Pregação Expositiva: Sua Definição e Características

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Desejo oferecer uma definição mais formal da pregação expositiva como uma estrutura para consideração. A pregação expositiva é aquele tipo de pregação cristã que tem como seu propósito central a apresentação e a aplicação do texto da Bíblia. Todos os outros assuntos e interesses são subordinados à tarefa central de apresentar o texto bíblico. Como Palavra de Deus, o texto da Escritura tem o direito de estabelecer tanto o conteúdo como a estrutura do sermão. A exposição autêntica acontece quando o pregador apresenta o significado e a mensagem do texto bíblico e mostra com clareza como a Palavra de Deus estabelece a identidade e a cosmovisão da igreja como o povo de Deus.

Cada parte dessa definição é importante e nos ajuda a entender mais plenamente como seguir o exemplo de Esdras em explicar o texto da Escritura às nossas igrejas.

A pregação expositiva e a Palavra de Deus

Primeiramente, a pregação expositiva é aquele tipo de pregação cristã que tem como seu propósito central a apresentação e a aplicação do texto da Bíblia. Isso significa que a pregação expositiva começa com a determinação do pregador de apresentar e explicar o texto da Bíblia à sua congregação. Esse ponto de partida simples é um dos grandes assuntos de divisão na homilética contemporânea. Muitos pregadores — desde Harry Emerson Fosdick em diante — supõem que devem começar com um problema ou dificuldade humana e, depois, trabalhar no texto bíblico. Pelo contrário, a pregação expositiva começa com o texto e se desenvolve a partir do texto para aplicar sua verdade à vida dos crentes. Se essa determinação e esse compromisso não são claros no início, o resultado não será a pregação expositiva, e sim alguma outra coisa.

A pregação expositiva está, portanto, inescapavelmente ligada à obra de exegese séria. Se o pregador tem de explicar o texto, ele deve estudá-lo e dedicar horas de estudo e pesquisa necessárias ao entendimento do texto. O pastor tem de investir a maior parte de sua energia e engajamento intelectual (sem mencionar seu tempo) à tarefa de manejar “bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). Não há atalhos para a exposição genuína. O expositor não é um explorador que volta para contar histórias sobre a viagem, e sim um guia que leva as pessoas ao texto, ensinando as artes de interpretação e de estudo da Bíblia, enquanto as demonstra.

O pregador sobe ao púlpito para cumprir um propósito essencial — expor a mensagem e o significado do texto bíblico. Isso exige investigação histórica, discernimento literário e o emprego fiel da anologia fidei (“analogia da fé”), ou seja, interpretar a Escritura pela Escritura. Também exige que o expositor rejeite o conceito moderno de que o que o texto significava não é necessariamente o que ele significa. Se a Bíblia é verdadeiramente a eterna e permanente Palavra de Deus, ela significa o que significava, visto que é aplicada de novo em cada geração.

Em segundo, todos os outros assuntos e interesses são subordinados à tarefa central de apresentar o texto bíblico. Cada pregador se aproxima do texto e do evento da pregação tendo em mente inúmeros interesses e prioridades, muitos dos quais são, por si mesmos, inegavelmente legítimos e importantes. Por exemplo, um dos nossos alvos em pregar é evangelizar. Queremos ver pessoas sendo trazidas à fé em Cristo por meio da Palavra pregada. Outro motivo de nossa pregação é a edificação de nosso povo e seu encorajamento na fé. Entretanto, tudo isso acontece somente quando apresentamos e explicamos o próprio texto bíblico. Se um pregador sai do púlpito sem cumprir essa tarefa primária, seus ouvintes definharão, não importando o quanto a congregação apreciou o sermão ou sentiu-se comovida por ele.

Se a exposição genuína da Palavra de Deus tem de acontecer, qualquer outro interesse precisa ser subordinado à tarefa central e irredutível de explicar e apresentar o texto bíblico.

Em terceiro, o texto da Escritura tem o direito de estabelecer tanto o conteúdo como a estrutura do sermão. É nesse ponto que muitos pregadores se acharão pessoalmente desafiados em sua pregação. Visto que a Bíblia é a Palavra de Deus inerrante e infalível, a própria forma do texto bíblico também é divinamente determinado. Deus falou por meio dos autores humanos inspirados da Escritura; e cada gênero diferente de literatura bíblica — narrativa histórica, discurso direto e simbolismo apocalíptico, entre outros — demanda que o pregador dê atenção cuidadosa à estrutura do texto e permita que este dê forma ao seu sermão. Muitos pregadores vêm ao texto com uma forma de sermão em mente e um limitado conjunto de ferramentas em mãos. Para ser mais correto, a forma do sermão pode diferir de pregador a pregador e deve diferir de um texto a outro. Contudo, a exposição genuína exige que o texto estabeleça a forma e o conteúdo do sermão.

