Evangelismo de Poder?

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O “Evangelismo de Poder” que apregoam não é evangelismo, de maneira alguma. A metodologia da Terceira Onda atenua seriamente a força do evangelho. Vários de seus proponentes são culpados de omissão ou de corrupção da mensagem de salvação.

Reconheço que essa é uma acusação séria, mas ela é corroborada por evidências abundantes. Os livros e os testemunhos da Terceira Onda estão repletos de histórias engraçadas de pessoas que supostamente se tornaram cristãs porque testemunharam algum milagre — e não porque ouviram a proclamação do evangelho.25 Talvez o evangelho foi proclamado, mas os testemunhos da Terceira Onda raramente o afirmam. Relatos como esses corrompem a importância da mensagem do evangelho e fazem-na parecer supérflua. Todo o movimento é marcado por essa tendência.

O livro Power Evangelism (Evangelismo de Poder), escrito por Wimber é o principal livro-texto sobre evangelismo para o movimento, não apresenta nenhuma referência à cruz de Cristo ou à doutrina da expiação. Criticado por essa deficiência, Wimber publicou um novo livro que dedica treze páginas (das mais de duzentas) à cruz, à morte de Cristo, à justificação, à regeneração e a assuntos relacionados.26 Entretanto, a soteriologia (doutrina da salvação) e a mensagem precisa do evangelho dificilmente podem ser considerados as principais forças impelidoras do movimento, a despeito de toda a sua forte ênfase sobre a maneira correta de evangelizar. Com toda a discussão sobre sinais e maravilhas, o conteúdo da mensagem do evangelho não é uma preocupação da Terceira Onda.

Mark Thompson registrou suas impressões sobre o encontro evangelístico da conferência em Sydney:

O grupo afirmou sua preocupação com evangelismo. John Wimber, especialmente, esforçou-se para negar o desejo de afastar as pessoas desta tarefa. Além disso, eles não planejaram um “Encontro de cura e evangelização” no Sydney Showground para a noite de quinta-feira?

Entretanto, duas coisas minaram a preocupação anunciada. Em primeiro lugar, a cruz de Jesus recebeu apenas uma breve menção em todo o Encontro Geral e nos workshops dos quais participei, durante a conferência.

Em segundo (e isso é ainda mais grave), não houve menção do evangelho no suposto encontro evangelístico. A cruz de Jesus não era central; a expiação não foi explicada; a necessidade humana e a provisão divina de redenção nem ao menos foram curiosamente citadas. Crendo seguir o exemplo de Jesus e dos apóstolos, John Wimber chamou as pessoas necessitadas de cura — dores nas costas, perna mais curta do que a outra, dor no pescoço e uma série de outros males foram mencionados. Solicitava-se às pessoas que ficassem em pé para que os membros da equipe orassem por elas, enquanto JohnWimber, no palco, pedia a vinda do EspíritoSanto. Após alguns minutos de silêncio, ouviram-se vários gritos e pessoas chorando. Um pouco depois, o Sr. Wimber declarou que pessoas haviam sido curadas e que Deus lhes concedera isso como uma marca, um sinal para aqueles que não creram. Em resumo, foi-lhes solicitado que alicerçassem sua decisão naquilo que tinham visto ou na interpretação do Sr. Wimber a respeito do que viram. O sacrifício de Cristo em favor do mundo não recebeu a menor atenção.

Fiquei questionando a que tipo de fé pessoas foram convertidas naquela noite. Com exceção do nome, nada mais se parecia com o cristianismo do Novo Testamento.27

A própria estratégia evangelística da Terceira Onda arruína a mensagem do evangelho. A ênfase sempre recai sobre sinais e maravilhas, e não sobre a pregação da Palavra de Deus. Essa é a razão por que Peter Wagner se admira dos incríveis resultados obtidos pelo Omar Cabrera, evangelista argentino: “É comum pessoas serem salvas e curadas nas reuniões de Cabrera, antes mesmo que ele comece a pregar”.28 Como alguém pode ser salvo antes de ouvir o evangelho? Wagner não tentou explicar o que disse.

Alguns proponentes da Terceira Onda dão a impressão de que os milagres são mais eficazes que a mensagem do evangelho para produzir a resposta da fé no coração humano. Wagner, por exemplo, escreveu:

O cristianismo… começou com 120 pessoas, em um cenáculo, por volta do ano 33 d.C. Cerca de três séculos mais tarde tornou-se a religião predominante no Império Romano.

Como isso aconteceu?

… A resposta é ilusoriamente simples. Enquanto o cristianismo era apresentado aos incrédulos tanto em palavra como em ações, as ações excediam em muito a palavra nos esforços evangelísticos.29

Mais adiante, Wagner cita o anglicano Michael Harper: “Os milagres ajudam as pessoas a crer”.30

Portanto, eis a ideia chave do “evangelismo de poder”: os milagres estimulam a fé. E não somente isso. Nesse sentido, os milagres são mais eficazes do que a pregação. Wimber acredita que aqueles que pregam apenas a mensagem do evangelho não realizam o verdadeiro evangelismo. Ele zomba do “evangelismo programático”.31 Em vez disso, ele diz, necessita-se do “evangelismo de poder”:

Com a expressão “evangelismo de poder”, refiro-me à apresentação do evangelho de forma racional e supra-racional. A explicação do evangelho é acompanhada por demonstração do poder divino mediante sinais e maravilhas. O evangelismo de poder é uma apresentação do evangelho espontânea, inspirada pelo Espírito e dotada de poder. O evangelismo de poder é um evangelismo precedido e fortalecido por demonstrações sobrenaturais da presença de Deus.

