Refinando a Cultura

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Primeiro, qualquer avaliação de uma cultura depende de um conjunto de valores — ao mesmo tempo que esse conjunto de valores é, por sua vez, moldado pela cultura por trás da avaliação. Isso é tão válido para o materialismo filosófico de alguns antropólogos culturais quanto é para o marxismo e para o cristianismo. Quanto mais ampla a coalizão de pessoas que concordam sobre algum assunto — por exemplo, que o Holocausto foi um mal colossal e de compreensão quase impossível — maior a avaliação por consenso.

Segundo, numa perspectiva cristã, tudo que não admite a centralidade total de Deus é um mal. E um desafio repulsivo contra Deus. Nesse sentido, da perspectiva cristã, toda posição cultural que não canta de forma jubilosa e obediente “Jesus é Senhor!” está debaixo da mesma acusação. Assim, todas as culturas do lado de cá da queda são más.

Mas, terceiro, em perspectiva igualmente cristã, em sua “graça comum”, Deus derrama sobre todas as pessoas e em todos os lugares um número incontável de coisas boas. Embora talvez não o reconheçam, as pessoas desfrutam as dádivas que ele lhes concede, e essas próprias dádivas são boas (Tg 1.17).

E, quarto, uma vez que a revelação cristã certamente insiste na existência de graus de castigo imposto por um Deus bom, temos de supor que algumas posições culturais são mais repreensíveis do que outras — seja intrinsecamente, seja devido à responsabilidade maior de pessoas privilegiadas, seja por algum outro motivo. Não precisamos recorrer às imagens de Dante de níveis cada vez mais baixos do inferno: o próprio Jesus insiste na realidade de graus relativos de castigo (e.g., Mt 11.20-24; Lc 12.47,48), o que pressupõe graus relativos do bem e do mal em culturas diferentes.

Quinto, no final de tudo, muitas das distinções entre os cinco padrões de Niebuhr giram em torno da avaliação que a pessoa faz sobre a malignidade de uma cultura. Em outras palavras, a diferenciação entre as possíveis posições de Cristo diante da cultura giram, pelo menos em parte, em torno da avaliação que alguém faz dos valores de cada cultura. Duvido que qualquer análise cuidadosa das possíveis relações entre Deus e cultura possa ignorar tais avaliações diferenciadas sobre o valor moral de uma cultura específica, por mais difíceis ou provisórias que essas avaliações tenham de ser.

Sexto, os seres humanos têm uma tendência terrível de perverter as coisas boas, todas as coisas boas. Consideremos um exemplo. A partir das reflexões estimulantes de George Steiner em seu livro After Babel [Depois de Babel],8 Henri Blocher questiona se a imposição de línguas em Babel foi algo bom ou ruim.9 Se essa imposição foi boa, então é de se presumir que a unidade de Língua antes de Babel foi algo bom — apesar disso, foi essa unidade que deu às pessoas condições de tentar a rebelião em massa simbolizada por Babel. Se aquela unidade era tão ruim, então a diversidade talvez seja ela mesma algo bom. No mínimo, muito embora a imposição da diversidade de línguas tenha sido uma repreensão e um freio, não está totalmente claro se a multiplicidade de línguas é em si mesma algo bom ou algo ruim. Foi bom porque interrompeu essa trama rebelde; foi ruim porque levou ao surgimento de grupos divididos (tribos? nações? raças?) que frequentemente eram inimigos uns dos outros. Em outras palavras, nós, seres humanos, tanto podemos perverter a unidade e transformá-la em rebelião como podemos perverter a diversidade e transformá-la em guerra.

Contudo, é impossível deixar de observar que, no dia de Pentecostes, Deus não deu o dom de uma única língua, como uma espécie de restauração da situação antes de Babel; pelo contrário, ele deu o dom de muitas línguas para que a mensagem única pudesse ser ouvida em todas as línguas relevantes, desse modo preservando a diversidade. Embora seja verdade que o livro de Apocalipse descreve muitas línguas como parte do contexto de rebelião contínua (e.g., 10.11), também descreve o grande exército dos redimidos constituído de toda tribo, povo, nação e língua (e.g., 5.9; 7.9). Não existe nenhum motivo para pensar que a unidade gloriosa de que desfrutaremos nos novos céus e na nova terra não abranja a realidade igualmente gloriosa de raça e nação e língua10 (Talvez ninguém fique ofendido se alguns de nós levarem mil anos para aprender mandarim!) Até então, continuamos com nossa capacidade de perverter a unidade e prostituir a diversidade, a mesma unidade e diversidade frequentemente apresentadas como coisas “boas”.11

Em resumo, na perspectiva cristã, é preciso dizer que, assim como acontece com todos os demais aspectos da criação, a cultura está sob o juízo de Deus.

Toda cultura está em contínua mudança. Mudanças podem ser provocadas por uma lista quase infinita de fatores: novos movimentos de imigração, acontecimentos internacionais, tendências econômicas, tendências educacionais, a popularidade de várias ideias políticas e econômicas, desdobramentos nos meios de comunicação, o entretenimento popular em suas várias expressões, se as pessoas daquela cultura vivem em tempo de paz ou em tempo de guerra, e muito mais. E inevitável que alguns grupos dentro da cultura mais ampla reajam de diferentes maneiras a tais mudanças. Alguns, por exemplo, podem ficar muito contentes com a chegada de novos imigrantes; outros podem se ressentir em alguns aspectos, mas estão muito interessados na mão de obra barata que representam; ainda outros, talvez levados pela xenofobia, atribuem aos recém-chegados todos os problemas surgidos. Novos padrões, novos relacionamentos e novos simbolismos passam a existir como resultado de respostas assim tão variadas, que são então passadas à geração seguinte.

