A Homossexualidade na Perspectiva Teológica: Uma cosmovisão bíblica

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Poucos conceitos modernos têm sido tão influentes como o conceito psicológico da orientação sexual. Esta ideia está agora firmemente enraizada na consciência popular, e muitos consideram-na totalmente fundamentada em pesquisa científica confiável. O conceito de orientação sexual foi uma intenção bem-sucedida ao redefinir o debate sobre a homossexualidade, movendo-o dos atos sexuais com pessoas do mesmo sexo para a identidade sexual – ou seja, do que os homossexuais fazem para o que eles realmente são.

No entanto, esse conceito é um desenvolvimento recente. De fato, na década passada, o conceito mais comum empregado pelo movimento homossexual era preferência sexual. A razão para a mudança é evidente. O uso do temo preferência implicava uma escolha voluntária. A classificação clínica de orientação era mais útil nos debates públicos.

A própria noção de homossexualismo como uma categoria de pessoas constituídas de identidade sexual é uma invenção recente. Os revisionistas bíblicos citados no capítulo anterior estavam certos quando afirmaram que o apóstolo Paulo não sabia nada a respeito de classificação da orientação sexual. Esse conceito está arraigado nos esforços do final do século XIX para aplicar uma classificação psicológica ao comportamento sexual. Como escreveu Marjorie Rosenberg: “Desde a antiguidade até provavelmente um século atrás, admitia-se que a escolha governava o comportamento sexual. Mas no final do século XIX, tendo a florescente ciência médica como uma espécie de parteira, nasceu um novo tipo de criatura – ‘o homossexual’ – e toda a sua identidade se baseava em sua preferência sexual”.

O argumento era que os homossexuais existem como uma classe ou categoria especial – um “terceiro sexo”, juntamente com os homens e as mulheres heterossexuais. Como observou Maggie Gallagher: “Nem sempre fomos tão deploravelmente dependentes do próprio ato sexual. Dois séculos atrás não existia a homossexualidade. Havia a sodomia, é claro, a fornicação, o adultério e outros pecados sexuais, mas nenhum desses atos proibidos alteravam fundamentalmente o panorama sexual. Um homem que praticava sodomia perdia a sua alma, mas não perdia o seu gênero. Não se tornava um homossexual, um terceiro sexo. Isso foi uma invenção da imaginação do século XIX”.

As noções de identidade sexual, posteriormente, de preferência sexual e, agora, de orientação sexual têm moldado amplamente o debate cultural. De fato, essa foi a cunha ideológica usada para forçar a Associação Americana de Psiquiatria a remover a homossexualidade do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders [Manual diagnóstico e estatístico de desordens mentais], em 1973. Assim, o conceito politicamente útil de orientação é um troféu para o “triunfo da terapêutica”; e tem visto argumentos psicológicos conquistarem a consciência popular.

Os evangélicos não devem permitir que essa categorização molde o debate. Não podemos permitir que pessoas sejam reduzidas a qualquer “orientação” sexual como a característica definidora de sua identidade. Se a ideia de orientação está fundamentada na realidade, qual é a sua causa? Destino biológico? Fatores genéticos? Influência dos pais? Fatores ambientais?

Nenhum dado científico preciso existe para provar qualquer desses fatores – ou uma combinação deles – como a fonte da orientação homossexual. É importante observar que a hipótese precedeu qualquer prova científica e, apesar disso, tem sido aceita quase como auto evidente. Os evangélicos têm de rejeitar essa categorização como um conceito terapêutico empregado para fins ideológicos e políticos.

Embora não seja necessário aos evangélicos resistirem a toda pesquisa científica, a ciência é frequentemente escravizada a agendas ideológicas, conforme é evidente em afirmações recentes de cientistas no sentido de haverem estabelecido uma base genética para a homossexualidade. Os evangélicos tendem a reagir exageradamente a essas notícias: alguns deles aceitam as afirmações com base na aparência, enquanto outros fogem amedrontados, como se a ciência pudesse, por meio da pesquisa genética, destruir a estrutura moral. Nenhuma dessas atitudes é apropriada. Os evangélicos devem olhar criticamente essas pesquisas e considerar, com atenção, suas afirmações não-provadas.

