Os Gemidos Inexprimíveis do Espírito

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E da mesma forma o Espírito também nos auxilia em nossa fraqueza, pois não sabemos pelo que orar, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a intenção do Espírito, que ele está intercedendo pelos santos em harmonia com a vontade de Deus (Romanos 8.26-27). 

Havendo discutido o gemido da criação (vv. 19-22) e dos filhos de Deus (vv. 23- 25), Paulo agora introduz os gemidos do Espírito (vv. 26, 27). Ele nos apresenta algo acerca de sua (a) necessidade, seu (b) Autor e caráter, e sua (c) eficácia.

Sua necessidade

O apóstolo aponta para “nossa fraqueza”, limitação humana devida à pecaminosidade. Essa fraqueza consiste, pelo menos em parte, nisto: que “não sabemos pelo que devemos orar”. Não temos certeza se o conteúdo de nossa oração está em harmonia com a vontade de Deus (ver v. 27). Ao dizer “nós”, o apóstolo está incluindo a si próprio.

Pode parecer estranho que um homem da envergadura de Paulo faça tal admissão. Como foi possível que esse maravilhoso missionário, ardoroso amante das almas, autor divinamente inspirado, fizesse tal afirmação? Com a exceção das orações de Jesus Cristo, há algo no campo da oração mais solícito, mais fervoroso e mais sublime do que a oração do apóstolo registrada em Efésios 3.14-19?

É provável que a solução esteja nesta linha: Paulo certamente sabia qual deva ser o conteúdo geral da oração. Sabia que alguém deve orar pelo espírito de perdão, pela paz entre os membros da igreja, pelo aumento no conhecimento das coisas espirituais, pela prontidão em testificar de Cristo, pela coragem em meio à aflição e perseguição, pelo auxílio que se deve prestar a todos que se acham em necessidade, pela gratidão a

Deus; de fato, por todos os frutos do Espírito (ver Gl 5.22, 23). Mas pelo que orar em qualquer dificuldade ou situação particular nem sempre era claro.

Uma boa ilustração é o acidente registrado em 2 Coríntios 12.7, com referência a “o espinho na carne”. Exatamente o que esse espinho poderia ter sido ninguém sabe. O que sabemos é que para o apóstolo ele era muito importuno. Por isso ele orou: “Senhor, agrada-te em remover esse espinho”. Ele pronunciou essa oração três vezes. Tudo faz crer que ele era de opinião que a remoção do espinho o faria uma testemunha mais poderosa de Cristo. A resposta de Deus, porém, foi: “Minha graça lhe é suficiente, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” E veja também Filipenses 1.22-24.

Outra ilustração extraída da vida é como se segue: Um pastor, amado por seu povo, ficou gravemente enfermo. A congregação orou: “Senhor, agrada-te em restaurar- lhe a saúde.” Ele, porém, morreu. No funeral, um ministro que sempre fora amigo do falecido fez a seguinte observação à congregação enlutada: “É provável que alguns de vocês se vêem tentados a concluir que o Pai celestial não ouve a oração. Ele de fato ouve a oração. Neste caso particular, porém, duas orações provavelmente se puseram em oposição uma à outra. Vocês oraram: ‘Ó Deus, poupa-lhe a vida, porque necessitamos muitíssimo dele.’ A oração inexprimível do Espírito foi: ‘Leva-o, pois a congregação está dependendo demais dele, e não de ti.’ E o Pai ouviu a última oração.”

Caso surja a seguinte objeção: “Então, por que não permitir que o Espírito Santo ore por todos nós? Por que temos nós de orar?”, a resposta será: (a) um filho de Deus necessita e quer derramar seu coração diante de Deus em oração e ação de graças; (b) o Espírito Santo somente ora nos corações daqueles que oram; (c) Deus ordenou a seu povo que ore e prometeu conceder todos os pedidos que estão em harmonia com sua vontade; e (d) deve haver muitas orações que não precisam ser contrariadas pelo Espírito.