A maneira como as pessoas dentro da cultura reagem aos novos imigrantes depende, então, de compromissos e ideologias complexos que diferem de um grupo para outro — compromissos e ideologias que funcionam como autoridades diferenciadoras nas mentes dos vários grupos que reagem de diferentes maneiras. É possível dizer coisas parecidas sobre como grupos diferentes respondem a todas as outras mudanças culturais.

Evidentemente, os cristãos, que fazem parte da cultura mais ampla, nunca são imunes a tais mudanças culturais. A maneira como levam em consideração as ênfases dominantes na cultura de que fazem parte e a maneira como levam em consideração as mudanças que ocorrem dentro da cultura serão em grande parte determinadas por seus compromissos e ideologias. Na medida em que esses compromissos e ideologias são substancialmente modelados pela Bíblia cristã, os “filtros”, os mecanismos de avaliação e as respostas dos cristãos diferirão em maior ou menor grau daqueles compromissos e ideologias que são substancialmente modelados, digamos, pelo Alcorão, ou pelo materialismo filosófico, ou pelo hedonismo.

Então, a diversidade de compromissos culturais dentro da cultura mais ampla francesa ou americana revela diferentes valores, diferentes ideias do que é bom, diferentes vozes de autoridade e, portanto, diferentes objetivos. É isso que torna possível falar de “Cristo e cultura”. Longe de deixar implícito que, na relação entre Cristo e cultura, os cristãos alinhados com Cristo transcendem de alguma maneira a cultura ou são perfeitamente uniformes em suas ideias, a fórmula “Cristo e cultura” é apenas uma maneira fácil de sumariar as possíveis relações entre cristãos e não cristãos, não no nível pessoal nem no nível estreitamente ideológico, mas no nível abrangente de “cultura” conforme desenvolvido nesta obra.

É claro que também se vê uma diversidade semelhante entre as ideias calvinistas de cultura. Por exemplo, é possível pensar nas acentuadas diferenças entre Abraham Kuyper e Klaas Schilder. Mas a ideia comum ao pensamento de todos esses pensadores é que o senhorio de Cristo sobre toda a cultura exige que os cristãos, muito embora se dediquem à evangelização e ao discipulado, têm de buscar com seriedade o estabelecimento das reivindicações de Cristo dentro da cultura mais ampla em que vivem, não mediante o afastamento e o estabelecimento de contra modelos, mas mediante o envolvimento e a transformação da cultura.

Ademais, a herança cristã de significados e valores gira em torno de um desvendamento que vem da parte de Deus e nos faz olhar de modo diferente para tudo.24 E por isso que examinar Cristo e cultura é uma tarefa que promete ser frutífera e reveladora: é reflexão sobre uma forma diferente de ver, sobre uma visão diferente, mesmo quando estamos olhando para a mesma coisa.

 

 

NOTAS:

  1. After Babel: Aspects of Language and Translation (Oxford: Oxford University Press, 1975), esp. p. 57 ss [publicado em português com o título Depois de Babel: questões de linguagem e tradução. Curitiba: Editora UFPR, 2006].
  2. Blocher apresentou esse exemplo em sua resposta formal por ocasião da conferência cm Vaux, à qual já me referi. Ver seu artigo “Disccrner au sein de la culturc”, p. 52.
  3. Alguns defendem que Sf 3.9 antecipa uma época quando todos falarão uma única língua. O mais provável é que antecipe uma época quando todos falarão apenas com pureza.
  4. “É claro que esse é o motivo pelo qual nas Escrituras a “unidade” não é invariavelmente boa; pode ser mero resultado de uma ou outra concessão condenável. Para um levantamento judicioso das variadas avaliações de unidade apresentadas na Bíblia, ver John Woodhouse, “When to Unite and When to Divide”, The Briefing 279 (dezembro de 2001): 13-17.
  5. Aqui lembramos as palavras de Günther Dehn em Man and Revelation (Londres: Hodder & Stoughton, 1936): “A teologia não é promovida pela cultura, mas pela crença na revelação de Deus como um acontecimento que está além de toda história humana, da qual as Escrituras dão testemunho e a qual é confirmada nas Confissões de nossa Igreja. Somente uma teologia que se apega inexoravelmente a essas pressuposições mais essenciais pode ajudar a construir uma Igreja que de fato permanece inabalável em meio a todos os ataques da mentalidade da época. E só tal Igreja será sal da terra e luz do mundo; qualquer outra igreja perecerá com o mundo” (p. 7-8). Alguém poderá implicar com o uso que Dehn faz de certos termos: por exemplo, para Dehn, nesse contexto a “cultura” é naturalista, mas ele não quer dizer que a revelação fundamental ocorreu fora de toda cultura humana ou sem a participação dela, ou seja, fora de toda experiência humana vivida — assim como com a expressão “além de toda história humana” ele não quer dizer que a revelação de Cristo não é histórica. É sua maneira de ressaltar a origem sobrenatural da revelação, e não uma negação do espaço de seu desvendamento.

 

 

Autor: D. A. Carson

Trecho extraído do livro Cristo e Cultura: Uma Releitura, pág 70-81. Editora: Vida Nova

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.