Temos de evitar a reação exagerada que transmite a ideia de que essas pesquisas – mesmo se ratificadas com a aprovação de todos – subvertem o mandamento de Deus. O entendimento cristão referente à moralidade sexual não se fundamenta em bases científicas e não está aberta à interrogação e à investigação científica. Os cientistas não conseguirão descobrir qualquer coisa que questione a autoridade dos mandamentos de Deus.

Uma base genética – provavelmente no extremo – não possuiria, ainda que objetivamente estabelecida, grande significado teológico. Um vínculo genético pode ser estabelecido para qualquer número de comportamentos e padrões de conduta, mas isso não diminui a importância moral desses atos nem a responsabilidade do indivíduo. Afinal de contas, vínculos genéticos têm sido afirmados para tudo, desde diabetes e alcoolismo até as preferências ao se assistir televisão.

Também temos de ser cuidadosos em afirmar que, embora rejeitemos o conceito de orientação sexual como uma categorização de identidade, não estamos negando existirem algumas pessoas que descobrem ser sexualmente atraídas por outras do mesmo sexo. Visto que nossa sexualidade é uma parte importante de nossa vida, somos naturalmente tentados a pensar que nosso perfil de atração sexual é central à nossa identidade. Mas a nossa identidade não se constitui apenas de sexualidade. Somos primeiramente seres humanos criados à imagem de Deus. Em segundo lugar, somos pecadores cujo estado de queda se demonstra em cada aspecto de nossa vida – incluindo a sexualidade.

Cada ser humano que atinge a puberdade tem de lidar com algum tipo de tentação sexual. Para alguns, o tipo de tentação é homossexual; para outros, é heterossexual. A questão mais importante em ambas as tentações é o que Deus ordena a respeito de nossa administração da sexualidade e do dom do sexo.

Os evangélicos têm de rejeitar o conceito terapêutico e, ao mesmo tempo, recomendar o modelo bíblico. Creio que a falta de um modelo de bíblico maduro para o entendimento da homossexualidade tem diminuído nossa habilidade de sustentar um argumento moral consistente em uma cultura antagônica.

Temos de continuar a dar testemunho fiel das exortações bíblicas claras a respeito de atos homossexuais, afirmando que esses atos são inerentemente pecaminosos e uma abominação diante do Senhor. Todavia, a abordagem evangélica tem de ser mais abrangente, porque a Bíblia é em si mesma mais abrangente em sua abordagem. As Escrituras não se reportam apenas aos atos homossexuais; elas transmitem o desígnio de Deus para toda a sexualidade humana e, assim, provêm um fundamento para compreendermos as implicações da homossexualidade para a família, a sociedade e a igreja.

Em primeiro, conforme Romanos 1 deixa absolutamente claro, a homossexualidade é um ato de incredulidade. Paulo afirmou que a ira de Deus se revela do céu contra todos “que detêm a verdade pela injustiça” (v.18). Deus capacitou toda a humanidade com o conhecimento do Criador, e todos são inescusáveis. Paulo disse mais: “Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém! Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro” (vv. 25-27).

O contexto mais amplo da rejeição de Paulo quanto à homossexualidade é claro: a homossexualidade é um sinal impressionante de rebelião contra a intenção soberana de Deus na criação e uma perversão grosseira do plano bom e perfeito de Deus para sua ordem criada. Aqueles para os quais Paulo escrevera haviam adorado a criatura ao invés do Criador. Por isso, homens e mulheres tinham abandonado a intenção de Deus de complementaridade natural para o casamento heterossexual, voltando-se a pessoas do mesmo sexo, com um desejo ardente que, em si mesmo, era degradante e desonroso. A progressão lógica de Romanos 1 é inegável. Paulo mudou imediatamente de uma descrição de rebelião contra Deus para uma identificação da homossexualidade – entre homens e mulheres —, como o primeiro e o mais evidente sinal de uma sociedade sobre a qual Deus volvera seu julgamento.

