Quem são os “filhos de Deus” em Gênesis 6.1-4?

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Esta problemática expressão tem sido definida como setitas, anjos ou uma dinastia de tiranos que sucederam a Lameque.18 As três interpretações podem ser defendidas à luz da gramática hebraica.19 A interpretação cristã tradicional, desde o terceiro século, endossada por Lutero e Calvino, entendeu os filhos de Deus e as filhas dos homens como sendo os filhos de Sete e as filhas de Caim, e o pecado em decorrência da mescla das duas sementes contaminou a linhagem.20 Superficialmente, isto se ajusta melhor ao contexto imediato que contrasta a maldita sobrecarga de Caim com a linhagem santa de Sete, porém deve ser rejeitado por razões filológicas. Gênesis 6.1 lê: “Quando os homens [ha adam] começaram a aumentar … e as filhas [Banot] lhes deram à luz.” Ha adam é genérico para humanidade, e Banot se refere a toda sua descendência feminina. É arbitrário (isto é, o volume de prova descansa sobre a exegese para provar uma gama de significado), no próximo versículo, limitar Adam aos setitas e Banot aos cainitas. Além disso, “filhas,” neste contexto, se refere a Sete, pois em sua linhagem a geração de filhas é repetida nove vezes (5.4, 7, passim), e o narrador nunca menciona filhas na linhagem de Caim.

O conceito de que os anjos tinham relações sexuais com os mortais é extremamente antigo. Essa interpretação foi mantida na literatura apocalíptica, no judaísmo rabínico e pelos pais da igreja primitiva.21 Esta interpretação provavelmente aponte para 1 Pedro 3.19, 20 e Judas 6, 7.22 Esta interpretação, contudo, não se ajusta ao contexto do dilúvio, visto que o juízo do dilúvio é contra a humanidade (Gn 6.3-5) e não contra a esfera celestial. Deus especificamente rotula os ofensores em 6.3 de “carne” (basar “mortal” na NVI). Essa interpretação também contradiz a afirmação de Jesus de que os anjos não se casam (Mt 22.30; Mc 12.25). Uma coisa é anjos comerem e beberem (ver Gn 19.1-3); outra bem diferente é se casarem e se reproduzirem.

A interpretação que vê esta designação como uma referência aos sucessores monárquicos tiranos de Lameque acha endosso histórico numa antiga interpretação judaica de que os “filhos de Deus” eram nobres, aristocratas e príncipes que se casavam com jovens fora de sua posição social e tomavam grande número delas para seus haréns.23 M. Kline abalou a muitos quando modificou “filhos de Deus” para significar reis “divinos”.24 Em sua visão, esses tiranos, uma continuação da linhagem maldita de Caim, eram apoiados na administração da justiça, porém, em vez disso, reivindicavam divindade para si, violaram a ordem divina por formarem haréns régios e perverteram seu mandato de governar a terra em sujeição a Deus. Sua descendência, nota ainda, se constituía dos heróis nefilins (nepilim, gibborim, 6.4), “evidentemente caracterizados pela força física e dominação político-militar” (ver Gn 10.8-10).25 Esta interpretação explica melhor “escolheram para si” (6.2).

Por exemplo, faraó levava para o leito a quem queria (12.10-20), e assim fez Davi (1Sm 11). Também se ajusta ao contexto imediato do dilúvio, o tema do Gênesis, e conecta a referência aos nefilins e heróis em 6.4 a 6.1-3. Entretanto, o significado “governantes divinos” é algo questionável, enquanto que “anjos” fica bem estabelecido. Além disso, a interpretação de Kline é recente e parece prejudicar a interpretação de 1 Pedro 3.19 e Judas 6 e 7. A melhor solução é combinar a interpretação “angélica” com o conceito “rei divino”. Os tiranos eram possessos de demônios. Gispen assevera: “O texto nos apresenta homens que são controlados pelos anjos apóstatas.”26 Suas almas pervertidas permitiam esse acesso de demônios. Eichrodt assevera: “O poder de Deus opera no âmbito do mal que tenha começado pela perversão da vontade da criatura.”27

Os nefilins eram também chamados “heróis”. Estes constituem a descendência dos tiranos demoníacos que enchem a terra com violência (ver 6.11; Nm 13.33). A raiz hebraica (napal) significa “cair”, e pode sugerir seu destino (ver Ez 32.20-28). Deus não permitirá que algum tirano oprima e aterrorize a terra para sempre. Esses heróis podem prover a base histórica por trás dos relatos de heróis semidivinos, tais como Gilgamesh, da mitologia. Em vez de a Bíblia representar mito como história, como comumente se alega, talvez os antigos transformassem história em mito.

 

 

NOTAS:

  1. Embora muitos acadêmicos considerem esta história como mito ou mito “demitologizado”, descarto esse conceito porque o narrador inspirado a considerou como sendo história.
  2. Os seres humanos são chamados “filhos de Deus” em Oseias 1.10; seres angélico/celestiais, em Jó 1.6; e reis divinos, em 2 Samuel 7.14; Salmo 2.7; 82.6. Os anjos são chamados “filhos de Deus” pela razão de pertencerem ao mundo de eloim, embora não em um sentido mitológico, físico ou genealógico.
  3. Calvino, Genesis, 10.
  4. Cf. 1 Enoque 6.1-7; Testamento de Ruben 5.6; Jubileus; Fragmento Zadoquita; provavelmente 2 Pedro 2.4; Judas 6, 7 (“os anjos que não guardaram suas posições de autoridade” mostra forte influência da literatura apocalíptica).
  5. W. A. VanGemeren, “The Sons of God in Genesis 6.1-4”, WTJ 43 (1981): 345, 46. Judas compara os anjos apóstatas como caracterizados por insolência impudica à imoralidade e perversões sexuais de Sodoma e Gomorra.
  6. U. Cassuto, “The Episode of the Sons of God and the Daughters of Man”, in Biblical and Oriental Studies, vol. 1, trad. I. Abrahams (Jerusalém: Magnes, 1973), 18.
  7. M. G. Kline, “Divine Kingship and Sons of God in Genesis 6.1-4”, WTJ 24 (1962): 187-204.
  8. Kline, Kingdom, 115.
  9. W. H. Gispen, Genesis I: Kommentaar op het Oude Testament (Kampen: J. H. Kok), 221, citado favoravelmente por VanGemeren, “The Sons”, 348. Minhas investigações independentes me levaram à mesma conclusão.
  10. Eichrodt, Theology, 2.179. 

     

     

 

Autor: Bruce Waltke

Trecho extraído do Comentário de Gênesis, pág 139-142. Editora: Cultura Cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.