As palavras “o Espírito está nos ajudando em nossa fraqueza” não precisam ser interpretadas de forma demasiadamente estreita, como se significassem que o Espírito só nos ajuda a orar. Ele nos ajuda “em nossa fraqueza”, seja qual for a natureza seja tal fraqueza, inclusive nossa fraqueza em oração.

Seu Autor e Caráter1

Como o Espírito nos ajuda? Eis a resposta: “O próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.” O que tais palavras significam?

A interpretação mais óbvia, aquela que a pessoa não familiarizada com pressuposições doutrinais teria mais facilidade em adotar é certamente esta: que as palavras inexprimíveis são as do Espírito.

Não obstante, nem todos os intérpretes concordam com esta conclusão. A fim de provar sua alegação de que esses gemidos são os dos santos, e não os do Espírito Santo, apelam para Gálatas 4.6, onde o mesmo apóstolo afirma: “E porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho a seus corações, clamando: Abba! Pai!” Eis o raciocínio ulterior: “Ainda quando Paulo parece estar dizendo que o Espírito está clamando: Abba! Pai!, ele não pode ter isso em mente, porque Deus não pode ser o Pai do Espírito Santo. Portanto, a verdade é que o clamor não pode ser verbalizado pelo Espírito, e, sim, pelos filhos de Deus, embora seja através do Espírito. O mesmo deve ser o caso aqui em Romanos 8.26b: os gemidos, ainda que sejam atribuídos ao Espírito, que bem poderia ser seu Autor, na verdade eles procedem dos filhos de Deus. Eles é que gemem.”

Com o devido respeito para com os que assim arrazoam, devo, não obstante, discordar. O apelo a Gálatas 4.6 não é conclusivo. Note as seguintes e significativas diferenças, as quais ao mesmo tempo são razões para se crer que os gemidos são os do Espírito:

  1. Aqui em Romanos 26b Paulo não diz: “o Espírito intercede por nós.” Ele diz: “O próprio2 Espírito intercede por nós com gemidos” etc. Há, portanto, uma diferença real entre Gálatas 4.6 e Romanos 8.26b.
  2. A fim de tornar seu sentido ainda mais sem ambiguidade, o apóstolo continua dizendo no versículo 27: “E aquele que sonda os corações sabe qual é a intenção do Espírito.” Não a intenção dos crentes, mas a do Espírito. Exegeticamente, pois, sou forçado a concordar com aqueles que dizem que os gemidos a que se faz referência aqui no versículo 26 são os do Espírito.

A razão real por que certos intérpretes eminentes recusam atribuir esses gemidos ao Espírito é antes teológica do que exegética? Não querem atribuir a qualquer uma das três pessoas da Santa Trindade qualidades que parecem ser indignas delas. Às vezes essa razão é expressa com excesso de palavras.3 E ainda que eu não concorde com sua exegese de Romanos 8.26, particularmente com sua indisposição em atribuir ao Espírito esses gemidos, os honro por seu desejo de permanecerem doutrinalmente íntegros, especialmente num dia e época quando tal integridade é por muitos ridicularizada. A exatidão exegética, porém, é tão importante quanto a pureza doutrinal. Ambas são necessárias.

Às razões apresentadas para crer-se que os gemidos do versículo 26 são os do Espírito, devem-se acrescentar as seguintes:

  1. Visto que no versículo 23 Paulo já discutira os gemidos dos santos, é difícil de se crer que ele voltaria a este tema no versículo Além do mais, as palavras que introduzem o versículo 26, ou seja, “E da mesma forma”, implicam uma comparação; mais provavelmente entre, por um lado, os gemidos da criação e dos crentes (respectivamente, vv. 19-22; vv. 23, 24); e, por outro lado, os gemidos do Espírito (vv. 26, 27).
  2. No versículo 26, esses gemidos são associados inseparavelmente com a intercessão do Espírito. Esta intercessão é mencionada novamente no versículo No versículo 34, o verbo que no versículo descreve a intercessão do Espírito é usado em conexão com a intercessão do Filho. Se, pois, o versículo 27 descreve a oração intercessória do próprio Cristo, por que a intercessão do versículo 27 não descreveria a intercessão do próprio Espírito, acompanhada de gemidos?4

