e a carismática andam de mãos dadas neste ponto.

 

 

NOTAS:

  1. Moran, Gabriel. Scripture and tradition. New York: Herder & Herder, 1963. p. 20.
  2. Tavard, George. Holy writ or holy church. New York: Harper, 1959. p. 8.
  3. Ibid. p. 164.
  4. Bettenson, Henry. (Ed.). Documents of the christian church. London: Oxford, 1963. p. 261. Ênfase acrescentada.
  5. McBrien, Richard P. Catholicism. Oak Grove. Minn: Winston, 1981. p.
  6. Boettner, Loraine. Roman catholicism. Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1962. p. 162.

 

 

Autor: John MacArthur

Trecho extraído do livro Caos Carismático, pág 94-98.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.