A Homossexualidade na Perspectiva Teológica: Respondendo ao desafio

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Como os evangélicos responderão ao desafio do movimento homossexual? E como a igreja evangélica reagirá para com aquelas pessoas que lutam com a homossexualidade? Essas são questões críticas que, uma vez respondidas, indicam a direção mais ampla do movimento evangélico.

Primeiramente, os evangélicos têm de estabelecer seu entendimento da homossexualidade com base nas Escrituras e confiar nas afirmações absolutas da autoridade bíblica. A Bíblia não é ambígua quanto ao assunto da homossexualidade, e somente um repúdio da verdade bíblica pode permitir que os evangélicos se unam aos revisionistas morais. Nossa única autoridade para abordarmos esse assunto é a autoridade de Deus revelada nas Escrituras Sagradas. Podemos falar somente porque confiamos que o único Deus e Senhor soberano revelou- se a Si mesmo e a sua vontade nas Escrituras inerrantes que possuem autoridade plena.

Com base nessa revelação, não podemos deixar de falar e confrontar o espírito desta época. Além disso, nós o fazemos na confiança de que a verdade cristã, na encarnação do Filho e na revelação de Deus na Escritura, é superior a qualquer outra base de autoridade. Os cristãos não devem se esquivar nem suscitar objeções insignificantes em face do secularismo e suas manifestações ideológicas. Temos de desconstruir os desconstrucionistas, voltar sobre os revisionistas a hermenêutica de suspeita e dar um testemunho puro do evangelho e da cosmovisão cristã. Portanto, falamos sobre a homossexualidade porque temos como base a verdade revelada por Deus. Nossas próprias ideias e conceitos sobre a homossexualidade não possuem autoridade. Nosso dever é entender a mente e a intenção de Deus.

Nesta altura, temos de mencionar outra tentação evangélica. Um número crescente de evangélicos está mudando o debate sobre a homossexualidade por tentarem fundamentar seus argumentos na lei natural. O motivo deles é claro. A suposição é que o raciocínio da lei natural terá uma influência maior e mais ampla do que os argumentos baseados na revelação divina. O problema tem de ser admitido. Explicitamente, os argumentos teológicos são declarados fora dos limites do discurso político e cultural. A cultura predominante dos meios de comunicação e os processos legislativos parecem impenetráveis ao discurso moral alicerçado na cosmovisão cristã. Talvez, conforme alguns argumentam, a lei natural ofereça um caminho intermediário, uma via media entre o secularismo e o ateísmo.

É claro que os evangélicos têm de afirmar tanto a revelação geral como a existência da lei natural. Deus se revela a Si mesmo de maneiras inteligíveis por meio da ordem criada e da consciência humana. No entanto, conforme Paulo deixou bem claro em Romanos 1, o conhecimento transmitido por essa revelação natural autêntica é sufi ciente para condenar, mas não para salvar. O cristianismo fundamenta sua afirmação sobre a revelação especial, tanto por meio das Escrituras Sagradas como do Filho encarnado, Jesus Cristo. A ordem moral que Deus implantou em sua criação é tangível, evidente e inegável. Contudo, na sociedade contemporânea, assim como no discurso de Paulo em Romanos, os seres humanos rejeitam esse conhecimento e sofrem as consequências.

Minha advertência quanto a esse assunto tem dois aspectos. Primeiro, reverter à argumentação da lei natural significa afastar- se do sublime fundamento da afirmação da verdade cristã. A fim de satisfazer as exigências seculares, a igreja muda seu argumento do incontestável alicerce da Escritura Sagrada para o contestado alicerce da natureza e do cosmos.

Isso é o que, em outro contexto, F. A. Hayek chamou de “presunção fatal”. Para esta rendição não há restauração. Embora os evangélicos e os católicos romanos conservadores sejam aliados nessa batalha cultural, não é possível aos evangélicos adotarem a argumentação da lei natural como base para a argumentação moral e permanecerem genuinamente evangélicos. A argumentação da lei natural pode prover um ponto de diálogo e servir como meio para introduzir a lei revelada, mas não pode subsistir como um método de argumentação e discurso moral e evangélico.

Para alguns, deixar de lado a revelação especial da lei positiva (comparada com a lei natural) talvez pareça justificável como um meio para atingir um grande fim. Uma vez que um consenso ou ponto de contato com a cultura secular seja estabelecido, alguns dizem, a discussão pode ser mudada para a lei positiva e a cosmovisão cristã. Isso suscita o alerta pragmático: essa estratégia não funciona.

As elites culturais e as gerações criadas nas consequências da revolução sexual não são comovidas pelos argumentos da lei natural, assim como não o são pelas afirmações claras do cristianismo. A argumentação da lei natural é tão bem-vinda no Congresso americano ou nos meios de comunicação como a recitação dos Dez Mandamentos. Além disso, não há um entendimento comum nas elites culturais quanto ao que a lei natural exige. Uma reflexão sobre as audiências do Congresso para a confirmação de Robert Bork e Clarence Thomas deve tornar essa realidade bastante evidente.