Exatamente no quê esse gemido do Espírito Santo implique seria difícil definir. Porventura erramos quando afirmamos que ele significa pelo menos o seguinte: o Espírito ama os santos de forma tão gloriosa que anseia pelo grande dia em que, libertados de todo mancha de pecado, glorifiquem a Deus de eternidade em eternidade na perfeição de santidade e alegria? Ainda que seja difícil provar que as palavras: “que o Espírito que ele fez habitar em nós tem intensos ciúmes?” (Tg 4.5) são a melhor tradução do original, todavia podem derramar luz sobre o significado do gemido do Espírito. E porventura não nos deparamos com expressões altamente semelhantes por meio das quais recebemos um vislumbre do próprio coração de Deus? Veja, por exemplo, o seguinte:

Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Como fazer-te um Zeboim? Meu coração está comovido dentro de mim, Minhas paixões, à uma, se acendem. (Oseias 11.8)

Se por acaso alguém quiser, pode chamar a declaração: “O próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” “sublimemente antropomórfica”. Todavia, ela expressa uma verdade que dificilmente podemos negligenciar. Se o conhecimento humano retroceder à onisciência divina; e o poder humano, à onipotência divina, é difícil crer que a emoção humana não exprima absolutamente nada de Deus. Segundo a Escritura, Deus não é nenhum Buda, e o céu, nenhum Nirvana!

Romanos 8 ensina que os crentes possuem dois intercessores: o Espírito Santo e Cristo. Cristo efetua sua tarefa intercessória no céu (Rm 8.34; Hb 7.25; 1Jo 2.1); o Espírito Santo, na terra. A intercessão de Cristo se dá fora de nós; a do Espírito Santo, dentro de nós; ou seja, em nossos próprios corações (Jo 14.16, 17). Cristo ora para que os méritos de sua obra redentiva seja plenamente aplicada aos que nele confiam. O Espírito Santo ora para que as necessidades profundamente ocultas de nossos corações, necessidades essas que nós mesmos às vezes nem mesmo reconhecemos, sejam satisfeitas. A intercessão de Cristo pode ser comparada com a de um pai, o líder da família, em prol de todos os membros da família. A intercessão do Espírito Santo nos lembra, antes, a de uma mãe ajoelhada ao lado do berço de seu filhinho enfermo, e apresentando em sua oração as necessidades do filho diante do Pai celestial.5

Sua Eficácia

A intercessão do Espírito, acompanhada de gemidos, não é infrutífera. Não está ele constantemente sondando os corações humanos se são capazes de ler a intenção de seu próprio Espírito que habita esses corações? Não conhece ele o significado desses gemidos inexprimíveis do Espírito?

Reiteradamente, a Escritura testifica da veracidade da onisciência de Deus. Veja, por exemplo, as seguintes passagens:

“Porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, o Senhor, porém, o coração” (1Sm 16.7).
“Porque tu, só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens” (1Rs 8.39).
“Porque  o  Senhor  esquadrinha  todos  os  corações  e  penetra  todos  os  desígnios  do pensamento” (1Cr 28.9).
“Senhor,  tu  me  sondas  e  me  conheces.  Sabes  quando  me  assento  e  quando  me levanto…” (Sl 139.1, 2). Todo o Salmo testifica da onipresença e onisciência de Deus.
“O além e o abismo estão descobertos perante o Senhor; quanto mais os corações dos filhos dos homens” (Pv 15.11).
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração; eu provo os pensamentos” (Jr 17.9, 10).
“Tu, Senhor, que conheces o coração de todos” (At 1.24).
“Até que venha o Senhor, o qual não só trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações” (1Co 4.5).
“Não há criatura que não seja manifesta em sua presença; pelo contrário todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb 4.13).

Deus, porém, não só conhece tudo. O que se enfatiza é que ele sabe que o Espírito está intercedendo em harmonia com sua própria vontade (de Deus). O Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só e verdadeiro Deus? Qualquer conflito entre eles é, portanto, impossível.