Em quarto, o pregador tem de mostrar com clareza como a Palavra de Deus estabelece a identidade e a cosmovisão da igreja como o povo de Deus. Quando o significado do texto é exposto, o pregador move-se à aplicação. Aplicar a verdade bíblica à vida da igreja é uma tarefa necessária da pregação expositiva. Mas a aplicação tem de seguir a tarefa diligente e disciplinada de explicar o próprio texto. T. H. L. Parker, comentando o método homilético de Calvino, descreveu assim a pregação: “A pregação expositiva consiste na explicação e na aplicação da passagem da Escritura. Sem explicação, a pregação não é expositiva; e, sem aplicação, não é pregação”.

A aplicação é absolutamente necessária, mas é também carregada de perigos. Haddon Robinson descreveu a “heresia da aplicação”, advertindo que muitos pregadores são fiéis na tarefa de exegese, mas destroem o texto na aplicação. No outro extremo, há os pregadores que nunca fazem qualquer aplicação, argumentando que isso é uma tentativa de fazer a obra do Espírito Santo. Com certeza, nenhum pregador jamais deve crer que pode ou deve manipular o coração humano. Entretanto, o pregador fiel entende a diferença entre a aplicação externa do texto à vida e a aplicação interna do Espírito, que aplica a Palavra ao coração. O pregador é responsável por expor as palavras eternas da Escritura. Somente o Espírito Santo pode aplicar essas palavras ao coração humano ou abrir os olhos espirituais para entenderem e receberem o texto.

Na pregação do texto bíblico, o pregador explica como a Bíblia dirige nosso pensamento e nosso viver. Isso coloca a tarefa de pregação expositiva em confronto direto com a cosmovisão pós-moderna e o simples fato da pecaminosidade humana. Não queremos ser ensinados a respeito de como pensar e como viver. Cada um de nós deseja ser o autor do script de sua vida, o senhor de seu próprio destino, o seu próprio juiz e legislador. Contudo, a Palavra de Deus tem uma reivindicação única e privilegiada sobre a igreja como corpo de Cristo. Cada texto bíblico exige um realinhamento fundamental de nossa cosmovisão básica e nossa maneira de viver. O texto bíblico, como Palavra de Deus, tem o direito de estabelecer nossa identidade como povo de Deus e determinar nossa cosmovisão. A Bíblia nos diz quem somos, nos coloca sob o senhorio de Jesus Cristo e estabelece uma cosmovisão formada pela glória e soberania de Deus. Em palavras simples, a Bíblia determina a realidade para a igreja e estipula para os redimidos uma cosmovisão centrada em Deus. Assim, a igreja está sempre levantando uma contra-revolução ao espírito da época; e pregar é o meio ordenado por Deus pelo qual os santos são armados e equipados para essa batalha e confrontação.

Além disso, a pregação expositiva exige o ouvir do povo de Deus e coloca todos os ouvintes diante de uma decisão. Como explica John MacArthur: “Creio que o alvo da pregação é compelir as pessoas a tomarem uma decisão. Quero que as pessoas me ouçam para entenderem exatamente o que a Palavra de Deus exige delas, quando eu termino. Elas devem dizer: ‘Sim, eu farei o que Deus está dizendo’ ou: ‘Não, não farei o que Deus está dizendo’”. Todo sermão apresenta ao ouvinte uma decisão compulsória. Obedeceremos ou desobedeceremos à Palavra de Deus. A autoridade soberana de Deus opera por meio da pregação de sua Palavra para exigir obediência de seu povo.

A Palavra pregada, aplicada ao coração pelo Espírito Santo, é o instrumento essencial por meio do qual Deus molda o seu povo. Como nos recordam os reformadores, é por meio da pregação que Cristo está presente entre seu povo.

 

 

Autor: Albert Mohler Jr.

Trecho extraído do livro Deus não está em Silêncio, capítulo 4. Editora: Fiel

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.