Para entendermos essa realidade numa perspectiva teológica é essencial o reconhecimento de que a homossexualidade é um ataque à integridade da criação e da intenção de Deus ao criar os seres humanos em dois gêneros distintos e complementares. Neste ponto, a igreja segue na direção contrária ao espírito desta época. Suscitar o assunto dos gêneros é ofender aqueles que desejam erradicar qualquer distinção de gênero, ao argumentarem que estes são apenas “realidades sociais construídas”, vestígios de um passado patriarcal.

As Escrituras não permitem essa tentativa de negar as estruturas da criação. Romanos 1 tem de ser entendido à luz de Gênesis 1 e 2. Como Gênesis 1.27 deixa evidente, Deus tencionou, desde o princípio, criar os seres humanos em dois gêneros – “homem e mulher os criou”. Ambos foram criados à imagem de Deus. Eles eram distintos, mas, inseparavelmente, ligados pelo desígnio de Deus. Os gêneros eram diferentes, e a distinção transcendia a mera diferença física, mas o homem reconheceu a mulher como “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.23).

A passagem não para na criação da mulher. Pelo contrário, a intenção criadora de Deus é revelada no unir o homem e a mulher. Esse laço entre homem e mulher era o casamento. Logo depois da criação do homem e da mulher, lemos estas palavras instrutivas: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam” (vv. 24-25). Esta afirmação bíblica, que nenhuma exegese revisionista pode desconstruir, coloca o casamento e as relações sexuais dentro do ato e desígnio criador de Deus.

Poucos teólogos têm dado a essa questão crítica a devida atenção. De fato, em toda a história da igreja, esse padrão foi visto como axiomático e inquestionável. Somente na época moderna, quando os experimentos sociais e os movimentos radicais de protesto procuraram desencadear uma rejeição em ampla escala deste padrão, a questão veio à luz. Interessantemente, foi Karl Barth quem abordou com mais seriedade esse padrão bíblico de complementaridade de gênero. Escrevendo em 1928, ele afirmou:

O que realmente sabemos sobre macho e fêmea, senão que o macho não poderia ser um homem sem a fêmea, nem a fêmea ser uma mulher sem o macho, que o macho não pode pertencer a si mesmo, sem pertencer à fêmea, e vice-versa?” Em outras palavras, macho e fêmea só têm significado quando relacionados um com o outro. Barth se referiu a Gênesis 2.25 e sugeriu que o homem e a mulher viram um ao outro sem roupas e não se envergonharam, “porque a masculinidade do macho e a feminilidade da fêmea se tornam um objeto de vergonha… somente quando o macho e a fêmea em sua masculinidade e feminilidade procuram pertencer a si mesmos e não um ao outro.

Horrivelmente confusos, os sexos se voltam para si mesmos, buscando um “ideal de masculinidade livre da mulher e de feminilidade livre do homem”, afirmou Barth. Esse falso ideal, que é uma rejeição do Criador e de sua ordem, culmina no “desejo emocional corrupto e, finalmente, físico em que – numa união que não é nem pode ser genuína – o homem acha que tem de buscar e pode achar num homem, e a mulher, numa mulher, um substituto para o companheiro desprezado”.

Barth, escrevendo nas primeiras décadas do século XX, viu o surgimento do desafio. Sua resposta permanece profética, mas não foi concluída. Carl F. H. Henry, talvez o personagem mais importante no desenvolvimento de uma teologia evangélica na segunda metade do século passado, rejeitou corretamente a teorização extrabíblica e “exegese fantasiosa” de Barth acerca da relação entre as questões sexuais e a imagem de Deus. Apesar disso, Henry concordava com Barth neste ponto essencial: “A pluralidade da existência humana não é opcional; o homem não pode ser apropriadamente homem sem se falar sobre macho e fêmea”.

A revolta contra essa ordem estabelecida por Deus é um dos mais importantes desenvolvimentos do século XX e se revela como uma das questões mais definidoras da revolução cultural. Os evangélicos têm de expor esse ataque contra a criação, fazendo isso de um modo que esteja inextricavelmente unido a fundamentos bíblicos e não a pressuposições culturais, embora essas pareçam bastante satisfatórias à sociedade secular.

 

 

 

Autor: Albert Mohler Jr.

Trecho extraído do livro Desejo e Engano, pág 61-68. Editora: Fiel

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.