Por meio desses encontros sobrenaturais, as pessoas experimentam a presença e o poder de Deus. De modo geral, isso acontece na forma de palavras de conhecimento… curas, profecias e libertações de espíritos malignos. No evangelismo de poder, a resistência ao evangelho é vencida pela demonstração do poder de Deus, mediante acontecimentos sobrenaturais; e, frequentemente, há elevada receptividade das afirmações de Cristo.32

Nessa filosofia escondem-se duas falácias, que a tornam completamente ineficaz em ganhar pessoas para a fé genuína em Cristo. Primeira: quando os milagres tornam-se o alicerce de um convite evangelístico, a verdadeira mensagem do evangelho — a expiação de nossos pecados realizada por Cristo e seu direito de ser Senhor de nossa existência (Rm 14.9) — transforma-se em uma questão secundária. O Jesus histórico e bíblico é deixado de lado e substituído por uma versão mística e etérea. Sinais e maravilhas, e não mais o próprio Salvador, passam a constituir o foco da fé.

Aqueles que colocam sua confiança nos milagres modernos não são salvos por essa fé, não importando quão sinceramente invoquem o nome de Cristo. O objeto da fé salvadora e genuína é o Senhor Jesus Cristo, e não os milagres realizados por alguém. Gálatas 2.16 confirma isso: “Sabendo… que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (ênfase acrescentada). Nenhum evangelista pode convidar, com legitimidade, qualquer pessoa à fé em Cristo sem esclarecer as questões bíblicas e históricas mais básicas do evangelho, às quais Paulo designou de importância primordial: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co 15.3-4). Paulo tinha como meta pregar a “Cristo crucificado” (1 Co 1.23). Esse deve ser o foco de qualquer proclamação do evangelho. A mensagem que exclui esse foco não pode ser considerada evangelística.

Segunda: o “evangelismo de poder” é evidentemente antibíblico. Como já observamos: “A fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). O evangelho é “o poder de Deus para a salvação” (Rm 1.16), e não os sinais e as maravilhas. Jesus disse que, se alguém rejeita a Escritura, jamais crerá, ainda que testemunhe uma ressurreição: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16.31).

A despeito dos muitos sinais e maravilhas realizados, Jesus não praticou o “evangelismo de poder”. Repetidas vezes, Ele repreendeu pessoas que exigiam sinais (Mt 12.38, 39; 16.1-4; Mc 8.11-12; Lc 11.16, 29; 23.8-9; Jo 4.48). A ênfase do ministério de Jesus era a pregação, e não os milagres. Frequentemente, Ele pregava sem realizar sinais e maravilhas (Mt 13.1-52; 18.1-35; Jo 7.14-44).

Em Marcos 1.29-44, há o registro de que Jesus realizou muitas curas miraculosas na Galiléia. O versículo 37 nos diz que Pedro e os outros encontraram a Jesus no dia seguinte e disseram com entusiasmo: “Todos te buscam”. Eles desejavam que Jesus realizasse mais sinais e maravilhas. No entanto, Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim” (v. 38). Para Jesus, a pregação da Palavra era mais importante do que a realização de sinais e maravilhas. A Terceira Onda defende uma abordagem diferente, criando uma fachada de experiências sobrenaturais sem o fundamento de um convite ao arrependimento. Isso não é evangelismo bíblico.

 

 

NOTAS:

  1. Ver, por exemplo, Wimber, John. Power evangelism. San Frasncisco: Harper & Row, 1986. p. 18-19. Ver, também, o incrível encontro “evangelístico” de Wimber com um homem e sua mulher em um avião (p. 32-34). Wimber diz ter visto a palavra adultério escrita na testa do homem; portanto, ele o confrontou a respeito desse pecado. Supostamente, o homem arrependeu-se e até levou a mulher a Cristo, apesar de Wimber não informar que compartilhou o evangelho com o casal.
  2. Wimber, John. Power points. San Francisco: Harper, 1991. p. 103-116.
  3. Thompson, Mark. Spiritual Warfare: what happens when i contradict myself. The Briefing, v. 45. p. 12, April 1990. Ênfase acrescentada.
  4. Wagner, C. Peter. The third wave of the Holy Spirit. Ann Arbor: Vine, 1988. p. 99. 29 Ibid. p. 29.
  5. Ibid. p. 92. Ênfase no original.
  6. Wimber, John. Power evangelism. San Francisco: Harper & Row, 1986. p. 45.
  7. Ibid. p. 35.

 

 

Autor: John MacArthur

Trecho extraído do livro Caos carismático, pág 178-182. Editora: Fiel

 

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.