Os evangélicos não devem hesitar em ilustrar argumentos bíblicos com alusões à natureza e à ordem natural. No entanto, a ordem da argumentação ética é crucial: os evangélicos podem voltar à natureza, para usá-la como ilustração, depois de haverem fundamentado nas Escrituras o argumento moral. A tentação evangélica de recorrer à lei natural como um elemento de argumentação é, no máximo, uma tentativa de estabelecer um consenso moral em um contexto cultural difícil. Contudo, essa estratégia não será bem-sucedida. Na pior das análises, essa tentativa representa um repúdio do evangelho e uma abdicação da fé evangélica.

Temos de ministrar aos homossexuais com base na plena riqueza de convicção e conhecimento cristão. Os cristãos evangélicos têm falhado, com frequência, nessa tarefa. Temos falado negligentemente a respeito da homossexualidade e dito, às vezes, muito pouco e, às vezes, demais. Temos de deixar claro o fato de que sabemos que todos são pecadores – incluindo os que cometem pecados sexuais. Não há ninguém que esteja além da puberdade que não cometa pecados sexuais.

Também devemos aprender a falar honestamente com aqueles que lutam com atração por pessoas do mesmo sexo. Não podemos deixar de falar-lhes que escolheram esse tipo de tentação. Eles não creem nisso e, de fato, não escolheram essa tentação em si mesma. Apesar disso, eles – e nós – são plenamente responsáveis pela disposição de alimentar a tentação e desfrutá-la. Também somos responsáveis pela tentação de racionalizar nosso pecado como algo diferente do que ele realmente é.

Em qualquer tipo de tentação sexual, a única maneira de resolvermos o problema é a redenção em Cristo. Nenhum ato da vontade, por mais forte que seja, pode resolver o problema do pecado ou oferecer livramento à prisão de nossas tentações. O único meio de livramento dessa situação é através da redenção que Cristo realizou. A única maneira de tratar o problema do pecado é confiar no poder transformador do evangelho e na renovação outorgada àquele que crê em Cristo. Mesmo depois de crer em Cristo, a luta contra a tentação sexual persistirá – mas não sem esperança e vitória.

Finalmente, nossa confiança tem de estar no Deus soberano, que é o Criador e Sustentador de tudo. Ele, somente Ele, tem a prerrogativa de definir e limitar a sexualidade. A sexualidade é um dos dons excelentes de Deus às suas criaturas, um dom que, em sua rebeldia, elas perverteram e degradaram. Os evangélicos têm de afirmar que Deus definiu a sexualidade e que o nosso dever é seguir as suas determinações. Isso significa que os cristãos evangélicos têm de sustentar, com grande eficiência, o modelo bíblico da sexualidade. Temos de afirmar sem embaraço a excelência desse modelo, dar graças por esse dom e seu deleite, reconhecer sem hesitação que Deus planejou que as relações sexuais são tanto para prazer como para procriação e jamais repudiar o ensino bíblico de que o sexo foi idealizado tão-somente para o contexto da união heterossexual comprometida e monogâmica. Esse modelo de inteireza sexual, vivenciado a cada dia nos milhões de famílias e casais, prestará um testemunho eloquente ao mundo – mesmo quando for ridicularizado.

Temos de aprender a abordar com franqueza, ternura e honestidade o assunto da homossexualidade e outros assuntos sexuais complicados. Esta não é a hora para a negação tímida. Falhar na tarefa de falar de maneira direta e clara sobre esse assunto significa deixar de falar sobre o que Deus revelou. Também temos de reconhecer que a graça comum é a única força inibidora que limita a extensão e o alcance da perversão sexual no mundo. Se não fosse a operação da graça comum, o mundo logo cairia nas trevas mais degradantes. Devemos ser gratos por essa graça.

O assunto da homossexualidade provê à igreja uma oportunidade singular para testemunhar sobre a graça particular e anunciar o evangelho como único meio de salvação e a Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador. A salvação e o arrependimento têm de ser pregados aos homossexuais – bem como aos heterossexuais. Fora do Éden, nenhum de nós é sexualmente puro e santo diante de Deus, ainda que não tenhamos cometido um ato sexual ilícito. Nosso ministério aos homossexuais não é o ministério de pessoas impecáveis dirigindo-se a pecadores, e sim o de amigos pecadores que dão testemunho da realidade da salvação pela fé em Jesus Cristo.

O evangelho sempre se manifesta com juízo e com graça. Todavia, a última palavra sempre tem de ser graça. Nosso dever é falar a verdade sobre a homossexualidade e chamá-la pelo nome que as Escrituras lhe atribuem. Mas nossa responsabilidade não termina nesse ponto, pois nossa próxima tarefa consiste em anunciar a palavra da graça e apresentar o evangelho da salvação pela fé em Cristo como nosso Substituto, cujo sangue nos comprou. Ao homossexual, bem como aos demais, temos de falar com amor, nunca com ódio. Contudo, nossa primeira tarefa de amor é dizer a verdade, e o sinal do verdadeiro ódio é contar uma mentira. Aqueles que amam genuinamente os homossexuais não são os que revolucionam a moralidade para satisfazer os desejos deles, e sim aqueles que lhes contam a verdade e lhes mostram Aquele que é o caminho, a verdade e a vida (ver João 14.6).

 

 

Autor: Albert Mohler Jr.

Trecho extraído do livro Desejo e Engano, pág 69-75. Editora: Fiel

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.