Note ainda que o Espírito Santo é descrito como a interceder constantemente “pelos santos”, ou seja, por aquelas pessoas que têm sido separadas a fim de viverem para a glória do Deus Triúno como revelado em Cristo Jesus.

E já que existe perfeita harmonia entre as pessoas da Santa Trindade, de modo que a intercessão do Espírito, acompanhada de gemidos, coincide plenamente com a vontade do Pai, o resultado deve ser que essa intercessão é sempre eficaz. Nunca falha. Nenhum dos santos jamais se perderá. Todos alcançam, por fim, o céu.6

 

 

NOTAS:

1. As seguintes palavras gregas precisam de algum comentário: ὡσαύτως (hōsautōs), da mesma maneira; semelhantemente (Mt 20.5; 21.30, 36; 25.17; Mc 12.21; 14.31; Lc 13.5; 20.31; 22.20). Paulo a usa também em 1 Coríntios 11.25, e 6 vezes nas Pastorais, começando com 1 Timóteo 2.9. συναντιλαμβάνεται (synantilambanetai), ter. pes. s. pres. médio indicat. de συναντιλαμβάνομαι (sunantilambanomai), segurar juntamente com alguém, ajudar. Ver C.N.T. sobre Lucas 10.40, p. 603. προσευξώμεθα (proseuxōmetha)( prim. pes. pl. aor. médio subjuntivo deliberativo (depois de uma pergunta indireta) de προσεύχομαι (proseuchomai),  orar. ὑπερεντυγχάνει (hyperentynchanei), ter. pes. pl. pres. indicat. de ὑπερεντυγχάνω (huperentugchanó), basicamente: apossar-se de (ou encontrar) e falar ou agir em favor ou ὑπέρ (huper); interceder. στεναγμοῖς (stenagmois), dat. pl. de στεναγμός (stenagmos), gemer, suspirar. Cf. alemão stönen; holandês steunen (também stenen). ἀλαλήτοις (alalētois), masc. dat. pl. de ἀλάλητος(alalétos). Alguns interpretam isso no sentido de indizível, inexprimível, (gemidos e suspiros) “profundo demais para palavras” (Ridderbos, Lenski e outros); outros traduzem não expresso, não dito, sem palavra. Não podemos estar certos, embora o versículo 27 pareça favorecer a última interpretação. Os gemidos do Espírito não carecem de ser traduzidos em palavras reais, porque o Pai é capaz de discernir a intenção do Espírito mesmo quando não se ouvem palavras. Interpretado dessa maneira, porém, o pensamento principal dos versículos 26 e 27 permanece o mesmo.
2. αὐτò τò Πνεῦμα (auto to Pneuma).
3. Ver, por exemplo, Lenski, op. cit., p. 547.
4. Deve ficar bem claro que minha interpretação do versículo 26 (e também do v. 27) concorda com a de A. Kuyper, Het Wek van den Heiligen Geest, pp. 787, 788; traduzido para o inglês, p. 636.
5. Para uma representação similar, veja A. Kuyper (para referência, veja acima, nota de rodapé 238, p. …..); e R. C. Harder, em De Heilige Geest, editado por J. H. Bavinck, P. Prins, e G. Brillenburg Wurth, Kampen, 1949, p. 396.
6. Note, no versículo 27, ἐραυνῶν (eraunōn), particípio presente de ἐραυνᾷ (erauna), sondar; no Novo Testamento ocorrendo somente aqui e em João 5.39; 7.52; 1 Coríntios 2.10; 1 Pedro 1.11; e Apocalipse 2.23: “Eu sou aquele que sonda corações e mentes.” Por causa do contexto, ὅτι, no versículo 27, deve ser traduzido que, e não “porque.”

 

 

Autor: William Hendriksen

Trecho extraído do Comentário de Romanos do autorpág. 363-370. Editora: Cultura Cristã

Marcos Frade
Marcos Frade

Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.